História

Cisma do Oriente - A história de um longo Cisma
André Melo

 

 

I.    A Túnica Inconsútil de Cristo

A palavra cisma, do grego schisma, significa ruptura, divisão. Em linguagem teológica, o termo expressa uma ruptura da união eclesial[1].

Apesar de cisma e heresia serem coisas distintas e poderem existir separadamente, ambos, segundo São Jerônimo, andam sempre de mãos dadas; o cisma normalmente leva à negação do primado de Pedro[2].  

Desde o início a Igreja foi afetada por cismas. São Paulo adverte os cristãos de Corinto: “Ora, rogo-vos, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos o mesmo e que entre vós não haja cismas, mas sede perfeitos no mesmo espírito e no mesmo parecer” (Cor 1,12).

O próprio Nosso Senhor havia diversas vezes falado do perigo de divisão. Por exemplo, na última ceia, quando reza ao Pai pedindo “para que todos sejam um” como o Pai e o Filho são um (Jo 17,21).

A união que Cristo deseja para Sua Igreja é simbolizada por sua túnica inconsútil. Narram os Evangelhos que após a morte de Cristo, os soldados repartiram as vestes do condenado segundo o costume da época. Ao verem que a túnica de Cristo não tinha costuras, mas era toda tecida de alto a baixo sendo, portanto, de grande valor, não a dividiram mas lançaram sorte sobre ela (Jo 19,23-24).

Como a túnica de Cristo, que não possuía costura nem remendos, assim é sua doutrina e sua Igreja. A unidade é uma das notas da Igreja verdadeira. Aquele que atenta contra essa unidade, atenta contra a Igreja tal qual Deus a quis.

Não basta, portanto, apenas expressar o desejo de pertencer à Igreja de Cristo. É preciso ir além disso, crendo e professando as verdades reveladas por Cristo e ensinadas pela Igreja, além de obedecer a seus legítimos pastores.

Torna-se cismático aquele que, ainda que desejando permanecer na Igreja de Cristo, se rebela contra a autoridade legítima, mesmo que não chegue a rejeitar o Cristianismo em si, o que seria apostasia.

A pena para o cisma é a excomunhão ipso facto[3]

 

 

II.    São Pedro, Chefe da Igreja

Fugiria aos limites deste breve trabalho tratar da questão do Primado de Pedro. Limitar-nos-emos, pois, a enumerar, sucintamente, alguns de seus princípios para facilitar a apreensão do tema que abordaremos.

Cristo entregou a Simão Pedro as chaves do reino dos céus.

Jesus havia perguntado aos Apóstolos o que diziam os homens a respeito dele. O Espírito Santo fala então pela boca de Simão, que afirma ser Cristo o Messias prometido. Nessa ocasião, Jesus muda o nome do apóstolo de Simão para Pedro, isto é, pedra e diz que sobre tal pedra Ele edificaria sua Igreja (Mt 16,13-19).

No domingo de Páscoa, São João, tendo chegado antes ao sepulcro, não entrou mas esperou São Pedro chegar e entrar primeiro. Pese-se aqui o fato de São Pedro, poucos dias antes e diante do mesmo São João, ter negado Cristo por três vezes.

Nos Atos dos Apóstolos, vemos São Pedro conduzir o Concílio de Jerusalém (At 15,6-11).

Esses três fatos apontam par uma mesma conclusão:  a Igreja de Cristo, a Igreja Católica, está edificada sobre a pedra que é Pedro, sobre o Papa.

Desde sempre o Papa foi aceito como chefe da Igreja universal.

No ano 325, vemos que o legado do Papa São Silvestre, o bispo Ósio de Córdoba, conduziu o Concílio de Niceia. “O Papa São Júlio e os historiadores gregos Sócrates e Sozomeno declaram que era então uma lei da Igreja ‘que não se devia celebrar Concílio algum nem decidir coisa alguma sem o beneplácito do bispo de Roma’”[4].

Os Concílios de Arles (314) e de Sárdica (343) também enviaram suas decisões aos Papas São Silvestre e São Júlio respectivamente.

Os exemplos, no Ocidente e no Oriente, são incontáveis e provam fartamente que o Papa sempre foi o chefe da Igreja Universal.

Entretanto, os Imperadores cristãos, assim como os antigos Imperadores pagãos, tinham uma tendência a querer dominar a religião assim como dominavam a política[5]. Até mesmo nas questões doutrinárias havia intervenções.

Com o fim do Império do Ocidente em 476, os Patriarcas de Constantinopla, orgulhosos por sediarem a capital do Império, passam a pretender rivalizar com o Romano Pontífice. Foi esse o início de um longo processo que, após diversos capítulos, resultou no maior cisma da história da Igreja.

 

 

III.      Antecedentes do Cima – a Heresia Iconoclasta

O culto às imagens encontra amparo na própria natureza humana. Dotado de corpo e alma, o homem necessita de elementos sensíveis para melhor compreender o mundo espiritual. Assim, as imagens sempre foram usadas para afervorar a piedade.

Também nas Sagradas Escrituras, o culto às imagens é recomendado pelo próprio Deus quando (Cfr. Ex. 25,17-22 e Ex. 37,7) Ele ordena que sejam feitas imagens de querubins para serem colocadas junto à Arca da Aliança.

Em Num. 21,7-9, Deus ordena a Moisés que faça uma serpente de bronze para curar os judeus picados no deserto.

As catacumbas estão repletas de pinturas. Após a liberdade para a prática da religião católica, concedida por Constantino em 313, a confecção de imagens tornou-se comum. Nas basílicas eram confeccionados inúmeros mosaicos.

O culto às imagens nunca foi proibido pela Igreja. São Gregório Magno (590-604) repreendeu severamente o bispo Sereno de Marselha, primeiro iconoclasta da história, por ter destruído algumas imagens. São Gregório defendeu seu culto, desde que feito sem idolatria, e recomendou seu uso, porque as imagens, afirmava, eram como uma Bíblia para os que não sabiam ler [6].  

No século VIII, o Imperador Leão Isáurico, pleno de prestígio por ter vencido os árabes, salvando Constantinopla e a civilização europeia, resolveu enveredar também pelos assuntos teológicos.

Em 726, ele deu início a uma campanha iconoclasta. Primeiro através de meios pacíficos e depois por meios violentos, o Imperador tenta coibir o culto às imagens. Em 727, o povo matou Jovino, enviado de Leão Isáurico para destruir a imagem de Cristo chamada Antiphonetes, e que se acreditava ter sido doada por Constantino Magno. O Imperador, estão, puniu os habitantes severamente.

Compreendendo que, sem o apoio do Patriarca São Germano e do Romano Pontífice, ele não teria sucesso, o Imperador decide escrever ao Papa Gregório II (715-731) alegando que o culto que os monges prestam às imagens é idolátrico e contrário às Escrituras. Numa das cartas ele expressa seu cesaropapismo ao intitular-se Imperador e sacerdote. O Papa lhe responde que tanto direito tem o Imperador de mandar na Igreja, quanto o Papa no palácio imperial[7].

O novo Patriarca de Constantinopla, o adulador Anastácio, cede. Muitas imagens são destruídas para escândalo do povo.

O Papa Gregório III (731-741) convoca um concilio onde excomunga todos “os que desprezando o uso fiel da Igreja, retiram, destroem ou profanam as imagens de Nosso Senhor Jesus Cristo, de sua gloriosa Mãe Maria, sempre Virgem Imaculada, e de seus Apóstolos e Santos”.

São João Damasceno (+749), o último dos Padres do Oriente, defende o culto às imagens.

Constantino V, filho de Leão Isáurico, assume o trono com a morte deste. Mais fanático e herege que o pai, ele faz guerra às imagens. Opunha-se não apenas às imagens, mas também às relíquias, à intercessão dos santos e à devoção a Nossa Senhora, que não podia, segundo ele, ser chamada pelo título de Theotocos.

Quando se sentiu seguro do apoio dos Bispos, convocou, em 754, um Concílio do qual tomaram parte 338 Bispos sem, porém, contar com o apoio do Papa e dos quatro Patriarcas orientais. Seu presidente foi o Arcebispo de Éfeso. O falso Concílio definiu que as imagens são coisa abominável. São João Damasceno também foi condenado.

A perseguição aos resistentes, sobretudo aos monges, foi brutal.

Em 24 de setembro de 787 foi inaugurado na Igreja de Santa Sofia de Nicéia o VII Concílio Ecumênico, assistido por 367 Bispos. Após análise dos documentos pontifícios e das provas patrísticas, foi proclamada a licitude do culto das imagens e esclarecida a diferença entre adoração e veneração (proskynesis). A heresia iconoclasta foi condenada mas sobreviverá por algum tempo até ser definitivamente vencida.  

Uma nova perseguição ao culto das imagens ocorreu entre os anos 813 e 842. Iniciada pelo Imperador Leão V, o Armênio (813-820). São Nicéforo (+820), Patriarca de Constantinopla, colocou-se a favor do culto e foi desterrado pelo Imperador.

Houve muitos mártires e confessores que defenderam o culto das imagens. Antes de morrer, eles diversas vezes recorreram à Roma pedindo auxílio. São Teodoro Studita escreveu ao Papa Leão III nestes termos: “Visto que Jesus Cristo deu a Pedro a dignidade de chefe dos pastores, é aos sucessores de Pedro, como nos ensinaram os nossos pais, que devem denunciar-se todos os erros novos que aparecerem na Igreja”. Doutra vez o Santo refere ao Sumo Pontífice todas as desgraças da sua pátria. “Vós que estais revestido do poder divino, escreve ele ao Papa Pascoal, vós, que sois o depositário das chaves do céu, o pastor de todo o rebanho de Jesus Cristo, a pedra sobre a qual está edificada a Igreja Católica, vinde em socorro das vossas ovelhas, que nunca se viram tão expostas como hoje ao furor dos lobos. Foi a vós que o Filho de Deus encarregou de confirmar os vossos irmãos; eis chegado o momento; estendei-nos a mão; tendes esse poder, porque sois o primeiro de todos etc.”. Essas cartas de São Teodoro eram assinadas pelos abades da maior parte dos mosteiros de Constantinopla e dos arredores.

A perseguição não se restringia às imagens, mas estendia-se também às relíquias.

Após a morte de Leão V houve certo período de paz até a subida ao trono do Imperador Teófilo, em 829. Este Imperador era inimigo das santas imagens e da divindade de Jesus Cristo. Em seu governo, a perseguição às imagens foi violenta. Os pintores de imagens tiveram as mãos queimadas. Ele também fazia gravar sobre o corpo dos católicos, com punções incandescentes, as sentenças que proferia contra eles.

Com a imperatriz Teodora haverá paz. Ela ordenou a reunião de um sínodo em Constantinopla no ano 842 sob a direção do Patriarca São Metódio. Nesse Sínodo são renovadas as decisões do VII Concílio Ecumênico de 787.

No Ocidente não houve perseguição ao culto das imagens.

Uma das consequências dessa querela foi o distanciamento dos Bispos do Oriente e do Ocidente. Os italianos rechaçaram a dominação bizantina e o Papa aproximou-se dos reis francos. Tal distanciamento se acentuará com o cisma de Fócio.

 

 

IV.     O Cisma de Fócio

Foi curto o período de paz no Oriente. Santo Inácio sucedeu a São Metódio no Patriarcado de Constantinopla.

O irmão da imperatriz Teodora, chamado Bardas, trabalhava para ganhar a confiança de seu sobrinho e futuro Imperador, Miguel III, colocando-o contra a mãe. Bardas era corrupto e vivia amasiado com a nora, Eudóxia, razão pela qual Santo Inácio o rechaçara publicamente da mesa de comunhão na festa da Epifania.

Quando Miguel III assume o governo, sob a influência de Bardas e o com o apoio da parte corrupta do clero, o novo Imperador envia sua mãe para um convento. Santo Inácio é preso, acusado de conspirar contra o Estado e desterrado. Isso ocorreu entre o final de 857 e início de 858.

A escolha do novo Patriarca recai sobre um homem douto, hábil e ambicioso chamado Fócio. Era de família nobre, porém, leigo. Pelo costume não podia tornar-se Patriarca. O Metropolitano de Siracusa, Gregório de Asbesta, refugiado em Constantinopla durante a invasão sarracena, suspenso e excomungado por Santo Inácio, conferiu a Fócio todas as ordens em seis dias. Sua aceitação como Patriarca, por pressão de Bardas, foi quase unânime.

Fócio procurou, então, aproximar-se do Papa Nicolau I (858-867), escrevendo-lhe uma carta onde professava a mais pura fé católica. Explica que, com a espontânea renúncia de Inácio a fim de retirar-se a um mosteiro ele, Fócio, teve que aceitar, contra sua vontade, tão sublime cargo...

Ao mesmo tempo, o Imperador Miguel III também escreve ao Papa anunciando a elevação de Fócio ao Patriarcado de Constantinopla e solicitando a convocação de um Concílio a fim de eliminar os últimos resquícios da heresia iconoclasta.

O Papa não se deixou seduzir pelas belas palavras, nem pelos finos presentes. Desconfiando do silêncio de Santo Inácio envia, sem confirmar Fócio como Patriarca, dois legados à Constantinopla.

Fócio e Asbesta sabem trabalhar e convencem os legados papais a darem-lhe apoio. Mais que conceder seu apoio, os dois legados mudam de lado e se constituem, contra a vontade do Papa, em juízes. Em abril de 861 presidem um sínodo de 318 Bispos. Santo Inácio é trazido para o Sínodo, e nele é deposto. Fócio é proclamado legítimo Patriarca. É o triunfo de Fócio e Bardas.

Nicolau I, contudo, não se deixa enganar. Descobre toda a intriga e traição, condenando Fócio enquanto confirmava Santo Inácio como Patriarca. Pouco tempo depois chegam ao Papa os informes de Santo Inácio, além de dez Metropolitas e quinze Bispos, narrando detalhadamente o que de fato ocorreu e apelando à jurisdição suprema de Roma[8].

Um Concílio foi convocado em Roma. Fócio foi condenado e deposto, seus atos anulados. Santo Inácio é confirmado Patriarca. Bardas escreve ao Papa uma carta violenta onde, dentre muitas outras coisas, afirma que a nova Roma não era inferior à sede dos Papas.

 

 

V.      A conversão da Bulgária

É nessa época que mais um povo se converte e passa a fazer parte da Igreja: os búlgaros.

A Bulgária havia no passado representado por diversas vezes uma ameaça ao Império do Oriente. Missionários germânicos e outros do rito bizantino vinham, havia tempo, abrindo caminho ao Evangelho por entre esse povo bárbaro. Em 864, seu líder, Boris, decide ingressar na Igreja Católica. É batizado por sacerdotes bizantinos enviados por Fócio tendo como padrinho o Imperador Miguel III.

Pouco depois, Boris pede à Fócio que estabeleça em sua nação uma hierarquia eclesiástica completa. Fócio, temeroso de vê-los independentes, recusa o pedido. O rei búlgaro volta-se, então, para Nicolau I a quem dirige, em agosto de 866, uma carta com questões sobre liturgia, sacramentos etc.   

O Papa percebe a boa ocasião e envia repostas satisfatórias, além de dois legados Bispos. Um deles, Formoso de Porto (futuro Papa) ficou amigo de Boris, que o quis como Arcebispo e Patriarca da Bulgária, o que não foi concedido pelo Papa. Boris, então, torna a voltar-se para Constantinopla.

Com o assassinato de Bardas em 866, Fócio perde seu grande protetor. Isso não o detém nos ataques a Nicolau I e ao Papado em geral, que ficam mais violentos.

A distância entre Constantinopla e Roma aumentava. 

 

 

VI.      A questão do Filioque

Até então, as disputas entre Oriente e Ocidente estavam mais relacionadas a questões políticas.

Fócio, sempre astuto, procura dar a sua querela uma roupagem dogmática. Convoca um Concílio Oriental em 867 a fim de julgar o Pontífice de Roma. Na carta de convocação, ele condena a atuação dos padres latinos na Bulgária. Concretamente, suas acusações contra os sacerdotes da Igreja Latina eram: 1) que jejuavam aos sábados; 2) que, por outro lado, não jejuavam na primeira semana da Quaresma, permitindo nessa semana o uso de laticínios; 3) que impunham o celibato a seus sacerdotes e desprezavam os sacerdotes gregos que viviam em matrimônio; 4) que não permitiam aos presbíteros administrarem a Confirmação, como se este poder fosse exclusivo do Bispo; 5) sobretudo, que haviam falsificado o Símbolo Apostólico, introduzindo o erro de que o Espírito Santo procede não só do Pai, senão também do Filho (Filioque), colocando assim dois princípios na Trindade.

Além disso, numa carta aos búlgaros, Fócio junta novas acusações: que os latinos raspavam a barba; que preparavam o crisma com água ordinária; que promoviam os diáconos ao episcopado sem ordená-los sacerdotes; que o Primado romano havia caducado ao passar a residência imperial da antiga Roma à nova, isto é, Constantinopla.  

Vê-se que de todos os pontos levantados, o mais importante era o que tratava da questão do Filioque. Com ela, Fócio pretendia ter descoberto o ponto chave para desacreditar o Papa e toda a Igreja do Ocidente.

Embora os gregos preferissem a fórmula do II Concílio ecumênico (Constantinopla, 381), que diz o “Espírito Santo procede do Pai”, sempre se acreditou que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho, como explicaram Santo Agostinho e São Leão Magno (também Santo Tomás vai tratar, posteriormente, da questão. Ver: FEDELI, Orlando - Das Processões Divinas).

Com o Filioque estavam, no fundo, de acordo os Padres orientais que usavam a fórmula: “o Espírito Santo procede do Pai pelo Filho (per Filium)”.

O Símbolo Quicumque, dito de Símbolo de Atanasiano, datado do século V, é bastante claro ao afirmar que: “O Filho é só do Padre; não feito, não criado, mas gerado. O Espírito Santo é do Padre e do Filho; não feito, não criado, não gerado, mas procedente” (Filius a Patre solo est, non factus, nec creatus, sed genitus. Spiritus Santus a Patre et Filio, non factus, nec creatus, nec genitus, sed procedens[9]

Os espanhóis por sua vez, já em 380, rezavam De Patre et Filio. No século V, a expressão Filioque já era usada até que foi inserida no Símbolo Constantinopolitano. Da Espanha, ela passou à França e para outros lugares.

O costume de, no Ocidente, se cantar o Símbolo com o Filioque nunca causara protesto dos orientais.

Foi com Fócio, que procurava um motivo de escândalo, que a questão tomou vulto. O tema foi tratado no conciliábulo de Constantinopla em 867, o qual emitiu uma sentença de excomunhão conta o Pontífice de Roma. A ousadia de Fócio parecia desconhecer qualquer limite.

Uma adversidade, porém, pôs freios a seus projetos.

Em 867, Miguel III cai assassinado em uma conjuração preparada pelo assassino de Bardas, Basílio o Macedônio, que se torna Imperador, ordena a restituição de Santo Inácio ao posto de Patriarca e depõe Fócio.

O Papa convoca um Concílio Ecumênico em Constantinopla. Fócio é condenado e seus escritos queimados.

Um ponto de discussão continuava, no entanto, sendo a questão dos búlgaros - se estes deveriam depender de Roma ou de Constantinopla. O Concílio decidiu que deveriam estar ligados à Igreja Oriental, ao que o Papa Adriano II (867-872) se opôs. Santo Inácio era a favor da dependência de Constantinopla.

Pouco tempo depois, o Papa João VIII (872-882) envia legados à Constantinopla para tratar da questão. Qual não foi a surpresa destes quando lá chegaram: Santo Inácio havia morrido como um santo em 23 de outro de 877. Em seu lugar sentara-se pacificamente ninguém menos que Fócio.

João VIII, vendo-se pressionado pela ameaça de uma invasão árabe, vislumbra a possibilidade de um acordo com o Imperador. Fócio, mediante algumas condições impostas por Roma, que incluía um pedido de perdão, é reconhecido como Patriarca. Ao recitar o Credo, porém, escolhe o Símbolo Niceno-Constantinopolitano, no qual não aparece o Filioque. O ponto central da divisão estava mantido.

Com a morte do Imperador Basílio, em 886, e a ascensão de Leão VI, filho adulterino de Miguel III, Fócio é destituído e mandado para um convento. Não se sabe quanto tempo ainda viveu, talvez dez anos. O fato é que morreu de forma ignorada. Seu nome caiu no quase completo esquecimento que durou até o século XI quando, por ocasião do cisma definitivo, seus escritos e memórias foram resgatados. Ele passou então a ser venerado como um santo.

A Fócio sucede, no cargo de Patriarca, o irmão do Imperador, Estevão, um garoto de dezesseis anos...

 

 

VII.  Miguel Cerulário e o Cisma Definitivo

Durante os séculos X e começo do XI as relações entre Roma e Constantinopla variava ao sabor da vontade dos Patriarcas, quase sempre submissos ao Imperador.

Em 1043, Miguel Cerulário torna-se Patriarca de Constantinopla. Não consta que tenha enviado à Roma carta noticiando sua nomeação.

Embora de escassa formação intelectual, era soberbo e nutria ódio contra os latinos. Em 1052 decide acabar com as igrejas e mosteiros latinos de Constantinopla, pois sua autonomia o incomodava. Os templos são fechados e os monges que não aderem ao rito grego, expulsos.

A contenda chegou a tal ponto que um tal Nicéforo chegou a pisotear hóstias consagradas por sacerdotes latinos, alegando que era inválida sua consagração.

Cerulário atacava os latinos: 1) pelo uso do pão ázimo na missa (contraditório ele importar-se com isso, uma vez que afirmava que a consagração dos latinos era inválida); 2) por jejuarem aos sábados; 3) por  comerem carne de animais sufocados, além de outras miudezas insignificantes.

O Papa São Leão IX (1049-1054) ordenou ao Cardeal Humberto que respondesse a cada um dos pontos, o que este fez além de defender a supremacia de Roma.

O Imperador Constantino IX acenou com benevolência para um acordo e o Papa então enviou três legados à Constantinopla.

Os legados papais foram bem recebidos pelo Imperador. Já Cerulário foi frio e displicente. Incomodou-se com o fato dos legados terem ido ensinar a doutrina e não recebê-la.

Rompeu as negociações dogmáticas, alegando que as mesmas só podiam ser feitas em Concílio dos Bispos Orientais. Note-se o fato de ele não ter usado esse princípio quando atacou a Igreja latina. Por desdém, respondeu por escrito ao Cardeal Humberto.

Vendo que o Patriarca estava obstinado, os legados papais tomam uma grave resolução: em 16 de julho de 1054, diante de grande multidão de clero e povo reunidos na basílica de Santa Sofia, depositam sobre o altar uma sentença de excomunhão[10] contra o Patriarca. Deixam em seguida o templo sacudindo o pó de seus calçados.

Reunindo em sínodo dos Bispos orientais, Miguel Cerulário pronunciou anátemas contra os latinos, particularmente contra os três legados papais. Copiava o exórdio da encíclica de Fócio e procurava colocar contra Roma todos os Patriarcas orientais. Acusava Roma de falsificar o Símbolo da Fé acrescentando o Filioque. Despudoradamente, acusava os latinos de não cultuarem as imagens e de não contarem entre os santos São Basílio, São João Crisóstomo e São Gregório Nazianzeno. Repreendia-os por cortarem a barba, comer carne às quartas-feiras, laticínios e ovos às sextas-feiras, por os Bispos usarem anéis e irem para a guerra, além de outras acusações variadas. Tudo isso para concluir que não havia conciliação possível entre ambas Igrejas e que só a nova Roma era a guardiã da fé e da ortodoxia.

Pedro III, Patriarca de Antioquia, tentou intervir com moderação para ajudar a resolver a contenda. Não obteve, porém, sucesso.

O prestígio de Cerulário só crescia até que, numa mudança de situação, foi deportado em 1057 pelo Imperador Isaac Comneno, que não suportava ter ninguém acima de si. O Patriarca foi enviado para uma ilha no Mar de Mármara. Morreu em dezembro de 1058 negando-se a abdicar. O povo passou a cultuá-lo como santo.

Em Roma não se tinha ainda ideia da magnitude desse rompimento. O tempo, por sua vez, mostrou que a divisão seria profunda e duradoura. Rasgara-se a túnica de Cristo.

 

Bibliografia

Enciclopédia Católica; http://www.newadvent.org/

Rivaux, Padre. Tratado de História Eclesiástica. Vol I. 1ª Edição. Brasília: Ed. Pinus, 2011.

Arquillière, Mons. H. X. Histoire de l’Eglise. Édition Revue et Augmentée. Paris. Les Éditions de l’École, 1963.

Llorca, Bernardino. Historia de la Iglesia Católica. Vol II. 6ª Edição. Madri: BAC, 2003.


[1] Conf. Enciclopédia Católica, verbete “schism”

[2] Idem

[3] Ibidem

[4] Conf. Rivaux, padre. Tratado de História Eclesiástica. Vol I. 1ª Edição. Brasília: Ed. Pinus, 2011. P.250

[5] Conf. Arquillière, Mons. H. X. Histoire de l’Eglise. Édition Revue et Augmentée. Paris. Les Éditions de l’École, 1963. P. 250.

[6] Conf. Llorca, Bernardino. Historia de la Iglesia Católica. Vol II. 6ª Edição. Madri: BAC, 2003. p.180

[7] Idem.

[8] Conf. Llorca, Bernardino. Historia de la Iglesia Católica. Vol II. 6ª Edição. Madri: BAC, 2003. P.208,209

[9] Conf. Catecismo Romano. Nova edição portuguesa baseada na edição autêntica de 1566. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1951. P.68.

[10] Tal sentença foi anulada pelo Papa Paulo VI em 7-XII-1965. E piu non dico...

 


    Para citar este texto:
"Cisma do Oriente - A história de um longo Cisma"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/historia/melo_cisma_do_oriente/
Online, 22/03/2017 às 21:21:01h