Crônicas

Vivaldi na Radial Leste
Pierre de Craon


A estrada serpenteava pelos morros cobertos de capim rasteiro e por entre um casario esparso. À medida em que a cidade ficava mais próxima, a estrada se tornava mais retilínea e monótona. Às suas margens surgiam conjuntos de casas populares que repetiam sempre a mesma fachada, sempre o mesmo telhado, despersonalizados.

Nas calçadas, os transeuntes usavam roupas parecidas, penteados semelhantes, atitudes repetidas. Deviam morar naquelas casas todas iguais que iam ficando para trás. A uniformidade delas se repetia neles. Uma igualdade unissex que fazia desaparecer o quanto possível a distinção entre homens e mulheres.

Não se ouviam seus cumprimentos e conversas. Adivinhava-se porém que, para eles, já não havia manhã, tarde ou noite. Um ‘oi’ coringa servia para qualquer fase do dia ou para qualquer pessoa conhecida, amiga, ou até para os que se viam pela primeira vez.

O trânsito, pouco a pouco, foi se atravancando num estrangulamento qualquer. Os carros se moviam lentamente, detiam-se, andavam mais um pouco, paravam. Os motores roncavam e se aqueciam. Afinal, tudo parou. Alguns minutos se passaram. A impaciência tocou uma buzina nervosa. Outra logo respondeu, e mais outra, até se formar uma zoeira de uivos, guinchos e berros metálicos.

De repente, silêncio. Só os motores roncavam. Tudo parado. De novo a buzina nervosa e impaciente protestou. De novo outra respondeu e os berros mecânicos de protesto se multiplicaram.

Quando eu era menino, quando ainda havia quintais, ouvia-se às vezes, nas madrugadas silenciosas, um latido longínquo que era logo respondido por outro.

Ou então era um galo que cantava e a quem logo respondia, como num eco, um cocoricó distante, esganiçado e simpático de um galinho novato e aprendiz. E de novo o silêncio caía sobre a gente como um cobertor macio, o coo...co..ri..có.. se esticando, se esticando, perdendo-se num adormecer suave e brumoso em que se misturavam a realidade e o sonho.

Agora já não há mais galos, nem latidos de cachorros distantes. O zelador e regulamento do condomínio não deixam. Nem há mais quintais. Só há zeladores e, principalmente, só há regulamentos. Não pode. Não pode. É proibido. Não é permitido. Multa, artigo 75, parágrafo 12. É a liberdade do arranha-céu. O cocoricó é proibido.

Uma nova atroada cacofônica de buzinas me fez voltar à Radial Leste atravancada. Distante, uma sirene uivava sua monotonia desesperada. De uma loja de discos vinha um berreiro ainda mais cacofônico e estúpido que o das buzinas. A sirene uivava mais perto e mais irritada seu grito sempre igual. Da loja de discos partiam gritos selvagens e histéricos, notas frenéticas de guitarras em câmara de torturas. Devia ser o "sucesso do momento". As buzinas recomeçaram seu coro anárquico de protestos na avenida paralisada. Fechei o vidro, desliguei o motor. Não agüentava mais nem os automóveis e nem o tormento do sucesso.

Que silêncio!

Não podendo sair da avenida, resolvi sair do século XX. O gravador me levou para o século XVIII.

Mozart tocava um minueto nos salões do palácio de Schoenbrunn, na Viena de outros tempos.

Fora, além do vidro, a Radial Leste uivava o seu protesto. Tudo continuava igual. Depois de Mozart veio Vivaldi e a Primavera em Veneza.

Que alegria harmoniosa na irrupção de vida do primeiro movimento! Que suavidade e doçura no acalento da noite primaveril do andante! Que despertar festivo e triunfante de júbilo no allegro final!

Fora, a Radial Leste e o século XX urravam o seu desespero. Tudo igual, sempre igual.

Como era harmonioso o mundo de Vivaldi! Hoje, já não há mais harmonia nem primavera. Até as estações do ano ficaram iguais. Será que não há mais galos porque não há mais primavera? E porque não há mais Mozarts e Vivaldis? Talvez o regulamento não deixe. Imagine... Mozart! Ele seria diferente, seria um transtorno. Daria complexos. Isto é, teria. Teria ou daria? Tudo tem que ser igual. Tem? A sirene uivava agora bem perto. Alguma desgraça.

Como era bela a música de outros tempos. Cada nota, bem colocada em seu lugar, sabiamente relacionada com outras. Uma diferente da outra, tudo em ordem, sem cacofonia, sem igualdade.

A sirene, que já ia adiante se afastando, era igualitária. Nela não havia variação, nem desigualdade, nem ordem. Era o berro monótono.

Outrora havia desigualdade proporcionada e havia ordem, como na escala musical, em que cada nota é diferente, cada nota tem beleza própria. A escala musical é um arco-íris de sons.

Também no arco-íris há ordem porque existe desigualdade. Imagine se Robespierre pudesse mandar no arco-íris. Não precisava ser Robespierre. Podia ser o zelador do meu prédio ou então o professor de sociologia. Eles proibiram o arco-íris como violador dos direitos fundamentais proclamados pela ONU. Só poderia existir uma cor: cinzenta ou parda, não sei bem o gosto do zelador. Tudo deveria ter, segundo eles, uma só cor. O século XX é contra o arco-íris. Não há arco-íris sobre os arranha-céus. Arco-íris existia outrora sobre os quintais em que cantavam os galos. Os galos em cujas plumagens morava o arco-íris.

E o arco-íris é mais belo do que todas as cores porque tem todas elas em ordem. Ele é a escala musical das cores. E a ordem do arco-íris, como também a ordem da escala musical, supõe a desigualdade proporcionada.

Quando Deus criou todas as coisas visíveis e invisíveis, viu que tudo era bom. Ele fez a luz e viu que a luz era boa. Fez as plantas e viu que elas eram boas. Fez os animais (os cães e os galos também) e viu que eles eram bons, e assim por diante. E no fim, quando Deus completou toda sua obra, diz a Sagrada Escritura, Ele viu que o conjunto de tudo que fizera era ótimo.

Porque ótimo se cada parte era apenas boa? É que o conjunto tinha, além das partes boas, algo mais que era a ordenação delas. Ordem que só poderia existir sendo as coisas desiguais.

Assim também são os homens. É a desigualdade que permite ordená-los e harmonizá-los. Cada pessoa é como uma pequena nota no concerto da humanidade. Cada nota é necessária e tem uma beleza particular. Por menor que ela seja, por menos que ela dure, coopera para a beleza do concerto. Cada homem, por menor que seja, tem uma beleza própria que lhe advém de ser o que ele é, um reflexo, uma imagem de Deus, diferente dos outros.

É esta beleza e este valor pessoal que constituem a personalidade e que dão dignidade a cada um. Cada homem é único e tem em sua alma uma beleza própria. E é com essa beleza pessoal e única que cada um contribui para a beleza maior do conjunto, para o grande concerto da humanidade, que Deus compôs com sábia ordenação, com sapiencial desigualdade. A sirene se perdia na distância. A loja de discos urrava a cacofonia estúpida e igualitária do século XX.

Meu Deus, quanta saudade da harmonia e da ordem! Que saudades do arco-íris!

Quando voltarão a cantar os galos nos quintais, quando voltará a primavera? Quando voltará a se ouvir na terra o concerto da humanidade?


    Para citar este texto:
"Vivaldi na Radial Leste"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/cronicas/vivaldi/
Online, 24/03/2017 às 12:55:28h