Crônicas

Visita a Bauru. Velhos e velhos, jovens e jovens.
Orlando Fedeli
            Há velhos velhos, assim como há velhos jovens.
Como também há jovens velhos, e jovens que não envelhecem, que permanecem jovens na ancianidade.
Estes, então, são velhos que sempre surpreendem, e sempre agradam, porque sabem retirar de suas velhas lembranças, alguma coisa sempre nova. 
            Nada é mais jovem que uma velha canção. Diz o refrão antigo, sempre verdadeiro.
Nada é mais velho, enrugado e decrépito do que um jovem rock, inevitavelmente marcado pela decrepitude do primitivismo troglodita.
 
No último fim de semana, estive em Bauru, visitando amigos meus e da Montfort. 
Como é agradável rever velhos e fiéis amigos!
Como é agradável estar, de novo, com velhos amigos.
Como é agradável, para um velho professor, reencontrar um antigo aluno! Ou ainda atender o telefone, e ouvir de novo, surpreendentemente, a voz de um jovem que fora seu aluno, e que volta, de novo jovem, a conversar com o velho professor, por amar ainda as mesmas verdades de sempre.
Como é agradável rever velhos amigos, que têm a mesma Fé! A mesma Fé dos velhos tempos, de todos os séculos. Sicut erat in principio, et nunc et semper. Como era no princípio, agora e sempre. A mesma Fé que se mantém sempre jovem. A Fé que alegra perenemente a juventude. Mesmo a dos velhos. Permanecendo através dos séculos. E que alegra a juventude das almas.
 
Em Bauru, revi velhos amigos já conhecidos em visita anterior, e conheci alguns novos amigos.
Alguns jovens, nos olhos dos quais havia fogo, e alguns velhos em cujo olhar havia luz, como escreveu bem um poeta francês bem mau. E lá, em Bauru, conheci um velho bem jovem. E por mais: poeta.
Poeta, com a juventude que só um velho pode alcançar e ter.
 
Claro, também arranjei um novo inimigo, velho também, por causa da exposição que fiz da Fé.
O que me honra.
Um inimigo que, já de início, antes mesmo de começar minha palestra, em defesa do que está fazendo e dizendo o Papa Bento XVI, antecipadamente, se recusou a rezar antes de começar a reunião, e que, depois de me ouvir atacar os erros do Concílio Vaticano II, e as profanações da Missa Nova, se recusou a debater.
Mas que não se recusou a murmurar.
Sibilando...
Também este senhor era um velho, mas sem juventude alguma. Daqueles velhos que jamais compreenderam as palavras do início da Missa de sempre: “Introibo ad altare Dei, ad Deum qui laetificat juventutem meam” (“Entrarei até o altar de Deus, até o Deus que alegra a minha juventude”).
 
                                                                        ***
Há pessoas que nunca tiveram juventude.
Nasceram com 80 anos.
Há velhos que nunca foram jovens.
Velhos que nunca saborearam a alegria da juventude, cheia de ardor e de generosidade. Já nasceram velhos, escorrendo mau humor, com o aspecto de velas em fim de velório, com a cera derretida, escorrendo enrugada, e cujo fulgor desmaiante, mais serve para salientar as trevas do que para iluminar o ambiente. Velas que espalham tristeza e má vontade amarga.
Sorrindo azedas. Bruxuleantes e derretidas.
Assim são as velas em fim de velório. Velas que não rezam e nem discutem corajosamente para defender aquilo no que dizem crer, e nem debatem contra as trevas do erro.
Assim são certos velhos.
Há jovens, sim, que já nascem velhos e que só tem atração pelo murmúrio pelo azedume, quando não pelo ódio. Jovens que já nascem na tristeza de vela de fim de velório. Sem a chama de um sorriso. Sem o vigor do fogo da juventude. Sem entusiasmo pela verdade. Sem ardor, e sem caridade
Nem rezam, nem debatem.
Nunca louvam.
Nunca se entusiasmam.
Só resmungam.
Venenosamente.
 
De volta a São Paulo, quase a meia noite, no Metrô, vi muitos desses jovens que, em plena juventude dos 18 anos pareciam pálidas velas derretidas de velório.
Estavam de negro, com rostos embranquecidos e olhares sensuais. Os braços cheios de braceletes armados de pontas agudas e placas de metal espalhadas pelas roupas tétricas. Eram os jovens-velhos dos novos tempos, enfeitados e tristes como selvagens arqueozóicos. Velas tristes de fim de velório. Ovelhas abandonadas pelos maus pastores incapazes de rezar e incapazes de lutar. 
Vendo aqueles jovens anciãos caquéticos, que buscam, em vão, a felicidade no prazer e no frenesi, e só encontram, em seus delírios, o desespero, pobres moradias de sete demônios, reli a poesia que o velho poeta – bem jovem – que conheci em Bauru, me declamara com luz nos olhos e sorriso nos lábios declamantes, e que ele me dera, depois, na despedida afetuosa, como lembrança.
Tanto gostei dela – e dele, o velho jovem poeta – que quero ter compartilhada com meus pacientes leitores, a minha alegria e minha nova amizade. 
            Ei-la, a poesia de um "jovem" de 84 anos:
 
Velhice
 
A velhice chegou um certo dia...
Sem perguntar a minha idade
pintou o meu cabelo de alvaiade
e do meu lar fez sua moradia.
 
Depois de um tempo em minha companhia,
aproveitando da nossa intimidade,
tirou-me um pouco da vitalidade,
 mas compensou-me com sabedoria.
 
Parece que ela veio pra ficar!
Senão for para em breve me levar,
não me apoquenta, nem me desarvora...
 
Alguma coisa dela se desfruta;
Se para alcançá-la, houve tanta luta,
Por que haveremos de enxotá-la agora?
 
Deus, num ato de desvelo,
Percebendo o meu cansaço,
Botou neve em meu cabelo
E cadência no meu passo.
 
Antônio V. Rufatto
 
***
 
            Está aí a simpática e bem sábia poesia de meu novo jovem amigo de 84 anos, o jovem poeta, que tive honra e alegria de conhecer, em Bauru, sábado passado. 
            Que Deus guarde a sua juventude que se escoa num sorriso, sem murmúrios de zanga e de amargura. Numa prece poética. Uma pequena labareda que, depois de consumir toda uma vida, vai se apagando na alegria de iluminar o próximo com a beleza de sua arte simpática, até o fim, manifestando em sua conformidade com a vida, a gratidão para com Deus que lhe deu juventude na velhice, sem resmungos e com alegria. 
            Que Deus o guarde sempre jovem até que entre, um dia – ad altare Dei – no paraíso, pleno de juventude, de alegria e de sabedoria. 
            É bom ter velhos-jovens amigos! Bendito seja Deus que me deu tantos jovens e fiéis amigos!
 
São Paulo, 25 de Setembro de 2.006
Orlando Fedeli

    Para citar este texto:
"Visita a Bauru. Velhos e velhos, jovens e jovens."
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/cronicas/visita_bauru/
Online, 23/06/2017 às 19:16:07h