Igreja

Curtas Memórias
Paulo Miranda


Dos membros da Cúria Romana durante o atual pontificado, poucos obtiveram destaque como o Cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, o antigo Santo Ofício.

O Cardeal alemão tem despertado ódio e admiração nos grupos das mais diversas tendências em que hoje, desgraçadamente, se divide a Igreja.

Será natural, portanto, que seu nome venha a assumir importância no contexto do próximo conclave.

É igualmente compreensível que, dado o notório estado de debilidade da saúde de João Paulo II, os eventuais candidados a sucedê-lo sintam-se incentivados a fazer-se notar. E eles efetivamente o têm feito, de modo nem sempre muito discreto. Basta ler as revistas especializadas...

Esse parece ser o quadro em que se insere a publicação, em 1997, das memórias do Cardeal Ratzinger, intituladas La mia vita: Ricordi (1927-1977), do qual obtivemos a tradução para a língua inglesa (Milestones – Memoirs 1927-1977, Ignatius Press, San Francisco, 1998).

Manuseando o livro, o leitor se surpreende com sua pequena dimensão: apenas cento e cinqüenta e seis páginas, das quais trinta e seis contém apenas fotografias, mostrando-nos um sempre sorridente Ratzinger, nas mais diversas situações, fazendo-nos associar sua imagem com a de um político em campanha eleitoral.

É pouco, sem dúvida, para alguém que deve ter tanto a nos contar.

Decepciona, também, a limitação do tempo coberto pela obra. Ratzinger detém suas memórias abruptamente no ano de 1977, excluindo delas, portanto, todo o pontificado de João Paulo II, justamente a época em que a atuação do cardeal alemão teve maior importância.

Mas não é apenas o pontificado de João Paulo II o excluído. O próprio Papa somente aparece nas fotografias. Não é espantoso que o atual prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé não cite em suas memórias o nome de João Paulo II, ou mesmo Karol Woytilla, sequer uma vez?

Mesmo naquilo que conta, Ratziger se mostra surpreendentemente seletivo.

Faz-nos saber, por exemplo, que um passarinho cantou quando estava sendo ordenado, e o quanto seus pais ficaram orgulhosos ao vê-lo receber o título de doutor em teologia.

Mas é misterioso em relação ao ocorrido no Concílio Vaticano II, do qual participou como perito:

"Eu não posso e não quero entrar aqui num retrato detalhado daqueles anos muito especiais (...), não posso narrar os muitos encontros que me foram proporcionados – com grandes homens como Henri de Lubac, Jean Daniélou e Gérard Philips – para citar apenas alguns nomes proeminentes – não posso relatar os encontros com bispos de todos os continentes ou as conversas pessoais com alguns deles. Nem deve o drama teológico e eclesial daqueles anos pertencer a estas memórias" (op.cit., pág. 121).

Os nomes citados por Ratzinger no texto acima – de teólogos notoriamente "progressistas" – já são suficientes para perceber que o cardeal procura desvencilhar-se da imagem de conservador radical.

Essa é efetivamente uma das grandes preocupações demonstradas na obra. Para isso, Ratzinger alonga-se na descrição das idéias bastante heterodoxas de seus professores de seminário, no relato de suas próprias teses teológicas e em elogios a figuras como De Lubac, Rahner e Kung.

Vejamos a opinião de Ratzinger sobre a Igreja pré-conciliar:

"Quando eu olho para trás, para aqueles excitantes anos de meus estudos teológicos, eu somente posso me surpreender com tudo o que é hoje afirmado em relação à Igreja ‘pré-conciliar’. Todos nós vivíamos com uma sensação da mudança radical que já tinha tido início nos anos 20, uma noção de uma teologia que teve a coragem de propor novas questões e uma espiritualidade que estava jogando fora tudo o que estava empoeirado e obsoleto, conduzindo a uma nova alegria na redenção" (op.cit., pág. 57).

Apesar disso, Ratzinger não corre o risco de desagradar os conservadores, cujos ânimos são acalmados pela leitura de suas críticas ao modo como foi levada a cabo a reforma litúrgica e ao clima que preponderava durante o concílio Vaticano II.

São palavras surpreendentes na pena do Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, perito do Vaticano II.

Durante o concílio, diz ele, "crescia cada vez mais a impressão de que nada era agora estável na Igreja, que tudo estava aberto a revisão. Mais e mais o Concílio parecia ser como um grande parlamento da Igreja, que podia mudar tudo e reconstruir tudo de acordo com seus próprios desejos" (pág. 132).

Mais adiante, continua o Cardeal: Antes, "era o Credo que fornecia o padrão para a teologia. Agora, na Igreja Católica, tudo isso – ao menos na consciência popular – estava submetido a revisão, e até mesmo o Credo não parecia mais intocável, mas antes submetido ao controle dos teólogos. Por trás dessa tendência de domínio dos especialistas podia-se já detectar algo mais: a idéia de uma soberania eclesial do povo, na qual o próprio povo determina o que quer que seja entendido por Igreja, pois ‘Igreja’ já parecia muito claramente definida como ‘Povo de Deus’" (op.cit., pág. 134).

Nem parecem palavras de um membro da Hierarquia que se tem mostrado tão cioso em impor a aceitação do Concílio Vaticano II a todos os fiéis.

Ainda mais surpreendente é a avaliação do Cardeal acerca da reforma litúrgica:

"Decepcionou-me a quase total proibição do missal antigo, pois nada parecido tinha-se verificado durante toda a história da liturgia. Dava-se a impressão de que o que estava acontecendo era normal: o missal antigo teria sido criado por Pio V em 1570 em conexão com o Concílio de Trento; portanto seria normal que, após quatrocentos anos e um novo concílio, um novo papa nos presenteasse com um novo missal. Entretanto, a verdade histórica sobre o assunto é diferente. Pio V havia apenas ordenado uma reelaboração do Missale Romanum então utilizado, o que é a prática normal em vista do desenvolvimento da história através do curso dos séculos. Muitos de seus sucessores, da mesma forma, reelaboraram o missal novamente, mas jamais contrapondo um missal contra outro. Era um processo contínuo de aperfeiçoamento e purificação no qual a continuidade jamais foi destruída. Não existe um ‘Missal de Pio V’, criado pelo próprio Pio V. Há apenas a revisão feita por Pio V como uma fase numa longa história de crescimento (...) Nesse caso (de S. Pio V) não podemos falar de uma proibição de um missal prévio que antes havia sido formalmente aprovado como válido. A proibição do missal que agora estava sendo decretada, um missal que conheceu contínuo aperfeiçoamento durante os séculos, tendo início com os sacramentários da Igreja antiga, introduziu uma ruptura na história da liturgia cujas conseqüências somente podiam ser trágicas. Seria razoável, e direito do Concílio, determinar uma revisão do missal tal como tinha ocorrido antes, e desta vez deveria ser mais aprofundada do que antes, especialmente em razão da introdução do vernáculo. Mas muito mais do que isso aconteceu: o velho edifício foi demolido e outro foi construído, certamente com largo uso de materiais do anterior e mesmo usando os velhos desenhos da construção. Não há dúvida de que esse novo missal em muitos aspectos trouxe uma real melhora e enriquecimento; mas colocá-lo como uma construção nova contra o que crescera historicamente, proibindo os resultados desse crescimento histórico, fez a liturgia parecer não mais um desenvolvimento vivo mas o produto de um trabalho erudito e da autoridade jurídica; isso nos causou enorme dano. (...) Uma renovação da consciência litúrgica, uma reconciliação litúrgica que reconheça novamente a unidade da história da liturgia e que entenda o Vaticano II não como uma ruptura, mas como um estágio de desenvolvimento: essas coisas são urgentemente necessárias para a vida da Igreja. Estou convencido de que a crise que na Igreja que experimentamos hoje é em larga medida devida à desintegração da liturgia (...)" (op.cit., págs. 146/149, negritos nossos).

Perdoe-nos o leitor a longa citação. Mas não poderíamos privá-lo de tão surpreendente posicionamento adotado pelo Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé.

Qual poderá ser o resultado dessa tentativa de agradar tanto os conservadores como os progressistas?

Estes últimos, ao que parece, manifestaram-se recentemente através do idoso Cardeal Konig, ex-arcebispo de Viena, que publicou cáusticas críticas ao trabalho de Ratzinger à frente da Congregação da Doutrina da Fé. Críticas que, sem dúvida, contribuíram para melhorar a imagem do Cardeal entre os conservadores.

Superficial em relação ao passado, Ratzinger é enigmático quanto a suas previsões para o futuro.

Termina a obra mencionando S. Corbino, que segundo uma lenda foi ajudado por um urso a transportar suas coisas para Roma, e ali dispensou o animal.

Como o urso da lenda, diz Ratzinger, "eu levei minha carga para Roma e já estou percorrendo as ruas da Cidade Eterna por um longo tempo. Não sei quando serei dispensado, mas uma coisa eu sei: que a exclamação (do salmo 72) se aplica também a mim: ‘Eu me tornei diante de ti como um jumento, e nesse caminho eu estou contigo’" (op.cit., p. 156, negrito nosso).

Caberá aos próximos conclavistas dispensar ou não o Cardeal...


    Para citar este texto:
"Curtas Memórias"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/curtas/
Online, 30/04/2017 às 06:10:17h