Igreja

Dois livros
Orlando Fedeli

Queria fazer algo bem agradável: elogiar duas pessoas que, talvez, não me estimem, mas às quais admiro nos livros que escreveram.
Li, já faz alguns meses um livro excelente de Dom Tissier de Mallerais. Bispo da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, contando a vida de Dom Marcel Lefebvre (Mons. Bernard Tissier de Mallerais, Mons. Marcel Lefebvre. Una Vita, Ed Tabula Fati, Chieti, 2005, versão em italiano da obra de mesmo título, em francês).
Conheci Dom Lefebvre, um dia. Como conheci Dom Antônio de Castro Mayer durante quase “una vita”.
Confesso que comecei a ler essa obra com um certo temor. Temor de que ler fosse um exagerado panegírico, que não se importasse muito com os fatos, pela exaltação do entusiasmo.
E uma das melhores coisas que constatei – e com alegria! Com verdadeira alegria! -- no livro de dom Tissier de Mallerais sobre Dom Lefebvre foi a completa ausência de paixão, unida a um grande zelo pela verdade histórica. Nada de cego amor, deturpando a verdade. Um grande equilíbrio de apreciação dos fatos unida a uma admiração correta pelo Fundador da FSSPX. E é esse equilíbrio de Dom Tissier que exalta ainda mais a figura extraordinária de Dom Lefebvre.
Monsenhor Tissier não procurou esconder falhas de temperamento, e até erros de apreciação existentes no fundador da FSSPX. Contou-os. E contando-os sinceramente, foi mostrando como a graça de Deus tomou um homem e o foi levando, pouco a pouco, a descobrir a malícia da serpente nos erros modernos. Como a luz da verdade foi iluminando a alma de dom Lefebvre, fazendo-o ver cada vez mais claramente, à luz da verdade que crescia em sua alma, os erros e as heresias do modernismo infiltrado na Igreja, numa proporção, que, inicialmente, nem Dom Lefebvre e nem Dom Mayer suspeitavam.
E essa foi a glória desses dois Bispos: inicialmente não percebiam totalmente o mal. Mas quando o perceberam em toda a sua profundidade, eles tomaram posição decidida e heróica pela verdade, até o ”martírio” da excomunhão injusta e nula.
Querem ver um ponto que mostra a completa isenção do autor desse belo livro que recomendo, e que todo católico fiel deve ler, para bem conhecer a História da Igreja no século XX, e como Deus a escreveu usando dois Bispos Confessores?
Dom Tissier, em certo ponto, contando a resistência de alguns Bispos fiéis durante o Concílio Vaticano II, diz que a alma dessa resistência era então... Dom Sigaud!
Claro que esse senso de justiça demonstrado pelo autor impressiona e lhe traz autoridade. Um autor panegirista exageraria até à falsidade os fatos, e não diria tal coisa. O que mostra a objetividade de Dom Tissier de Mallerais é que ele não procurou exaltar injustamente Dom Lefebvre, atribuindo a ele apenas, e só a ele, toda glória. Da mesma forma, Dom Tissier mostra, em outra momento, a ajuda que Dom Mayer deu a Dom Lefebvre, num momento em que a tempestade era maior, e momento no qual o grande Bispo francês poderia flectir.
O auge do livro pareceu-me ser atingido no capítulo em que Dom Tissier narra os diálogos de Dom Lefebvre com Paulo VI e com os Cardeais modernistas da Cúria, que tentavam quebrar a sua fidelidade.
Dom Lefebvre, acusado muito injustamente por Paulo VI de um ato que não ocorrera, chora e não se rebela. Um gigante de fidelidade à verdade em pranto diante do Papa que impulsionava o culto do homem, e que, enquanto Papa, ele devia respeitar, mesmo quando ele o caluniava, sem ceder, porém em nada, quanto à Fé.
Admirável! Realmente admirável!
É a narrativa da vida de um santo. Porque se trata disso.
Dom Lefebvre e Dom Mayer, -- agora a história do Pontificado de Bento XVI o prova--, foram grandes confessores da Fé. Porque, se a Missa deve ser restaurada, se eles sozinhos combateram por isso, a restauração da Missa tridentina será a proclamação da virtude heróica desses dois Bispos extraordinários, sendo ao mesmo tempo, a condenação simbólica do Concílio Vaticano II. Dois Bispos ímpares, dos quais o autor dessa biografia não escondeu pequenas falhas, para tornar ainda mais patente que sua grandeza e seu “martírio” foram obra de Deus.
De Deus, sempre bendito em seus santos.
É com alegria, pois que elogio esse livro. E é com devoção entusiasta que vejo dois Bispos que conheci e estimei em Deus serem afinal exaltados em toda a glória que mereceram.
 
*****
 
E já que estou com mão na massa, permitam-me meus pacientes leitores elogiar e recomendar–lhes um outro livro de valor.
Trata-se da obra do Padre Dominique Bourmaud, também ele sacerdote da FSSPX, que escreveu o livro Cien Años de Modernismo (Ediciones Fundación San Pio X, Buenos Aires, 2006).
O autor fez uma obra extremamente clara, que demonstra o bom professor que ele deve ser. Raramente encontrei na vida um autor tão didático. Com ele aprendi muito.
O autor revela uma grande capacidade de síntese, além de saber reduzir os erros modernistas mais abstrusos em palavras que os fazem compreensíveis a qualquer leitor que seja, mesmo com um mínimo de conhecimento.
Claro que, um livro abarcando os erros e heresias de Lutero até o Concílio Vaticano II necessariamente tem falhas. Esse é um tributo natural que todo homem, por mais capaz seja ele,-- e Padre Dominique é um padre de capacidade incomum -- tem que pagar por causa de nossa natureza após o pecado original. Não há escritor sem falha.
Para ser justo, me atrevo — mas com pesar — a apontar uma: a não distinção entre Panteísmo e Gnose que, por vezes, são confundidos. Mas apontando essa falha, me apresso a reiterar que o faço só por justiça. E essa mesma justiça me obriga a declarar que considero o livro tão bom que o julgo indispensável a qualquer biblioteca católica. E o considero tão bom, que me sentiria feliz, se tivesse tido a graça de ter sido aluno desse professor benemérito, que escreveu um tão excelente livro em defesa da Fé.
Pena que um tribunal malfadado me separe, hoje, desses dois autores excelentes. E rezo para que, com a liberação da Missa de sempre, a FSSPX faça o esperado acordo com Roma. Aí, então, que possamos, juntos combater pela Fé Católica Apostólica Romana, pela qual devemos viver e morrer.
E que esse dia venha o quanto antes!
E più non dicco... E più non dicco...
Gesù dolce! Gesù amore.
 
In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli.
 
São Paulo, 15 de junho de 2007

    Para citar este texto:
"Dois livros"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/dois_livros1/
Online, 27/05/2017 às 03:12:58h