Igreja

Empatia não é caridade
Patricia Snow
Um colaborador da Montfort pesquisando sobre a atual perseguição que os chineses fazem contra os católicos, acabou por encontrar o artigo de Patrícia Snow publicado em outubro de 2017.

O artigo partindo da análise do filme “Silêncio” demonstra como a sociedade moderna substituiu a caridade pela empatia. Esta mudança destrói toda a doutrina católica no que se refere à aceitação do sofrimento e, portanto, no designío de Deus para os homens.

A autora começa por apresentar os falsos dilemas presentes no filme, e também nas correntes modernistas da Igreja, que impediriam os católicos de praticarem a religião em sua forma tradicional:

“A misericórdia é colocada contra a verdade, o amor ao próximo contra a lealdade a Deus”.  

Para os dias atuais poderíamos acrescentar mais um dilema: a obediência é colocada contra o cumprimento do dever.

No discorrer do artigo a autora demonstra que a ideia da empatia consiste na recusa de qualquer sofrimento, e que isto é o contrário da doutrina e da religião católica pois, Cristo nos trouxe de presente a cruz. 

Esperamos que a leitura do artigo seja proveitosa a todos aqueles que procurando seguir os ensinamentos de São Paulo aceitam com alegria os sofrimentos, pois “os judeus pedem milagres, e os gregos procuram a sabedoria; nós ao invés, pregamos a Cristo crucificado que é um escândalo para os judeus e uma loucura para os gentios”.

                                     

Empatia não é caridade

 

Por Patricia Snow – Outubro de 2017.

 

O recente filme de Martin Scorsese, Silêncio (Silence), baseado no romance histórico de Shūsaku Endō, se transforma em um ato de chantagem emocional. Inoue, um magistrado japonês do século XVII com a intenção de erradicar o cristianismo em seu país, pressiona um padre jesuíta chamado Rodrigues a apostatar, não torturando-o pessoalmente, mas torturando seu rebanho. Se Rodrigues pisotear na imagem de Cristo, a selvagem tortura de um grupo de cristãos japoneses terminará. Em seus bem-sucedidos esforços para superar a resistência de Rodrigues, Inoue conta com o apoio de outro padre jesuíta, chamado Ferreira, que anteriormente apostatou sob as mesmas condições.

Se é difícil para os seres humanos, sempre e em todos os lugares, manter em mente princípios aparentemente contraditórios sobre o cristianismo, “Silêncio” faz com que esta tarefa pareça impossível. A misericórdia é colocada contra a verdade, o amor ao próximo contra a lealdade a Deus. Após o lançamento do filme, o debate iniciado com o livro reacendeu, abastecido por pistas concorrentes: por exemplo, tanto no livro quanto no filme, os apelos de Ferreira para Rodrigues apostatar são retoricamente persuasivos, mas quando Rodrigues realmente pisa no rosto de Cristo, um galo canta. O padre jesuíta James Martin, um consultor do filme, argumentou na (revista/programa) América que em circunstâncias como estas, jesuítas de oração e bem formados poderiam legitimamente negar a Cristo. Outros críticos católicos lamentaram as implicações de “Silêncio”, apelando para os séculos de ensinamentos da Igreja e a eterna validade das verdades do cristianismo.

Por um lado, ao menos, os críticos provavelmente teriam concordado. Em um insuperável tempo e lugar na história da Igreja com torturas de engenhosas ferocidades que recaíram sobre os cristãos, o estratagema psicológico de Inoue merece uma eminência própria. Quão diabolicamente perversa deve ter sido a mente daquele magistrado japonês por ter sonhado com tão devastadora virada, que divide o bem e opõe o amor!

No entanto, voltando-se para o registro histórico, descobre-se que a história real ocorreu de forma diferente. Inoue foi um verdadeiro magistrado que perseguiu brutalmente a Igreja, e Ferreira foi um padre real que apostatou em suas mãos. O personagem de Rodrigues é baseado em outro jesuíta real chamado Chiara, que, na esperança de fazer as pazes com Ferreira, entrou no Japão com um grupo de dez pessoas, aos quais   foram todos capturados e eventualmente apostataram. Mas a verdade sobre a apostasia de Ferreira e Chiara é simples. Eles foram torturados, e cederam. Eles negaram a Cristo não por causa de uma manipulada e insuportável pena pelos sofrimentos dos outros, mas por causa de seu próprio e insuportável sofrimento.

Isso significa que o drama profundamente perturbador e polarizador no coração de “Silêncio” é um anacronismo. É uma projeção da mente moderna, a alucinação de uma imaginação ansiosa, confusa e co-dependente. É uma história sonhada pelo próprio Endō, um católico problemático do século XX, que atraiu a atenção de Martin Scorsese, outro católico de berço problemático de longa data.

Não por coincidência, “Silêncio” foi publicado no mesmo ano (1966) que a chamada Teologia da Morte de Deus, que fez sua estreia na revista Time, uma teologia eloquentemente resumida nestas páginas por Matthew Rose, no ano passado ("Morte de Deus Cinquenta Anos Depois", agosto de 2016). Qualquer pessoa interessada nas controvérsias de “Silêncio” que lê o romance de Endō e o ensaio de Rose, lado a lado, entenderá que quando o personagem Ferreira, de Endō, diz a Rodrigues: "Você, agora, vai realizar o ato de amor mais doloroso que já foi realizado", e "Certamente Cristo teria apostatado por eles", ele não está falando a língua dos jesuítas do século XVII, mas a língua de Thomas Altizer e William Hamilton, teólogos da Morte de Deus, do século XX, que acreditavam que não só Cristo, mas o cristianismo deve morrer, que finalmente o cristão não deve ser cristão, e que, em nome da caridade cristã, os cristãos devem rejeitar as verdades cristãs.

Em outras palavras, se por vezes, Endō defendia seu livro protestando que não estava escrevendo teologia, então da mesma forma, não estava escrevendo história. O verdadeiro Ferreira não era um teólogo da Morte de Deus, e o verdadeiro Inoue, um homem do Japão do século XVII, nunca teria empregado a estratégia que Endō lhe atribuiu. Por que não? Porque nada lhe teria ocorrido que tivesse funcionado. Muitas coisas ocorreram em trezentos anos. À medida que a secularização avançou e o homem teve que aprender a viver sem Deus, a maior parte de sua solução, tem sido aproximar-se de outras pessoas, de modo sem precedentes, e em última análise, intoleráveis.

Em 1937, na Alemanha, próximo ao fim de uma era em extinção, Romano Guardini escreveu na obra O Senhor:

“Certamente existe o desejo do homem de compartilhar a vida e o destino do outro, mas até mesmo a união mais profunda encontra logo uma barreira: o fato de que, eu sou eu e ele é ele. O amor sabe que a união completa, a troca completa é impossível — não pode nem sequer ser seriamente esperada. O `nós` humano, capaz de quebrar os laços do ego, simplesmente não existe... Cada ato meu começa em mim, sendo eu o único responsável por isso”.

Guardini continua a descrever a economia do Deus Trino, e a forma que o Espírito Santo, mediando a relação entre o Pai e o Filho, torna possível uma vida caracterizada pela individualidade e pela união. Somente pela mediação do mesmo Espírito Santo, ele argumenta, os anseios do homem pela individualidade e intimidade podem se realizar. Somente com a ajuda do Espírito divino suas necessidades pessoais e comunitárias podem ser supridas.

Há uma escrita muito bela nos capítulos finais da obra “O Senhor”, e um conselho para cada época, mas ele reconhece que, separado do Espírito de Deus, esta terrível separação nunca poderá ser superada pelo homem, entretanto, Guardini falhou ao não conseguir prever todas as maneiras que o homem tentaria superar esta distância. Ele não conseguiu imaginar os surpreendentes caminhos para os quais o homem iria, e todos os meios que ele empregaria - político, ideológico, jurídico, cirúrgico - para tentar quebrar as barreiras que o separam de outras pessoas, e alcançar, separado do Espírito divino, a felicidade para o qual foi criado.

Já na década de 1930, ao mesmo tempo em que Guardini estava escrevendo O Senhor, um jovem casal na América começou a testar os limites que Guardini assumiu serem invioláveis. Sheldon Vanauken e Jean ("Davy") Davis, dois auto-intitulados pagãos, se apaixonaram, e atentando-se para preservar seu amor, concordaram em rejeitar tudo o que poderia lhes separar. Tudo tinha que ser compartilhado: livros e música, impulsos de momento e sonhos a longo prazo. Como a gravidez e o parto eram tarefas exclusivamente femininas, descartaram os filhos; Vanauken fez todos os esforços para pensar como uma mulher e Davy como um homem; e contra a ameaça da morte, eles fizeram um pacto suicida. Em torno do santuário de seu amor coexistente, tipo amor-fluido, eles criaram o que chamavam de uma Brilhante Barreira, que se manteve por um tempo, mas acabou sendo violado pelo próprio Deus. A entrada de Deus em suas vidas realmente trouxe diferenças e separação, até mesmo pela morte da jovem esposa e uma prolongada reavaliação de seu relacionamento pelo marido em luto — uma "severa misericórdia" nas palavras de C. S. Lewis, que foi um meio para a conversão do casal ao cristianismo.

Uma Misericórdia Severa, o livro de memórias de Vanauken, é um livro valioso, porque articula com clareza um impulso que apresenta frutos tão estranhos em nosso tempo. Experimentos transgêneros são apenas a ponta do iceberg. Por trás deles há uma abrangente, ampla  e não examinada concepção que vem ganhando força há algum tempo: uma convicção de que deveríamos estar experimentando os sentimentos dos outros (o que na prática significa experimentar seus sofrimentos ao invés de suas alegrias) como se fossem nossos, que este exercício agora é moralmente obrigatório.

Em um mundo sem Deus, o novo mandamento da empatia seria previsto. Uma vez que Deus tenha sido declarado morto e a lealdade que lhe devemos, nula, a questão do que devemos aos outros e o que podemos esperar deles se torna urgente. Incapazes de localizar o significado de nossa vida em Deus e sua eternidade, buscamos isso em nossas relações com outras pessoas. Este é o evento que os teólogos da Morte de Deus anteciparam: um mundo horizontal e dessacralizado que quebrou todas as barreiras à inclusão, um mundo no qual, desfeito por um Deus superado, podemos finalmente dar nossa total atenção uns aos outros.

Empatia, neste mundo secular, não significa simples bondade, consideração ou compaixão. Significa, na verdade, sentir o que você acredita que alguém está sentindo em qualquer dado momento. Se eu sinto pesar que esteja sofrendo, tenho compaixão, mas se estou sofrendo o que você está sofrendo, sou empático, que significa que o candidato presidencial Bill Clinton teve uma correta empatia quando, em um importante momento durante uma arrecadação de fundos em Nova York, disse ao ativista de AIDS, Bob Rafsky: "Eu sinto sua dor".

Muitos de nós, na grande plateia, rimos da afirmação de Clinton naquela época, mas a piada acabou por recair sobre nós. Há muitos anos, vivemos no que Frans de Waal chamou de uma era de empatia, uma era não de razão, mas de uma emoção transbordante, como se o mar, aquele grande símbolo universal da paixão desgovernada e da vida afetiva fervente, tivesse estourado os limites que Deus estabeleceu desde o início ("até agora e nada além") e cobriu toda a terra com suas ondas.

Em nosso arsenal neurológico, os cientistas agora nos dizem que temos neurônios chamados "neurônios espelho", que não distinguem mais entre eu e os outros. Eles nos dizem, também, que uma resposta empática à dor de outra pessoa pode envolver o mesmo tecido cerebral que é ativado quando sentimos a mesma dor do outro. Além disso, enquanto algumas pessoas são naturalmente mais empáticas do que outras (as mulheres, por exemplo, tendem a ser mais empáticas do que os homens), com a prática, ou "treinamento de empatia", todos podem melhorar. Ao deliberar e habitualmente habitar nos sofrimentos dos outros, como o mandamento da empatia, a mídia sensacionalista e uma cultura de vitimização nos encorajam a fazer (versões contemporâneas dos Exercícios Espirituais de Inácio, que exigiam que os jesuítas tradicionais se debruçassem sobre os sofrimentos de Cristo), todos podem ampliar suas capacidades de empatia. De fato, devido a escolha entre a razão e a emoção, ou sentido e a sensibilidade, como uma cultura que nos inclina cada vez mais à emoção e sensibilidade, estamos orgulhosos de nossa escolha, como se fosse uma evidência de nossa humanidade em evolução.

Mas será mesmo? Quais foram as reais consequências de nossos desgastes emocionais sem precedentes? O que ganhamos com eles, e teria havido custos ocultos para o que o budismo chama de "compaixão sentimental" e a psicologia de "comunhão sem medida"?

Infelizmente, isso acaba sendo algo exaustivo e contraproducente, essa maneira de tentar participar dos sofrimentos dos outros. Em seu recente livro Contra a Empatia: O Caso da Compaixão Racional (Against Empathy: The Case for Rational Compassion), o psicólogo de Yale, Paul Bloom, resume as evidências experimentais e conclui que a empatia, estritamente definida, "corrói as relações pessoais; esgota o espírito e diminui a força da bondade e do amor. Longe de serem mais gentis e solidários com os outros, indivíduos excessivamente empáticos estão tão sobrecarregados pelos sofrimentos dos outros que eles são finalmente incapazes de ajudá-los, e podem até mesmo evitá-los com veemência. Estudantes de enfermagem, por exemplo, cujas pontuações de empatia eram altas, passaram mais tempo buscando apoio para si mesmos do que cuidando de seus pacientes. O livro de Bloom está cheio de exemplos de pessoas que sofrem do que ele chama de "angústia empática", não apenas nas profissões de ajuda, mas nos relacionamentos em geral.

Parte do problema da empatia é que ela é muito vulnerável à manipulação. Se empatia significa sentir o que você acredita que alguém está sentindo, em um determinado momento, então não só o psicopata, mas qualquer indivíduo especialmente carente ou inescrupuloso desfrutará de uma vantagem em um mundo orientado pela empatia. Indivíduos empáticos são indivíduos imaginativos, facilmente convencidos de que os sofrimentos dos outros são piores do que realmente são. (Quem poderia saber?) Em O Grande Divórcio, em um encontro póstumo imaginado entre um marido emocionalmente manipulador e sua esposa sofredora, C. S. Lewis distingue entre uma pena proporcional e construtiva e uma pena que meramente sofremos, uma Paixão (palavras de Lewis) que Endō não diviniza em Silêncio, mas que prejudica nosso julgamento e destrói nossa paz, e pode nos persuadir a conceder o que não admitiríamos em nenhuma circunstância.

Considere, também, a triste observação de Adam Smith de que "A natureza, ao que parece, quando nos preencheu com nossas próprias tristezas, pensando que fossem suficientes, por isso não nos ordenou a tomar mais parte nas tristezas dos outros, do que o necessário, para nos levar a aliviá-los." É razoável, ou sábio, esperar que as pessoas suportem ainda mais os sofrimentos dos outros? É coincidência que em um mundo que fez um vicário fetiche do sofrimento, o sofrimento em si mesmo - sofrimento real - tenha se tornado um tabu?

Hoje, até mesmo a Igreja cresce no medo de infligir a dor: medo de exercer uma apropriada autoridade ou disciplinar seus membros, medo de lhes dizer duras verdades. Em casa, da mesma forma, os pais são excessivamente protetores e ansiosos, ineficazes e inseguros. Eles se intimidam não apenas em disciplinar seus filhos, mas até mesmo, em alguns casos, de trazê-los para o mundo real. Em sua introdução na obra Uma Memória de Mary Ann, Flannery O'Connor alertou que, em uma era de incredulidade, vivemos em uma ternura que, há muito tempo isolada da pessoa de Cristo, termina em terror. Aborto, vício em ópios, suicídio assistido, eutanásia: podemos concordar que este não é o admirável mundo novo que os teólogos da Morte de Deus nos prometeram, mas um novo tipo de inferno, com novos tipos de sofrimentos?

Na mesma introdução em que ela coloca nossa ternura secular em questão, O'Connor argumenta que um ganho de sensibilidade e uma perda da visão andam lado a lado. "Se em outras épocas sentia-se menos, enxergava-se mais, mesmo que enxergassem com olhar cego, profético não sentimental de aceitação, ou seja, de fé." Eles viram, em outras palavras, até o mais profundo, o fim para o qual o homem é feito, à luz pela qual os sofrimentos do tempo presente não são comparados com a glória que nos será revelada (Rom. 8:18).

Essa habilidade de ter uma longa visão, esse olho que vê ao longe que enche todo o corpo de luz, é uma marca distintiva do santo. O santo não é empático; ele é caridoso, o que significa que ele sempre deseja o bem definitivo de seu próximo. Como as emoções do santo são ordenadas à luz da fé e da razão, ele não é particularmente manipulável nem possui o indevido medo de sofrer, consigo mesmo ou com relação a qualquer outra pessoa. A mãe dos Macabeus, por exemplo, no século II a.C., encoraja seus filhos em sua própria presença a sofrer e morrer pela verdade. Em 1619, em Kyoto, Japão, dezenas de milhares de cristãos nativos acompanham e encorajam cinquenta e dois concidadãos, quando são lentamente queimados vivos por sua fé, entre eles crianças pequenas nos braços de suas mães, e as mães gritam: "Jesus, receba suas almas!" Mais recentemente, em 1940, na Alemanha, o padre polonês Maximiliano Kolbe recusa uma oferta de cidadania alemã da Gestapo, embora a aceitação da oferta teria salvo a vida de seus irmãos sacerdotes, e sua própria. Em sua recusa em salvar a si mesmo ou à sua família espiritual (uma recusa que não parece ter sido para ele um "dilema terrível" ou uma "escolha impossível", palavras que o Padre Martin usa para descrever o dilema de Rodrigues em Silêncio), Kolbe se assemelha ao próprio Cristo, que aceitou não apenas seu Calvário, mas o Calvário de todos os seus discípulos, todos aqueles que sofreriam e morreriam por ele ao longo dos tempos.

A solidariedade no sofrimento é uma tônica do Corpo de Cristo, mas é uma solidariedade constituída por indivíduos singulares, cuja unidade deriva da principal lealdade de cada um a Cristo. A solidariedade da empatia, por outro lado, é a falsificação demoníaca da solidariedade cristã, que carrega dentro de si as sementes de sua própria destruição. Se o Espírito Santo fortalece tanto os indivíduos quanto os laços que os unem, a empatia os enfraquece. Intimidade excessiva e não mediada leva à confusão afetiva (de quem é tal sofrimento?), e até mesmo à confusão sobre identidade e o papel de cada um (de quem são tais escolhas?). Em um mundo de fronteiras porosas e identidades misturadas — pense nos ladrões de Dante no inferno, sangrando uns nos outros — a afirmação confiante de Guardini "meu ato começa em mim, sendo eu o único responsável por isso" é lançada em dúvida. O modernismo sofre não apenas pela ansiedade da influência de Harold Bloom (um medo édipo de ser influenciado por seus antepassados), mas também pelo que podemos chamar de ansiedade de influenciar os outros, um medo incapacitante de ser responsável pelas escolhas dos outros.

Mais uma vez, Silêncio segura um espelho para o modernismo. Repetidamente, no romance e no filme, os personagens dão voz a um medo de que os cristãos japoneses estejam sofrendo e morrendo por seus sacerdotes. ("Vejam! Vejam! Por vocês, o sangue está correndo...") O desanimado Rodrigues conclui que "ele tinha vindo ao Japão para dar sua vida pelos homens, mas ao invés disso os japoneses estavam dando suas vidas, um a um, por ele". Onde está Deus nesta frase? Onde está a verdade de que, convencidos pelo Espírito Santo, japoneses do século XVII, aos milhares sofreram e morreram por livre arbítrio pelo Deus a quem se recusaram a trair?

O cristianismo não é um culto. Seu objetivo declarado não é controlar os outros, mas libertá-los, mesmo pela pessoa que os evangeliza. Em uma carta a Vanauken, Lewis compara a desproporção entre a influência de um evangelista e seus efeitos inesperados, com a desproporção entre o dedo insignificante de um menino em um gatilho e o trovão e relâmpago que se seguem. O método ideal do cristianismo é pregar aos outros uma palavra que tem o poder de colocá-los em contato com a verdadeira Fonte. Seu objetivo é apresentar os outros ao Deus, que sozinho, tem o poder de conferir identidade e individualidade aos seres humanos.

A obsessão do nosso tempo pela individualidade é expressiva de uma crise de individualidade; é sintomático haver uma deficiência ao invés de um excesso. As pessoas de hoje não são mais egoístas ou egocêntricas do que as gerações de outrora; ao contrário, sua autoestima é mais genuinamente diminuída. Desfamiliarizadas do Espírito Santo, que introduz nas relações humanas o mesmo tipo de intimidade que preserva a individualidade, a intimidade que melhora a identidade  e que caracteriza a própria Trindade, e longe da Igreja, cujos sacramentos, especialmente a Eucaristia, "nos permitem quebrar nossos laços desordenados em relação às criaturas e nos enraízam em Cristo", muitas pessoas caem em relações dúbias e diminuídas; relações que roubam-nos,  em que, nas palavras de Guardini, "sempre um deve viver às custas do outro"; relações mutuamente destrutivas em que as pessoas eventualmente caem no desânimo.

Em outras palavras, em um mundo sem Deus, o homem atribui muito crédito a si mesmo. Isso pode alegrá-lo por um tempo, mas ao final, ele não pode mais suportar tanta responsabilidade. Há uma reação, e, por meio da atual cultura, um grupo se retira, um número sem precedentes de pessoas “lambendo suas próprias feridas na solidão”, ou procurando conforto nas drogas, lícitas ou ilícitas, ou na pornografia, ou nos acessos aos dispositivos eletrônicos rápidos e impessoais.

Este não é um mundo onde o cristianismo pode florescer. O cristianismo, para continuar a existir, depende de indivíduos fortes, pessoas que sabem o limite entre si e os outros. Depende de pessoas que compreendem seus limites naturais e seu potencial sobrenatural — indivíduos seguros, que simultaneamente não têm medo de propor fortes verdades nem de analisar as tentadoras propostas de entretenimento dos outros.

No pântano do modernismo, essas condições não são mais obtidas. Em Silêncio, Inoue chama o Japão de um pântano onde o cristianismo não pode criar raízes, mas na verdade ele se enraizou no século XVII, sobrevivendo nas catacumbas por gerações. O modernismo é um verdadeiro lamaçal onde o cristianismo luta para não ser submerso. O cristianismo, afinal, só pode criar raízes nos indivíduos, e em nossos dias, indivíduos de boa-fé estão em falta. Em um mundo de codependentes em recuperação, a palavra de Deus ainda está reverberando, mas o homem é muito temeroso para repeti-la. Ele é muito frágil e inseguro, existencialmente muito sensível e emocionalmente cru.

Desconfiado da influência alheia e aterrorizado de exercer sua própria influência, medroso do próprio sofrimento e ainda mais tenso por pensar no sofrimento alheio — como tal pessoa pode receber a Cristo ou oferecê-lo aos outros, quando tanto receber como propor Cristo é sempre, simultaneamente, receber e propor sua cruz? Em um mundo avesso ao sofrimento, oferecer o Evangelho é uma tarefa quase impossível. Na cultura do Ocidente moderno, não é o silêncio de Deus que deveria nos incomodar, mas o nosso próprio silencio.

Enquanto isso, num mundo onde até mesmo nosso atual Pontífice comparou a evangelização cristã à jihad, outro tipo de proselitismo continua inabalável, um que não tem qualquer medo de influenciar os outros. Este é o tipo de proselitismo trazido a Rodrigues: a pressão insidiosa e implacável sobre o cristão para negar a Cristo.

Como o próprio Satanás, Ferreira quer a apostasia de Rodrigues para justificar sua própria apostasia. Então, em uma transposição, assim fazem Endō e Scorsese. Inoue, também, um antigo convertido ao cristianismo que abandonou a fé, pontua neste jogo, assim como os admiradores liberais do filme, muitos dos quais fizeram seus próprios compromissos com a ortodoxia. Mesmo os cristãos de berço que sofrem no poço pertencem a esta empreitada, porque na ficção de Endō eles, também, cometem apostasia e estão sendo torturados de algum modo, em um esforço para persuadir Rodrigues a desistir.  Em outras palavras, o baralho foi muito bem distribuído. Se o modernismo tem sido chamado de pecado sensual da razão, quão maior essa é uma apostasia da razão.

O que é mais subversivo sobre Silêncio é que há um recrutamento do próprio Cristo a esse grupo. ("Certamente Cristo teria apostado por eles.") A mesma dúbia conversa que estamos acostumados a ouvir dos teólogos da Morte de Deus (para se cumprir, o cristianismo deve negar-se a si mesmo), e dos defensores do suicídio assistido (sua dignidade exige o direito de destruir sua própria dignidade), Endō coloca na boca de Cristo, como na imagem de Cristo sobre a qual Rodrigues está sendo pressionado a pisar: "Pisoteie! Pisoteie! . . . Era para ser pisoteado pelos homens que eu nasci para este mundo. Desse modo, Endō transforma a negação a Cristo, de Rodrigues, em obediência a Cristo, e o Deus Cristão em algo como a divindade arbitrária e autocontraditória do Islã.

Em seu artigo na América, o Padre Martin analisa esta cena com um valor superficial. Ele não especifica que é o Cristo imaginário de Endō que diz a Rodrigues para o pisotear. Mas, ao contrário, ele trata a ficção de Endō como uma revelação privada, com o mesmo status e autoridade que as Sagradas Escrituras. Ele diz categoricamente: "Isso é o que Cristo pediu [a Rodrigues] para que faça em oração"; e "Mesmo parecendo confuso para alguns expectadores cristãos, Cristo pede este ato contraditório ao seu padre"; e (traindo um pouco a impaciência?) "Não há nada de sutil aqui: [Rodrigues] comete a apostasia, finalmente, porque Cristo lhe pede." Não há qualquer menção por Martin sobre a longa tradição do cristianismo a respeito do discernimento, nenhuma menção às inúmeras ocasiões na vida dos santos quando um demônio lhes aparece disfarçado como um anjo de luz, ou mesmo como o próprio Cristo. Se no Éden a desculpa era "O diabo me levou a fazer isso", em Silêncio a desculpa é "Jesus me fez fazer isso", uma racionalização que dá um novo significado à palavra Anticristo.

Como na promessa, há muitos anticristos ao nosso redor, em nossos dias, dos quais o deus ex fumie fictício de Endō é apenas um pequeno, particularmente um descarado exemplo. Em uma era de empatia, a mais básica tentação é nos tornarmos falsos Cristos nós mesmos, falsos messias que prometem mais do que podem oferecer.

Pensando nessa reflexão, podemos compreender, finalmente, por que a empatia está preocupada com os sofrimentos dos outros, ao invés de preocupar-se com suas alegrias. Na economia espiritual do modernismo, o lugar que permanece vazio é o lugar que pertence a Cristo solitário: "Certamente ele suportou nossas dores e levou nossas tristezas." Nossa prática culturalmente sancionada de empatia é uma tentativa de preencher o lugar de Cristo; é uma reiteração do pecado do Éden com um novo disfarce. No lugar da corajosa e eterna Paixão de Cristo, oferecemos aos outros nossa problemática e complicada piedade, uma paixão pela qual ninguém sai incorrupto.

Patricia Snow é uma escritora em New Haven, Connecticut.


    Para citar este texto:
"Empatia não é caridade"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/Empatia/
Online, 27/10/2020 às 18:43:13h