Igreja

Custos, quid de nocte?
Orlando Fedeli
 "Custos, quid de Nocte? Custos, quid de nocte?" (Is. XXI, 11)

"Sentinela, que contas da Noite? Sentinela, que houve na noite?"

Esse misterioso clamor do profeta ecoa, desde Seir até hoje, em meio à noite em que naufraga o século XX.

Que dizer desta noite de confusão e de horror?

Que dizer da confusão doutrinária e da decadência moral pavorosa que se registra nesta noite da História?

Custos, quid de nocte?

E quem é a sentinela senão o bispo, que tem o dever de vigiar na noite dos tempos para que o inimigo não semeie o joio entre o trigo, e para que o lobo não arrebate as ovelhas?

E por que o clamor interrogando a sentinela? Não é a sentinela aquela que deve clamar alertando para o perigo?

Se a voz de Deus tem que clamar pedindo contas à sentinela, não será porque a sentinela está dormindo, e já não vê o que ocorre na noite?

Custos, Custos, quid de nocte?

Enquanto Cristo agonizava no Horto, as sentinelas não puderam velar uma hora com ele.

"Et ait Petro: Simon, dormis?" (Mc. XIV, 37)

"E disse a Pedro: Simão, tu dormes?"

Enquanto a Igreja agoniza, as sentinelas dormem e não vigiam.

E Deus lhes grita desde Seir: "Custos, quid de nocte?"

Esse apelo dolorido do coração de Cristo, parece-nos ouvi-lo hoje, continuamente, queixando-se das sentinelas que dormem enquanto a Santa Igreja é devastada.

"Quid dormitis?"

"Por que dormis?"

As sentinelas dormem... enquanto se publicam e se ensinam as teses mais escandalosas, ou as teses mais enganadoras sob aparência de verdade. E estas últimas, em certo sentido, são as mais perigosas, exatamente porque aparentam ser boas.

O inimigo perigoso é aquele que se acerca da fortaleza, fazendo-se julgar amigo, para que a sentinela dormente seja mais facilmente enganada.

Espreitando a noite, a sentinela tem o dever de desconfiar de qualquer coisa que nela se mova, aproximando-se da cidade sitiada. Ainda que haja a possibilidade de que quem se aproxima seja um amigo, a sentinela tem que dar o alarme, até que se comprove que quem se move na noite não é um inimigo. É dever da sentinela a vigilância total. "Vigiai e orai", recomendou Cristo a seus apóstolos.

Por essas razões - óbvias - a Igreja não condena apenas as heresias rombudas, mas também as frases que não exprimem claramente a verdade revelada. Quando uma frase, em seu primeiro sentido, dá a entender algo contrário à doutrina ortodoxa, ainda que essa frase seja suscetível de uma interpretação boa, desde que seja preciso explicar o sentido correto em que foi dita, a Igreja a condena como tendo "sabor de heresia".

Tudo isso vem a propósito de um folheto dominical que nos caiu nas mãos há poucos dias, com uma afirmação que, embora suscetível de uma interpretação não condenável - isso para ter a máxima boa vontade - era, em seu primeiro sentido, tão chocante e escandalosa, que, se não tivéssemos o folheto em mãos, dificilmente acreditaríamos.

Esse folheto de Missa, intitulado O DOMINGO, é editado pela Pia Sociedade de São Paulo, sob a responsabilidade dos padres J. Dias Goulart SSP (diretor), e Virgílio Ciaccio SSP (redator).

Nele, costumam aparecer absurdos doutrinários bem graves.

O número que nos chegou às mãos era destinado à "Celebração da Missa com crianças" (sic!), datado de 13–08–2.000, Ano XIII, Remessa IX, N* 34.

Já estranhamos a expressão "Missa com crianças". Não seria melhor "Missa para as crianças"? Entretanto, isso é de somenos.

Grave era o texto. E grave pela sua falta de... gravidade.

Grave por seu naturalismo e por seu estilo pretensamente infantil, propositalmente pretendendo evitar toda solenidade. Exatamente na Missa, sacrifício que exige a mais excelsa solenidade.

Logo depois do Sinal da Cruz, o texto do sacerdote prosseguia exclamando um corriqueiro: "Bom dia, crianças!" E, romanticamente, ia adiante com um: "Bom dia de coração!"

O naturalismo recheava todo o folheto:

"Rezemos: Deus, nosso Pai, vós nos concedestes a alegria de estar em vossa casa..."

Ou ainda: "Querendo bem uns aos outros, viveremos no vosso amor. Vós nos dais a grande alegria de encontrar nossos amigos e conversar com eles. Podemos assim compartilhar com os outros as coisas bonitas que temos e as dificuldades que passamos".

Ou, um amor de tom naturalista e quase relativista:

"Amais todas as pessoas do mundo e sois muito bom para nós".

"Pai de bondade, ajudai o Papa... Ajudai também os amigos de Jesus para que vivam em paz no mundo inteiro e façam a todos bem felizes."

"É Jesus que agora nos reúne em volta desta mesa [por que não deste altar?] para fazermos, bem unidos, o que na ceia fez com seus amigos" (O negrito e os colchetes são nossos).

O texto salienta a idéia de que a Missa se faz sobre uma mesa, e não sobre um altar, ao colocar o seguinte subtítulo, início do Ofertório: "Arrumação da Mesa".

Tudo isso está imensamente longe da vida sobrenatural e da caridade, que é o amor a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo, por amor a Deus. Tudo isso, a pretexto de empregar uma linguagem acessível às crianças, destrói qualquer solenidade, e cria um ambiente naturalista, essencialmente oposto ao que é a Missa, renovação do sacrifício do calvário.

Como, com frases prosaicas e naturalismo, despertar a fé na transubstanciação? Como, com essas frases corriqueiras, levar as crianças a entenderem que o pão e o vinho serão transubstanciados em Cristo? Como a criança terá idéia de que não irá comer um pão comum, e sim o Corpo, Sangue, Alma e Divinadade de Cristo, realmente presentes sob as aparências de pão e de vinho?

O pior, porém, é que nesse folheto há uma frase escandalosa. Na página 1 (1a coluna) lê-se:

"1º COM: Como é possível que Jesus se torne "PÃO"? (O sublinhado e o negrito - e a indignação!!! - são nossos).

Ora, o que deveria ter sido dito, para evitar mal-entendido das crianças, é que, na Missa, o pão se torna Cristo inteiro. A Igreja sempre ensinou para as crianças, desde o Primeiro Catecismo, que o que ocorre é a transubstanciação; dizendo, para explicar esta palavra difícil, que todo o pão se muda no Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Cristo.

Entretanto, no folheto que citamos, explica-se dulçurosamente a frase suspeita de heresia:

"É o amor dele para com cada um de nós que faz tal milagre".

Portanto, o "milagre" seria Cristo se tornar PÃO!!!

O pior é que o erro não ocorreu apenas uma vez: ele é repetido na página seguinte, indicando, pelo menos - esperamos, uma grande ignorância doutrinária de quem redigiu o tal folheto.

Mas, ainda que ele tenha sido redigido por um auxiliar ignorante, pode-se, e deve-se, perguntar:

Custos, quid dormis?

Pois, na página 2 (última coluna) do mesmo folheto, sob o título estapafúrdio de ARRUMAÇÃO DA MESA, lê-se:

"1º Com. "Algumas crianças levarão as ofertas em procissão para o altar: lá é que Jesus irá se fazer PÃO, para fortalecer nossa vida. Todos cantemos" (O sublinhado e o negrito são nossos).

Jesus irá se fazer PÃO (???).

Essa é uma frase escandalosa, e cujo primeiro sentido é herético.

Na Missa, pelas palavras da Consagração, o pão é transubstanciado no Corpo, e o vinho, no Sangue de Cristo. Na hóstia, sob as aparências de pão, está presente Cristo inteiro, com Seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade. No cálice está também Cristo inteiro.

O folheto O DOMINGO, com esse texto, ensina o contrário da doutrina católica: diz que o que as crianças vão receber, na comunhão, não é Cristo, mas PÃO. Pura e simplesmente PÃO!

Isso, em seu sentido primeiro, é pior do que dizia o próprio Lutero.

Cristo ter-se-ia feito PÃO para alimentar as criancinhas!

Quanta "bondade"... filantrópica!

E isso é dado na mão de crianças, que aprenderão, na Missa, através do folheto oficial que lhes é fornecido pelo sacerdote ou por seus encarregados, que, no altar, Cristo se faz PÃO!!!

Ora, é o contrário o que se dá na Consagração: o pão se torna Cristo.

Poderia alguém - com extrema boa vontade - tentar explicar que esse primeiro sentido herético da frase que incriminamos seria suscetível de uma boa interpretação, já que, de fato, Cristo se faz - é verdade - alimento para nós. E que, portanto, estamos exagerando. Pois, São Paulo mesmo nos disse e nos ensinou:

"Portanto, todo aquele que comer este pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e da morte do Senhor. Examine-se, pois, a si mesmo o homem, e assim coma deste pão, e beba deste cálice. Porque aquele que o come e bebe indignamente, come e bebe para si a condenação, não distinguindo o corpo do Senhor [doutro qualquer alimento]" (São Paulo, I Cor. XI, 27-29. O negrito é nosso para facilitar a compreensão).

Ora, o fato de ser necessária a explicação de um possível bom sentido, mostra que a frase que acusamos tem, pelo menos, "sabor de heresia".

E note-se que, se São Paulo usa, sim, o termo pão, ele logo procura salientar que o "pão" da Missa, após a consagração, não é pão comum. Quem come pão comum indignamente não come sua própria condenação. São Paulo afirma com todas as letras que quem come o "pão" consagrado, "não distinguindo o corpo do Senhor", "come sua própria condenação".

No folheto que analisamos, a frase que afirma que "Cristo irá se fazer PÃO, para fortalecer nossa vida", não é restringida de nenhum modo. Cristo se faz Pão simplesmente, sem distinção do pão que se compra na padaria. E se faz Pão simplesmente "para fortalecer nossa vida", sem distinguir se é especialmente para a vida sobrenatural, além da natural. Nem se fala de vida sobrenatural. O milagre é Cristo se fazer Pão!

"Como é possível que Jesus se torne "Pão"? É o amor dele para com cada um de nós que faz tal milagre", diz o folheto O Domingo.

Também poder-se-ia argumentar, escusando o que diz O Domingo, que mesmo na oração "Unde et memores", da Missa de São Pio V, recitada logo após a consagração, a Igreja sempre disse: "...a vítima pura, a vítima santa, a vítima sem mácula, o pão sagrado que dá a vida eterna, ...".

Ora, essa oração usa, sim, o termo pão para designar a hóstia já consagrada. Porém, precede a palavra pão de expressões que demonstram que este não é o pão comum, pois o chama de "vítima pura, a vítima santa, a vítima sem mácula". E afirma, depois, que esse pão é aquele que dá a vida eterna. Portanto, distingue claramente o pão consagrado do pão comum. Coisa que o folheto O Domingo não faz ao dizer que Cristo se faz "Pão". Apenas coloca aspas na palavra pão, e isto só uma vez. Em outra - a da página 2 - coloca a palavra Pão sem aspas mesmo.

Mais um argumento em defesa de uma interpretação benévola do texto incriminado seria que, na liturgia, sempre se cantou: "Panis de coelis praestitis eis, omne delectamentum in se habentem" (Tu lhes concedestes o Pão do céu, que contém todo sabor.)

De novo, o argumento não é suficiente para a defesa da frase incriminada, porque na frase litúrgica se afirma claramente a distinção do "pão" consagrado com relação ao pão comum: ele vem do céu e contém todo sabor, coisa que o distingue do pão comum. Distinção, repetimos, que não se teve o cuidado de colocar na frase que escandaliza, no folheto examinado.

Da mesma maneira, poder-se-ia argumentar com os versos do "Pange Língua", que sempre distinguem o "pão" consagrado do pão comum. Infelizmente, o texto de O Domingo não teve esses cuidados, e, por isso, induz a crer que, na Missa, se come simplesmente "PÃO".

Ademais, deve-se lembrar que essa frase afirmando que Cristo se faz Pão - sem aspas até - é dada ao povo e às crianças numa época em que muitos - até mesmo teólogos - negam a presença real de Cristo na Eucaristia; ou que, lamentavelmente, agem diante do Santíssimo Sacramento sem nenhum sinal externo de respeito: sem fazer genuflexão, sem piedade alguma, indicando uma fé moribunda.

Ainda que a frase que exprobamos fosse suscetível de uma interpretação aceitável, com um exame mais profundo, o seu primeiro sentido óbvio é herético. E ela não poderia, portanto, ter sido colocada num folheto de missa.

Portanto, ainda que haja uma interpretação correta para essa afirmação, ela não deveria ter sido feita. Seria o mesmo que alguém dissesse a um grupo de alcoólatras a frase da Escrirura: "O vinho alegra o coração do homem" (Ps CII, 15). Embora verdadeira, e do próprio Espírito Santo, essa citação seria mal empregada nesse ambiente de homens viciados. Da mesma forma, ainda que fosse correta, a frase que criticamos nunca deveria ser citada num tempo de naturalismo e de descrença na Eucaristia, como este em que estamos hoje.

Permita-se-nos uma pequena digressão.

Certa vez, um seminarista, discutindo conosco, "argumentou" contra a transubstanciação: "Como é possível que um homem de 1,80m possa caber numa hóstia tão pequena?"

E o céu não caiu em cima de tanta ignorância e de tanta grosseria, para não dizer, de tanta estupidez!

E, noutra ocasião, em 1972, uma jovem que pertencia a um grupo paroquial se espantou muito quando lhe dissemos que, na hóstia consagrada, estava o próprio Jesus Cristo. Ela não o sabia, e comungava. E isso foi em 1972... Que crença haverá hoje, depois de tanta decadência doutrinária, depois de tantos "teólogos" modernistas terem-se tornado tão populares?

Pois bem, é num ambiente assim descrente que se afirma, para as crianças e por escrito, num folheto oficial de liturgia, que, na Missa, Cristo se faz Pão. Simplesmente Pão. E Pão até sem aspas. "Para fortalecer nossa vida".

Benevolamente, poder-se-ia pretender que isso foi apenas um lapso.

Esperaríamos que sim. Esperamos que o erro tenha sido apenas material. Mas, mesmo que assim seja, é um absurdo que ele tenha ocorrido, pois indica um tal desleixo de vigilância que cabe bem perguntar: "Custos, quid dormis"?

O folheto O Domingo é largamente distribuído por todo o Brasil. Deve ter sido lido em mais de mil igrejas, por milhares de padres, por seminaristas, por freiras que ajudam as crianças a assistir à Missa.

Ninguém viu a heresia, pelo menos material, ou, benevolamente, a frase com sabor de heresia. Ninguém percebeu. Certamente os "custos" estavam preocupados em acompanhar o ritmo do rock e das baterias na Missa. Ou, em cantar afinadamente, e também muito... ambiguamente: "Lá na praia, me fitastes nos olhos, a sorrir tu chamaste o meu nome...Lá na praaaia... a sorrir".

Custos, quid dormis?

E assim, ao som de rock ou de canções românticas, as almas dos pequenos vão aprendendo que Jesus se fez Pão. Simplesmente Pão. Sem distinguir o Corpo do Senhor do pão comum. E não que, pelas palavras da Consagração, o pão e o vinho se transubstanciam no Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Seria de espantar que essas crianças viessem a não crer na presença real de Cristo na Eucaristia?

Ái de quem escandaliza os pequenos!

É com folhetos assim que se vai destruindo a Fé do povo.

Carinhosamente...

Dulçurosamente...

Há noite nas almas, quando a noite pesa nos olhos das Sentinelas.

Custos, quid de nocte?


    Para citar este texto:
"Custos, quid de nocte?"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/custosquid/
Online, 21/10/2017 às 10:17:20h