Igreja

A reforma da reforma não tardará
André Roncolato
 

  André Roncolato Siano

A Reforma da Reforma acontecerá. Bento XVI, neste que já é um memorável reinado, trouxe às claras uma guerra sub-reptícia que há muito tempo, desde o Concílio Vaticano II, vinha sendo travada nas sombras das sacristias.  E cravou em 2007 um marco decisivo nesta luta, no dia da Santa Cruz, com o Motu Proprio Summorum Pontificum, libertando a Missa de Sempre. A Santa Missa, renovação do sacrifício de Nosso Senhor, nos convida todos a subir até o Calvário com a Virgem Dolorosa. Alegoricamente podemos dizer que o Papa novamente cravou a Crux fidelis - emblema da fé! - no coração da Santa Igreja:

Ó língua, canta a vitória

Do glorioso combate;

E sobre o troféu da Cruz,

Proclama o nobre triunfo,

De o Redentor deste mundo,

Vencer, imolando a vida.

Podemos sem receios cantar, com Fortunato, estas perenes verdades. Cantar a Santa Cruz, que precede as vitórias certas. Claro que não devemos pensar que não haverá batalhas, não obstante a vitória certa. E claro que os modernistas que estavam até então adormecidos, em certa tranquilidade, pois confiantes de que os gonzos se soltaram dos batentes com o duro golpe do Concílio, começam a despertar e trabalhar, com muita diligência, para minar todo bem que se tem feito para a restauração da vida católica. Não resta dúvida, porém, que as batalhas mais ferozes estão sendo travadas pela Santa Missa. Cá no Brasil, Terra de Santa Cruz, isso é sobremaneira intenso. A Missa Nova, festa e ceia. A Missa de Sempre, calvário e sacrifício.  A Missa Nova, o “espaço celebrativo”, lugar para a criatividade insaciável. A Missa de Sempre, o altar da obediência litúrgica e da profunda devoção. A Missa Nova, antropocêntrica. A Missa de sempre, voltada para Deus. A Missa Nova, fiat voluntas nostra. A Missa de sempre, fiat voluntas Tua. Pois bem, são duas missas e cada uma, em seus símbolos e forma, representam opositivamente, uma teologia, uma eclesiologia e uma doutrina distintas.  Não é possível a conciliação. O triunfo da Missa Nova é o triunfo da kenosis, do relativismo total, da submissão da Santa Religião aos caprichos dos homens, o reinado do subjetivismo e do rapto dos direitos de Deus. É colocar a vida natural como o bem supremo a ser aproveitado até a impiedade. O triunfo da Missa de Sempre tem, como consequência, a submissão do homem a Deus, a adesão a Santa Doutrina, a obediência à Verdade, o retorno da verdadeira piedade, o oferecimento a Deus de um culto digno. É o desejo de agradar a Deus nesta vida para salvar a alma. Roma sabe. Os modernistas também. Também os sedevacantistas, porque não desejam uma solução para a crise que devemos superar. Roma – e muitos fazem questão de fingir que não veem – há alguns anos, já faz com que a reforma da reforma seja fato. E isso logo se fará sentir aqui também no Brasil, nas novas traduções do Missal para a língua portuguesa, não obstante a resistência momentânea de alguns bem conhecidos bispos e especialistas em liturgia que, por ora, atrapalham o quanto podem o retorno mais rápido do fim do recreio doutrinal.

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Ainda há poucos dias escrevemos sobre um catastrófico Seminário Nacional de Liturgia, promovido pela Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia da CNBB e pela Associação dos Liturgistas do Brasil (ASLI) que deve ter deixado muitos padres ‘grillados’. [caption id="attachment_9056" align="alignnone" width="550" caption="Créditos da ilustração: Stefano Parra"][/caption] Pois foi Andrea Grillo o badaladíssimo consultor deste seminário sobre liturgia, convidado de honra da CNBB e ASLI. Como se sabe, ele é violentamente contra a Reforma da Reforma promovida por Bento XVI e, portanto, contra a política vaticana sobre a liturgia. Convidá-lo oficialmente a este evento, equivale, na linguagem eclesiástica, a dizer ao Papa e ao Culto Divino, que os Bispos dos Brasil não estão muito interessados em cooperar com a vontade do Vigário de Cristo. Para que se tenha uma ideia disso, cito alguns comentários de Andrea Grillo a respeito das conclusões (entenda-se “instruções”) de Mons. Guido Marini em uma conferência sobre liturgia proferida por este último em Genova e Roma: “Tenho que dizer apertis verbis: a reforma da reforma não é – como tenta sugerir o texto – o aprofundamento do Movimento Litúrgico, nem é de forma alguma a conclusão inevitável de quem tem a presunção de ter encontrado o verdadeiro espírito da liturgia.” (GRILLO, A.  Quali sono le ragioni di una “riforma della riforma”? Cinque domande di un teologo a un Maestro) Veja como Grillo cricrila irritado contra o Cerimoniário para as Celebrações do Sumo Pontífice porque, em Roma, Marini defendeu uma missa mais próxima de como deve ser e como o Papa pensa: respeitando as normas disciplinares da Igreja e a Tradição. Assim como deve ser a Lectio orante. Fica, aliás, manifestada a contradição de um modernista como Grillo: mesmo que fosse uma inverdade de Mons. Marini e que o atual Papa nada entendesse de liturgia – o que não é o caso, de maneira alguma – Grillo deveria ficar quietinho visto que, para o modernismo, a “expressão” e o “sentir da comunidade” são ações da participação ativa do “povo de Deus” e portanto louváveis, mesmo as mais tresloucadas, como a missa do futebol na Holanda. Assim, o “sentir” profundamente tradicional de Mons. Marini, que tenta ajudar ao Papa na Reforma da Reforma, deveria ter um apoio grande de Grillo. Mas esse princípio não deve valer para o “sentir” tradicional... Claro! As cinco perguntas de Grillo a Mons. Guido Marini – este sim um grande liturgista – pretendem-se críticas irrespondíveis contra a Reforma da Reforma. Como Grillo, alguns dos professores de seminários brasileiros têm esses súbitos delírios de vanguarda litúrgica, caindo no autoconceito de que só eles possuem a profunda compreensão do culto divino... e são, com justiça, os proprietários da missa. Nesse ponto eles se esquecem do mais elementar: que ela é de origem divina, e a Igreja é sua guardiã. Não obstante, tem-se que admitir: é muita valentia de se convidar esse fulano para falar a todos os padres do Brasil. Será que são ingênuos ao ponto de pensar que isso não chegaria a Roma com o devido peso?

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Seguindo. São muito curiosas essas “associações”, como a ASLI, que a CNBB mantém nas proximidades.  Então, resolvi testar o adágio “diga-me com quem andas...” A ASLI é muito singular. Trata-se, primeiramente de uma associação civil, dita de professores e liturgistas, que não tem caráter canônico: “ASLI, com caráter jurídico e independente da CNBB, embora, conforme a sua natureza, em estreita ligação com a CNBB.” link  - acessado em 26/03/2012 as 22:48). Ainda: “A decisão de fundar uma instituição com autonomia jurídica, sem perder os vínculos com a CNBB, foi mantida ao longo destes 20 anos.” (ASLI, Estatuto, introdução p. 3) Ora, qual a intenção de uma associação de liturgia sem status canônico e que, ao mesmo tempo, quer manter estreitas relações com a CNBB, senão o de exercer influência sobre os padres e bispos no Brasil, sem ser incomodada ou tolhida pela autoridade eclesiástica? Não se pode ser suficientemente ingênuo em pensar que, embaixo dessa auréola acadêmica, “imparcial” (ler com a devida ironia), esses professores sejam grandes defensores do respeito ao Culto Divino. É uma tática muito frequente dos modernistas se camuflarem atrás de diplomas e universidades com a intenção de dar ares de autoridade às suas ideias fazendo com que elas se difundam na cabeça do clero – diga-se, doutrinalmente muito mal ensinado – não obstante o quão heterodoxas possam ser estas mesmas ideias. E já que estamos falando de curiosidades, essa associação tem sede na Avenida Nazaré, 993, ou seja, na Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, (imaginem!), onde os padres da Arquidiocese de São Paulo são formados. Interessante, não acham? Pergunto-me:  não seria lá o lugar apropriado para ouvir atentamente os ensinamentos do Papa, em matéria litúrgica, para os por depois em prática? Se os piedosos leitores tiverem estômago forte, convido a entrar no site da ASLI  e ler alguns artigos ali publicados por doutos professores. E, se puderem, o façam com alguns documentos recentes sobre a liturgia em mãos, como o Redemptionis Sacramentum ou o Lithurgiam Authenticam ou ainda, as instruções da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, como aquela que manda corrigir a tradução do pro multis.  É de arrepiar os cabelos! O que querem os associados desta ASLI senão trabalhar – enquanto ainda é tempo - para levarem a cabo o moribundo progressismo litúrgico, condenado e combatido pela recente instrução Redemptionis Sacramentum, sobre a qual não encontramos nenhuma referência nos artigos publicados em seu site? Evidentemente aqueles “especialistas” em liturgia, fazem vistas grossas ao que deveria ser praticado e ensinado. Com muito pouca probabilidade de errar, ouso inferir que ensinam e praticam o contrário do que deseja a Santa Igreja, tirando as piores consequências possíveis dos textos ambíguos e fenomenológicos do Pastoral Concílio Vaticano II e do Novus Ordo. Apenas como um exemplo, veja-se o que afirma o bem conhecido franciscano modernista Frei Alberto Beckhäuser, OFM, com desdém e como se fosse um grande defeito:  “No catolicismo tradicional os ritos têm força, agem por si mesmos, sem compromisso de vida de acordo com o seu sentido. Uma vez recebidos os sacramentos da Salvação, a vida corre paralela. O que importa é garantir o céu após a morte.”  (VISÃO GERAL SOBRE RELIGIOSIDADE / PIEDADE POPULAR E LITURGIA NA TRADIÇÃO CATÓLICA BRASILEIRA) Pergunto: pobre frei, o que mais importa além da salvação eterna? O que me valeria ganhar o mundo inteiro se, ao final da vida, viesse a perder minha alma? A única conclusão que se pode tirar é que o professor de liturgia não conhece o Catecismo Católico. Ou conhece! Na primeira hipótese, menos grave, o remédio é mais fácil. Conheço alguns aluninhos de sete anos de idade que poderiam ensinar-lhe as verdades de fé que todo católico deve crer e praticar. Mesmo os professores de liturgia. É possível pensar que não seja esse o caso do frei Beckhäuser, visto ter sido ele, além de doutor em liturgia, assessor para Liturgia da CNBB durante um longo tempo. Daí que ele não seria propriamente um clérigo ingênuo em matéria doutrinal. A segunda situação é mais grave. Só Deus o sabe. É possível, apenas com essa citação, vislumbrar as ideias que movem essa associação. E certamente essas péssimas ideias litúrgicas sempre estão acompanhadas das outras doutrinas modernistas como a colegialidade, o ecumenismo, o fim do celibato, o laxismo moral etc. Tomemos o exemplo da Áustria ou Holanda, países em que triunfaram o espírito do concílio e as reformas litúrgicas na mais autêntica forma progressista — o mundo ideal da ASLI.  Muitos padres vivendo em concubinato. Levantes públicos e oficiais de rebeldia dos padres contra os bispos e contra o Papa, perda massiva de fiéis. Escândalos e abusos frequentes. Perda da fé e da piedade. (Aqui, uns anos atrás, um grupo de padres tentou uma rebelião semelhante, entregando uma carta cheia de reivindicações contra a doutrina católica para o Card. Hummes, então Prefeito para o Clero. Um grande constrangimento para o Cardeal.) E aqui no Brasil? As coisas são movidas de maneira semelhante, pois é este espírito – que atualmente perde força – que movia por muito tempo os cursos de filosofia e teologia, como também o seminário. Aqui, de maneira mais ou menos velada, nas famosas reuniões do clero, há grupelhos de padres e “teólogos” que se impõe àqueles bispos que querem seguir livremente a vontade do Papa e serem corretos em matéria litúrgica e doutrinal. Para intimidar os bons bispos e também os bons padres, aqueles usam desde o deboche até a tentativa de isolamento prático. Outros ainda, propagam a ilusão de que a tranquilidade pastoral e a carreira eclesiástica dependem da aceitação dos princípios do progressismo litúrgico e doutrinal. Muito pelo contrário. Olhem para Roma e vejam que a Igreja do futuro é uma Igreja formada por um clero obediente, fiel e corajoso. Aos bons bispos e padres, eu ousaria dirigir uma palavra, de simples católico que sou: não devem se intimidar e menos ainda temer. Devem seguir serenamente realizando o bom governo e exemplo em matéria doutrinal e litúrgica. O modernismo está, como não poderia deixar de ser, envelhecido e sem forças. Seus mestres não deixaram seguidores. Seu próprio princípio do aggiornamento é auto contraditório.  A reforma da reforma não tardará. Por fim, uma advertência do Papa Bento XVI, na época Cardeal Ratzinger, aos liturgistas,  ao tratar do desenvolvimento católico da Liturgia, produto do autêntico depósito da fé, sem modificações ou fabricações artificiais como as feitas pelo Novus Ordo: “É assim que a liturgia é um processo histórico sempre vivo: o novo pode intervir, especialmente novos santos podem ser acrescentados; mas ela permanece constante, mesmo no Ocidente. (...) É uma advertência que se dirige a todos aqueles que se ocupam de liturgia. É nesse espírito de serviço em favor da vida [da vida da liturgia] que se desenvolveu e que gera em nós fé secular,  que eles devem agir, e não como peritos autocráticos que querem inventar e fabricar o que há de melhor.(Card. Ratzinger. Voici quel est notre Dieu, Plon, Paris, 2001).   AMDG,   André Roncolato Siano

    Para citar este texto:
"A reforma da reforma não tardará"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/a-reforma-da-reforma-nao-tardara/
Online, 18/10/2017 às 07:30:03h