Igreja

Um bispo modernista e muito contraditório
Orlando Fedeli

Mandaram-me pela internet um artigo do Bispo de Piracicaba, Dom Fernando Mason, publicado no site da Desafinada Canção Nova, em que sua Excelência trata da igualdade ou não das religiões. Os dois primeiros parágrafos do senhor Bispo de Piracicaba são surpreendentemente bem católicos.
Por que esse Bispo não parou seu artigo no final do segundo parágrafo?
Seria um artigo bem curto, mas católico, pois nesses dois parágrafos, Dom Fernando Mason defende a verdade católica, condenando o relativismo religioso para o qual todas s religiões seria igualmente válidas.
Vejam nossos leitores esses dois parágrafos -- bem louváveis -- do Bispo de Piracicaba:
 
Há afirmações muito costumeiras que são tidas por todos como verdade. Naárea religiosa, por exemplo, se diz que Deus é um só, que todas as religiões são boas, todas elas levam a Deus, todas são iguais e o importante é seguir uma, não importa qual. Esta maneira de pensar éfruto de longa "pregação" da assim chamada cultura moderna, reforçada recentemente pelo ensino da "Nova Era". A cultura moderna é relativista em tudo que não seja estritamente científico-matemático, é a cultura dos "pontos de vista", das "opiniões".
Nas afirmações acima, subentende-se a afirmação de que as religiões são pontos de vista, opiniões diferentes e particulares de sujeitos sensíveis à dimensão do divino; enquanto tais, uma não é melhor que a outra,todas podem ser boas para quem se interessa por elas.Esta maneira de pensar será de fato uma verdade? Há quem duvide!” (Dom Fernando Mason, artigo, Todos os caminhos levam para Roma, in http://www.cancaonova.com/portal/canais/formacao/internas.php?e=6542 ).
 
Depois deste início perfeitamente correto, Dom Fernando Mason, descamba para contradições chocantes com o que disse inicialmente. As contradições de Dom Fernando Mason são tantas, que até parece que o artigo foi escrito por duas pessoas diferentes.
Ora, São Pio X havia prevenido que os modernistas, para enganar, costumavam dizer numa página o que haviam negado na outra.
Dom Mason supera os modernistas: se contradiz na mesma página.
Dom Mason começa resvalar no parágrafo terceiro, quando diz:
 
“você pode intuir algo a respeito dos outros caminhos [religiosos] e de quem os está percorrendo. Se você não está percorrendo verdadeiramente nenhum caminho, você o conhece apenas genericamente, por informações, isto é, por ter ouvido dizer ou lido e está na total incapacidade de conhecer realmente qualquer um dos caminhos e das pessoas que os percorrem! Aplique isso às religiões!”.
 
Quer dizer, só quem está praticando uma religião, quem tem uma experiência, – qualquer que seja ela —, poderia “intuir o real valor de outras religiões.
Note-se intuir”... e não compreender. E essa intuição seria fruto de uma experiência e não de um conhecimento teórico, abstrato, doutrinário. Dom Mason faz de cada religião uma experiência. Ora, quem dizia isto eram os modernistas, e isso foi condenado por São Pio X, na encíclica Pascendi, ao condenar a heresia do Modernismo. (Veremos isso logo mais, abaixo).
Essa doutrina modernista vai ser explicitada logo depois por Dom Mason ao escrever as seguintes frases:
 
Mas elas [as religiões] são todas boas ou não?Sim e não! Sim, porque toda religião é busca de comunhão com o divino e toda busca, adequadamente conduzida, é boa!Não, porque cada busca tem "sua" possibilidade de "boa e real" comunhão com o divino, possibilidade dada pela experiência originária que está na raiz, experiência ligada aos grandes mestres da busca religiosa”.
 
Dom Mason tem linguagem bífida. À pergunta: Todas as religiões são boas? Ele responde: sim e não. È um Bispo dialético. Não quer desagradar a ninguém. Só que ele adota a linguagem condenada por Cristo, que nos mandou:
 
Que vossa linguagem seja sim, sim, não, não, pois tudo o que passar disso vem do maligno” (Mat. V, 37).
 
E o que passa do sim, sim; não, não, agora, vem de Piracicaba.
E que a religião proviria de uma experiência interior era exatamente o que diziam os modernistas: a religião é uma experiência do divino, como explicou e condenou São Pio X na encíclica Pascendi:
  
“Se, porém, procurarmos saber que fundamento tem esta asserção do crente, respondem os modernistas: é a experiência individual. — Com esta afirmação, enquanto na verdade discordam dos racionalistas, caem na opinião dos protestantes e dos pseudo-místicos.
Eis como eles o declaram: no sentimento religioso deve reconhecer-se uma espécie de intuição do coração, que pôs o homem em contato imediato com a própria realidade de Deus e lhe infunde tal persuasão da existência dele e da sua ação, tanto dentro como fora do homem, que excede a força de qualquer persuasão, que a ciência possa adquirir. Afirmam, portanto, uma verdadeira experiência, capaz de vencer qualquer experiência racional; e se esta for negada por alguém, como pelos racionalistas, dizem que isto sucede porque estes não querem pôr-se nas condições morais, que são necessárias para consegui-la. Ora, tal experiência é a que faz própria e verdadeiramente crente a todo aquele que a conseguir. — Quanto vai dessa à doutrina católica! Já vimos essas idéias condenadas pelo Concílio Vaticano I. — Veremos ainda como, com semelhantes teorias, unidos a outros erros já mencionados, se abre caminho para o ateísmo”. (São Pio X, Pascendi, n 0 2).
 
Ora, essa doutrina da experiência religiosa fora condenada também pelo Concílio Vaticano I, concílio infalível, com anátema:
 
“Se alguém disser que a divina revelação não pode tornar-se crível por manifestações externas, e que por isto os homens não devem ser movidos à fé senão exclusivamente pela interna experiência ou inspiração privada, seja anátema (Concílio Vaticano I, De Fide, Cân. 3).
 
Dom Mason caiu sob a condenação do Vaticano I e da Pascendi.
É o que dá seguir o Vaticano II...
São Pio X mostrou que os defensores da tese de que a religião é uma experiência, acabam por defender que até as religiões idólatras e até o maometismo seriam verdadeiros:
 
“Cumpre, entretanto, desde já, notar que, posta esta doutrina da experiência unida à outra do simbolismo, toda religião, não excetuada sequer a dos idólatras, deve ser tida por verdadeira. E na verdade, porque não fora possível o se acharem tais experiências em qualquer religião? E não poucos presumem que de fato já se as tenha encontrado. Com que direito, pois, os modernistas negarão a verdade a uma experiência afirmada, por exemplo, por um maometano? Com que direito reivindicarão experiências verdadeiras só para os católicos? E os modernistas de fato não negam, ao contrário, concedem, uns confusa e outros manifestamente, que todas as religiões são verdadeiras. (São Pio X, Pascendi, n 0 2).
 
Tanto tinha razão São Pio X ao dizer isso dos modernistas, que o atual Bispo modernista de Piracicaba afirmou exatamente a mesma coisa:
 
“Algumas religiões, porém, não são somente busca que o ser humano faz. Judaísmo, cristianismo e islamismo são testemunhas de um desvelamento (revelação) que o divino fez de si vindo ao encontro da busca humana, e para nós, cristãos, neste desvelamento está engajado nada mais que o Filho de Deus: Jesus Cristo, nossa experiência originária”. (Dom Fernando Mason, artigo citado).
 
As religiões seriam então desvelamentos que Deus faria de Si mesmo a toda pessoa que O busca. Em toda experiência religiosa, haveria um “desvelamento divino”, no qual estaria engajado o próprio Jesus Cristo, o Verbo de Deus feito homem.
Dom Mason repete aí – e em Piracicaba -- o que aprendeu do Vaticano II: que em todas as religiões haveria as famosas “sementes do Verbo”.
Daí, o Bispo Modernista de Piracicaba, que começou condenando o relativismo, acaba por concluir que todas as religiões não são igualmente boas, mas que todas podem ter “a experiência originária que é Jesus Cristo”, e então todas teriam algum bem:
 
“Neste sentido, portanto, as religiões não são iguais nem igualmente boas! Isso vale também para as igrejas e denominações cristãs: elas não são iguais, pois cada uma tem "sua" possibilidade de guardar, cultivar e atualizar, hoje, a experiência originária que é Jesus Cristo”. (Dom Fernando Mason, artigo citado).
 
Logicamente, Dom Mason defende que a realidade divina é uma só, e que ,portanto, todas as religiões cultuam o mesmo Deus, a mesma realidade sob nomes diferentes:
 
“Mas, pelo menos, não será verdade que Deus é um só? Não, se por "Deus" se entende uma palavra oca, abstrata, indefinida, o deus dos filósofos, talvez. Para que serve um Deus assim? Se por "Deus" entendemos uma realidade, seu conhecimento está ligado à força de penetração do Mistério que a experiência originária possibilita”. (Dom Fernando Mason, artigo citado).
 
Allah, Buda, Brahman, Xangô, seriam nomes diversos indicativos de uma mesma “realidade” “que a experiência originária possibilita” “intuir”...
E, na última frase de seu herético artiguete, publicado na desafinada Canção Nova, Dom Mason procura agradar a verdade dizendo:
 
Para que serve uma Igreja que não seja "apostólica", não daqueles apóstolos que se autodenominam tais, mas dos Doze, missionados por Jesus para testemunhá-lo?” (Dom Fernando Mason, artigo citado).
 
Para que serve esse artigo, com tanta contradição, senão para difundir a heresia modernista e o indiferentismo religioso?
É assim que o Vaticano II tem Bispos do sim que é não.
Seria de espantar que Dom Mason se manifestasse contra a liberação da missa de sempre?
 
São Paulo, 21 de Agosto de 2007-08-21
Orlando Fedeli 
 
 

Todos os caminhos levam para Roma
 
Há afirmações muito costumeiras que são tidas por todos como verdade. Naárea religiosa, por exemplo, se diz que Deus é um só, que todas as religiões são boas, todas elas levam a Deus, todas são iguais e o importante é seguir uma, não importa qual. Esta maneira de pensar éfruto de longa "pregação" da assim chamada cultura moderna, reforçada recentemente pelo ensino da "Nova Era". A cultura moderna é relativista em tudo que não seja estritamente científico-matemático, é a cultura dos "pontos de vista", das "opiniões".
Nas afirmações acima, subentende-se a afirmação de que as religiões são pontos de vista, opiniões diferentes e particulares de sujeitos sensíveis à dimensão do divino; enquanto tais, uma não é melhor que a outra,todas podem ser boas para quem se interessa por elas.Esta maneira de pensar será de fato uma verdade? Há quem duvide!”
Também se diz, por exemplo, que"todos os caminhos levam para Roma". É verdade? Não! Só o leva para Roma o caminho (de carro, de avião, a pé, em romaria, etc.) que, de fato, você está percorrendo; os outros caminhos não o levam. Ésomente este o caminho que de fato você conhece (se bom, se eficiente, se confortável) e é a partir deste seu percorrer que você pode intuir algo a respeito dos outros caminhos e de quem os está percorrendo. Se você não está percorrendo verdadeiramente nenhum caminho, você o conhece apenas genericamente, por informações, isto é, por ter ouvido dizer ou lido e está na total incapacidade de conhecer realmente qualquer um dos caminhos e das pessoas que os percorrem! Aplique isso às religiões
Mas elas são todas boas ou não? Sim e não! Sim, porque toda religião é busca de comunhão com o divino e toda busca, adequadamente conduzida, é boa! Não, porque cada busca tem "sua" possibilidade de "boa e real" comunhão com o divino, possibilidade dada pela experiência originária que está na raiz, experiência ligada aos grandes mestres da busca religiosa. Algumas religiões, porém, não são somente busca que o ser humano faz. Judaísmo, cristianismo e islamismo são testemunhas de um desvelamento (revelação) que o divino fez de si vindo ao encontro da busca humana, e para nós, cristãos, neste desvelamento está engajado nada mais que o Filho de Deus: Jesus Cristo, nossa experiência originária.
Neste sentido, portanto, as religiões não são iguais nem igualmente boas! Isso vale também para as igrejas e denominações cristãs: elas não são iguais, pois cada uma tem "sua" possibilidade de guardar, cultivar e atualizar, hoje, a experiência originária que é Jesus Cristo.
Mas, pelo menos, não será verdade que Deus é um só? Não, se por "Deus" se entende uma palavra oca, abstrata, indefinida, o deus dos filósofos, talvez. Para que serve um Deus assim? Se por "Deus" entendemos uma realidade, seu conhecimento está ligado à força de penetração do Mistério que a experiência originária possibilita. Por isso, debaixo de uma palavra igual [Deus] há conteúdos de conhecimento e seguimento de Deus bastante diferentes entre si.
O Deus nosso é "o Deus de Jesus Cristo", o Deus buscado, conhecido, amado e seguido até à morte de cruz por Jesus Cristo. Sua experiência originária está gravada, o Evangelho: a Boa Notícia, testemunhada pelos apóstolos. Para que serve uma Igreja que não seja "apostólica", não daqueles apóstolos que se autodenominam tais, mas dos Doze, missionados por Jesus para testemunhá-lo?
 Dom Fernando Mason
Bispo diocesano de Piracicaba - SP
09/08/2007 - 08h30
http://www.cancaonova.com/portal/canais/formacao/internas.php?e=6542

    Para citar este texto:
"Um bispo modernista e muito contraditório"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/bispo_modernista/
Online, 18/08/2017 às 21:00:46h