Igreja

Sobre o futuro da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX)
Brunero Gherardini

 
COMENTÁRIO DA MONTFORT
 
Publicamos hoje, traduzido do original italiano, o importante artigo de Mons. Brunero Gherardini a respeito do futuro da Fraternidade São Pio X. O relevo do artigo decorre não apenas da competência de Mons. Gherardini, um dos maiores especialistas nos problemas gerados pela interpretação dos documentos do Vaticano II, autor do livro Vaticano II: um discorso da fare (ler sobre isso aqui), mas também da perspectiva apontada pelo eminente articulista, que vê no acordo com a Fraternidade São Pio X a “liberação de uma força compacta em torno da idéia e do ideal da Tradição, para que essa força possa operar não a partir do bunker, mas à luz do sol e como expressão viva e autêntica da Igreja”.
 
Ou seja, mais que a resolução de um problema particular à Fraternidade – por mais importante que ele possa ser – a recuperação de uma visão teológica virtualmente desqualificada após o Vaticano II, a da Tradição, em favor de uma teologia da evolução, da reforma continuada, da igreja “reformata et semper reformanda”.
 
A reailitação da Fraternidade São Pio X seria, assim, mais que a cura de uma dolorosa chaga dentro da Igreja, a revalorização de toda uma determinada visão da Igreja e de sua doutrina.
 
A mesma posição que, aliás, foi defendida por Mons. Pozzo no último Congresso Summorum Pontificum, em que estivemos presentes, respondendo a uma pergunta sobre os acordos com a Fraternidade São Pio X, quando afirmou o Prelado que aqueles que julgam  estar  em jogo nessas conversações apenas o futuro concreto da Fraternidade São Pio X nada compreenderam do problema, pois é toda uma visão teológica que se deseja reabilitar.
 
 
Sobre o futuro da Fraternidade São Pio X
(27 de setembro de 2010)
 
Durante um encontro de amigos, um deles me perguntou qual poderia ser o futuro da Fraternidade São Pio X quando se concluírem os colóquios que estão ocorrendo entre ela e a Santa Sé. Falamos longamente sobre isso e os pareceres eram discordantes. Por isso exprimo o meu também por escrito, com a esperança – se não for presunção, que Deus me livre disso – que possa ser útil não só a meus amigos, mas também às partes dialogantes.
 
Faço notar antes de tudo que ninguém é profeta nem filho de profetas. O futuro está nas mãos de Deus. Às vezes é possível prepará-lo, pelo menos em parte; outras, ele nos escapa completamente. É necessário também reconhecer às duas partes, finalmente trabalhando para encontrar uma solução para o problema, demasiado duradouro, dos “lefrevistas”, que até hoje têm louvável e exemplarmente mantido o devido silêncio sobre seus colóquios. Tal silêncio, porém, não ajuda a prever os possíveis desenvolvimentos.
Por outro lado, ouvem-se rumores; e não são poucos. Que fundamentos possam ter, é um enigma. Examinarei, pois, algumas das opiniões expressas na ocasião supracitada e darei, depois, distintamente, a minha.
 
1.       Houve quem julgasse positivo um recente convite a “sair do bunker no qual se entrincheirou durante o pós-concílio para defender a Fé do neomodernismo”. Foi fácil perceber a dificuldade de um juízo a tal respeito. Que a Fraternidade tenha estado por alguns decênios num bunker é evidente; talvez ainda esteja. Contudo, não é evidente se ela aí se colocou por si mesma, se foi colocada por alguém,  ou se os acontecimentos a forçaram a colocar-se no bunker. Parece-me, se realmente queremos falar de bunker, ter sido Mons. Lefebvrequem aprisionou a sua Fraternidade naquele 30 de junho de 1988, quando, depois de duas advertências oficiais e uma formal admoestação para que retrocedesse de seu projetado ato “cismático”, ordenou bispos quatro de seus sacerdotes. Foi esse o bunker – não do cisma formalmente entendido, pois embora havendo “recusa da submissão ao Sumo Pontífice” (CDC 751/2), faltou o dolo e a intenção de criar uma anti-igreja – e de fato determinado pelo amor à Igreja e por uma espécie de necessidade iminente para a continuidade da genuína tradição católica, seriamente comprometida pelo neomodernismo pós-conciliar. Mas foi bunker: o de uma desobediência no limite do desafio, o do beco fechado e sem perspectivas de uma saída possível. Não o da salvaguarda dos valores comprometidos.
É difícil compreender em que sentido “pra defender a Fé dos ataques do neomodernismo” fosse realmente necessário “esconder-se em um bunker”. Quereria isso dizer deixar livre o passo à heresia modernista? Não, pois de fato o passo foi ininterruptamente contrastado. Ainda que numa posição de condenação canônica, e assim fora das fileiras da oficialidade, mas com a convicção de trabalhar para Cristo e para sua Igreja, a Fraternidade dedicou-se acima de tudo à formação do clero, sendo essa a sua tarefa específica, fundou e dirigiu seminários, promoveu e sustentou debates teológicos às vezes de alto nível, publicou livros de relevante valor eclesiológico, deu contas de si mediante folhas de informação interna e externa; tudo a descoberto, demonstrando de que força – deixada infelizmente à margem – a Igreja poderia valer-se para sua tarefa de evangelização universal. Que os efeitos da ativa presença lefebvrista possam ser julgados modestos e que, de fato, não sejam muito aparentes, pode depender de duas razões:
·         Da condição canônica ab norme na qual opera;
·         Das suas dimensões: sabe-se que “la mosca tira il calcio che può” a mosca dá o pontapé que pode.
Mas estou profundamente convencido que por isso mesmo se deveria agradecer à Fraternidade, a qual, em um contexto de secularização já às margens de uma era pós-cristã, e apesar de uma antipatia não dissimulada para com ela, manteve e mantém bem alta a tocha da Fé e da Tradição.
2.       Na ocasião referida no início, alguém mencionou uma conferência durante a qual a Fraternidade foi convidada a ter maior confiança no mundo eclesial contemporâneo, recorrendo, se necessário, a alguns compromissos, porque a “salus animarum” exige – teria dito um lefebvrista – que se corra também este risco.
Sim, mas não certamente o risco de “comprometer” a própria e alheia salvação eterna.
É provável que as palavras tenham traído as intenções. Ou que não se conheçam o valor das palavras. Se há uma coisa que em matéria de fé se tem que evitar são os compromissos.
E ao invocar o “Sim, sim; não, não, a Fraternidade, assim como qualquer autêntico discípulo de Cristo, dá a única resposta digna a uma proposta de compromisso. O texto citado continua dizendo “todo o mais provém do maligno”; logo também, e especialmente, o compromisso. Ao menos na sua acepção de renúncia aos próprios princípios morais e às próprias razões de vida. Para dizer a verdade, também a mim, desde o início dos colóquios entre a Santa Sé e a Fraternidade, tinham chegado rumores de um possível compromisso. Ou seja, de um comportamento indigno, ao qual a própria Santa Sé, imagino, é a primeira a se negar.
Um compromisso sobre o que não compromete a confissão da autêntica Fé é possível e talvez plausível; nunca o é com prejuízo dos valores não negociáveis. Seria, além disso, uma contradição nos termos, porque também um compromisso é um “negotium”. E um negócio de risco: o naufrágio da Fé.
Repugna-me, pois, só pensar que a Santa Sé o proponha ou o aceite; obteria muito menos que um prato de lentilhas e assumiria a responsabilidade de um delito gravíssimo. Repugna-me igualmente o pensamento de uma Fraternidade que, depois de ter feito da Fé sem descontos a bandeira de sua própria existência, escorregasse na casca de banana da recusa de sua própria razão de ser.
Acrescento que, a julgar por alguns indícios talvez não de todo infundados, a metodologia posta bilateralmente em ato não parece abrir grandes perspectivas. É metodologia do ponto contra ponto: Vaticano II, sim, Vaticano II, não, ou sim, se. Isso com a condição de que uma ou outra parte, ou ambas, baixem a guarda. Uma rendição incondicional?
Para a Fraternidade, colocar-se nas mãos da Igreja seria o único comportamento verdadeiramente cristão, se não fosse a razão pela qual ela nasceu e pela qual se recolheu ao seu Aventino. Ou seja, o próprio Vaticano II, o qual, especialmente com alguns dos seus documentos, é literalmente contrário a tudo aquilo em que ela acredita e a tudo aquilo que ela faz. Com tal metodologia não se entrevê um meio: ou a capitulação, ou o compromisso.
Um resultado tão fatal poderia ser evitado seguindo uma metodologia diferente. O "punctum dolens" de todo o litígio chama-se Tradição. A esse conceito recorrem contantemente tanto uma quanto outra parte, as quais possuem sobre a Tradição, conceitos claramente excludentes.
O Papa Wojtyla declarou oficialmente "incompleta e contraditória” a Tradição defendida pela Fraternidade. Dever-se-ia, portanto, tornar claro o porquê da incompletude e da contradição, mas ainda mais urgente é a necessidade de que as partes concordem com um conceito comum, ou seja, bilateralmente compartilhado. Tal conceito torna-se-ia então o famoso pente ao qual chegam todos os nós, todos os problemas. Não há problema teológico e de vida eclesial, que não tenha nesse conceito a sua solução.
Portanto, se você continuar a dialogar mantendo-se cada uma das partes no seu ponto de partida, ou se vai criar um diálogo de surdos, ou, para provar que não se dialogou em vão, dar-se-á livre acesso ao compromisso. Especialmente se for aceita a tese do "conflito aparente" porque determinada não por divergências dogmáticas, mas por sempre novas interpretações de fatos históricos, a Fraternidade declararia o seu fim, miseravelmente, substituindo sua Tradição, que é a apostólica, pela vaporososa e  inconsistente e heterogênea Tradição viva dos neomodernistas.
 
Uma questão final abordada no nosso encontro amigável, manifestando mais esperanças que previsões concretamente fundadas: o futuro da Fraternidade.
O assunto foi tratado, contudo, recentemente no site "cordialiter.blogspot.com" com uma idílica antecipação do róseo futuro da Fraternidade: um novo – novo? até agora, ela nunca teve um "status" canônico – , começo do fim do modernismo, priorados invadidos pelos fiéis, a Fraternidade transformada em "superdiocese autônoma". Também eu espero muito da esperada composição pela qual se está trabalhando, mas com os pés um pouco mais no chão.
Tento aguçar o olhar e ver o que poderia acontecer amanhã. O específico da Fraternidade, como já disse, é a preparação ao sacerdócio e o cuidado com vocações sacerdotais. Não deveria abrir-se a ela um campo diferente do dos Seminários, sendo esse o seu verdadeiro campo de batalha: os que são dela e os que não são, nos Seminários, muito mais que em qualquer outro lugar poderiam exprimir-se a natureza e a finalidade da Fraternidade.
    Sob que perfil canônico? Não é fácil prevê-lo. Parece-me, no entanto, que sendo uma fraternidade sacerdotal dever-se-ia sugerir uma estrutura canônica na forma de uma "Sociedade Sacerdotal", sob o governo supremo da Congregação “para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica". Além disso, o fato de a Fraternidade ter já quatro Bispos poderia sugerir como solução, uma "Prelatura" para a qual a Santa Sé, no momento oportuno, poderia especificar a exata configuração jurídica. Não me parece, porém, que seja este o problema principal.
Mais importante é, sem dúvida, seja a resolução de uma disputa dentro da Igreja, disputa pouco compreensível num tempo de diálogo com todos, seja a liberação de uma força compacta em torno da idéia e do ideal da Tradição, para que essa força possa operar não a partir do bunker, mas à luz do sol e como expressão viva e autêntica da Igreja.

    Para citar este texto:
"Sobre o futuro da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX)"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/brunero-fsspx/
Online, 26/05/2017 às 12:00:35h