Igreja

Carlos Magno, a Carta Européia e a decepção de João Paulo II
Marcelo Fedeli


"Procurai primeiro o Reino de Deus e sua justiça
e tudo o mais vos será dado por acréscimo"
(Mt 6, 36)

"A vontade de Deus é a nossa paz" (S. Gregório Nazianzeno)

A agência de notícias ZENIT em 17 de dezembro passado divulgou comentários de Sua Santidade, o Papa João Paulo II, sobre o texto da "Carta dos Direitos Fundamentais da União Européia", elaborada para o início do terceiro milênio, em que ele lamenta não haver, naquele documento, "referência alguma a Deus, fonte suprema da dignidade do homem e dos seus direitos fundamentais". Os comentários foram extraídos da "Mensagem de João Paulo II" por ocasião da comemoração dos 1200 anos da coroação do imperador Carlos Magno pelo papa Leão III, ocorrida no Natal do ano 800.

Nela o Papa manifesta sua "preocupação pelo porvir do continente... e decepção diante dos direitos da pessoa e da família ameaçados na Europa", lançando um alerta: "Não se pode esquecer que foi a negação de Deus e dos seus mandamentos que criou, no século passado, a tirania dos ídolos, expresso pela glorificação de uma raça, de uma classe, do Estado, da nação, do partido, no lugar de Deus vivo e verdadeiro".

Expõe ainda Sua Santidade sua preocupação quanto aos direitos da pessoa e da família: "ameaçados em muitos Estados europeus pela política favorável ao aborto,... à eutanásia e a certos projetos de lei em matéria de tecnologia genética não suficientemente respeitosos do caráter humano dos embriões".

Em seguida, João Paulo II faz um paralelo entre a unidade européia de Carlos Magno e a União Européia atual, afirmando quanto à primeira: "É a grandiosa síntese entre a cultura da antigüidade clássica, basicamente romana, e as culturas dos povos germânicos e celtas, síntese baseada no Evangelho de Cristo, que caracteriza a poderosa contribuição oferecida por Carlos Magno à formação do continente".

Com Carlos Magno, prossegue o papa: "A Europa, que não possuía uma unidade definida sob o ponto de vista geográfico, torna-se um continente, pela simples adesão à fé cristã. Posteriormente ela irá difundir seus valores em quase todas as outras partes da terra, para o bem da humanidade. Ao mesmo tempo, não podemos deixar de acentuar que as ideologias que provocaram rios de lágrimas e de sangue no decorrer do século XX, surgiram da própria Europa, quando ela se esqueceu dos fundamentos cristãos".

"O compromisso que a União Européia assumiu de formular uma "Carta de direitos fundamentais," continua o Papa, "constitui uma nova tentativa de sintetizar, na aurora do terceiro milênio, os valores fundamentais nos quais deve inspirar-se a convivência dos povos europeus. (...) Sobre isto, não posso esconder minha decepção pelo fato que não tenha sido inserido no texto da Carta nenhuma referência a Deus, fonte suprema da dignidade da pessoa humana e dos seus direitos fundamentais. É pois à luz das desgraças ocorridas no século XX que se compreende como os direitos de Deus e o dos homens se afirmam ou coincidem."

Acrescenta ainda Sua Santidade: "Não basta enfatizar com grandes palavras a dignidade da pessoa, se esta vem a ser gravemente violada nas próprias normas da ordem jurídica. A grande figura do imperador Carlos Magno lembra as raízes cristãs da Europa (...). À procura da sua identidade, a Europa não pode prescindir de um enérgico esforço de recuperação do patrimônio cultural deixado por Carlos Magno e conservado por mais de um milênio".

Referindo-se ao congresso e à exposição sobre Carlos Magno, previstos para o dia 16 de dezembro, Sua Santidade conclui:"A iniciativa científica constitui uma preciosa contribuição pela redescoberta daqueles valores nos quais se reconhece a 'alma' mais verdadeira da Europa", enviando sua benção aos participantes. Eis, em resumo, os principais pontos abordados pelo Papa em sua Mensagem de 14 de dezembro, relativos à "Carta dos direitos fundamentais" da União Européia, cujo objetivo primordial é estabelecer um "futuro de PAZ baseado nos valores comuns".

O que mais chama a atenção nessa Mensagem é o conjunto da crítica de Sua Santidade à "Carta dos direitos fundamentais da União Européia", que pode ser resumido nos seguintes tópicos:

I - Relativismo religioso: na "Carta" não há referência alguma a Deus;

II - Relativismo moral: crítica à permissão implícita do aborto e da eutanásia, bem como a "certos projetos de lei em matéria de tecnologia genética não suficientemente respeitosos da qualidade humana dos embriões";

III - Oposição da paz de Cristo à "paz" da "Carta": a paz não será alcançada somente enfatizando "com grandes palavras a dignidade da pessoa, se esta é depois gravemente violada pelas próprias normas da ordem jurídica".

IV - Enaltecimento dos valores cristãos da alta Idade Média;

V - Ausência de qualquer elogio à "Carta Européia".

I - RELATIVISMO RELIGIOSO

Na "Mensagem", Sua Santidade faz um paralelo entre a unificação da Europa feita por Carlos Magno e a atual, apresentando aquela como tendo por base o Evangelho de Cristo, salientando que, sem esta base, a "Carta" atual não passa de um mero palavreado.

Quais são os fundamentos da "Carta Européia", criticados por Sua Santidade, que diferem da obra executada por Carlos Magno?

1. Origem do universo e do homem

Basicamente, seguindo a crítica de João Paulo II, são dois os fundamentos falsos da nova Carta Européia: o ateísmo (decorrente do relativismo religioso) e, consequentemente, o relativismo moral (acrescentaríamos ainda, como decorrente do ateísmo, a mentira do igualitarismo, outra fonte de injustiças).

Ora, esses princípios regeram todas as Declarações dos Direitos Humanos e congêneres, desde a Revolução Francesa (1789) até hoje, incluindo a da ONU (1948), a da África, bem como a da União Européia atual. Portanto, a crítica de Sua Santidade atinge, implicitamente, a todas as "Declarações" anteriores.

Todas as Declarações dos Direitos Humanos concentram seus "considerandos" na negação implícita da existência de Deus, Uno, Eterno e Trino, Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, conforme definido e resumido no primeiro artigo do Credo. Assim, se não foi Deus quem criou o universo e o homem, estes são o resultado de um processo evolutivo contínuo e dialético.

Para a atual "Carta Européia", na fase atual da evolução, o homem é o supremo ser do universo. Sendo supremo, ele está sujeito somente às leis que ele mesmo promulga. Consequentemente, concluem, os Dez Mandamentos não passam de uma subordinação irracional a um Deus ultrapassado, o do Antigo Testamento. Agora os tempos são outros! Não há lei moral, e a lei natural — já que não há leis fixas nessa natureza humana em constante evolução — depende puramente dos interesses do homem. Respeitando as leis que ele mesmo promulga, e leis aceitas pela maioria, o homem atingirá um estágio mais evoluído em que haverá paz perfeita e completa felicidade. E, como todo ideal utópico, a "Carta" coloca o esperado reino de felicidade terrena no futuro: será a civilização do Amor do terceiro milênio que se inicia! Mas... quando?

Com tais princípios, seria possível haver na "Carta" alguma referência a Deus, conforme definido e entendido no primeiro artigo do Credo? E se houvesse uma simples referência, a que "deus" poderia se referir uma "Carta" que parte do princípio da sua inexistência?

2. Paralelo entre a doutrina da Igreja e a doutrina da "Carta"

Quais os princípios do Evangelho de Cristo que, na Idade Média, serviram de base à união européia de Carlos Magno, enaltecidos por João Paulo II em sua Mensagem de 14 de dezembro último?

A resposta é simples: a concepção do homem e da vida segundo os ensinamentos da Santa Romana Igreja! Ou seja: o homem foi criado por Deus para conhecê-lo, amá-lo e servi-lo neste mundo, para depois usufruir da sua glória no paraíso. Esta é a real dignidade do homem: criatura de Deus, feito à Sua imagem e semelhança, como acentuou Sua Santidade (hoje, muitos dos que apregoam os direitos humanos e exaltam a dignidade do homem, afirmam que ele veio do macaco!... Assim, aquela excelsa dignidade não ultrapassa a altura da... mais alta árvore!)

Além do entendimento racional da existência de Deus, praticava-se, no tempo de Carlos Magno, a virtude da Fé, na aceitação dos seus mistérios.

Ora, as "Declarações dos Direitos do Homem", eliminando Deus e substituindo-o pelo Homem, a este transferem a Fé, como supremo senhor do universo, cuja dignidade lhe é inerente pelos próprios méritos de ser Homem, subordinado somente às leis por ele elaboradas e aprovadas, tornando, assim, o Homem, o deus da nova religião, da futura civilização do Amor! O Homem passa a ser o objetivo do culto "Religioso", em vez de ser o servidor de Deus que o criou e redimiu.

Como regra geral da vida, a Europa de Carlos Magno seguia as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, expressas nos Evangelhos: "Procurai primeiro o Reino de Deus e sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo" (Mt 6, 36).

Nosso Senhor nos deu uma ordem, "procurai", imediatamente seguida do seu objetivo, "o Reino de Deus e sua justiça", concluindo com o resultado que teremos, "tudo o mais vos será dado por acréscimo". Assim, quando cumprimos a ordem de Nosso Senhor, orientados por Pedro e pelos seus sucessores, mesmo para a nossa vida material, alcançaremos tudo, incluindo a paz, tão falada, tão procurada, tão ansiada ... e nunca tão distante da humanidade como no "pacífico" século XX que acaba de expirar, cujas mortes em guerras foram avaliadas em torno de 180 milhões de pessoas! (1)

Mas, para a civilização da ONU e da "Carta", fundamentadas na "Declaração dos Direitos Humanos", "Decálogo" da nova religião do Homem, o que se deve buscar primeiramente é o Reino do Homem, sem o Deus verdadeiro, como disse o Papa! A esperança, portanto, é depositada no Homem! Assim, não é de se estranhar que o novo milênio, apesar de tantas mensagens de paz, já se iniciou com a possibilidade de guerra declarada entre palestinos e Israel, como prelúdio de outras, bem como continua com morticínios em diversos países e com extrema violência nas grandes cidades do mundo! Onde há paz neste início do terceiro milênio? Quem vive em paz nos dias atuais?

(Curiosamente, para o materialista século XX, contrariando frontalmente Marx, mito idolatrado e infalível até para certos membros da hierarquia eclesiástica, a causa dessa guerra entre judeus e árabes, não é, de modo algum, o fator econômico, mas Jerusalém, que não tem petróleo, nem ouro nem diamantes! E, em Jerusalém, o motivo é um monte, o Monte Santo, considerado sagrado por judeus e árabes!... Que explicação daria o infalível Marx e seus seguidores para este caso?...)

A Europa de Carlos Magno procurava seguir os fundamentos do Evangelho de Cristo, observando também outro mandamento decorrente do primeiro: amar o próximo como a si mesmo, por amor a Deus! Na observância deste segundo preceito, se encontra a virtude da caridade, fundamentada na desigualdade dos homens.

Seguindo ainda as palavras de Cristo e os ensinamentos da Igreja, a sociedade européia de então tinha bem claro que Deus criou os homens à sua imagem e semelhança, e que neles se refletem qualidades específicas de Deus e em graus diferentes! Portanto, embora essencialmente iguais, formados de corpo e alma, os homens são acidentalmente diferentes, tanto em relação às características do corpo, como, e principalmente, às características de cada alma.

Desta natural desigualdade acidental dos homens decorre a formação, também natural, de toda hierarquia social, com direitos e deveres diferentes, levando em conta que a maiores deveres devem corresponder maiores direitos, conforme Nosso Senhor nos diz no Evangelho: "A quem muito foi dado, muito será exigido" (Lc, 12, 48).

Ora, todas as "Declarações dos Direitos Humanos", como decorrência do seu ateísmo, afirmam que os homens são iguais, sem levar em conta as diferenças acidentais. E os homens de nosso tempo, incluindo muitos representantes da hierarquia eclesiástica, aplaudem e incensam aquele irreal princípio igualitário.

A desigualdade social propicia a prática da virtude da caridade, pois só se pode auxiliar o próximo quando há diferenças. E, neste ponto, a época que se inicia com Carlos Magno deixou inúmeros exemplos de como ela reconhecia no pobre, no velho, no inválido, o próprio Cristo, e, por amor a Ele , os tratava com verdadeira caridade.

A cidade de Beaume (Borgonha - França) é um exemplo da forma como os necessitados eram considerados naquela época. Compare-se o edifício dos pobres lá ainda existente com os raros albergues de hoje, supremamente supervisionados pelo filantrópico Estado, incluindo o modo como neles são tratados e recebidos os nossos pobres... Aliás, a mentalidade de construir os chamados Hospitais, na França, durou da Idade Média até a Revolução Francesa, quando o citoyen, liberado e de "Declaração" em punho, em nome da Fraternidade, suprimiu a caridade, instaurando a filantropia estatal: todos os hospitais de então passaram para o Estado... e, logo depois, foram fechados! Nasceu o Reinado da filantropia e a Democracia da guilhotina, prelúdio dos fornos de Auschwitz.

A ONU e congêneres, considerando o homem "deus" e todos os homens absolutamente iguais, conclui ser contra a dignidade do homem a prática da antiga caridade pregada por Cristo no Evangelho. Assim, a caridade, já tão esquecida e deformada hoje como virtude e como palavra, é substituída pela atéia filantropia, ou seja, a ajuda material e anônima, de preferência coletiva, a vagos anônimos carentes de certos bens materiais, de alguma "comunidade", por pura solidariedade e não por amor a Deus!

Assim, a "Declaração dos Direitos Humanos" e seus rebentos, seguindo os traços da sua antecessora de 1789, eliminando Deus, substituiu as virtudes teologais, a , a Esperança e a Caridade, pelo ideal ateu e utópico da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, ideal que também prometia uma era de felicidade completa para o futuro século XIX, mas que, na realidade, como afirmou Sua Santidade, "causaram rios de lágrimas e de sangue (até) no decorrer do século XX". Que oceano de sangue e de lágrimas nos pressagia a "Civilização do Amor"...sem Deus?

Nos comentários de Sua Santidade há, também, uma implícita crítica ao Ecumenismo que, por natureza, é relativista. Ou haverá algum ecumenista que se oponha à concepção relativista das diversas "Declarações"? Diríamos mais: há uma união profunda entre o movimento ecumênico religioso e as "Declarações".

O que é o Ecumenismo senão a condensação do relativismo religioso da Reforma Protestante com a doutrina do liberalismo romântico da revolução Francesa, acrescidos do ideal igualitário marxista? São princípios idênticos àqueles que inspiraram as "Declarações". Os mesmos que, sob o manto da doutrina Modernista condenada por Pio IX e S. Pio X penetraram na Igreja em meados do século XIX estendendo seus malefícios até hoje.

Tanto as "Declarações" como o Modernismo difundido dentro da Igreja Católica concebem a alma (ou a "mente"?...) do homem como se nela houvesse diversos "compartimentos" estanques e independentes. Assim, há o "compartimento" religioso, o teológico, o filosófico, o científico, o crítico, o político, o histórico, o social, etc., que podem se manifestar diversamente, sem relação de causa e efeito entre si.

Dessa forma, o "compartimento" dito "científico", por exemplo, defendendo de pés juntos e dogmaticamente a evolução da espécie, nega, implicitamente, a existência de Deus, recusa a criação de Adão e Eva e, portanto, nega o pecado original. Consequentemente, nega a necessidade da Redenção por meio de Cristo!... que, por sua vez, é apresentado, pelo "compartimento" histórico, como um "homem" ou, até um "grande homem", visto por alguns como um filósofo ou um profeta ou um revolucionário e, pela Igreja Católica, como Filho de Deus"! Curiosamente, de cada "compartimento" sempre são lançados ataques à única doutrina da Igreja!

A doutrina subjacente nas "Declarações", como no Ecumenismo, concebe a religião como uma experiência, ou um sentimento, ou uma tradição, que se apresenta no "compartimento" religioso do homem, resultante de manifestações diferentes de uma "mesma divindade" gnóstica.

Portanto, todas as religiões teriam uma parcela daquela "divindade", nenhuma podendo-se dizer a única verdadeira!... Daí a gritaria geral contra o recente documento "Dominus Iesus"!...

 II - RELATIVISMO MORAL

Outro ponto abordado por Sua Santidade, decorrente do relativismo religioso, é o relativismo moral, referente ao aborto, à eutanásia e a "determinados projetos de lei em matéria de tecnologia genética, não suficientemente respeitosos da qualidade humana dos embriões", como afirmou o Papa.

De fato, o parágrafo 2 do Artigo 3 da "Carta Européia", "Direito à integridade física da pessoa", estabelece:

"2. No âmbito da medicina e da biologia devem ser especialmente respeitados:

- a decisão livre e informada da pessoa interessada, conforme as formas estabelecidas pela lei".

Ora, isso é decorrência natural da substituição de Deus e dos seus direitos, pelo Homem e suas liberdades. Eliminando Deus, a concepção e a morte não passam de puro processo biológico que o homem pode utilizar como bem entende! A mulher, sendo dona do seu corpo, é dona daquele "futuro ser", do qual, conforme sua decisão, poderá, ou não, permitir o nascimento!...Assim, milhões de inocentes e indefesos seres são mortos, poucos dias após sua concepção, ou em fase mais desenvolvida (ou, quem sabe, até mesmo após o nascimento), simplesmente por não serem desejados pela mãe, "dona suprema da vida"!

No caso do aborto, o cinismo da "Carta", bem como dos adeptos da sua prática, é indescritível: primeiro, estabelece que todos os seres são iguais e têm direito à vida... depois implicitamente afirma que o embrião, o feto ou o recém nascido não são seres humanos, portanto podem ser eliminados!

Para isso justificar, seus adeptos engenham teorias as mais diversas: por exemplo, como preconizado pela ex-primeira dama dos Estados Unidos ou pela atual prefeita de S. Paulo, que até determinado número de semanas de gravidez, o aborto pode ser feito, pois não existe ainda um ser humano... Mas, perguntem a elas, ou à ONU, se é lícito apanhar os ovos que as tartarugas depositam nas praias da.... Bahia, por exemplo... Protestariam, defendendo a vida animal e a ecologia!

Quase todos os países da Europa já legalizaram a prática do aborto e caminham para a legalização da eutanásia, com variações apenas circunstanciais que, com toda a justiça, João Paulo II condenou formal e totalmente.

Como dizia o salmista, "abyssus abyssum invocat" (Sl, 41, 8): um abismo chama outro abismo. Uma vez suprimido o princípio fundamental da existência de Deus, os desmandos não têm mais limites, avolumando-se em escala e em profundidade, até se chegar a extremos jamais imaginados, como afirmava um médico abortista em 1974:

"Nós vislumbramos o tempo em que a mãe terá o direito de eliminar seu filho até algumas horas após seu nascimento. Quando um bebê nasce, sua mãe deveria poder examiná-lo, para se certificar da sua conformação, e decidir se ele deve ou não viver; mas há muito caminho para se percorrer antes que isto seja admitido pelo conjunto da sociedade...É preciso avançar passo a passo. O que virá em seguida, é a eutanásia. Nós pensamos em comprimir a vida ... de modo que a existência de todos termine por volta dos seus sessenta anos e que a maior parte da população esteja entre vinte e cinqüenta anos. Tudo isto num quadro da potência necessária para remodelar o mundo" (extrato do livro "Babies for burning" de Michael Litchfield e Susan Kentish, publicado em Londres, em 1974). (2)

Na mesma linha, Jacques Attali, ex-conselheiro econômico do rosado socialista François Mitterrand, declarou em entrevista em 1980:

"O homem vive hoje mais tempo que no passado. Ao ultrapassar os 60/65 anos, ele deixa de produzir, tornando-se, assim, custoso à sociedade... Portanto, a eutanásia será um dos instrumentos essenciais das nossas sociedades futuras. Máquinas permitirão eliminar a vida quando ela se mostrar insuportável, ou economicamente de alto custo". (apud "L'avenir de la vie", de Michel Salomon, ed. Seghers - ISBN- 2-221-50237-X) (2)

Assim, seguindo os passos iniciados pelo criminoso Hitler, o filantrópico e rosado socialista Jacques Attali, ex-conselheiro do não menos bondoso, rosado e humaníssimo governo socialista Mitterrand, eleito com todo o apoio da Democracia Cristã, anunciava como ideal: eliminar todas as pessoas acima dos 60/65 anos, doentes ou não, para.diminuir... o custo social!... Este é o ideal da filantropia atéia para o bem da "comunidade"!...(O Sr. Jacques Attali, como socialista e homem de boa vontade, certamente devia ser contra a pena de morte infligida a criminosos...abaixo de 60 anos!).

Esta é uma das facetas da socialista civilização da Paz e do Amor, sem Deus, tão apregoada pelos filântropos e rosados apóstolos dos Direitos Humanos, a ser implantada neste terceiro milênio, com a colaboração dos homens de boa vontade, infelizmente apoiados muitos membros da hierarquia eclesiástica!

 III - CONCEITO DE PAZ DE CRISTO E DA "CARTA EUROPÉIA"

 Um dos considerandos da "Carta Européia" é a paz, outro termo cinicamente deformado pelos aludidos filântropos apóstolos dos "direitos humanos". Os falsos profetas clamam: "Pax, pax! Et non est pax" (Ez. 13, 16).

Todos, hoje, falam de paz, todos a apregoam. Nunca se empregou tanto esse termo como no século XX! Mas, que paz se procura? Seria a mesma paz pregada por Cristo?

Sto. Agostinho definiu a paz como a tranqüilidade na ordem. Portanto, supõe-se que, para haver paz, é preciso manter-se uma determinada ordem de certos elementos. Por exemplo, no âmbito puramente natural: a saúde é a paz do corpo. Ou seja, quando os diversos componentes do nosso organismo atuam em perfeita ordem, gozamos de perfeita saúde. A doença é a desestabilização dessa ordem. Portanto, há uma ordem natural, ou lei natural, que rege nosso organismo, e que devemos seguir, para mantermos a saúde.

Ora, o homem simplesmente constata essa lei, ele não é seu autor. Portanto, a lei natural, provindo do próprio Criador da natureza, ou seja de Deus, deve ser respeitada pelo homem; caso contrário, não haverá ordem e, consequentemente, não haverá paz.

A lei moral decorre diretamente da lei natural. E, da lei moral, todos temos clara e consciente noção de que o bem deve ser feito e o mal evitado, estampada por Deus em nossas almas, e resumida nos Dez Mandamentos. O desrespeito à lei moral acarreta uma desordem tanto para o indivíduo como para a sociedade, que abala profundamente os alicerces da paz, podendo levar o mundo até à guerra.

Assim, para atingir e manter a paz individual e social, o homem precisa manter a tranqüilidade dessa ordem moral; caso contrário, não haverá paz.

Portanto o homem, seguindo a lei natural e a lei moral que dela deriva, estabelecidas por Deus, seu criador, consegue alcançar a tão desejada felicidade já nesta vida. Por isso Nosso Senhor disse: "Procurai primeiro o Reino de Deus e sua justiça, e tudo o mais vós será dado por acréscimo". Esta é a paz de Cristo!

A paz é alcançada fazendo-se a vontade de Deus. Daí S. Gregório Nazianzeno afirmar que "A vontade de Deus é a nossa paz"!

Cristo disse: "Eu vos deixo a minha paz, eu vos dou a minha paz. A paz que eu vos dou não é a paz que o mundo vos dá" (Jo 14, 27)

A paz preconizada pela ONU ou pela "Carta Européia" seria a mesma paz pregada por Cristo, na procura da justiça de Deus, ou é a apregoada por aqueles que, segundo o salmista, "...praticam a iniquidade, que falam de paz com seu próximo, mas seus corações só cuidam em fazer o mal"? (Sl 27, 3) Acaso, as "Declarações dos Direitos do Homem" trouxeram realmente paz ao mundo?...

 IV - UNIÃO EUROPÉIA DE CARLOS MAGNO

Nestes tempos pós conciliares é raro ouvir-se referências de representantes da hierarquia da Igreja ao passado, e muito menos a um passado tão longínquo como o medieval.

Dizia João XXIII que a Igreja deve se "aggiornare", ou seja, se atualizar, se adaptar aos "novos tempos", voltar-se totalmente para o homem de hoje, como ele e Paulo VI tantas vezes afirmaram. Expressões repetidas, depois, por grande parte da hierarquia eclesiástica, cujo enfadonho e triste eco chega ainda aos nossos dias. Tornou-se até moda simpática dos Modernistas o emprego dessas palavras quase "mágicas"!

Assim, causou certa surpresa João-Paulo II referir-se, e elogiosamente, a um passado tão distante quanto o de Carlos Magno, e tão desprezado pelo tecnicamente avançadíssimo século XX... o qual, em geral, não entende um verso sequer de Dante Alighieri, e nem idéia faz da "Summa Teológica" de S. Thomás da Aquino. Mas... fomos à Lua, ... assistimos TV... e mascamos chiclete!..

O grande papel da Igreja na formação da Idade Média foi o de unir o que de bom havia na civilização e cultura romanas aos bons costumes dos povos bárbaros, convertendo-os ao catolicismo, como disse Sua Santidade: "É a grandiosa síntese entre a cultura da antiguidade clássica, basicamente romana, e as culturas dos povos germânicos e celtas, síntese baseada no Evangelho de Cristo, que caracteriza a poderosa contribuição oferecida por Carlos Magno à formação do continente".

Mas, será que naquela época, fundamentada no Evangelho de Cristo, não havia problema algum, e tudo era um verdadeiro paraíso? Evidentemente, não! Havia problemas e muitos. Apesar de toda a influência e benéfica vigilância da Igreja, apesar de inúmeros santos em todas as classes sociais, não podemos esquecer que a vida, por causa do pecado original, é um "vale de lágrimas", como recitamos na Salve Rainha! Assim, pretender estabelecer o paraíso na Terra, mesmo respeitando as leis de Deus, é pura utopia! Que se dirá, então, de uma sociedade que elimina Deus da sua vida, e cinicamente desafia e afronta suas leis?

Como é impossível haver o paraíso terrestre, a Europa fundada por Carlos Magno também apresentou problemas e passou por dificuldades que causaram seu desmoronamento no decorrer dos séculos. Assim, um dos problemas que houve, e que contribuiu para a ruína da estrutura social daquela época, foi o das heresias, surgidas do interior da própria Igreja, que posteriormente culminaram com Lutero, alimentado pelo humanismo renascentista, que já substituía Deus pelo homem!

Se houve problemas na Europa iniciada com Carlos Magno, apesar da mentalidade teocêntrica da época, que paz se pode esperar da Europa e do mundo ateu de hoje que, dentre outras coisas, legaliza o aborto e a eutanásia, bem como a "merveille du siècle!" união de homossexuais, porta aberta para a pedofilia?

 V - AUSÊNCIA DE ELOGIO À "CARTA EUROPÉIA"

Esse aspecto é, realmente, surpreendente pois, nos últimos quarenta anos, pelo menos, os pronunciamentos papais referentes à "Declaração Universal dos Direitos Humanos", inspiradora da atual "Carta Européia", foram, em geral, sempre elogiosos, mesmo quando, branda e suavemente, lamentavam a ausência de referência a Deus, incluindo nisto algumas declarações até do próprio João-Paulo II (3).

Nos pronunciamentos de Paulo VI, em especial, encontramos torrentes de referências enaltecendo tanto a ONU como suas novas "Tábuas da Lei": a "Declaração Universal dos Direitos Humanos". As raríssimas críticas de Paulo VI a ela limitaram-se, quando muito, também à ausência de referência a Deus, e foram como gotas d'água no imenso oceano de louvores como mostra, por exemplo, o discurso que ele pronunciou na própria ONU, em 04 de outubro de 1965, em que chegou a afirmar: "como especialistas em humanidade trazemos a esta Organização o sufrágio dos nossos últimos predecessores e de todo o episcopado católico, e o Nosso, convencidos que estamos de que esta Organização (ONU) representa o caminho obrigatório da civilização moderna e da paz mundial." (o negrito é nosso).

Ora, Cristo, Príncipe da Paz, nos deixou a sua paz; não a paz do Mundo, a paz da ONU!

Onde Paulo VI colocou Cristo, Príncipe da Paz, na afirmação acima citada? Onde Paulo VI colocou a Igreja do Príncipe da Paz, do qual ele, sucessor de Pedro, era naquela época Seu representante na Terra? Pena constatar essas ausências ou omissões no discurso de Paulo VI na ONU.

Durante 1965 anos a Igreja sempre ensinou e defendeu, como ora ratificado por João-Paulo II na sua referida Mensagem, que o "caminho obrigatório" de todas as civilizações "e da paz", é Cristo. No entanto, em 04 de outubro de 1965, para Paulo VI, o "caminho obrigatório" da paz seria a ONU... Não causaria surpresa se um padre moderninho incluísse em sua Missa a frase: "A paz da ONU esteja sempre convosco..."!

Outra passagem do mesmo discurso de Paulo VI, ainda como exemplo dos seus excelsos louvores à ONU:

"Graças a vós, glória a vós, que há vinte anos trabalhais para a paz (...). Graças a vós e glória a vós, pelos conflitos que impedistes e que solucionastes"...

Do "Glória a Deus nas alturas...", Paulo VI passou ao "glória a vós" ONU!..."pelos conflitos que impedistes e solucionastes"!... E que conflitos a tão desprestigiada ONU solucionara ou evitara até então, para ouvir de Paulo VI o mesmo "glória" do celestial cântico de júbilo a Deus, entoado pelos anjos na noite em que Cristo nasceu?

Teria sido, por exemplo, o levante anti comunista na Hungria de 1956, em que a população de Budapest foi massacrada pelos tanques soviéticos, sem que a ONU e o Ocidente movessem uma palha sequer? Teriam sido os massacres em Cuba ou em diversos países da Ásia e da África?... Que conflito a ONU solucionara até então, para não dizer depois?

Outra passagem daquele discurso de Paulo VI referia-se à "educação da paz":

"A ONU é a grande escola para esta educação. Estamos aqui na sala magma desta escola; quem aqui se senta torna-se aluno e mestre na arte de construir a paz. Quando vós saís desta sala o mundo vos olha como arquitetos e construtores da paz."...

Carlos Magno não foi "arquiteto" da paz. Ele apoiou a única Igreja de Cristo, em cujo sangue Redentor se funda a verdadeira paz.

Paulo VI, representante de Cristo, Príncipe da Paz, ..."na sala magna da paz da escola" da... ONU!... quase nela matriculando-se, a si próprio e a Igreja, para lá aprender a construir a paz no mundo!... E Cristo, Nosso Senhor, ...será que também teria Ele que sentar-se na "sala magna da escola da paz , da ONU", para apreender a "arte de construir a paz" e, então, poder ser visto "como arquiteto e construtor da paz"?

Yves Chiron, respeitado biógrafo de Paulo VI e favorável até da sua canonização, comenta, sobre aquele discurso, que Paulo VI "reconhece os princípios fundamentais que a ONU colocou na base da sua ação: a Declaração universal dos direitos do homem. Nisto ainda, pela voz de Paulo VI, a Igreja reconhecia implicitamente uma doutrina que ela tinha condenado no final do século XVIII e no século XIX. Ao fim do seu discurso, entretanto, sem que isto parecesse como uma crítica à ideologia dos Direitos do Homem, Paulo VI lembra que "o edifício da civilização moderna deve ser construído sobre princípios espirituais, os únicos capazes de, não somente, sustentá-lo, mas também de iluminá-lo e de animá-lo", ou seja, dos princípios do cristianismo. Esta última referência aparece discretamente." (o negrito é nosso) (4)

Sobre sua visita à ONU, o próprio Paulo VI, posteriormente, fará o seguinte comentário ao seu amigo pessoal Jean Guitton, [autor da obra "la Vierge Marie" (1950), em que afirmava: "... na visita de Maria à sua prima Isabel, a Virgem não sabia que ela ia gerar o Filho de Deus"... (5)]:

"(...) Não era para evangelizar. O discurso que pronunciei (na ONU) situava-se em outro plano, ousaria dizer: no plano de Sócrates. Eu procurei o que era justo e razoável, eqüitativo e salutar, aquilo que todo homem responsável deve pensar" (o negrito é nosso). (6)

Portanto, Paulo VI, segundo ele mesmo, não fora à ONU para evangelizar. No entanto, outro Paulo, o apóstolo S. Paulo, afirmava: "Ai de mim se não evangelizar"... (Coríntios I -9, 16)

Quanto às referências ao discurso de Paulo VI na ONU, alguém poderá ponderar que, naquela ocasião, a Declaração dos Direitos Humanos não previa a legalização do aborto e nem da eutanásia.

É verdade!

Porém, os princípios relativistas, fundamentos da "Declaração" da ONU, haviam sido condenados pelo Magistério Ordinário da Igreja desde o século XVIII e, ainda, arguto como era, será que Paulo VI não seria capaz de deduzir as conseqüências lógicas decorrentes daqueles princípios?

É verdade, também, que após quatro páginas e meia de louvores e incensos à ONU, Paulo VI fez, naquele discurso, uma referência a Deus e uma referência a Cristo, como indicado acima... Só essa referência serviu para melhorar alguma coisa? Ou a ONU e o mundo prosseguiram "tale e quale"?...

Da mesma forma, perguntamos hoje: se na "Carta Européia" houvesse alguma referência a Deus, mudaria alguma coisa? Ou a Europa e o mundo continuariam também "tale e quale"?...

Ainda sobre a histórica visita de Paulo VI à ONU em 1965, dois detalhes:

1- Ele levou, como presente àquele entidade relativista, a rápida e manobrada aprovação conciliar (com reservas) da liberdade religiosa, que já havia sido condenada anteriormente por diversos Papas, como visto. O cardeal Journet, um dos artífices daquela aprovação conciliar, assim resumiu a nova doutrina nela contida :

"Terminou o regime da cristandade... a Igreja e a sociedade civil são duas ordens bem distintas, na ordem temporal a liberdade de professar a religião de sua escolha deve ser reconhecida por todos, salvo se ela realmente destrua a ordem pública". (6)

2 - Embora sem dizer explicitamente, ele insistiu para que a ONU admitisse mais um país no seu seio: a China comunista! (7)

Outro extrato de discurso, agora evangelizador, de Paulo VI:

"Homens, nós vos dizemos neste instante supremo, tornai-vos dignos do divino dom da paz.

Homens, sede homens.

Homens, sede bons, sede sábios, sede abertos à consideração do bem geral do mundo.

Homens, sede magnânimos.

Homens, sabeis ver vosso prestígio e vosso interesse não como sendo contrários, mas como solidários com o prestígio e o interesse dos outros.

Homens, não pensai em projetos de destruição e de morte, de revolução e de subversão; pensai nos projetos do bem estar comum e de sincera colaboração.

Homens, pensai na gravidade e na importância desta hora que pode ser decisiva para o mundo de hoje e de amanhã. E recomeçai a vos aproximar uns dos outros com a vontade de construir um mundo novo. Sim, o mundo dos homens verdadeiros, que não poderá jamais ser tal sem o sol de Deus no horizonte.

Homens, escutai pela nossa humilde e fraca voz ressoar o eco da palavra de Cristo: "Felizes os mansos porque eles possuirão a terra; felizes os pacíficos porque eles serão chamados filhos de Deus" (o negrito é nosso).

As palavras acima foram pronunciadas por Paulo VI não na ONU, nem na FAO, nem em nenhuma outra entidade ou festividade laica: foram pronunciadas em Fátima, no dia 13 de maio de 1967, cinqüentenário das aparições de Nossa Senhora –onde o sol ziguezagueara no horizonte -, na presença da irmã Lúcia, única sobrevivente dos três pequenos videntes e com quem a Virgem falara e deixara suas mensagens. Nessa ocasião Paulo VI "em nenhum momento evocou as aparições e nem o "segredo"! (9) (O negrito é nosso).

Ao final da cerimônia a irmã Lúcia lhe pediu alguns minutos para uma conversa. "Paulo VI, segundo o testemunho do Pe. Almeida, que servia de intérprete, recusou, dizendo: "Vede, não é o momento. E, se quereis me comunicar alguma coisa, dizei ao vosso bispo; será ele a me comunicar; sede bem confiante e bem obediente ao vosso bispo" (10) (O negrito é nosso).

Paulo VI, representante de Cristo na Terra, recusou-se a conversar com aquela a quem, em 1917, a própria Mãe de Cristo e Rainha da Paz, viera do céu e conversara!...

Paulo VI, tão preocupado com o diálogo e com o futuro do mundo, recusou-se a dialogar com a Irmã Lúcia, a quem a Mãe de Cristo dialogara e deixara mensagens justamente sobre o futuro do mundo!...

Ao contrário dos dizeres de Paulo VI na ONU, o único caminho da civilização moderna para a salvação e para a paz, é sua conversão ao Evangelho de Cristo, como a Igreja sempre ensinou, como ora foi ratificado por João Paulo II.

Não é incensando ou compactuando com os erros doutrinários da ONU, da "Carta Européia" e do mundo moderno que alcançaremos a verdadeira paz! Que o passado nos sirva de lição: as tentativas conciliares e pós conciliares de "converter" ou "aggiornare" a Igreja ao mundo, só redundaram em crises tanto à Igreja como ao mundo, conforme, o próprio Paulo VI declarou, no dia 28 de junho de 1972:

"Por alguma brecha, a fumaça de Satanás penetrou no templo de Deus: a dúvida, a incerteza, a problemática, a inquietação, a insatisfação, o afrontamento surgiram.[...] Nós pensamos que o amanhã do concílio seria um dia ensolarado para a Igreja. Mas nós encontramos novas tempestades. Nós cavamos novos abismos ao invés de aplana-los. Que aconteceu?"...(11)

Nossa Senhora em Fátima disse: "se os homens não se converterem (...) a Rússia espalhará seus erros pelo mundo"... Pois bem, em 1917, só a Rússia era atéia... Hoje, com a "Carta", oficialmente é toda a Comunidade Européia!...

Que aconteceu?

E ainda, entre as aparições e a "Carta", tivemos um concílio, o Vaticano II, para adequar a Igreja ao mundo!...

Que aconteceu?

Suplicamos a Nossa Senhora, Mãe de Misericórdia, Rainha da Paz, que auxilie o nosso pontífice, João Paulo II, e toda a Igreja, na árdua tarefa de retorno às seguras colunas da Sagrada Eucaristia e da devoção a Maria, como profetizou D. Bosco, e que a espada do Anjo, da visão de Fátima, seja usada na luta contra os erros do mundo moderno, cumprindo-se assim, e quanto antes, sua última promessa: "por fim, meu imaculado Coração triunfará"!

Porque, como disse o próprio Paulo VI, não haverá paz, sem que o sol da verdade, o sol do Deus verdadeiro brilhe sobre os homens.

 Auxilium cristianorum, ora pro nobis!

Regina Pacis, ora pro nobis!

Marcelo Fedeli
Fevereiro 2001

Notas:

(1) Hobsbawn, Eric J. "L' Âge des Extrêmes" Éditions Complex - 1999 - Paris, p. 32.

(2) "Avortment: un infanticide legal" (apud site: http://perso.infonie.fr/fernandosaura-verdu)

(3) Carta Encíclica "Centesimus Annus", de João Paulo II, 01 de maio de 1991, item 21:

"21. Recorde-se, enfim, como, depois da II Guerra Mundial e mesmo por reação aos seus erros, se difundiu um sentimento mais vivo dos direitos humanos, que foi reconhecido em diversos Documentos internacionais (52), e na elaboração, poder-se-ia dizer, de um novo «direito dos povos», a que a Santa Sé deu constante contribuição. Fulcro desta evolução foi a Organização das Nações Unidas. Cresceu não só a consciência do direito dos indivíduos, mas também a dos direitos das Nações, enquanto se adverte mais claramente a necessidade de atuar para sanar os graves desequilíbrios entre as diversas áreas do mundo, o que transferiu, em certo sentido, o centro da questão social do âmbito nacional para o nível internacional (53). Ao registrar, com satisfação, um tal processo, não se pode todavia silenciar o fato de que o balanço geral das diversas políticas de auxílio ao desenvolvimento não é sempre positivo. Além disso, as Nações Unidas ainda não conseguiram construir instrumentos eficazes, alternativos à guerra, na solução dos conflitos internacionais, e este parece ser o problema mais urgente que a comunidade internacional tem para resolver".

(4) Yves Chiron, Paul VI, le pape écartelé, Ed.Perrin, Paris, 1993, pp. 243, 244.

(5) Yves Chiron, ob. cit. p. 139

(6) Jean Guitton, Dialogues avec Paul VI, Fayard, 1967, p. 147, apud Paul VI, le pape écartelé,op cit. p. 244.)

(7) Yves Chiron, ob.cit. p. 242.

(8) Idem, p. 244.

(9) Idem, p. 267 e 268.

(10) Idem, p. 268.

(11) Idem, p. 320


    Para citar este texto:
"Carlos Magno, a Carta Européia e a decepção de João Paulo II"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/carlosmagno/
Online, 27/05/2017 às 03:13:19h