Igreja

Após Crisma no Rito Tridentino, Dom Athanasius comenta situação da Igreja
Entrevista realizada com Dom Athanasius Scheneider por ocasião de sua visita ao Brasil para o lançamento do livro “A Sagrada Comunhão e a Renovação da Igreja” em 27 de novembro de 2014 Montfort: V. Excia poderia nos contar como está seu apostolado no Cazaquistão? Como é o trabalho do Bispo em um país em que apenas 1% da população é católica? Dom Athanasius: Estamos em uma situação realmente missionária, já que a maioria da população pertence à religião islâmica mulçumana e uma grande parte da sociedade não pratica nenhuma fé, como consequência de setenta anos de comunismo. Uma sociedade sem Deus. E por isto é um desafio de evangelizar realmente. E também aqueles que não são cristãos, podem ter contato vivo e pessoal com a Igreja Católica. Nosso trabalho é mais uma evangelização pela presença, de testemunho. Assim, já que não temos acesso aos meios de comunicação publica para difundir o Evangelho, tentamos difundir o Evangelho pelo contato pessoal e estar presente de modo visível na sociedade. Como uma coisa muito prática, as nossas irmãs religiosas e a maioria dos padres estão sempre em público com o hábito religioso. Até os mulçumanos gostam disto, se sentem honrados e a população local também. Eu mesmo sempre ando com a batina em qualquer lugar. Até os funcionários do governo se sentem honrados quando nós os visitamos vestidos com traje eclesiástico. Tudo isto porque no povo oriental está ainda muito profundo um valor - eu penso que isto é uma espécie de valor da religião natural, mas positivo - quer dizer uma grande reverência para aquilo que é sacro. De qualquer religião. Isto é muito profundo na população. Isto é um valor positivo que infelizmente no mundo ocidental se está perdendo, até nos países antigamente cristãos. Outro meio é a construção de igrejas, que são a evangelização em pedra, em arte, em beleza que atrai muito forte as pessoas. Isto foi a minha experiência. Isto é, em grandes linhas, o nosso trabalho. E também no meio deste trabalho nós temos muitos contatos com pessoas da religião islâmica e da Igreja Ortodoxa Russa. Temos boas relações. Temos um ecumenismo da vida, de contato pessoal, sem nenhum perigo de sincretismo.   Montfort: V. Excia. veio para o Brasil para o lançamento de seu livro “A Sagrada Comunhão e a Renovação da Igreja”. Neste livro V. Excia. trata das questões relacionadas ao Santíssimo Sacramento e, sobretudo, de um fenômeno que se vê bastante hoje em dia que é uma falta de devoção ao Santíssimo Sacramento e até mesmo de uma falta de respeito. No Brasil, por exemplo, eram comuns as vigílias perpétuas ao Santíssimo Sacramento, que hoje em dia, praticamente desapareceram. Quais são as causas fundamentais que podem ser atribuídas a essa perda de devoção ao Santíssimo Sacramento? Dom Athanasius: Eu penso que as causas principais e mais profundas desta é a perda da Fé plena e católica no mistério da Santíssima Eucaristia. É que há uma catequese deficiente da plenitude da Fé eucarística que se nota em muitas paróquias e nos sermões deficientes sobre a Eucaristia. Esta é uma causa. Outra causa é a prática da comunhão na mão que contribui, com este gesto assim informal, assim um gesto cotidiano de cada dia, de tomar um alimento comum simplesmente deste jeito, contribui também com o tempo, progressivamente, com a perda da Fé plena, ao menos no subconsciente. Se eu posso tratar uma coisa santíssima, pela excelência, de um jeito tão comum, tão cotidiano, como eu posso pegar qualquer alimento da mesa na minha casa, sem ajoelhar-me e assim por diante, com os meus dedos colocar na minha boca, então com o tempo isso contribuiu com a perda da consciência,  acreditando que é um alimento ou pão mesmo e não Nosso Senhor, com toda a plenitude da Divindade. Há uma lei psicológica que um gesto cria uma atitude interna. Isto é um dado da psicologia. Um gesto exterior tem uma influência numa atitude interna. Isto está comprovado e demonstrado em tantas Igrejas e tantas comunidades pelo mundo inteiro, onde foi introduzida a comunhão na mão. Montfort: V. Excia. não fica surpreso com a velocidade com que houve esta perda de consciência? Há apenas trinta anos existia um grande respeito ao Santíssimo Sacramento. Todos se ajoelhavam e recebiam a comunhão de uma forma bastante solene e com devoção. Em menos de uma geração houve uma transformação, trata-se a comunhão como se fosse um alimento. E são muitas vezes as mesmas pessoas. Não surpreende, portanto, a velocidade desta perda de consciência? Dom Athanasius: Sim, porque esta maneira de receber o Santíssimo Sacramento é, do ponto de vista de gesto, mais fácil porque você simplesmente está de pé e mostra a palma da mão e depois pega com os dedos e coloca na boca. Então é muito fácil. E se faz muitas vezes até com velocidade. No outro gesto era necessário se ajoelhar, em um banco de comunhão, então já é uma chamada de atenção. E até o padre chegar até a pessoa demora um pouco e as pessoas podiam até se recolher e esperar. Quando o padre chega, se está até fisicamente inferior ao Padre, que está de pé e quem ia receber a comunhão estava ajoelhado. E do alto, por assim dizer, o padre colocava o Corpo de Cristo diretamente na boca. Isto tudo contribuía também para criar uma consciência mais clara. Certamente, antigamente também havia pessoas que comungavam sem fé com os gestos antigos. Isto não se exclui. Mas falamos de um gesto objetivo e do efeito objetivo em uma pessoa de boa-fé. Então uma coisa que facilita tudo, normalmente se difunde mais rápido. Isto se observa em todos os aspectos da vida cotidiana, ao contrário de um gesto que exige algo mais e que necessita certo esforço. Outra coisa que faz parte da psicologia humana é que aquilo que se apresenta como novo, como, digamos, uma coisa de progresso, a psicologia comum das pessoas aceita mais facilmente. Pode ser que tudo isto tenha contribuído para esta vasta e rápida difusão. Por último, contribuiu para esta difusão muito rápida a propaganda real do clero para este jeito, esta maneira nova de receber a comunhão. Até, na maioria dos casos, o clero impôs esta nova maneira aos fiéis quase sem escolha. Então isto é grave. Eu penso que aqui a culpa principal disto está no clero. Montfort: No livro que V. Excia. escreveu, logo no primeiro capítulo, conta a história da devoção de uma criança ao Santíssimo Sacramento. Esta história, à primeira vista, parece uma lenda ou uma história de um passado muito remoto. Todos os fatos ali descritos correspondem à realidade? V. Excia tem conhecimento de fatos semelhantes a este, ou seja, o Santíssimo continua despertando devoção, pelo menos em algumas pessoas? Dom Athanasius: Bem, em primeiro lugar quem me contou a história foi a irmã mais velha deste menino, que ainda vive em Karaganda. Eu recebi a história da primeira fonte. E não é dos tempos passados. A história transcorreu nos anos 70, é do nosso tempo. Na minha experiência e nas minhas viagens que eu faço para difundir a devoção eucarística, encontrei principalmente muitas pessoas simples que tem uma fidelidade heroica à devoção a Nosso Senhor Jesus Cristo. Que defendem esta atitude devota diante do clero. Por exemplo, eu visitei a Tanzânia, na África e lá um senhor leigo - ele era ex-governador de uma província da Tanzânia - um devoto católico, quando foi introduzida a comunhão na mão na Tanzânia, pela força somente, sem nenhuma escolha dos fiéis, ele se opôs, porque a consciência dele dizia: “eu não posso receber Nosso Senhor desta maneira assim superficial”. Ele mesmo que me contou isto. Vem de primeira fonte. Ele foi publicamente humilhado, apesar de ter sido governador de um estado, pelo clero, pelos bispos. E publicamente lhe foi recusada a Santa Comunhão porque ele simplesmente estava ajoelhado. Ele me contou vários destes casos. Quando a comunhão foi recusada, o Bispo deu ordens para que ele levantasse. E ele não se levantou, então o bispo lhe recusou a comunhão. O pároco dele também agiu da mesma forma. Ele então não recebia a comunhão. Algumas vezes ele ficou sem receber a comunhão por um mês inteiro. Mas ele recebia a comunhão espiritualmente.  Que exemplo! Que caso realmente comovente! Que fé essa pessoa demonstrou! Ele começou a estudar as fontes e ele mesmo encontrou os documentos da Igreja onde está escrito que é proibido impedir o fiel de comungar de joelhos na boca. Então ele mostrou ao clero. Mesmo assim a comunhão continuou a ser recusada. Então chegou um sacerdote mais moderado e ele pode receber de novo a comunhão de joelhos. Mas ele ficou fiel. Isto é um exemplo muito comovente para mim. Outro exemplo eu encontrei na Irlanda, em uma numerosa família católica, onde uma pequena criança, um menino de oito anos, e que tinha plena consciência, por ter sido firme e ter recebido a comunhão de joelhos, foi maltratado até fisicamente pelo Pároco. Mas o Senhor Jesus Cristo consolou esta criança com muitas graças. Eu vejo assim que existem muitas pérolas escondidas de amantes da Eucaristia e defensores da Eucaristia na Igreja. Estas pérolas escondidas estão pelo mundo e vão contribuindo para uma verdadeira renovação da Igreja. Montfort: Uma questão que tem sido muito discutida na Igreja é a relativa ao último Sínodo da Família. A discussão foi tão grande que nos fez lembrar o sonho de Dom Bosco: no momento em que o Papa convoca os bispos para o navio da Igreja e a luta passa a ser dentro do próprio navio. Ao que V. Excia atribuiu a posição tão claramente contrária à doutrina da Igreja por parte de algumas autoridades eclesiásticas, particularmente o Cardeal Kasper? Dom Athanasius: Primeiramente, o fato de que um cardeal que deve defender a fé - que jurou de dar a sua vida, seu sangue pela Igreja, pela Fé! - este fato de que um Cardeal usa este oficio tão alto da Igreja para destruir a verdade de Cristo sobre o sacramento do Matrimônio, mas de uma maneira gnóstica, pois afirma em teoria a indissolubilidade do Matrimônio e na prática o nega pela admissão à Santa Comunhão, sem escrúpulos, e até ainda gloriando-se de fazer isto, abusando, pervertendo o conceito da misericórdia ou de ser aberto ao Espírito Santo, até como uma Pentecostes nova, ou até que devemos ser abertos às surpresas de Deus: isto tudo é uma coisa muito grave, uma perversão de conceitos sacros! É uma atitude realmente gnóstica de, na prática, negar uma verdade divina diretamente. E isto é uma vergonha. Em uma reunião oficial do episcopado católico, até sob a chefia de um Papa, de terem, ele e outros, publicamente promovido tais coisas que são diretamente contrárias à verdade Divina. Com isto dando escândalo gravíssimo aos pequenos. E Jesus disse no Evangelho que quem escandaliza um destes pequenos que é melhor que se amarrasse uma pedra no pescoço e fosse lançado ao mar. Mas, os pequenos são os fiéis, que não tem voz na Igreja, que vivem fielmente seu matrimônio com muitos sacríficos. Outros pequenos são os jovens com coração puro, que se preparam para o matrimônio de toda a vida e são escandalizados, ou aqueles que se separaram por várias razões e que tentam com sacrifícios observar a lei divina e não coabitar com outras pessoas, eles todos estão escandalizadas. Existem até pessoas que vivem juntos mas como irmãos, no matrimônio de São José como se diz, com muito sacrifício. Então, é uma capitulação esta posição do Cardeal Kasper e daqueles que são do espírito dele, diante do espirito realmente neo-pagão de destruição do sexto mandamento. Em concreto, é uma destruição do sexto mandamento. Esta destruição está envolvida com tantas falsas e perversas palavras... isto é realmente grave, um escândalo!   Montfort: Já se anuncia um Sínodo para o próximo ano. Já se começa a falar das eleições nas conferências episcopais, dos delegados. Com os católicos devem agir? Dom Athanasius: Primeira coisa, a maior força dos fiéis é a oração. Esta é a arma mais forte. Foi mencionado o sonho de São João Bosco sobre os inimigos da Igreja que dos seus barcos atiravam armas, flechas contra a barca de Pedro. Mas as nossas armas mais fortes são a oração e a penitência, súplicas ao Senhor, súplicas dos pequenos, para que o Senhor destrua os planos dos iníquos, e estes iníquos, infelizmente, estão na veste de Bispos e Cardeais. Agora que o Senhor confunda os seus planos! Segunda coisa, devem fazer memorandos claros defendo a doutrina da Fé - que tem tantos documentos do magistério claríssimos, documentos do recém-canonizado Papa João Paulo II - fazer congressos ou conferências, publicando memorandos ou cartas públicas aos Bispos de seu país e até ao Papa. Cartas públicas, porque o Papa é o pai de todos católicos e deve escutar a voz de todos e, às vezes, se se manda estas cartas de forma particular elas nem sempre chegam ao Papa. Então é necessário fazer uma carta pública com reverência, mas também com clareza. Isto eu penso que se pode fazer. Montfort: Para concluir, V. Excia. viveu no Brasil durante muito tempo, ou pelo menos durante um bom tempo, e tem retornado com alguma regularidade. Que conselho V. Excia. gostaria de dar aos católicos brasileiros? Dom Athanasius: Primeira coisa, fiquem fieis a vossa Santa Fé Católica. Não se pode entender o Brasil sem a Fé Católica. Todas as crianças no Brasil estudam na escola, eu espero que ainda seja assim, as origens do Brasil e o descobrimento do Brasil. Quando o Brasil foi descoberto junto estava o Frei Henrique que celebrava a Santa Missa. Com a Santa Missa começou oficialmente o descobrimento do Brasil, em 22 de abril de 1500. Então as raízes do Brasil são estas. Vejam toda a cultura do Brasil, estes magníficos monumentos de arte, especialmente os mais famosos que são de Aleijadinho, mas sem a fé católica não teríamos esta arte assim conhecida. Isto é um pequeno exemplo. E além disto toda a educação pública no Brasil estava nas mãos da Igreja. Depois toda a assistência sanitária, os hospitais estavam nas mãos da Igreja. Tirem tudo isto, o que teria sido o Brasil? Por isto é necessário difundir isto e tentar de restabelecer as raízes do Brasil à Fé Católica. Individualmente isto começa por reconfortar, consolidar a fé própria. E depois nas associações católicas de leigos, de defesa da fé de cultura cristã e difundir isto na vida pública. Isto é uma coisa muito importante e que eu desejo ao povo brasileiro, aos católicos brasileiros, que guardam esta devoção bela, profunda, cheia de fé, a Nosso Senhor Eucarístico e a Nossa Senhora, que caracterizou o Brasil, esta humildade da Fé. E que o Brasil católico, a Igreja católica no Brasil, retome este patrimônio espiritual profundo que é a devoção à Eucaristia e a Nossa Senhora. Montfort: Excelência, muito obrigado por esta entrevista e pela visita ao Brasil. Que Nossa Senhora proteja todo o seu trabalho e especialmente este livro e que ele tenha uma grande difusão no Brasil.   Dom Athanasius: Espero que os católicos do Brasil tornem-se sempre mais amantes e defensores do Jesus Eucarístico!

    Para citar este texto:
"Após Crisma no Rito Tridentino, Dom Athanasius comenta situação da Igreja"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/apos-ministrar-a-crisma-no-rito-tridentino-dom-athanasius-comenta-a-situacao-da-igreja/
Online, 23/07/2017 às 21:47:56h