Igreja

Comentando um decreto
Orlando Fedeli


                                                            "Si ex tunc vel nunc, ego sum cum "hanc petram" Petri"

 
O Decreto promulgado por ordem de Bento XVI sobre as vazias e nulas (ex origine) excomunhões de Dom Lefebvre e de Dom Mayer, assim como dos Bispos em boa hora sagrados por eles, tem causado a ira cheia de fel dos modernistas, a raiva azeda e rabulesca dos sede vacantistas (explícitos ou camaleonticamente secretos), e o silêncio envergonhado (mas temporário) dos que quiseram conciliar a Missa de sempre com a Missa Nova, com o Concílio Vaticano II — que diziam ser infalível — com a doutrina de sempre.
 Antes de tudo é preciso lembrar que a anulação do decreto de 1988 foi um pedido formal da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) ao Papa Bento XVI. Os seguidores de Dom Lefebvre haviam posto duas condições prévias para depois debaterem as doutrinas do Concílio Vaticano II e da Missa Nova;
1 - A liberação da Missa de sempre;
2 - A anulação das excomunhões de 1988;
 
Bento XVI liberou a Missa de sempre com o Motu Proprio Summorum Pontificum, e, mais ainda, declarou que a Missa defendida por Dom Lefebvre nunca foi abrrogada.
Faltava atender a segunda condição de Dom Fellay.
Nos meses finais de 2008, Dom Fellay pediu que se fizesse um novo ramalhete de terços, até atingir um milhão, para que Nossa Senhora alcançasse de Deus a graça de que fosse atendida a segunda condição. Dom Fellay marcou como prazo final para atingir o número de um milhão de terços, o Natal, 25 de Dezembro de 2008.
Perguntamos nós, então, naquele ocasiao: Por que só até o Natal?
 
Evidentemente, o mais lógico seria pedir que se rezasse até a graça ser obtida. Por que só até o Natal?
Parecia que até a data do decreto era "prevista" por Dom Fellay para que saísse o decreto.
Saiu, em Janeiro...
Claro é, para quem conhece os meandros da política — e muito mais da política do Vaticano -- que esse decreto foi escrito e apresentado aos interessados ainda antes de ser publicado. Ninguém se arrisca a publicar um decreto desses sem antes tê-lo mostrado e debatido com os interessados que o pediram, para obter sua concordância. Publicar um decreto dessa importância, sem antes ter consultado os Bispos da FSSPX seria imprudência, pois se os Bispos o recusassem, o Papa ficaria extremamente desautorizado e desprestigiado.
Agora, numa entrevista, foi feita a seguinte pergunta a Dom Fellay :
 
"Vossa Excelência esperava esse levantamento da excomunhão?
Fellay: "Eu o esperava desde 2005, desde a primeira carta de pedido de levantamento da excomunhão que eu tinha endereçado, a pedido mesmo de Roma. Porque é claro que Roma não pediria essa carta para recusar o levantamento da excomunhão. Quanto ao momento em que isso se passou, eu não esperava. Nestes últimos meses, após a questão do ultimato, mesmo depois que ela foi absorvida [em Roma], nós sentíamos uma certa frieza. Depois eu escrevi a carta de 15 de novembro, que é mencionada no decreto e na minha carta aos fiéis..." (Monde et Vie, 31 de Janeiro de 2009)
 
Quanto ao momento exato, ele não conhecia. Mas noutra entrevista, Dom Fellay confirmou ter ido a Roma antes da publicação do decreto, e que soube dele, na
Ecclesia Dei, dias antes de ele ser publicado.
Quando soubemos, pelas fontes murmurantes de Roma, que, no final de Novembro, creio, ou começo de Dezembro, estavam em Roma vários líderes de institutos religiosos defensores da Missa de sempre, foi sinal claro de que algo estava para acontecer.
Depois, uma semana antes de sair o decreto, soube, por bem segura fonte murmurante, que Dom Fellay estava em Roma, e que se declarou, "esperançoso"... junto à fonte...
Começou-se a falar em reforma da Cúria e de mudanças na Ecclesia Dei... E até em nomeação de Dom Fellay para um cargo elevado...
Não digo qual. Para não confundir o que dizem fontes verdadeiramente murmurantes com boatos incertos, menos confiáveis.
No dia 21 de Janeiro, o decreto foi assinado.
Logo começaram a filtrar os boatos de fontes mais barulhentas – as jornalísticas — e de torvelinhos incertos, de que o decreto estava na mesa do Papa, e até de que ele já fora assinado.
No sábado, dia 24 de Janeiro, foi publicado o decreto levantando as excomunhões dos Bispos da FSSPX e declarando sem efeitos jurídicos o decreto de 1988.
A Fraternidade São Pio X aceitou jubilosa o gesto magnânimo do Papa.
O Comunicado de Dom Felaly aceitando e agardecendo o decreto diz:
 
"A excomunhão dos Bispos sagrados por Sua Excia Monsenhor Marcel Lefebvre, em 30 de Junho de 1988, que tinha declarada pela Congregação dos Bispos por meio de um Decreto de 1 de Julho de 1988, e que nós sempre contestamos, foi retirada por um outro Decreto da mesma Congregação na data de 21 de Janeiro de 2009, por um mandato do papa Bento XVI.
"Nós exprimimos nossa gratidão filial ao santo padre por este ato que, para além da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, será um benefício para toda a Igreja. Nossa Fraternidade deseja poder ajudar sempre mais o Papa a dar remédio à crise sem precedente que sacode atualmente o mundo católico, e  que o Papa João Paulo II havia designado como um estado de "apostasia silenciosa" (Dom Bernard Fellay, Comunicado da FSSPX de 24 de Janeiro de 2009, in Dici).
Até Dom Wiliamson, que, desde sempre, fora contra a reconciliação com Roma – com "os romanos" - como ele costuma chamar o papa e os membros da Cúria, no estilo anglicano,— aceitou contente o decreto.
Nenhum Bispo da FSSPX levantou a legítima questão do ex tunc ou ex nunc. Mas é evidente que a FSSPX jamais aceitaria um decreto que insinuasse que Dom Lefebvre fora justamente excomungado em 1988. E Dom Fellay em suas entrevistas manteve , -- com toda a razão — que Dom Lefebvre fez o que devia em 1988.
A FSSPX aceitou o decreto.
Mas, os camaleões sede vacantistas nela infiltrados, ficam encontrando pelos em ovos: defendem a tese de que o decreto não anulou a excomunhão de Dom Lefebvre e de Dom Mayer "ex tunc", isto é, desde 1988. Desejavam levantar problemas para a FSSPX não aceitar o decreto. A FSSPX o aceitou jubilosa porque ela não teve que engolir o Concílio Vaticano II e a Missa nova.
Ora, o próprio site do Vaticano, na versão francesa do decreto – a versão dolorida, porque o episcopado francês é o mais contrário à FSSPX — usa o termo nulos, sem efeitos jurídicos, o decreto de 1988..

"En vertu de la faculté que m'a concédé le Saint-Père, par ce décret, je relève les évêques Bernard Fellay, Bernard Tissier de Mallerais, Richsard Williamson et Alfonso de Galarreta de l'excommunication prononcée contre eux par cette Congrégation le 1 août 1988, et j'en déclare nuls ses effets juridiques" (Bureau de Presse du Saint Siège, vendredi, le 23 janvier, XIX ANNEE - N 16 - LUNDI, 26 JANVIER 2009).
 
Se a fómula ambígua usada significa que o decreto foi nulo desde sua origem — ex tunc -, ou se ela significa que ele é sem efeitos jurídicos desde agora - ex nunc -, tem importância menor.
Isso me faz lembrar o que se conta do processo de canonização de São Felipe Neri. Alguns objetavam que ele não poderia ser canonizado, porque era brincalhão demais. Ora, enquanto se discutia isso, o santo teria aparecido aos cardeais que discutiam sua santidade e lhes disse: "Canonizato o no, in Paradiso sto" ("Canonizado ou não, no paraíso estou").
Da mesma forma diria Dom Lefebvre aos camaleões sede vacantistas : "Ex tunc vel ex nunc, cum Roma semper fuit et sum" ("Desde então, ou desde agora, com Roma sempre estive e estou").
E só pode estar agora, porque sempre esteve com Roma, já que Dom Lefebvre, e a FSSPX, jamais retiraram ou renegaram o que fizeram em 1988.
O resto é picuinha de camaleões sede vacantistas para criarem confusão e poderem continuar a crise, mantendo-se açoitados na FSSPX, da qual temem ter que sair.
O decisivo é que a FSSPX aceitou com alegria o decreto e se uniu plenamente a Roma. Em minha opinião – embora não seja senão uma opinião – Dom Fellay jamais aceitaria um decreto que dissesse que Dom Lefebvre e Dom Mayer foram justamente punidos por cisma desde 1988. E Dom Fellay declarou, depois do decreto, que Dom Lefebvre agiu bem, e que faria o mesmo, hoje.
A FSSPX não traiu a memória de Dom Lefebvre.
O Papa aceitou as duas condições prévias postas pela FSSPX para depois se iniciar o debate sobre as questões que originaram a crise de 1988 (os erros do Concílio Vaticano II e a Nova Missa de Paulo VI):  
1 - A liberação da Missa de sempre;
2 - A anulação das excomunhões de 1988.
 
No decreto publicado pela Santa Sé, se diz textualmente:

"Sua Santidade Bento XVI – paternalmente sensível ao mal estar espiritual manifestado pelos interessados por causa da sanção de excomunhão e confiando no compromisso expressado por eles na carta citada de não poupar nenhum esforço para aprofundar nas necessárias conversações com as Autoridades da Santa Sé sobre as questões ainda abertas, e de poder deste modo chegar rapidamente à uma plena e satisfatória solução do problema posto na origem – decidiu reconsiderar a situação canônica dos Bispos Bernard Fellay, Bernard Tissier de Mallerais, Richard Williamson e Alfonso de Galarreta relativa à sua sagração episcopal". (destaques nossos).
 
O Papa não só atendeu às duas condições prévias da FSSPX para iniciar o debate sobre o Concílio Vaticano II e a Missa nova, como quer que isso seja feito o mais "rapidamente" possível.
O Papa tem pressa em debater o Concílio Vaticano II e a Missa nova.
 
 
Reação dos Bispos da FSSPX ao Decreto
 
O Superiror Geral da FSSPX, Dom Bernard Fellay, também quer o debate doutrinário com teólogos indicados por Roma, declarado "necessário" pela Santa Sé no decreto de 21 de janeiro:

"nós estamos felizes que o Decreto de 21 de Janeiro encare como "necessárias" as conversações com a Santa Sé, conversações que permitirão a Fraternidade Sacerdotal São Pio X expor as razões doutrinárias de fundo que ela considera estarem na origem das dificuldades atuais da Igreja".
(Dom Bernard Fellay, Comunicado de 24 de Janeiro de 2009, in Dici).
 
Até Dom Williamson, o Bispo da FSSPX mais contrário ao acordo com Roma escreveu, logo depois da publicação do Decreto:

"Em minha opinião, este decreto posterior é um grande passo avante para a frente para a Igreja sem ser uma traição por parte da FS. São Pio X [com relação a seus posicionamentos].
"É um grande passo à frente para a Igreja porque, se o problema da Igreja, desde o Concílio Vaticano II, foi sempre uma separação entre a Autoridade da Igreja Católica e a Verdade Católica, com esse Decreto a Autoridade Católica deu um passo decisivo de retorno para refazer sua reunião"
(Dom Williamson. A Re-INCOMUNICAÇÃO, Comentários Eleyson LXXXII).
 
Ora, se o Concílio Vaticano II tivesse sido infalível, seria ilícito os católicos debaterem entre si sobre a validade e a ortodoxia de seu Magistério. Os católicos podem debater um dogma de modo apologético com hereges. Jamais entre católicos se pode debater o que a Igreja ensinou infalivelmente. Então, se o próprio Papa decide debater o Concílio Vaticano II, Bento XVI está implicitamente declarando que o Vaticano II não foi dogmático e nem infalivel.
Assim como Dom Lefebvre e Dom Mayer sempre combateram os erros do Concílio Vaticano II e da Missa Nova, assim como a FSSPX sempre fez isso, e cotinua a fazê-lo, assim também a Montfort e qualquer católico, tendo conhecimento, pode criticar o Vaticano II e a Nova Missa.
É por isso que modernistas estão furiosos.
É por isso que os camaleões sede vacantistas raivosamente procuram pelo em ovo.
Estas duas correntes derramam fel, ódio e baba raivosa na Internet e em blogs fofoqueiros, por causa do Decreto de Bento XVI.
Quanto aos que abandonaram as posições defendidas por Dom Lefebvre e Dom Mayer, esses estão, por enquanto, calados e confusos.
O que foi posto em cheque-mate pelo decreto de Bento XVI é o Concílio Vaticano II. É a Nova Missa.
Os Modernistas do Golias, Hans Kung et caterva — e caterva inclui, por exemplo, os comunistas da Teologia da Libertação -- , proclamam que o Papa quer restaurar a situação da Igreja anteriror ao Concílio Vaticano II. Falam em retrocesso. Ameaçam cisma declarado. Estão prestes a passar da apostasia silenciosa para a apostasia declarada.
O site Modernista Golias declarou que o Decreto de 21 de Janeiro de 2009 foi "a vitória póstuma de Monsenhor Lefebvre". (http://golias-ediçãos.fr/spip.php?article2618). E "profetizou" (como Caifás) e conclamou a que se fizesse um cisma para resistir a Bento XVI.
Golias, órgão mais furibundo do modernismo francês, -- o mais azedo -- considerou que o Decreto de 21 de Janeiro de 2009, retirando a excomunhão dos chamados tradicionalsitas, "fechou um parênteses" de 50 anos na história da Igreja. (Cfr. Golias, artigo de Christian Terras, O levantamento da excomunhão dos Bispos lefevristas ou o revisionismo do Vaticano II).

"Com esse levantar da excomunhão dos prelados lefevristes, o povo de Deus está cada vez mais provado em sua confiança em uma hierarquia que vira as costas a seus ideais. É provável que esse sinal verde concedido aos inimigos do Concílio acabe de alguma forma por suscitar santas cóleras. Indo muito longe, e talvez longe demais, Joseph Ratzinger – Bento XVI - ultrapassou a velocidade do som. Sua decisão de fazer entrar no redil os discípulos de Monsenhor Lefebvre conduzirá necessariamente a um aumento de resistência e a novas proposições ‘as quais Golias clama com todas as suas forças" (Cfr. Golias, artigo de Christian Terras, O levantamento da excomunhão dos Bispos lefevristas ou o revisionismo do Vaticano II).
 
E o Episcopado francês lançou um comunicado acidamente jansenístico no qual ameaçadoramente lembra ao Papa que "En aucun cas, le ConcileVatican II ne sera négociable" ("Em caso algum o Vaticano II será negociável") (Conselho Permanente da Conferência dos Bispos da França, 28 de Janeiro).
O Concílio Vaticano II não é negociável?
Mas o que nele está errado é condenável.
O que é condenável no Vaticano II são os erros que ele afirmou contrários ao que a Igreja sempre ensinou.
O herege Hans Kung prepara-se para tomar posição ante a recepção da FSSPX por Bento XVI, mas desde já, numa entrevista, ele ameaça declarando:

"No contexto geral os últimos acontecimentos são um sinal do contínuo enrijecimento do Vaticano, a contínua marcha para trás, a contínua sequência de passo após passo para trás".
"A questão é o conjunto do curso que o Papa Ratzinger desencadeou na Igreja. Sem dúvida, um percurso que volta, significativamente, para trás".
"Espero tomar uma posição sobre esta polêmica porque estão em jogo problemas de fundo. Quero me preparar para dizer a minha palavra sobre os aspectos cruciais do processo em curso. Porque a questão destes quatro bispos só é possível ver no contexto geral de uma restauração
". (http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=37041 Hans Küng, ‘Há uma restauração em curso na Igreja’ Andrea Tarquini. Enviada por IHU-Unisinos).
 
Hans Kung descobriu o óbvio: que o Papa segue um linha restauradora da Igreja tal como ela sempre foi até o Concílio Vaticano II.
E os fascistóides incrustados na FFSPX repetem delírios sobre o genocídio para perturbar, e quem sabe tentar impedir o feliz retorno da FSSPX a Roma. Agora foi um Padre da FSSPX de Treviso que repetiu a tolice anti-genocídica de Dom Williamson, pela qual ele nobremente já pediu perdão ao Papa, graças a Deus. Seria ótimo se os nazistóides e fascitóides — muito possivelmente sede vacantistas ocultos na FFSPX -- saíssem dela. Isso a tornaria mais pura.
Os sede vacantistas declarados ou secretos, mas regularmente camaleônticos - que os há, mesmo na FSSPX -- procuram negar ou minimalizar a importância do decreto, e se esgotam em friuleiras jurídico-canônicas, porque o decreto pode trazer o fim da crise da qual vivem.
Graças ao heroísmo e à fidelidade de Bento XVI, a crise marcha para uma solução que o Papa quer rápida. O Papa – que os sede vacantistas negam e chamam de Dr. Joseph Ratzinger --, dando razão aos que seguem fielmente a luta de Dom Lefebvre e de Dom Mayer, está acabando com o "meio de vida" dos sede vacantistas. Está acabando com seu "hobby". Com o seu passatempo que lhes permite brincar de teólogos e canonistas, como se a luta real pela fé fosse um jogo de RPG.
Porque eles acusam que não há mais Papa desde Pio XII e até antes. E se Bento XVI der vitória à posição "ïntegrista", ou eles renegam ao sede vacantismo, ou tem que renegar ao tradicionalismo. Acabou sua diversão. Acabaram as friuleiras teológico-canônicas do sede vacantismo, esse joguinho de RPG teológico canônico feito para aparecer e dividir os católicos fiéis ao Papado.
Às vésperas da publicação do decreto, um sedevacantista camaleão, ecumênico, amigo de todos e fiel a ninguém, escreveu numa certa lista dos que consideram que Bento XVI não é Papa:

"Não sei se o sedevacanstimo ganharia algo com isso [com o decreto], mas os lefebvristas creio que sim, pois acredito que mais pessoas poderiam se aproximar da FSSPX. A tradição poderia ganhar um nova força e talvez o sedevacanstimo por tabela também. O que não pode acontecer é que pessoas ligadas à tradição comecem a achar que está tudo "lindinho" em Roma agora e deixem a luta, pois o importante como diz D. Lourenço  (independente do posicionamento dele) é a Fé e a luta é pela Fé verdadeira".
  
Em meio ao fervilhar de comentários, críticas raivosas ou azedas, e apoios entusiastas, muito estranho foi o silêncio encabulado dos chamados Padres de Campos, que nada disseram. Nem comemoraram a memória de Dom Mayer, que os formou, e a quem tudo devem. Mas que eles agora acusarm de tê-los levado em direção ao cisma. Da parte deles, nem uma palavra.
Nem uma palavra...
....  ....  ...
 
Mas o caso mais espantoso — escandaloso – foi o artigo publicado por Dom Lourenço Fleichman, muito ligado a Dom Williamson, pouco antes da publicação do decreto retirando as excomunhões dos Bispos da FSSPX, entidade à qual ele está oficiosa ou oficialmente ligado.
Dom Lourenço até já escreveu um artigo contra o sede vacantismo. Mas, contraditoriamente, ele repetiu as teses esdrúxulas e cheirando a sede vacantismo de Dom Williamson, afirmando que o depósito da fé passou de Roma para a FSSPX, e que o posto de direção da Igreja, agora, é da FSSPX.
Em  artigo intitulado "Corre, corre! Vão levantar as excomunhões!", Dom Lourenço se mostra contrário às conversações que Dom Fellay e a FSSPX sempre solicitaram de Roma, e chega ao cúmulo de considerar que enquanto estiver vivo um só perito do Concílio Vaticano II, será inútil qualquer conversação com Roma. Ora, Bento XVI foi perito no Concílio Vaticano II. Portanto, Dom Lourenço espera que Bento XVI morra para que seja possível fazer algo útil.
Eis suas palavras:

"Na minha opinião, enquanto viverem os bispos que "fizeram" Vaticano II, mesmo se na época eles eram apenas padres peritos, convidados ao concílio, não veremos um resultado prático de qualquer tipo de conversa" (Dom Lourenço Fleichman, Corre, corre! Vão levantar as excomunhões!).
 
Para esse monge sem mosteiro, sem prior e sem abade, quase parece que seria indesejável haver um papa a quem se tivesse que obedecer.
Para ele, de nada adiantaria que Bento XVI retirasse as excomunhões de 1988, que condenasse o Vaticano II e a Missa nova.

"E se Roma reconhecer que o concílio é cheio de erros e ambigüidades? Vai mudar alguma coisa no ambiente, no espírito de Assis, na imensidão da obra pós-concíliar que nada tem de católica?" (Dom Lourenço Fleichman, Corre, corre! Vão levantar as excomunhões!).
 
Se Bento XVI não condena o Concílio Vaticano II, o Papa é herege. Se condena o Vaticano II, nada adianta.
O que adianta, então?
E Dom Lourenço cita Corção para por em dúvida a restauração da Igreja que Bento XVI está promovendo, dizendo-a impossível, já que Corção teria dito:

"Já dizia Gustavo Corção que toda demolição tem algo de definitivo. Não se restaura o que foi por terra". (Dom Lourenço Fleichman, Corre, corre! Vão levantar as excomunhões!).
 
Esquece-se Dom Lourenço que Jesus disse:

"Ái de vós que destruís o templo de Deus, e Eu o reconstruirei em três dias" (São Mateus, XXVII, 40).
Será que Dom Lourenço não leu o que está escrito no Evangelho e na Sagrada Escritura?:

"Depois disto, voltarei e reedificarei o tabernáculo de DavI que caiu, e repararei as suas ruínas e o levantarei"
(Atos, XV,16)
As forças secretas decidiram demolir a Igreja Católica. No Concílio Vaticano II se promoveu sua auto demolição.

"Quantas maldades cometeu o inimigo no santuário! (Durante as Missas) E os que Te odeiam, gloriam-se no meio da tua solenidade" (Sl. LXXI, 3-4).
"Puseram fogo no teu santuário; na terra profanaram o tabernáculo do teu nome. Disseram em seu coração com os das suas parentelas: façamos cessar na terra todos os dias de festa consagrados a Deus" (Todos os domingos, profane-se a Missa) (Sl. LXXI, 7 e 8).
 
Deus vai reparar as suas ruínas.
Deus vai restaurar o tabernáculo.
Pelas mãos do Papa. Pelas mãos de Bento XVI.
Rezemos pelo Papa Bento XVI que hoje combate quase que só.
E rezemos por Dom Lourenço Fleichman. Para que ele volte atrás. Para que ele também tenha a nobreza sublime que inspirou Dom Williamson em seu pedido de perdão ao Cardeal Castrillón e ao Papa Bento XVI.
 
São Paulo, 30 de Janeiro de 2009.
Orlando Fedeli
 

 
Corre, corre! Vão levantar as excomunhões!
 
Dom Lourenço Fleichman OSB
 
Percorrendo nesses dias os sites e blogs ligados à Tradição, nota-se um certo frenesi em torno do levantamento das excomunhões de Mons. Marcel Lefebvre, de Dom Antônio de Castro Mayer e dos quatro bispos da Fraternidade São Pio X. Tenho mesmo a impressão que alguns andam fazendo profecias, doidos para verem suas previsões (enfim) darem certo.
Não posso deixar de comparar essa curiosidade, essa excitação, com o fenômeno Barack Obama, que sacode hoje o mundo político. Aos olhos da multidão, Obama é deus e Bush é o diabo. Obama é o deus que aparece para solucionar todos os problemas e Bush teria sido o causador de todos os males. No mundo religioso, o levantamento das excomunhões é visto como a solução de tudo, e já não se admite a idéia de se preferir alertar para o perigo que nos espera na próxima esquina. Ao contrário: de repente, todos esquecem do modernismo de Bento XVI, dos graves erros que se encontram nas suas duas encíclicas, etc. e passam a lidar com Roma como se, de fato, nós fôssemos culpados por alguma divisão, como se fôssemos fanáticos, retrógrados ou outro epíteto que gostem de nos aplicar.
A Permanência é uma instituição que nunca se deixou levar pelo sentimentalismo, pautando sua análise da crise da Igreja e do mundo, em primeiro lugar, na fé. Que o mundo desabe, que os grandes abusem de sua força para nos ameaçar, que nos excomunguem. .. não importa o que devemos sofrer por amor da Verdade e da Fé. E recusaremos sempre a calúnia dos que nos chamam de fanáticos ou "fundamentalistas", pois não há nada que possa ser anteposto ao amor de Cristo.
Levanta-se, então, essa multidão de curiosos e nos aponta o dedo dizendo que preferimos continuar excomungados. É fácil se equivocar tirando essa conclusão e eu poderia não perder meu tempo com isso. Mas é preciso alertar as almas que se deixam conduzir facilmente por este ambiente de euforia: para o verdadeiro católico não existe excomunhão e não existe levantamento de excomunhão. Nós não somos culpados de heresia se recusamos os erros de Vaticano II. Eles é que são. Nós não somos culpados de Cisma, se recusamos união à Roma modernista; eles é que se separaram da Igreja de sempre, criando uma nova religião. Nós não temos que nos mover para voltar a lugar nenhum, pois nunca saímos do seio da Igreja; eles saíram, e devem voltar, um dia, pela graça de Deus.
Se em vez de ficarmos dando gritinhos de alegria porque o papa vai levantar as excomunhões, como se isso mudasse realmente alguma coisa na nossa alma,  nós olharmos para esse fenômeno com os olhos da fé e a paz do coração, veremos o seguinte quadro:
- Roma se sentirá feliz porque usou de sua paternidade, boa vontade, misericórdia ou outro sentimento que queiram atribuir à bondade infinita do papa, como gostam de dizer.
- Os fiéis progressistas olharão para nós com ares de curiosidade, talvez como filhos que vissem, de repente, chegar um filho adotivo, bastardo, abandonado: coitadinho!
- Os fiéis "ligados a um sentimento mais tradicional", de Campos, IBP, Barroux, que fizeram acordos com o Vaticano e aceitaram para sempre a missa nova e tantos erros de Vaticano II, poderão olhar para nós com uma mistura de decepção e de arrogância. Afinal, a Fraternidade terá suas duas condições prévias atendidas, e não precisou mover nem uma palha em relação a Vaticano II. Por outro lado, estão tão imbuídos desse ambiente modernista que poderão desprezar a esses católicos que se obstinam a manter-se longe do concílio e da sua obra nefasta.
- Finalmente, os fiéis da Tradição devem continuar a viver suas vidas de católico sem tomar conhecimento desse mundo louco em que se transformaram as paróquias e obras de Vaticano II. Não podemos pôr em risco a nossa fé, só porque Roma levantou as excomunhões. Nada, absolutamente nada nos fará aceitar a missa nova, o ecumenismo, a liberdade religiosa, os discursos cheios de otimismo com os direitos humanos e coisas mais. A única coisa que muda com esse ato do papa, é que a Fraternidade fica à disposição do Papa para se sentarem à mesa e discutirem em termos de verdadeira teologia, os desmandos desse concílio. Na minha opinião, enquanto viverem os bispos que "fizeram" Vaticano II, mesmo se na época eles eram apenas padres peritos, convidados ao concílio, não veremos um resultado prático de qualquer tipo de conversa. E se Roma reconhecer que o concílio é cheio de erros e ambiguidades? Vai mudar alguma coisa no ambiente, no espírito de Assis, na imensidão da obra pós-concíliar que nada tem de católica? Já dizia Gustavo Corção que toda demolição tem algo de definitivo. Não se restaura o que foi por terra.
O que sobra? Sobra a boa vontade de muitos fiéis e padres que nos hostilizam porque não temos o carimbo do Vaticano na nossa carteirinha de católico. Até certo ponto, pode-se imaginar uma relação mais amena com certos bispos, padres e fiéis. Convenhamos, é muito pouco para tanta festa, pois não significa que tenham entendido o fundo da questão. Mas sobra também o risco enorme que, mais uma vez, correm os padres e fiéis da Tradição, pois uma manobra da Roma modernista pode surpreender a muitos, cegando-os, como foram cegos os que fizeram acordos com Roma. Convenhamos, é muito sério para toda essa excitação. Se rezamos quase dois milhões de terços nessa intenção, está na hora, agora, de rezarmos para que Nosso Senhor nos preserve de mais uma dolorosa divisão.
Dom Lourenço Fleichman.
 
Fonte: http://www.permanencia.org.br/revista/atualidades/decreto_apresenta.htm (destaques nossos) 
 

    Para citar este texto:
"Comentando um decreto"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/comentando_decreto/
Online, 26/05/2017 às 06:18:59h