Igreja

Prof. Felipe de Aquino não trouxe nada de novo
Fabio Vanini

      Era de se esperar que o tão aguardado Motu Proprio sobre a Missa Tridentina, do Papa Bento XVI, provocasse diversas reações entre os tantos matizes dos modernistas.
Os mais progressistas uivaram de dor, e houve até bispo que declarasse ser aquele dia (7 de julho) um dia de luto. Era uma marca indelével, senão um tiro de misericórdia na reforma litúrgica de Mons. Annibale Bugnini, pós Concilio Vaticano II.
Os menos progressistas parece que adotaram uma estratégia de se conterem ao máximo, colocar um véu abafador e esperar a poeira baixar, como se nada tivesse acontecido. O Papa estaria, então, se dirigindo às “comunidades que compreendem o latim”, “praticamente inexistentes no Brasil”, como outros bispos se atreveram a dizer.
Acontece que o vendaval soprado de Roma através do Motu Proprio fez um estrago.

Como podem os defensores do Concilio Vaticano II e da Reforma Litúrgica de Paulo VI defenderem que houve um sepultamento de todo o passado litúrgico de 2000 anos, e, ao mesmo, tempo desdenharem da nova regra de Bento XVI – dando ampla liberdade à Missa de sempre – alegando-se que não houve nenhuma novidade?

É o que se lê no rápido comentário do professor Felipe de Aquino sobre o edito papal “Summorum Pontificum” (1):

Portanto, o povo católico deve entender que a Santa Missa celebrada no vernáculo, em português no Brasil, continua sendo a forma ordinária; em latim será extraordinária. Em outras palavras, nada vai mudar na liturgia da Santa Missa.” (grifo nosso).

 Como era de se esperar, o tal teólogo eletrônico-carismático prefere fugir ao problema central que é o estimulo que o Papa atual está dando à Missa Gregoriana. O documento, de fato, não veio mudar a liturgia, mas veio dar liberdade universal à Missa de sempre. E isso é uma mudança histórica nas regras anteriormente colocadas pelos documentos de 1984 (Quattuor abhinc annos)  e de 1988 (Ecclesia Dei)..

“Portanto, é lícito celebrar o Sacrifício da Missa de acordo com a edição típica do Missal Romano promulgado pelo Beato João XXIII em 1962 e nunca anulado, como a forma extraordinária da Liturgia da Igreja. Estas condições estabelecidas pelos documentos prévios
Quattuor abhinc annos e Ecclesia Dei para o uso deste Missal são substituídas pelas seguintes (...)”(2) (grifos nossos).
 
“...são substituídas...”, portanto há novas regras. O Papa Bento XVI veio mudar o jogo.
 
O recente dossiê sobre o último Motu Próprio publicado pelo teólogo pessoal do Papa, Nicola Bux e D. Salvatore Vitiello, professor de Introdução à Teologia da Universidade Católica de Roma, vem para confirmar que a mudança nas regras sobre a liberdade, na verdade, são para fazer justiça aos que se mantiveram fiéis a Missa de sempre, não sendo abo-rogada jamais, nem mesmo pelas propostas de reforma litúrgica dos textos do Concilio Vaticano II:

“A Constituição sobre a Sagrada Liturgia [do Concilio Vaticano II] obviamente imagina que a Missa antiga continua existindo como forma sacerdotal de celebração do sacrifício Eucarístico sine populo; isso significaria também que o sacerdote tem o direito de celebrar o Rito antigo como Missa privada.” 

Ou então:

“Um indulto, portanto, pressupõe a existência de uma lei que necessita ser atenuada, no nosso caso uma lei que tinha proibido ou abolida a Missa antiga. Como vimos, tal lei não existia, e por isso, em tal caso, estreitamente falando, é uma denominação imprópria, já que o fiel ainda hoje tem direito à Missa antiga com base no uso imemorável jamais abolido”. (3)

Continua o professor Felipe de Aquino:

O objetivo do Papa com esta medida é  de, caridosamente, atender aqueles que gostam da celebração da Santa Missa em latim, no rito anterior.” (1) (grifos nossos).

Bento XVI não quis fazer um afago em alguns fiéis que, romanticamente, se apegaram a uma liturgia dita em língua morta, por causa de uma adesão por mero “gosto” pessoal.
O que fez agora Bento XVI veio confirmar sua temida postura restauradora, inaugurada no “histórico discurso de 22 de dezembro de 2005, quando o Papa fez aquela intervenção sobre a hermenêutica do Concilio Vaticano II” (4):
Entretanto, em algumas regiões, um número não pequeno de fiéis estiveram e permanecem aderidos com tão grande amor e afeto às formas litúrgicas prévias, e imbuíram profundamente sua cultura e espírito”, diz o Santo Padre em seu Motu Proprio, para mostrar que é muito mais do que um “gosto”, é uma adesão de cultura e espírito. Ou seja, uma adesão integral da alma. Deixemos o “gosto” vulgarmente à gastronomia.
Aliás, considerar “gosto” um critério de escolha de uma ou outra forma determinada de rito, é desprezar os que aderem de cultura e espírito. Sobre isso, o já referido dossiê sobre o Motu Próprio nos traz:

“Deve-se notar que uma certa linguagem pejorativa da Quattuor abhinc annos quanto ao “problema dos sacerdotes e fiéis que assistem a assim dita Missa tridentina" é completamente evitada na Carta Apostólica Ecclesia Dei. No recente documento promulgado pelo Sumo Pontífice, refere-se simplesmente a “a todos estes fiéis católicos, que se sentem vinculados a algumas precedentes formas litúrgicas e disciplinares da tradição latina” (5, c) e a “aqueles que se sentem ligados à tradição litúrgica latina” (6, c). Aparece, portanto, um inútil preconceito continuar a referir-se com alusões a precedentes documentos da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos que foram superados por um Motu Proprio pontifício” (3).
Portanto, que não se cometa a injustiça de reduzir os fiéis à Missa de sempre, pejorativamente, a um grupo de pessoas nostálgicas, saudosas de um rito superado. Não há um rito anterior!
Se não houve mudança, desconsideremos o dossiê sobre o Motu Próprio, em que se lê: “Aparece, portanto, um inútil preconceito continuar a referir-se com alusões a precedentes documentos da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos que foram superados por um Motu Proprio pontifício” (3).
O insuspeito Cardeal Lehmann afirmou: 

Estou absolutamente convencido que se trata de um passo positivo para todos aqueles que amam este tipo [sic] de Missa e que não querem ser postos de lado como se pertencessem a uma seita ou como se fizessem qualquer coisa de anormal” (5) (tradução e grifos nossos).
 
Ora, trata-se de um “passo positivo” para tirar a Missa de sempre da aparência de sectarismo ou da “anormalidade”. Aliás, o teólogo Felipe de Aquino escreveu que “(...) o Missal publicado por Paulo VI, e reeditado em duas sucessivas edições por João Paulo II, obviamente é e permanece a Forma normal(1) (destaque nosso). “Normal” não é sinônimo de “ordinário”! Então, seria o missal de 1962, que nunca foi ab-rogado, anulado ou proibido, como reitera o Santo Padre, “anormal”? À parte o erro ou simplificação imprópria que comete o professor Felipe de Aquino, ao confundir Missa em latim com a celebração que utiliza o Missal de 1962, era de se esperar que ele não se pronunciasse de maneira tão entusiasta com o novo edito papal.
Então, o documento Summorum Pontificum não trouxe nada de importante para que os fiéis e sacerdotes mudem sua postura quanto à Missa de sempre? Nem teria razão para ser escrito, de próprio punho, um documento que desafia a colegialidade dos bispos e a reforma litúrgica de Paulo VI, estimulando – vigorosamente – a celebração de um dos maiores tesouros da Igreja Católica, tão combatida nos dias de hoje, dias de modernismo?
Então, o professor Felipe de Aquino não ensinou nada de novo. Não ensinou nada, de novo.
 



(1)
“Sobre a autorização ampla da Missa em latim”, http://blog.cancaonova.com/felipeaquino/2007/07/11/sobre-a-autorizacao-ampla-da-missa-em-latim/
(2)
Summorum Pontificum, tradução: http://www.acidigital.com/Documentos/misalatin.htm
(3)
N. Bux e S. Vitiello - "Dossier: O Motu proprio de Bento XVI" 
(4) dom Salvatore Vitiello, em entrevista a Fabio Colagrande, 9/7/2007, http://paparatzinger-blograffaella.blogspot.com/2007/07/messa-tridentina-il-commento-del-card.html
(5)
http://paparatzinger-blograffaella.blogspot.com/2007/07/messa-tridentina-il-commento-del-card.html

    Para citar este texto:
"Prof. Felipe de Aquino não trouxe nada de novo"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/aquino_mp/
Online, 27/05/2017 às 03:06:55h