Igreja

Acordo à vista? A curto prazo? - Novidades de Econe
Orlando Fedeli

Dois textos, sumamente importantes e reveladores, acabam de vir a lume. O primeiro foi um longo e bem matizado trabalho do Abbé Celier da FSSPX, e outro do Superior do Distrito da França da FSSPX, Abbé de Cacqueray. Ambos documentos apontam para um possível acordo de Dom Féllay com Roma. (publicamos nossa tradução do Aviso de Prevenção contra sites sede vacantistas, de autoria do Abbé de Cacqueray, e publicado no site da FSSPX, La Porte Latine. Publicaremos, por enquanto, e somente em francês, o texto do Abbé Celier, que, por ser longo demais, ainda não traduzimos).
Os artigos são reveladores.
Depois de idas e vindas de Dom Fellay, depois de entrevistas e declarações muito contraditórias dos Bispos da FSSPX, ora vendo como possível um acordo (como Dom Galarreta declarou, neste ano, na Coréia), ora com ataques absurdos, como os de Dom Williamsom e de Dom Tissier de Mallerais ao Papa, estes dois novos documentos descortinam perspectivas alviçareiras.
O trabalho -- Par fidelité à Mgr Lefebvre, la Fraternité Saint-Pie X doit-elle signer au plus tôt un accord avec Rome?-- do Abbé Celier é apresentado como mera opinião pessoal dele. Parece-nos, porém, evidente que ele só foi publicado após aprovação do Superior da FSSPX, Dom Fellay.
Esse trabalho, muito bem elaborado, se divide em duas partes, cada uma delas respondendo às objeções principais a respeito do possível acordo da FSSPX com Roma.
A primeira parte intitulada “Mons. Marcel Lefebvre recusaria, hoje, qualquer contato com Roma?” responde às objeções pessimistas levantadas especialmente pelos sede vacantistas, seguindo os seguintes itens, que são analisados e respondidos com citações muito boas:
 
“-- É absurdo crer que haveria em Roma homens favoráveis à tradição.
-- É ridículo esperar uma « conversão» da Roma atual.
-- O retorno de Roma à verdade  católica não pode se realizar de um só golpe.
-- Não é possível voltar para uma “Igreja oficial” modernista.
-- Mons. Lefebvre não dava qualquer importância a fazer um acordo
-- Não é possível qualquer aproximação com os modernistas
-- O concílio Vaticano II é em todos os pontos inaceitável
-- O problema da crise atual é muito mais doutrinário que litúrgico
-- Não se pode aceitar uma «reforma da reforma» para uma liturgia má em si mesma.
-- A referência ao missal de João XXIII é escandalosa e inaceitável.
-- Uma comissão de peritos para uma discussão com a atual  Roma é ridícula.
-- Antes de qualquer discussão, é preciso que as autoridades romanas prestem o juramento anti modernista
- Mons. Lefebvre e o sede vacantismo”.
 
Até aqui as objeções.
E quantas vezes ouvimos pessoas nos dizerem coisas semelhantes. Atacavam o Papa Bento XVI, dizendo que ele era herege, e que, por isso, ele não seria Papa. Outros também se riam de nossa crença e esperança no Papa atual, e que era ridículo imaginar que ele permitiria um retorno à Missa de sempre. Houve até quem comparasse essa nossa esperança à de certos sectários, que estão sempre esperando uma solução espetacular para os males de hoje. Solução miraculosa sempre por chegar... E que nunca chega...Diziam-me que nunca haveria um retorno da Missa promovido por Bento XVI, o Papa Ratzinger...
Já retornou.
Agora, o Cardeal Castrillón Hoyos acaba de anunciar a publicação de uma Instrução determinando que haja pelo menos um Missa de sempre, todos os domingos, em todas as paróquias do mundo inteiro.  Como vão chiar os Bispos modernistas!...
Dissemos que o trabalho do Abbé Celier é muito bem matizado, fazendo distinções bem oportunas e sutis.
Ele acaba com as afirmações de sede vacantistas que procuram apresentar Dom Lefebvre como um santo... sede vacantista.
Com o trabalho do Abbé Celier fica comprovada  essa falácia dos sede vacantistas. Aliás, o autor condena peremptoriamente o sede vacantismo, comprovando que Dom Lefebvre sempre se opôs a essa posição absurda.
 
***
 
 Na segunda parte de seu trabalho, Padre Celier trata dos argumentos dos que exigem que a FSSPX assine um acordo, e o assine já.
A sua conclusão final é a seguinte:
Cabe apenas a Monsenhor Bernard Fellay, atual Superior Geral da FSSPX, decidir quando seria oportuno e necessário assinar esse “acordo” com Roma. Nada impede que ele mantenha contatos com Roma, hoje, como também ele não está obrigado a assinar um “acordo” já. Ele decidirá o quando e  o como.
Evidentemente, embora o documento fale em consulta ao Capítulo Geral da FSSPX, esse posicionamento pessoal do Abbé Celier, coloca um tanto de lado os demais Bispos da FSSPX. Pelo menos poder-se-ia pensar que ficou combinado entre eles que Dom Fellay é quem decidirá, quando e em que condições, assinará um “acordo” com Roma.
Por que colocamos a palavra “acordo” sempre entre aspas?
Porque Abbé Celier diz expressamente que nenhum católico pode impor acordos com Roma.
Vejam-se as próprias palavras do Abbé Celier:
 
“Esse termo «acôrdo» é em si infeliz e inexato: uma simples parte da Igreja, como a FSSPX, não tem, nem direito, nem título para impor o que quer que seja ao sucessor de Pedro, a ditar suas condições. Ela pode propor, sugerir, mas de modo algum ordenar a menor coisa: o Papa permanence o Papa! A esse título a Fraternidade Sacerdotal São Pio X não pode “assinar um acôrdo” com a Sé Apostólica. Quando a hora chegar, a realidade não poderá ser evidentemente senão um respeitoso pedido da parte da FSSPX, seguido por uma livre decisão do Soberano Pontífice (mesmo se os termos dessa troca forem combinados anteriormente).
 
Excelente ponderação!
O Papa permanece sempre o Papa!
 
A FSSPX havia sugerido, no passado, duas condições para entabular conversações com Roma:
 
1) A liberação total da Missa gregoriano ou tridentina.
Isso foi feito pelo Motu Propio Summorum Pontificum e será completado pela Instrução agora anunciada pelo Cardeal Castrillón Hoyos, e que determinará que em todas as paróquias haja pelo menos uma missa tridentina aos domingos.
2) A anulação das excomunhões de Dom Lefvre de Dom Mayer, e dos Bispos sagrados por eles.
 
Isso está praticamente resolvido.
O Abbé Celier apresenta então uma sugestão que, ao que tudo indica, foi o resultado das negociações havidas já entre Bento XVI e Dom Fellay, como garantia da mudança de orientação do Vaticano:
 
“Entretanto, como já sublinhamos, esse golpe de timão não consiste em pedir que o concílio Vaticano II seja pura e simplesmente anulado. Não consiste em exigir de Roma um documento solene de arrependimento quanto ao ultimo meio século. Não consiste em voltar materialmente a 1958, ao estado da Igreja na morte de Pio XII. Ademais, ele pode se dar de vários modos, em várias etapas, tomando todos os cuidados  legitimamente necessários.
“Por exemplo, essa mudança de rota em direção à tradição poderia se concretizar, em um primeiro tempo, pelo fato que a Sé apostólica autorize estatutariamente a Fraternidade São Pio X a permanecer fiel de modo exclusivo à doutrina tradicional, tal qual foi expressa claramente pelo Magistério anterior ao Concílio Vaticano II (permissão que lhe seria dada à semelhança da que foi autorizada quando do acordo de Brest-Litovsk em 1595, sob o pontificado de Clemente VIII), e declara possível e lícito para a Fraternidade São Pio X, na Igreja, uma crítica séria e construtiva dos pontos claramente novos do Vaticano II, e que a esse título suscitam  interrogações legítimas.
“Esta proposta é simples, clara, pragmática, e permitiria, se ela fosse aceita,  garantir de modo eficaz e sério a perenidade da Fraternidade São Pio X, sem que entretanto «o final da crise» tenha chegado. Monsenhor Fellay, com efeito, reconheceu claramente que esses dois pontos (o retorno da Fraternidade São Pio X à  plena legalidade canônica e a solução definitiva da crise da Igreja) deveriam ser cuidadosamente distinguidas”.
 
Portanto, o “acôrdo” para Roma significaria:
 
1-    Roma não faria uma pura e simples anulação do Concílio  Vaticano II;
2-    Roma não precisaria declarar-se arrependida do que aconteceu nos últimos cinqüenta anos;
3-    Não se voltaria ao estado da Igreja, em 1.958;
4-    O Papa mudaria a orientação da Igreja aos poucos, por etapas.
 
Para a FSSPX:
 
1-       A Sé apostólica autorizaria estatutariamente a Fraternidade São Pio X a permanecer fiel de modo exclusivo à doutrina tradicional, tal qual foi expressa claramente pelo Magistério anterior ao Concílio Vaticano II (permissão que lhe seria dada à semelhança da que foi autorizada quando do acordo de Brest-Litovsk em 1595, sob o pontificado de Clemente VIII).
 
Sensacional e curiosíssima concessão! Que, de fato, declararia que o Concílio Vaticano II não foi um concílio infalível no qual se deve crer com fé divina e católica.
 
2- Roma declararia ser possível e lícito para a Fraternidade São Pio X, na Igreja, uma crítica séria e construtiva dos pontos claramente novos do Vaticano II, e que a esse título suscitam interrogações legítimas”.
 
É o famoso privilégio concedido também ao Instituto do Bom Pastor: fazer crítica séria e construtiva ao Concílio Vaticano II.
 
E crítica construtiva não significa engolir erros, fingindo que não se os vê.
Um professor que fingisse não ver que um aluno errou todas as respostas em uma prova, e lhe desse nota máxima, mais destruiria ao aluno do que o construiria algo nele. Enquanto, o professor que desse zero a um aluno que errou tudo na prova, estaria, esse sim, fazendo-lhe uma crítica construtiva. Criticar construtivamente é apontar erros, visando fazer bem a quem errou.
Ou corrigir os que erram não seria fazer algo construtivo?
Rezemos pelo Papa Bento XVI, e peçamos a Deus, que, o quanto antes se faça justiça a Dom Lefebvre e a Dom Mayer, esses dois heróicos confessores da Fé.
 
São Paulo, 16 de Junho de 2008.
Orlando Fedeli

    Para citar este texto:
"Acordo à vista? A curto prazo? - Novidades de Econe"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/acordo_vista/
Online, 25/11/2017 às 01:33:30h