Igreja

Missa Nova e a hermenêutica da ruptura
 

“... a reforma litúrgica [...]

se aproximou das mesmas formas

da liturgia da Igreja luterana”

(Osservatore Romano, 13/10/1967)

  Introdução Muito se tem falado sobre “hermenêutica da continuidade” ou “interpretação do Concílio Vaticano II em perfeita sintonia com o magistério precedente”. Alguns, animados por uma fantasiosa noção de infalibilidade, recusam de imediato a simples insinuação de ruptura nos documentos conciliares. Consideram que as imprecisões e equívocos surgem apenas na leitura que os “adeptos da ruptura” extraem das orientações pastorais desse Concílio Ecumênico. Na mesma linha do Padre Stefano Carusi, conforme exposto em seu esclarecedor artigo “O ‘rito próprio’ e a ‘hermenêutica da continuidade’ são suficientes?”, não excluímos a possibilidade de algumas expressões pouco precisas do Concílio, geradoras de “más interpretações”, receberem do Magistério Autêntico da Igreja uma interpretação definitiva, em continuidade teológica com o ensino de sempre. Evidentemente, essa possibilidade de um sentido ortodoxo não exclui, a priori, os elementos em flagrante ruptura, intencionalmente introduzidos nos documentos pontifícios, com intuito de favorecer uma hermenêutica modernista. Averiguar esse plano nos bastidores e no pós Concílio não é tarefa difícil. A fartura de provas dispensa qualquer “engenho hermenêutico” na tentativa de confirmar uma inquestionável ruptura com o passado. Para demonstrar essa intencional cisão com a doutrina perene, concretizada nas resoluções provenientes do Vaticano II, selecionamos para este estudo as declarações e realizações vinculadas à fabricação do Novus Ordo Missae, cujo rito constituiu a produção mais expressiva de ruptura com a bimilenar Tradição Católica.  Embora isso já tenha sido demonstrado por prelados e eruditos competentíssimos, resolvemos reunir num só artigo as três provas que, por si mesmas, dispensam qualquer tentativa de uma absoluta hermenêutica de continuidade na letra e no “rito aggiornato” do Vaticano II.   A intenção protestante na Missa Nova  

  Para isentar o Vaticano II de qualquer culpa pela subseqüente crise religiosa, dizem seus defensores que não houve até o momento uma correta compreensão de seus textos. O erro estaria exclusivamente e unicamente na interpretação distorcida, e não propriamente no Concílio, cujos artífices tiveram as melhores das intenções ao convocá-lo e executá-lo. Como já denotamos previamente, não faremos interpretação ou análise teológica da redação do Concílio ou da estrutura do Novus Ordo. Ao invés disso, queremos demonstrar que, independente das “hermenêuticas”, é possível desvendar um certo objetivo de ruptura que culminou na crise que hoje padecemos. Para tanto, a Missa Nova é a principal “chave” denunciadora da conspiração modernista. Que os protagonistas da reforma litúrgica aspiravam alterar ou obscurecer as verdades da Fé para promover a propaganda ecumênica, tem-se a primeira impressão na intenção do Papa que a promulgou, segundo foi revelada por seu amigo e confidente, o filósofo modernista Jean Guitton: “Em Paulo VIhavia a intenção ecumênica de eliminar, ou pelo menos de remover ou atenuar, o que na missa era demasiado católico em seu sentido tradicional, com o fim de aproximar a missa católica da missa calvinista” (Jean Guitton apud Padre Dominique Bourmaud. Cien Años de Modernismo. Edição PDF, p. 211 – tradução e destaques nossos). No debate “Lumière101”da Rádio Courtoise (19/12/1993), Jean Guitton voltou a falar da intenção do Papa Paulo VI ao promover a reforma da Missa: “... a intenção de Paulo VI em relação à liturgia, ou à vulgarização da Missa, era reformar a liturgia católica para aproximá-la da liturgia protestante… da Ceia protestante. […] repito que Paulo VI fez tudo o que estava em seu poder para aproximar a Missa católica — apesar do Concílio de Trento — da Ceia protestante” (idem, ibidem). Essa busca ecumênica do Papa aparece de modo patente no seguinte trecho de sua famosa Encíclica Ecclesiam Suam: “Descobre-se no diálogo como são diversas as vias que levam à luz da fé, mas como apesar disso é possível fazê-las convergir para o mesmo fim. Ainda que sejam divergentes, podem tornar-se complementares levando o nosso raciocínio para fora das sendas comuns e obrigando-o a aprofundar as investigações e a renovar os modos de expressão. A dialética deste exercício de pensamento e de paciência far-nos-á descobrir elementos de verdade mesmo nas opiniões alheias...” (nº 48). O que seriam exatamente essas “vias divergentes” que levam à luz da fé? Seriam, por acaso, as várias religiões com seus ritos diferentes? Assim sendo, pode-se supor que o objetivo de “fazê-las convergir para o mesmo fim, tornando-as complementares”, seria obtido por um culto comum – ou muito próximo - como certamente foi o rumo seguido pela reforma litúrgica. Resultante desse aproveitamento ecumênico das “diversas vias”, emerge – no dizer do Papa – uma obrigatória necessidade de renovação dos “modos de expressão”. Em caso de aplicação na liturgia, a modificação, ainda que acarretasse perda ou diminuição da expressão inequívoca da verdade católica, em compensação, lucrar-se-ia pelos novos “elementos de verdade” encontrados “mesmo nas opiniões alheias”. O Concílio de Trento fizera da Missa a expressão mais perfeita e burilada da Doutrina Católica sobre a Redenção e o Sacrifício Eucarístico. Paulo VI, trilhando caminho oposto, procura “novos modos de expressão”, necessariamente menos precisos, pois terão que contemplar novas “vias” teológicas, comprometendo assim o clássico adágio “lex orandi lex credendi” que deixaria de ser aplicado na Missa... ou se mudaria o próprio conteúdo da fé! A ruptura já aparece notável nessa primeira Encíclica do Papa. Com relação à Missa Católica, o projeto ecumênico ficou subentendido no discurso que Paulo VI proferiu durante o encerramento da Segunda Sessão do Concílio: “Ao contrário, nós queremos tornar a liturgia mais pura, mais autêntica, mais de acordo com a Fonte da verdade e da graça, mais apropriada a se tornar o patrimônio espiritual do povo” (Ralph Wiltgen S,V.D. O Reno se lança no Tibre: o concílio desconhecido. Rio de Janeiro: Permanência, 2007, p. 143). Então a Missa não era e foi sempre “patrimônio espiritual do povo”... católico? Se, por alterações e adaptações reformistas, a Missa deveria deixar de ser patrimônio exclusivo da Igreja Católica, para se tornar “patrimônio espiritual do povo”, certamente esse não era o povo católico.  Pois, em nome do diálogo, seria preciso que a Missa pudesse ser universalmente aceita por qualquer profissão religiosa. Movido pelo declarado empenho de aproximação entre o rito católico e a ceia herética protestante, Paulo VI levou adiante a fabricação do Ritus Modernus.  

Para executar essa missão de ofuscamento dos elementos católicos da Missa, o Papa elegeu o Monsenhor Annibale Bugnini. Esse padre conciliar, que terminou sua vida afastado do Vaticano, teve mais tarde seu nome mencionado na lista de maçons tornada pública por Mino Peccorelli, fato que custou a vida deste último, logo no dia seguinte. No dia 5 de maio de 1964, Bugnini é nomeado por Paulo VI como Secretário da Comissão responsável pela elaboração do Novo Ordo. Em março de 1965, o Osservatore Romano divulgou declarações desse monsenhor: “Desejo eliminar [do futuro Rito em elaboração] cada pedra que pudesse se tornar ainda que só uma sombra de possibilidade de obstáculo ou de desagrado aos irmãos separados” (L’Osservatore Romano, de 11 de março de 1965; Doc. Cath. Nº 1445, de 4/4/1965, coll. 603-6040). Temos a palavra do autor! Bugnini correspondeu à vontade ecumênica do Papa realizando a transformação do sacrifício católico da Missa num festivo banquete luterano. O Papa desejou e Bugnini executou. Além dessas flagrantes declarações, existe ainda outro documento que reforça a intenção protestante na elaboração da Missa Nova. Publicado no site da Congregação do Clero, encontra-se um artigo do vaticanista Andrea Tornielli, no qual ele denuncia o plano secreto de descristianização da Missa Católica. A base de sua indagação provém de duas cartas, possivelmente trocadas entre Monsenhor Bugnini e o Grão-Mestre da maçonaria. Abaixo, copiamos as duas correspondências:   Grão-Mestre ao Monsenhor Bugnini: “Caro Buan, comunicamos o encargo que o Conselho dos Irmãos estabeleceu para ti, de acordo com o Grão-Mestre e os Príncipes Assistentes ao Trono, e te obrigamos (...) a difundir a descristianização mediante a confusão dos ritos e das línguas e de colocar padres, bispos e cardeais uns contra os outros. A Babel lingüística e ritual será a nossa vitória, como a unidade lingüística e ritual foi a força da Igreja (...) Tudo deve acontecer no prazo de dez anos”. (14 de julho de 1964).   Monsenhor Bugnini em resposta ao Grão Mestre: “Grão-Mestre incomparável (...) a dessacralização prossegue rapidamente. Foi publicada uma outra Instrução, que entrou em vigor no dia 29 de junho p.p. Já podemos cantar vitória, porque a língua latina vulgar é soberana em toda a liturgia, inclusive nas partes essenciais (...) Foi dada máxima liberdade de escolha entre os vários formulários, à criatividade particular e ao... caos! (...) Em suma, com esse documento creio ter disseminado o princípio da máxima libertinagem, segundo as vossas disposições. Lutei duramente contra os meus inimigos da Congregação para os Ritos e tive que recorrer a toda a minha astúcia para que o Papa a aprovasse. Por sorte, encontramos o apoio dos amigos e irmãos da Universa Laus, que são fiéis. Agradeço pela soma enviada e esperando vos ver em breve, vos abraço. Vosso Irmão Buan” (2 de julho de 1967). Embora o vaticanista reconheça como possível a falsidade das cartas, ele não deixa de frisar que as reformas de Bugnini concordam plenamente com os objetivos fixados. Seria a Missa Nova de Paulo VI o produto de um plano maçônico para destruir a força da Igreja Católica? Verdade ou não, acreditamos que esse trabalho não teria sido possível ou talvez não teria sido satisfatoriamente realizado, se Monsenhor Bugnini não tivesse contado com a colaboração direta de seis pastores protestantes que, participando ativamente enquanto consultores, ajudaram a produzir uma Missa tanto quanto possível nos moldes da liturgia protestante. Acreditem ou não, a Missa Nova é uma obra ecumênica de hereges. É o que mostraremos no tópico seguinte.   A participação protestante na Missa Nova   Nenhum exército convocaria os inimigos de guerra para colaborar na construção de sua fortaleza. Se isso acontecesse, obviamente esses fariam de tudo para forjar dispositivos facilitadores de uma planejada invasão. E foi o que sucedeu. Paulo VI e Monsenhor Bugnini convocaram os hereges para construir uma renovada liturgia. A Missa, que pelo seu desenvolvimento orgânico tornara-se uma instransponível fortaleza contra as heresias, ficou, pelas imprecisões e mutilações, vulnerável à introdução de heresias! Os protestantes consultores inseriram as brechas pelas quais, segundo constatou mais tarde Paulo VI, penetrou na Casa de Deus a fumaça de Satanás (Omelia Di Paolo VI, 29/06/1972). Em 10 de abril de 1970, acomissão responsável pelo novo Ordo Missae foi recebida em audiência pelo Papa. Na oportunidade, o Pontífice aproveitou para registrar o importante momento, deixando-se fotografar juntamente com os seis pastores que participaram da referida Comissão. O discurso de agradecimento de Paulo VI é revelador: “Nós temos de agradecer-vos muito vivamente [...]. O que vos era pedido, não era fácil com efeito [...]: redigir de uma maneira nova textos litúrgicos provados por um longo uso, ou estabelecer fórmulas inteiramente novas” (La Documentation Catholique apud padres tradicionalistas de Campos. A Missa Nova: um caso de consciência. São Paulo: Artpress, 1982.   Esse texto foi publicado apenas em latim no site do Vaticano. O trecho em questão diz: “Impellimur, ut pro tot tantisque laboribus gratias vobis maximas agamus (...) Arduum profecto negotium hoc vestrum fuit: siquidem documenta, quibus Constitutio illa Concilii ad usum paulatim deduceretur, erant apparanda ipsique textus liturgici, diuturno usu probati, in novam rationem redigendi aut novae omnino formulae conficiendae”. É o próprio Papa que afirma ter solicitado a uma comissão, da qual participavam hereges protestantes, a reformulação da liturgia católica pela introdução de fórmulas inteiramente novas. Conheci justificativas “splendorosas”, que pretendiam atenuar essa presença de pastores protestante, alegando que estavam na condição de meros observadores. Entretanto, isso não fica claro, em nenhum momento, nas considerações que o Papa Paulo VI direcionou à Comissão que incluía esse grupo seleto de supostos “observadores”. A intervenção protestante no projeto arquitetônico de um novo edifício litúrgico, também pode ser confirmada por inúmeros testemunhos, entre eles o de Monsenhor W. W. Baum, diretor-executivo para os assuntos ecumênicos da Conferência Episcopal Norte-americana: “Eles [os pastores protestantes] ali estão não simplesmente como observadores, mas também como consultores, e participaram nas discussões sobre a renovação litúrgica católica. Não teria muito sentido se se contentassem com escutar, mas contribuem de fato” (Detroit News apud padres tradicionalistas de Campos. A Missa Nova: um caso de consciência. São Paulo: Artpress, 1982). Como observa o prelado, não teria sentido se os pastores ali estivessem apenas para contemplar as modificações litúrgicas. A presença desses hereges tinha uma razão diretamente ligada a decisão do Papa de transformação do culto católico a serviço do ecumenismo e do diálogo. Paulo VI convocou e agradeceu. Monsenhor Baum apenas testemunhou o fato. Como prova documental ficou a espantosa semelhança do Novus Ordo Missae com um culto luterano. O que pensar de um Papa que admitiu hereges na fabricação de um rito que se promulgou como ordinário da Igreja? Evidentemente, não seremos nós a responder essa questão. Mas, o que esperar de uma Missa modelada por mãos heréticas? Quanto a essa pergunta podemos fornecer não a nossa interpretação pessoal, mas as preciosas confissões de eruditos católicos e, como era de se esperar, a dos próprios protestantes que não economizaram louvores de contentamento pela nova versão do Ordo Missae.   A conclusão protestante da Missa Nova  

  Da intenção e da participação protestante, era inevitável uma conclusão neste seguimento. A Missa que antes da reforma desagradava aos hereges por sua inequívoca expressão da Fé Católica, tornou-se ecumenicamente agradável em razão das novas fórmulas equívocas, facilitadoras de uma interpretação protestante da Missa. O que antes era impossível ficou aceitável. Nas blasfemas palavras de Lutero podemos visualizar o sentimento protestante relativo ao Rito Romano em sua versão antiga: “Quando a missa for revirada, acho que nós teremos revirado o papado! Porque é sobre a missa, como sobre uma rocha, que o papado se apoia totalmente, com seus mosteiros, seus bispados, seus colégios, seus altares, seus ministérios e sua doutrina [...] Tudo isto desabará quando desabar sua missa sacrílega e abominável” (Lutero apud Daniel Raffard de Brinne. Lex Orandi: La Nouvelle Messe et la Foi, 1983). Lutero esbanjava aversão ao que ele denominava de Missa sacrílega e abominável. No entanto, toda essa fulminação iria mudar após a reforma litúrgica operada pela comissão do Vaticano II. De odiada, a Missa após Paulo VI surgiu sob os aplausos dos inimigos da Igreja. Os hereges jactaram-se diante da reforma litúrgica que provocou a destruição da piedade católica. A conclusão protestante da reforma da Missa foi consumada. Os pronunciamentos decorrentes são de causar perplexidade em qualquer católico. Max Thurian, um dos pastores colaboradores da Missa Nova, concluiu que, a partir da reforma, protestantes e católicos podem, doravante, recitar as mesmas orações litúrgicas: "As comunidades não católicas poderão celebrar a Santa Ceia com as mesmas orações que a Igreja católica [da Nova Missa de Paulo VI] : teologicamente, isto é possível". (Max Thurian, pastor protestante de Taizé. Citado no jornal La Croix du 30 mai 1969). O Doutor Siegwalt, professor de Teologia Dogmática na faculdade protestante de Strasburgo, também exprimiu sua satisfação: “Não há nada na Missa renovada – [a Missa Nova de Paulo VI] — que possa incomodar realmente ao cristão evangélico. Falta saber se a esse rito se pode chamar de Missa católica” (Apud Padre Dominique Bourmaud, Cien Años de Modernismo, Ediciones Fundación San Pio X, Buenos Aires, 2006, p. 374). No Consistório superior da Confissão de Augsburgo y Lorena, chamada Igreja “evangélica”, verificamos semelhante aprovação, que garantiu a Paulo VI e a sua Comissão o resultado esperado quanto à intenção e à elaboração da Missa Nova: Tendo em vista as formas atuais da celebração eucarística na Igreja católica [a  Missa Nova de Paulo VI], e em razão das convergências teológicas existentes, muitos obstáculos que poderiam impedir a um protestante de participar desta celebração litúrgica parecem em vias de desaparecer. Poderia ser possível, hoje, a um protestante reconhecer na celebração litúrgica católica a Ceia instituida pelo Senhor (Augusto del Río. El Drama Litúrgico. Buenos Aires:Editorial Santiago Apóstol, 2003, p.5). A conclusão protestante do Novus Ordo foi amplamente reconhecida. Mas essa verificação não se restringiu ao orbe dos hereges. Também entre os clérigos da alta cúpula da Igreja Católica muitos emitiram críticas severas contra a nova versão da Missa Romana. Monsenhor Klaus Gamber, perito em liturgia, publicou um livro no qual fez uma análise negativa da estrutura reformada da Missa. Nessa obra, o famoso liturgista declarou que a Missa Nova é um tumor canceroso que precisa ser extirpado da vida litúrgica da Igreja: “Onde estão os bispos que tenham o valor de fazer desaparecer este tumor canceroso, que é a teologia modernista, implantada no tecido da celebração dos santos mistérios, antes que se prolifere mais e mais?” (A Reforma da Liturgia Romana.Teresina: Edição PDF, 2009, p. 43). No prefácio do livro citado acima, encontramos críticas igualmente severas contra a Missa Nova. Seu autor, na época o Cardeal Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, acusou a Missa fabricada do Vaticano II de “falsificação e produto banal de um instante” (In Monsenhor Klaus Gamber. A Reforma da Liturgia Romana.Teresina: Edição PDF, 2009, p.8). No livro “Lembranças de Minha Vida”, o mesmo Cardeal classificou o Novus Ordo de “... ruptura e uma decadência na história da liturgia” (Cardeal Joseph Ratzinger. Lembranças da Minha Vida. São Paulo: Paulinas, 2006, pp.128-131). Os Cardeais Alfredo Ottaviani e Antonio Bacci, no intitulado “Breve Exame Crítico”, documento enviado ao Santo Padre por ocasião da promulgação do novo Ordinário da Missa, chegaram à seguinte conclusão: “O seguinte Estudo Crítico é o trabalho de um grupo seleto de bispos, teólogos, liturgistas e pastores de almas. A despeito de sua brevidade, o estudo demonstra de forma bastante clara que a Novus Ordo Missae – considerando-se os novos elementos amplamente suscetíveis a muitas interpretações diferentes que estão nela implícitos ou são tomados como certos – representa, tanto em seu todo como nos detalhes, um surpreendente afastamento da teologia católica da Missa tal qual formulada na sessão 22 do Concílio de Trento” (Carta introdutória, nº 1). Essa constatação teológica da Missa prosseguiu sendo sustentada por autoridades de grande importância na Cúria Romana. É o caso do Secretário da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, à época D. Albert Malcolm Ranjith (hoje Cardeal Arcebispo de Colombo – Sri Lanka), o qual denunciou a intenção reformista de obscurecer a Fé na liturgia da Missa: “Creio que nos crescentes pedidos para a liberalização da Missa de São Pio V, o Papa tenha visto sinais de um certo esvaziamento espiritual causado pelo modo com o qual os momentos litúrgicos, são até hoje celebrados na Igreja. Tal dificuldade nasce tanto de certas orientações da reforma litúrgica pós conciliar, que tendiam a reduzir, ou melhor ainda, a confundir aspetos essenciais da fé...” (Agenzia Fides, 16/11/2007) E disse mais: “A reforma pós conciliar não é de todo negativa; antes, há nela muitos aspetos positivos naquilo que foi realizado. Mas há também mudanças introduzidas abusivamente que continuam a ser levadas avante não obstante seus efeitos nocivos à fé e sobre a vida litúrgica da Igreja” (Agenzia fides, 16/11/2007) O insuspeito Jean Guitton, confidente amicíssimo de Paulo VI, não só testemunhou a intenção protestante do Papa, como também exprimiu seu parecer conclusivo, afirmando que ”a Missa de Paulo VI parece ser a tradução de um serviço protestante” (L’infinito in fondo al cuore). Completando essa lista de pareceres sobre a desejada e concluída ruptura, presente nas fórmulas equívocas da Missa atual, reproduzimos o atualíssimo parecer do cônego da Basílica de São Pedro, Monsenhor Brunero Gherardini: “O novo rito da Santa Missa colocava na surdina a natureza sacrifical, tornava-a funcional ao reunir-se o povo de Deus em assembleia e reduzia o celebrante à função de presidente para uma experiência de comuns interesses humanitários, e a assembleia eucarística ganhava o sentido de um simples encontro convivial” (Concílio Ecumênico Vaticano II: um debate a ser feito. Brasília: Pinus, 2011, p. 70). Com esse conjunto de declarações de autoridades do clero, reforçadas pelos testemunhos insuspeitos de autores protestantes, vemos que não é preciso fazer todo um trabalho hermenêutico para comprovar a ruptura litúrgica operada na Missa Nova. Dessa mudança litúrgica, denunciada – segundo afirmam – por Nossa Senhora de Fátima, sobreveio a terrível crise de Fé e de autoridade que afeta tanto os fiéis quanto o cume da Igreja. Aos nossos leitores e especialmente aos pretensos defensores de uma absoluta “hermenêutica da continuidade”, deixamos a seguinte questão a ser refletida: Diante da intenção, da participação e da conclusão protestante na Missa Nova do Vaticano II, seria possível ainda sustentar que a ruptura em matéria de doutrina se refere tão somente a um equívoco de interpretação? Pelas provas apresentadas, não é preciso pensar muito para se chegar a uma solução. In Corde Jesu, semper Eder Silva    

    Para citar este texto:
"Missa Nova e a hermenêutica da ruptura"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/a-intencao-a-participacao-e-a-conclusao-protestante-na-missa-nova/
Online, 28/05/2017 às 01:44:49h