Igreja

SE É CONVENIENTE AO COMBATER O ERRO COMBATER E DESAUTORIZAR A PERSONALIDADE DO QUE O SUSTENTA E PROPALA
Dom Felix Sardá y Salvani
 

A Montfort, seguindo o estilo de seu fundador o Professor Orlando Fedeli, tem como uma das suas principais características a polêmica.

Alguns daqueles que acompanham nosso trabalho, acabam por julgar que deveríamos nos limitar a combater o erro e não aquele que erra, afirmando que ao combater aquele que erra estaríamos incorrendo em falta de caridade.

Recebemos de um grande amigo nosso um pequeno trecho do Livro “O Liberalismo é Pecado”, de D. Felix Sardá y Salvani, 1949. Ed. Companhia Editora Nacional, que no capítulo XXIII, às páginas 89 a 91 demonstra que é conveniente ao combater o erro desautorizar a personalidade que o sustenta.

A seguir o trecho do livro citado.

 

SE É CONVENIENTE AO COMBATER O ERRO COMBATER E DESAUTORIZAR A PERSONALIDADE DO QUE O SUSTENTA E PROPALA

Dir-se-á porém: “Conceda-se isso com respeito às doutrinas em abstrato. Mas será conveniente ao combater o erro, por maior que o seja, cevar-se e encarniçar-se contra a personalidade do que o sustenta?”

Responderemos que muitas vezes sim, é conveniente e não só conveniente, mas até indispensável, e meritório diante de Deus e da sociedade. E ainda que bem pudesse deduzir-se esta afirmação do que anteriormente havemos exposto, queremos, todavia, tratá-la aqui ex professo, pois é grande a sua importância.

Com efeito, não é pouco frequente a acusação que se faz ao apologista católico de ocupar-se sempre das pessoas, e quando se lança em rosto a um dos nossos o atacar uma pessoa, parece aos liberais e aos contaminados de Liberalismo que já não há mais que dizer para condená-lo.

E, não obstante, não têm razão; não, não a têm. As ideias más hão de ser combatidas e desautorizadas; é preciso torná-las aborrecidas, desprezíveis e detestáveis à multidão, a essa que intentam embair e seduzir. Mas quer o acaso que as ideias não se sustentem por si mesmas no ar, nem por si mesmas fazem todo o dano à sociedade. São como as flechas ou balas, que a ninguém iriam ferir, se não houvesse quem as disparasse com o arco ou com a espingarda.

Ao atirador se devem, pois, dirigir primariamente os tiros do que deseje destruir a sua mortal pontaria; e qualquer outro modo de fazer a guerra será tão liberal como queiram, porém, não terá sentido comum. Soldados com armas de envenenados projéteis são os autores e propagandistas de doutrinas heréticas; suas armas são o livro, o jornal, o discurso público, a influência pessoal.

Não basta, pois, desviar-se para evitar o tiro, não; o principal e mais eficaz é deixar inabilitado o atirador. Assim, convém desautorizar e desacreditar o seu livro, periódico, ou discurso; e não só isso, senão desautorizar e desacreditar em alguns casos a pessoa. Sim, a pessoa, porque é este o elemento principal do combate, como o artilheiro é o elemento principal da artilharia, e não a bomba, a pólvora ou o canhão.

Pode-se, pois, em certos casos, trazer a publico suas infâmias, ridicularizar seus costumes, cobrir de ignomínia o seu nome e apelido. Sim, senhor; e pode-se fazer em prosa ou em verso, a sério ou brincando, em gravuras e por todas as artes e processos que no futuro possam inventar-se.

Somente se deve ter em conta que não se ponha a mentira ao serviço da justiça. Isso não; ninguém neste ponto se afaste um só ápice da verdade, porém, dentro dos limites desta, recorde-se aquele dito de Cretineau-Joly: – A verdade é a única caridade permitida à história; e poderia acrescentar: à defesa religiosa e social.

Os mesmos Santos Padres, que temos citado, provam esta tese. Até os títulos de suas obras dizem claramente que, ao combater as heresias, o primeiro tiro procuravam dirigi-lo contra os heresiarcas. Quase todos os títulos das obras de Santo Agostinho se dirigem ao nome do autor da heresia: Contra Fortunatum manichaeum; Adversus Adamancium; Contra Felicem; Contra Secundinum; Quis fuerit Petilianus; De gestis Pelagii; Quis furiet Julianus, etc. De sorte que quase toda polêmica do grande Agostinho foi pessoal, agressiva, biográfica, por assim dizer, tanto como doutrinal; corpo a corpo com o herege, como contra a heresia. E assim poderíamos dizer de todos os Santos Padres.

Onde foi, pois, o Liberalismo buscar a novidade de que ao combater os erros se deve prescindir das pessoas e até animá-las e acariciá-las? Firmem-se no que ensina neste ponto a tradição cristã, e deixem-nos a nós, os ultramontanos, defender a fé como se defendeu sempre a Igreja de Deus. Penetre, pois, a espada do polemista católico, fira e vá direto ao coração, que esta é a única maneira real e eficaz de combater!”.

 No Capítulo XXVII, página 109 da mesma obra prossegue o autor em relação ao este tema:

“Porém, e o decoro do homem honrado? E as leis da caridade? E as máximas e exemplos dos Santos? E os preceitos dos Apóstolos? E o espirito de Jesus Cristo?

Iremos por partes. É verdade que os homens extraviados e errados hão de ser tratados com caridade, mas isso quando haja fundada esperança de os conduzir à verdade com tal procedimento; porém, se não há tal esperança e sobretudo se está provado por experiência, que calando-nos e não descobrindo publicamente a têmpera e o caráter do que espalha erros, resultaria gravíssimo dano aos povos, é crueldade não levantar com toda a liberdade a voz contra tal propagandista e deixar de lhe lançar em rosto as invectivas que muito tem merecido.

Das leis da caridade cristã tinham por certo muito claro conhecimento os Santos Padres. Por isso o angélico Doutor São Tomás de Aquino, no princípio do seu célebre opúsculo Contra os impugnadores da Religião, apresenta Guilherme e suas sequazes (que por certo não estavam ainda condenados pela Igreja) como "inimigos de Deus, ministros do diabo, membros do Anticristo, inimigos da salvação do género humano, difamadores, semeadores de blasfêmias, réprobos, perversos, ignorantes, iguais a Faraon, piores que Joviniano e Vigilâncio".

 Porventura temos nós chegado a tanto? "Contemporâneo de São Tomas foi S. Boaventura, que entendeu dever increpar com a maior dureza a Giraldo, chamando-lhe "protervo, caluniador, louco, ímpio, que juntava necedade a necedade, fraudulento, envenenador, ignorante, embusteiro, malvado, insensato, pérfido". Já alguma vez assim chamámos a nossos adversários?


    Para citar este texto:
"SE É CONVENIENTE AO COMBATER O ERRO COMBATER E DESAUTORIZAR A PERSONALIDADE DO QUE O SUSTENTA E PROPALA"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/domfelix202105/
Online, 25/10/2021 às 12:37:02h