História


Ide, pois, e ensinai a todas as nações...” (Mt 28,19).
 
INTRODUÇÃO
 
Quando se navega pelo conteúdo exposto nos livros escolares, no que se refere à Idade Média, tem-se a impressão de estar retrocedendo a um período obscuro, dominado pelas trevas da ignorância do povo e do monopólio do saber pelo clero. Afirmo ser esse um dos males de nosso século, que se proclama iluminado pela luz da ciência e liberto da escuridão do “atraso” medieval. Enganam-se os que persistem em repetir os mesmos falsos slogans que se distanciam do que é a realidade. Podemos classificar esses chavões não como argumentos concretos, mas como fábulas e mitos que desprezam aquilo que traz verdadeira dignidade a alma humana: o direito à Verdade.    
Este artigo visa justamente quebrar mitos, desfazer afirmações infundadas, impregnadas do espírito relativista, outro mal de nosso “iluminado” século XXI, que reduz o intelecto humano a meras especulações frívolas, ao nível arbitrário e subjetivo de cada indivíduo. Humildade não é estabelecer, conforme o gosto de quem julga, o que é verdadeiro e o que é falso, mas submeter o intelecto, como num ato de vassalagem, à verdade que se impõe por meio dos fatos conhecidos porque provados. O soberbo persegue implacavelmente a verdade; o humilde, quando a encontra, dobra-se à sua Majestade, deixa-se dominar por ela e difunde sua luz para toda humanidade.  
A História tem um compromisso com a verdade e não com as ideologias de um determinado grupo de pensadores. Ao historiador, cabe examinar os fatos prudentemente, e não criá-los do seu imaginário. Extrair dos documentos, somente aquilo que eles realmente transmitem, sem introdução de conclusões inexistentes (extra-fatos). Como afirma a medievalista Régine Pernoud, a verdade é o lema do historiador: “A História não tem interesse a não ser quando busca a verdade”. (PERNOUD, Idade Média: O que não nos ensinaram. 1994, p. 145).
Partindo desse raciocínio, responderei, no decorrer deste artigo, as seguintes questões:
Foi a Idade Média um período de ignorância e atraso científico?
O saber consistiu-se em um monopólio exclusivo do clero e da nobreza?
O povo só conheceu a leitura, os livros e a Bíblia com o Renascimento e o advento da imprensa?
É por amor à Verdade que dedicarei um estudo particular a este tema polêmico, que ainda produz ódio tenaz contra a Idade Média e a Igreja Católica Apostólica Romana. Utilizarei as obras da medievalista francesa Régine Pernoud, considerada uma das maiores especialistas no assunto. Também utilizarei a obra de Mario Alighiero Manacorda, para que salte aos nossos olhos as grandes mudanças entre a educação romana, na Antiguidade, e a educação medieval. As outras demais obras e até mesmos sites que vertem sobre o tema, utilizados para fundamentar minha argumentação, serão registrados no decorrer desse estudo e no referencial bibliográfico, localizado logo após o término do artigo. 
 
A DIFUSÃO DO SABER
  
Em oposição à antiguidade greco-romana, a Idade Média rompe com a cosmovisão pagã egoísta e autocrática, transmitindo o conhecimento não só a um grupo de senhores ou nobres, mas a todo ser inteligente que é digno de se tornar filho e filha de Deus.
Na Idade Média, a Igreja católica atingiu seu apogeu. Houve imensos progressos na ciência, como será provado, o que nos leva a concluir, que a Igreja Católica, apesar de ter por fim a salvação eterna das almas, muito propiciou para a felicidade nesta vida passageira, contribuindo com a ciência e com progresso material. Não se pode compreender a Idade Média sem compreender a sua fé, que era dominantemente Católica. Fé, hoje, pode não significar muita coisa, mas para os homens daquele tempo era, como ensinou Santo Tomás, “...a primeira das virtudes” (VALENS), ou como determinou o Concílio de Trento, “...o princípio da salvação humana” (TRENTO, 2006) ou ainda, como prescreveu o apóstolo São Paulo, “...sem a qual é impossível agradar a Deus”. (Hb 11,6).
A Igreja, seguindo a ordem evangelizadora de Cristo, propagou a luz da verdade ao mundo, iluminando as trevas do homem pagão.
Em Roma antiga, o saber era restringido apenas a um determinado grupo social. Como se julgava neste tempo que saber é fonte de poder, procurava-se ensinar só para alguns, e não para todos: “...sem dúvida, uma pequena parcela da população é que freqüentava a escola [...] a escola de gramática e de retórica era, afinal, a escola das classes privilegiadas”. (MANACORDA, 2002, p.97)
Primeiro ponto a se enfatizar é que a Universidade, instituição fundada pela Igreja Católica, foi um legado medieval para a modernidade. Se a Igreja não tivesse fundado as Universidades na Idade Média, o mundo moderno não teria recebido as bases para se desenvolver o conhecimento humano.
Como se pode acusar a Igreja de manter os povos em ignorância, se foi ela que fundou as escolas e Universidades?
A Idade Média longe de ser um período de atraso, foi ela quem deu o impulso firme para o aprofundamento do saber científico. Por determinação do Concílio de Latrão (1179), toda Igreja estava obrigada a ter, junto de si, uma escola, que se encarregava de preparar a criança para o ingresso na Universidade. (PERNOUD, 1981, p.99) A partir dos séculos XII e XIII, surgem, por obra da Igreja Católica, as primeiras Universidades, que foi umas das maravilhas da Idade Média. Elas se espalharam, paulatinamente, por toda Europa. Em Paris, nasce a Sorbonne, faculdade de Teologia e Filosofia; Salerno, na Itália, que se especializou em Medicina; Bolonha, que ensinava Direito Romano; Orleães, o de Direito Canônico; Montpellier, também de Medicina. Houve tantas faculdades, que nos limitamos a destacar apenas algumas (PERNOUD, 1981, p.102; FEDELI, 2003).
O número de estudantes revela larga difusão do ensino daquela época e a acessibilidade à instrução intelectual, seja na escola ou na faculdade. No século XII, havia por volta de 20.000 estudantes. Na Sorbonne, o número de estudantes no século XIII era maior do que no século XIX. (FEDELI, 2003). Os números já nos revelam algo de positivo, pois se no século XIII, na Sorbonne, havia mais alunos do que no século XIX, parece que depois houve então uma decadência, e não um avanço.
A juventude medieval se ocupava com debates filosóficos, muitos deles públicos, enquanto os jovens de nosso tempo, que dizem ser o apogeu da cultura e do progresso, se ocupam com programas televisivos, ou “diversões” fúteis, que alienam a mente para o que é vil.  
Alguns poderiam objetar dizendo que, apesar do grande número de alunos, estes eram na maioria nobres e burgueses, enquanto os pobres servos seriam a minoria nas escolas e faculdades. Esse argumento é simplesmente desprovido de fundamento histórico. Cabe lembrar ao nosso público cético, que o ensino gratuito era sagrado na Idade Média. Os nobres ocupavam nas universidades medievais menos de 5% e em alguns casos raros, 15% do público freqüente. (SASSONIA, 2006). Os registros da época revelam grande número de estudantes pobres, dispensados de pagamentos universitários. (SASSONIA, 2006). As escolas, mesmo antes de se fundarem as universidades, estavam presentes nas Abadias e nas Igrejas, que instruíam os monges e também o povo. (FEDELI, 2003). São fartas as citações que nos permite afirmar que longe de ser a Idade das trevas, a Idade Média foi um período de grande luz.
O ensino era aberto a todas as “classes” sociais. É o que nos revela Gilles lê Muisit, conforme mencionado na Obra de Régine Pernoud: “Que bela coisa ver a quantidade de aprendizes: Habitavam em conjunto desvãos e quartos, filhos de homens ricos e filhos de artesãos”. (1981, p.100).
Outra prova clara, de que o ensino compreendida tanto filho de barões e filhos de servos, está registrada em uma anedota, conforme afirma Régine Penoud, onde Carlos Magno se mostra severo com filhos de barões, devido a falta de zelo com os estudos, ao contrário dos alunos pobres. (PERNOUD, 1981, p.101). Há casos, também, de caridade voluntária por parte de homens de fé, como no caso de um burguês de Londres, que criou um colégio que albergava e alimentava gratuitamente dezoito estudantes pobres [...]” (PERNOUD, 1981, p.105).
Ricos e pobres recebiam a mesma educação. Ora, se o ensino pertencesse como em Roma, somente a uma classe, não haveria grandes personagens, oriundos do povo miúdo. No entanto, temos, por exemplo, um Suger filho de servos, que estudou junto com o Rei Luís VII, e que se tornou regente da França. Veja-se só, um servo e um Rei que estudaram na mesma escola. Não é impressionante para um período que chamam de “obscuro”? Quanta cegueira do mundo moderno.
Também temos a figura de um Maurice de Sully, filho de mendigo que ordenou a construção de Notre-Dame, o Papa Urbano VI, que foi filho de sapateiro e em fim, Gregório VII, que foi filho de um pobre cabreiro. (PERNOUD, 1981, p.101). São grandes nomes da história saídos do povo humilde da Idade Média. Poderíamos citar mais personagens que provam a acessibilidade do saber para todo o povo, mas estes bastam para este artigo.
Como consta na obra de Régine Pernoud, “Luz sobre a Idade Média”, é farta a documentação que prova a gratuidade dos estudos para os pobres. Apesar disto, como relata a autora, o estudante poderia ser custeado quanto à cama e mesa nos colégios instituídos. (PERNOUD, 1981, p.105). Quantos privilégios, diria um aluno moderno. Mas os benefícios, para os que necessitavam, não se encerram assim tão facilmente, vejam o que mais era oferecido aos estudantes:
 
“No conjunto, havia todo um sistema de bolsas, não oficialmente organizado, mas correntemente em uso, e que se aparentava com a nossa Escola Normal Superior [...] ou ainda aquilo que se pratica nas Universidades inglesas, nas quais o estudante bolsista recebe gratuitamente não apenas a instrução, mas ainda cama e mesa, e por vezes vestuário”. (PERNOUD, 1981, p.105).
 
Que não se pense que a mulher estava privada dos estudos. Assim como os homens, tinha acesso a um farto conhecimento que envolvia disciplinas como, letras, medicina, grego, hebraico, gramática, aritmética, geometria, música e até cirurgia. (PERNOUD, 1981, p.100). A mais famosa enciclopédia da época (séc XII) foi elaborada pela abadessa Herrade de Landsberg, sendo referência de consultas por parte dos eruditos do tempo, no que se refere aos ensinamentos sobre o avanço das técnicas. (PERNOUD, 1994, p.111). Gertrude de Helfta, outra religiosa do século XIII, passou do estado de gramaticista para teóloga, após percorrer o ciclo de estudos como nas Universidades. Os conventos, apesar de lugares de oração, também eram difusores do saber. Tanto homens como mulheres, ministravam, em muitos mosteiros, o ensino as crianças da região. (PERNOUD, 1994, p.111).
É muita luz para um tempo que se chamam de trevas. Porque fechar os olhos para esses benefícios que inexistem em nosso século que está repleto de intelectuais? Porque desprezar um tempo que difundiu, como nenhum outro, o saber a todo povo, acusando-o de ignorante, quando devíamos gratidão por nos transmitir um verdadeiro exemplo de caridade? É muita ignorância do mundo moderno. Uma vez que os estudos eram, em sua integridade, custeados, a pobreza não era obstáculo para se ingressar em uma escola ou na Universidade na Idade Média. (PERNOUD, 1981, p.108).
Não se pode pensar que o nível científico que possuímos hoje, seja fruto de uma causa repentina, que subitamente, implantou em nossa mente toda uma imensidão de valores complexos. Isso é falta de bom senso daqueles que desprezam a Idade Média. Ora, se hoje se pode continuar ensinando e desenvolvendo o conhecimento humano, é porque havia mestres que nos transmitiram antes as bases sólidas de um saber profundo e verdadeiro. Se hoje temos Universidades, devemos gratidão à Idade Média, apesar do ódio de alguns ingratos que se vangloriam de seu diploma, mas que não reconhecem a luz que propiciou sua erudição. Devíamos repetir, com espírito de gratidão, aos mestres medievais, a sábia frase de Bernardo de Chartres, proclamando que somos pigmeus, que só podemos enxergar mais longe, porque estamos apoiados nos ombros de gigantes. (RODRIGUES). Se hoje temos uma grande ciência, devemos olhar para trás, e enxergar a luz medieval que estabeleceu os fundamentos de toda cultura ocidental.
Como demonstrado, o saber foi amplamente difundido na Idade Média a todo o povo, em oposição ao mundo pagão.
Mas, e os livros? E a Bíblia? Tinha o povo acesso a esses recursos fundamentais para a instrução humana?
Não é difícil responder positivamente a esses questionamentos. Juízos arbitrários, que manipulam os fatos para defender teses infundadas, concluem, ingenuamente, que, pelo fato de alguns livros e Bíblias estarem acorrentadas nas prateleiras, somente os clérigos possuíam livre acesso a essas relíquias do tempo. Falso, completamente falso. Aplicando o mesmo raciocínio aos dias atuais, eu, como acadêmico da Universidade Católica Dom Bosco, poderia dizer que os alunos não têm acesso às obras raras, só porque permanecem exiladas em um quartinho que poucos conhecem e que são necessárias muitas autorizações para adentrar no “quartinho de obras raras”. É justa tal afirmação? Óbvio que não. Não é porque os livros eram extremamente valorizados na Idade Média, a ponto de acorrentá-los, para evitar roubos, que o povo não tinha acesso a eles. Isso é um juízo falso.
O livro na Idade Média era realmente caro, pois eram copiados a mão em pergaminhos, material oneroso na época (VERGER, 1999), e alguns, apresentavam iluminuras e letras de ouro (FEDELI, 2003).  Por isso os livros, em alguns casos, permaneciam acorrentados (MARTINS, 2002, p.84), no intuito de evitar roubos, ou que os mesmo fossem perdidos, e não porque os monges queriam privar o povo do conhecimento. Foi o zelo clerical que permitiu que grandes obras chegassem até nossos dias. Foram esses homens de Deus que preservaram os livros, mantiveram as bibliotecas na Idade Média e transmitiram o conhecimento ao povo (MARTINS, 2002, p.83).
Veja-se pelas palavras de um monge, Thomas Kempis: “A biblioteca é o verdadeiro tesouro do mosteiro [...] suprema riqueza do convento, deve ser atentamente defendida contra a umidade, os ratos e os bichos” (MARTINS, 2002, p.83). Outro fato importante refere-se aos monges irlandeses, os quais através de missões, se ocuparam com a difusão da cultura nos tempos da iluminada Idade Média (MARTINS, 2002, p.85).
Outra prova de que os estudantes tinham acesso aos livros, que podiam ser consultados nas bibliotecas, seja nos mosteiros ou nas Universidades, está registrada nas prescrições que traziam os regulamentos sobre o uso dos livros: “qualquer pessoa que se tenha servido de um livro deve fechá-lo, antes de se retirar” (MARTINS, 2002, p.90). Agora esta outra: “que se escreva ou que se leia, não se deve interromper ninguém [...] (MARTINS, 2002, p.91). Ora, se o povo não sabia ler nem escrever, como muito se difundiu em nossos dias, porque tanta preocupação com os livros? Para que estabelecer normas escritas contra um bando de analfabetos iletrados?
Que o povo tinha acesso aos livros nos prova outra citação importante:

“[...] havia um sistema de empréstimo de livros para consultas. Houve uma determinação de um Concílio de Paris, em 1212, sobre o empréstimo de livros como obra de caridade. (FEDELI, 2003, o negrito é meu).

É incrível que ainda haja pessoas que julgam a Idade Média de ignorante, como se a cultura pudesse nascer de repente.
Que a verdade ilumine os olhos de nossos ignorantes “eruditos”, cada vez mais bárbaros, no século XXI. Não obstante, poder-se-ia protestar, afirmando que, apesar de ter acesso aos livros, o povo não sabia o latim, língua predominante na época. Bom, é certo que se um brasileiro, não sabendo outra língua, entrar em uma biblioteca que só contenha livros americanos em inglês, de nada lhe servirá essa uma grande quantidade de livros. Mas as pessoas, antes de levantar tal indagação, deveriam saber que nas escolas todos aprendiam latim. Era fundamental o domínio desta língua para se ingressar nas Universidades. Que nossos contestadores se deleitem na transcrição abaixo:
 
“[...] Nas escolas monásticas, todo aluno que quisesse seguir a carreira religiosa ou freqüentar uma universidade aprendia latim [...]” (STORIG, 2003, p.88. O negrito é meu).
 
O latim se espalhou por toda Europa, chegando até mesmo aos povos escandinavos (STORIG, 2003, p.88).
Além de difundir o latim, a língua do culto católico e das Universidades, foi a Igreja, através dos monges, que preservou da extinção todo o patrimônio literário antigo (STORIG, 2003, p.88). Se houve Renascimento, foi porque os monges se deram o trabalho e o zelo de preservar os clássicos da antiguidade.
Haveria tantos outros mitos a se derrubar que permanecem como ecos constantes nas mentes e nos livros desse nosso tempo cada vez mais decadente na cultura.
Para encerrar este artigo, bastaria provar que a Bíblia era não só conhecida, mas também lida pelo povo. É o que farei em poucas palavras.
Para derrubar este último mito basta demonstrar que nas escolas, uma dentre as mais várias instruções dadas aos alunos, era aprender os Escritos Sagrados e estudá-los (PERNOUD, 1981, p.100). Outra prova, está nas palavras do próprio Lutero:
 
“[...] foi um efeito do poder de Deus que o papado preservou, em primeiro lugar, o santo batismo; em segundo lugar, o texto dos Santos Evangelhos, que era costume ler no púlpito na língua vernácula de cada nação” (HAMMER, 2003. O negrito é meu).
 
Antes que Lutero traduzisse a Bíblia para o alemão, já existiam dezessete traduções da Bíblia para o alemão já impressas (HAMMER, 2003). É mentira que foi Lutero que deu a Bíblia ao povo! Até mesmo São Jerônimo, no século IV, escrevendo a Eustóquio, recomendava a leitura da Bíblia:
 
Lê com freqüência e aprende o melhor que possas. Que o sono te encontre com o livro nas mãos e que a página sagrada acolha o teu rosto vencido pelo sono” (BETTENCOURT, 2004).
 
Prova incontestável de que o povo tinha contato com a Bíblia, nos relata Hans Luther, pai de Lutero: “Instruídos irmãos, vocês não leram na Sagrada Escritura, que um homem deve honrar pai e mãe?" (LIBÓRIO, 2006, tradução: Alinny Amorim). O pai de Lutero era camponês e conhecia a Bíblia. Logo, é falso que o povo não tinha acesso ao livro Sagrado. No mosteiro de Erfurt, encontramos a seguinte regra: “sobretudo a obrigação de “ler a Bíblia com fervor, escutar sua leitura com devoção, e aprendê-la com assiduidade” (LIBÓRIO, 2006).
Quanto ao progresso técnico, que muito beneficiou os séculos posteriores a Idade Média, há uma vasta lista de invenções e aprofundamentos científicos, que não será possível relatarmos em sua totalidade neste artigo. Longe de ser um período de atraso científico, os medievais produziram obras fundamentais que percorreram a história e permanecem presentes em nosso cotidiano. Foi o “atraso” medieval que produziu o leme e a bússola, que muito contribuíram para as descobertas do século XV e XVI.  O estribo e a ferradura, até hoje utilizados, também foram obras da “ignorância” medieval. O carrinho de mão, à vela, a chaminé, o círio, os moinhos de vento e de maré, o poço artesiano, a camiseta, o álcool, são obras daquele “tempo obscuro” (TONIOLO).
Onde então o atraso? Porque então usufruímos das invenções daqueles sábios homens de fé? Até mesmo os óculos que hoje permitem muitos enxergarem com maior perfeição, foram obras da Idade Média (TONIOLO). Veja só, a Idade das Trevas permitiu que o mundo moderno enxergasse melhor, mas mesmo assim, esses ingratos permanecem cegos para a luz daquele tempo. O que dizer do gótico, das catedrais, dos vitrais, tudo obra do medievo?  Uma maravilha de belas e úteis invenções. Até mesmo o marxista Perry Anderson, historiador e crítico da Idade Média, confirma a potência do progresso medieval nas palavras de Van Bath:
 
 “Nos anos entre 1150 e 1300 atingiu-se um ponto alto nos campos cultural e material que jamais foi equiparado até muito tempo depois [...]” (BATH, V., Apud ANDERSON, 1998, p.190. O negrito é meu).
 
Não só é uma injustiça menosprezar a Idade Média como período de trevas e ignorância, mas também uma contradição de pseudos-intelectuais que se aproveitam dos benefícios daquele tempo e o desprezam. Haveria muito mais a se falar dos benefícios e avanços produzidos pelos sábios da Idade Média. Aqueles que desejarem obter um conhecimento mais amplo do assunto, indico a obra de Régine Pernoud, o artigo de Ênio José Toniolo e de Rogério Côrte Sassonia, todos devidamente registrado no referencial bibliográfico desse artigo.
Julgo, após tantos argumentos apresentados, não ser preciso mais provas para quebrar os mitos maldosos ou ignorantes de nosso tempo. Estas que apresentei são por demais suficientes.
Provamos também que todos tinham o direito de aprender, de estudar, de ingressar em uma Universidade. A pobreza não era obstáculo para a posse do saber. Burgueses e servos souberam muito bem aproveitar das escolas e Universidades medievais. Foi a Igreja Católica, a grande responsável por esse feito que jamais se apagará na história. Foi ela que, a mando de Cristo, difundiu a todos, a luz do conhecimento. Se temos, hoje, uma avançada ciência, é graças à Universidade medieval, que através de seus Doutores e Mestres, estabeleceram as bases fundamentais para se desenvolver o conhecimento humano.  Foram os gigantes desse tempo iluminado pela fé, que nos legaram toda uma estrutura sólida de finura de intelecto, que nos permitiu enxergar mais além.
Que esses santos mestres nos concedam a humildade, para reconhecer a luz que nos fez sair do berço, para caminharmos seguros no caminho da Verdade.
 
Sancte Thomae, Doctor Angelicus, ora pro nobis.
 
 
REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO
 
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MANACORDA, Mario Alighiero. História da Educação: da antiguidade aos nossos dias. São Paulo: Editora Cortez, 2002.
 
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________________. Idade Média: o que não nos ensinaram. Trad. MENEZES, Maurício Brett, 2º ed. Rio de Janeiro: Editora Agir, 1994.
 
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    Para citar este texto:
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MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/historia/idmedia_saber/
Online, 20/04/2021 às 16:56:20h