História

A guerra entre a Igreja e a Maçonaria em Pernambuco no séc. XIX - Parte II: A Conjuração de “Nosso Pai”

 Gustavo Andrade conta como em 1666, usando um artifício sacrílego, nobres pernambucanos prenderam o governador e o despacharam de volta a Portugal. 

 

Gustavo V. de Andrade

“Um homem plantou uma vinha, e cercou-a com uma sebe, e, cavando, fez um lagar, e edificou uma torre, e arrendou-a a uns lavradores; depois, ausentou-se para longe. E a seu tempo enviou aos lavradores um servo para deles receber a sua parte do fruto da vinha. Eles, agarrando-o, bateram-no, e o despediram com as mãos vazias.”

(Marcos 12: 1-3)

31 de agosto de 1666: triste dia de um ano de triste número. Ultrajando a Deus, ousavam destronar o rei em seu mensageiro.

Matar ou prender o mensageiro é matar a mensagem, é querer nunca tê-la ouvido; é matar ou prender aquele que a enviou. Mais grave ainda é usar-se de um artifício sacrílego para tanto. E assim fizeram os pró-homens de Olinda, os nobres nativos de Pernambuco.

Havia naquele tempo o costume de ao ver um sacerdote a levar as espécies consagradas para atender a um enfermo segui-lo em cortejo. Passava então o padre pelas ruas e atrás iam os fiéis em honra ao Santíssimo Sacramento e em oração pela alma daquele a ser visitado. Chamava-se o viático de “Nosso Pai”.

Neste dia então, seguiu o vigário da igreja de São Pedro Mártir, em Olinda, a portar o “Nosso Pai” a um moribundo. O então governador de Pernambuco (o quarto após a expulsão dos holandeses), Jerônimo de Mendonça Furtado, não demorou a seguir o santo cortejo. Já na volta à igreja foi surpreendido na Rua de São Bento pelos oficiais da Câmara e pró-homens, e outros tantos que lhe deram voz de prisão; a ele e seus acompanhantes.

 1 - Rua de São Bento nos dias de hoje

Mendonça Furtado enquanto governador era um enviado de D. Afonso VI, rei de Portugal. Era mais conhecido como Xumbergas ou Xumbregas por ter introduzido em Pernambuco uma moda de bigode, que por sua vez havia sido levada a Portugal pelo marechal-de-campo Armand Friedrich Von Shomberg (daí o nome), oficial francês que comandou o exército lusitano contra a Espanha, e com quem Mendonça Furtado serviu.

Ter um bigode como legado mais expressivo não dá bons testemunhos de um governador. E assim era de fato. O Xumbergas não tinha trato com os homens da terra, além de ter cometido vários desmandos e ilícitos.

Durante a Insurreição Pernambucana, guerra que resultou na expulsão dos holandeses, Portugal já muito desgastado com as disputas com sua irmã ibérica, a Espanha, tardou em ajudar os brasileiros na luta contra os invasores. Coube aos nativos encabeçar a luta. Índios, negros e brancos. Católicos.

Ali, em não dar corpo ao exército, Portugal deu ao Brasil formar sua alma. A honra e a virtude de muitos que deram suas vidas por Deus e sua pátria hoje jazem na sombra do esquecimento, da indiferença e do despeito.

Corruptio optimi pessima – A corrupção do ótimo é péssima.

A virtude empregada na reconquista de Pernambuco, tal qual o vinho para o vinagre, está para o orgulho nativista que inspira o separatismo. Queriam os olindenses ter um dos seus à frente da capitania, desapontados que estavam com a letargia da coroa em prestar-lhes ajuda na guerra passada. Já não tinham a pronta disposição de bons súditos.

A invasão dos holandeses resultou na completa destruição de Olinda, que se ia reconstruindo aos poucos. Enquanto isso, Recife, mero distrito de Olinda, havia presenciado um grande crescimento. Durante o período de ocupação holandesa, com o intuito de protegerem-se de tentativas de retomada da terra, foram construídos vários fortes, que após a insurreição pernambucana passaram ao controle dos portugueses. De igual modo a ilha do Recife foi cercada por uma estacada, sendo acessível apenas por três portas em arco. Outras quatro portas garantiam a entrada e saída à ilha de Antônio Vaz (hoje, bairro de Santo Antônio).

2 - Arco da Conceição (demolido em 1913)

De tal sorte foi grande a preocupação militar dos holandeses, que Recife, após ser devidamente reconquistada, passou a ser considerada a localidade mais guarnecida do Império Português nas Américas. Com as perspectivas da guerra contra a Espanha o rei Dom João IV chegou a encomendar estudos ao governador de Pernambuco de então, Francisco de Brito Freire, antecessor do Xumbergas, a respeito da possibilidade da corte lusa vir a se instalar em Pernambuco.

Após sua captura, Mendonça Furtado foi levado ao Forte do Brum (uma das fortificações holandesas que passou ao controle português) e posteriormente foi mandado de volta a Portugal. Assim, sem o dizer com todas as letras, os pró-homens se insurgiam contra o rei ele mesmo.

No século XVIII Pernambuco presenciou um conflito entre Olinda e Recife, o qual veio a se chamar a Guerra dos Mascates (que veremos na próxima parte do estudo). Neste conflito os olindenses ainda cantavam:

O Mendonça era Furtado, Pois dos paços o furtaram; Governador governado, Para o reino o despacharam.

A peste já se acabou: Alvíssaras, ó gente boa! O Xumbregas embarcou, Ei-lo vai para Lisboa.

A alma dos olindenses aos poucos foi se envenenando com o nacionalismo, que viria a acarretar nos conflitos por vir. Seguindo à expulsão do Xumbergas, o rei nomeou interinamente como Governador de Pernambuco a Vidal de Negreiros, herói na guerra contra os holandeses. Isso bastou para que por um tempo permanecesse adormecido este veneno no sangue dos pernambucanos.

Bibliografia das partes I e II: LIMA, Ebion de. A Congregação do Oratório no Brasil. Ed. Vozes. Petrópolis, RJ -1980. VEIGA, Gláucio. O Iluminismo em Pernambuco. Vol. 48 da Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano. Recife – 1976. MELLO, Evaldo Cabral de. A fronda dos mazombos: nobres contra mascates, Pernambuco, 1666-1715. Ed. 34. São Paulo, SP – 2003. Jornal A Relíquia. As Portas do Recife. Ano XI – Nº 142. Setembro de 2009. Disponível em: EFECADE - Fernando Kitzinger Dannemann. 1666 – CONJURAÇÃO DE NOSSO PAI. Disponível em:

    Para citar este texto:
"A guerra entre a Igreja e a Maçonaria em Pernambuco no séc. XIX - Parte II: A Conjuração de “Nosso Pai”"
MONTFORT Associação Cultural
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Online, 28/05/2017 às 15:20:48h