Crônicas

Um fast food envenenado para a alma - Parte 2: A televisão e o homem - corpo e alma
A televisão briga com a inteligência, amolece a vontade e enxerta paixões na sensibilidade. E também o corpo sente os efeitos do uso constante da televisão. Leia também a primeira parte deste estudo. 

2.1 - TELEVISÃO, O CORPO E A SAÚDE

 

2.1.1 - TELEVISÃO E O CORPO

    É interessante observar que a televisão “fala” ao corpo. O corpo de alguma forma sente os efeitos do uso constante da televisão. De acordo com Barbosa (2007, p. 4-5): "É a lógica de fluxo que faz também com que todos os sentidos humanos sejam como que aprisionados pela televisão. Como mostrou Derrick de Kerckhov (1997) - a partir de um experimento realizado diante de emissões, no qual procurava exprimir o que gostava ou não em imagens sucessivas que mudavam a cada 15 segundos, experiência gravada e que indicou que todas as alterações foram percebidas no corpo do pesquisador submetido ao experimento -, a televisão fala, em primeiro lugar, ao corpo e não à mente. Na sua avaliação, a tela do vídeo impacta diretamente o sistema nervoso e as emoções dos telespectadores. Portanto, para Kerckhov o regime de processamento da informação da televisão se realiza na tela." Sodré (2001, p.19) sustenta que: “A televisão não se dirige à mente das pessoas. Ela se dirige ao corpo do indivíduo”. “O que importa é esse espraiamento sensorial estético da mídia, espraiando a vida da gente, fazendo que a gente habite, more dentro dessa prótese chamada médium” (Sodré 2001, p.21) Mander, no seu terceiro argumento contra a televisão (1978, p.155): "A tecnologia televisiva desencadeia respostas neurofisiológicas nos seus espectadores. Pode criar doenças e decerto gera confusão e submissão a um mundo externo de imagens. Em termos globais, os efeitos observados traduzem o condicionamento necessário ao controle autocrático" (tradução nossa). Setzer (2009, p. 3) com muita propriedade, descreve a interação do telespectador com o aparelho televisor, por isso reproduziremos seu texto: "Uma observação fenomenológica do telespectador revela o seguinte. Ele está fisicamente estático (a menos de casos muito excepcionais, como programas de ginástica). O ambiente é mantido em penumbra, isto é, com pouca luz. Dos seus órgãos de sentidos, apenas a visão e a audição estão sendo incentivados, e de maneira extremamente parcial: a tela encontra-se parada, portanto a distância é sempre a mesma, não exigindo acomodação de profundidade (variação do cristalino e convergência dos eixos dos olhos). A luminosidade varia muito pouco, de modo que a pupila também quase não muda de abertura.

Normalmente, os olhos não param de se mover, tateando o objeto sendo observado. A figura acima foi copiada do livro de Patzlaf (2000, p. 18). Ela mostra, à direita, o movimento de um olho de uma pessoa vendo a foto à esquerda durante alguns minutos; cada traço mostra um movimento do olho. Note-se como a imagem é "tateada", com maior frequência nos olhos, na boca e na risca do cabelo, que realmente chama a atenção. Em uma pessoa vendo TV os olhos praticamente ficam parados, como se a pessoa estivesse em um estado de desatenção. No caso das telas grandes, esse efeito é diminuído, pois o olho deve mover-se pelos vários trechos da tela. Aliás, essa é uma diferença fundamental da TV para o cinema, pois nesse a tela grande exige que o olho, e até mesmo a cabeça, movimentem-se, o que ajuda a diminuir o estado de sonolência descrito a seguir. Como o telespectador está fisicamente estático, não faz ação física nenhuma. Antigamente, era necessário levantar-se para mudar de canal; agora, com os controles remotos, nem mesmo esse pequeno esforço é exigido. Não há também necessidade de se fazer um esforço mental para prestar atenção. De fato, o pensamento consciente está praticamente abafado. Esse é um ponto absolutamente crucial do efeito do aparelho de TV sobre o telespectador, e por isso vou alongar-me sobre ele. Estudos neurofisiológicos mostraram que, poucos minutos, à vezes somente ½ minuto, de assistir TV já colocam normalmente as ondas cerebrais, como medidas por eletroencefalograma, em um estado semelhante ao de sonolência (isto é, de desatenção) ou semi-hipnótico (Krugman 1971, Emery e Emery 1976, Kubey e Csikszentmihalyi 1990). Normalmente, no telespectador existe predominância de ondas teta, lentas, do EEG, de 4 a 7 Hz. Uma pessoa no escuro, ou com olhos fechados, apresenta a mesma predominância de ondas lentas. Em estado de alerta, passam a predominar as ondas beta de 12 a 30 Hz. Essa predominância das ondas lentas cerebrais indica estado de desatenção, de sonolência. O estado de sonolência e a inatividade mental são tão acentuados, que o gasto de energia de uma pessoa vendo TV é menor do que uma pessoa deitada sem dormir, como foi constatado por Klesges, Shelton e Klesges (1993). Basta olhar para um telespectador e ver-se-á que a expressão de seu rosto não é de alguém que está prestando atenção ao que está observando. Ao contrário, a expressão é de olhar amortecido (olhar de "peixe morto"), faces e boca em geral também sem demonstrar praticamente nada, enfim, tem-se a impressão de "cara de bobo". Isso é mais nítido em crianças, que tem um rosto mais maleável do que o adulto. Enfim, certamente não é a expressão de alguém observando atentamente o que se passa ao seu redor ou em reflexão profunda. Pode-se fazer uma experiência muito simples para constatar que o telespectador normalmente não está absorvendo o que está sendo transmitido. Basta perguntar a uma pessoa que acabou de assistir um noticiário quais notícias ela lembra, obviamente sem contar antes que ela será sujeita a esse teste. Emery e Emery (1976) relatam que, em San Francisco, uma enquete feita por telefone mostrou que mais da metade das pessoas não se lembrava de nenhuma notícia sequer! O prof. Anderson Paulino, da Baixada Fluminense, hoje diretor de escola pública nessa região, testou esse fato em uma de suas palestras: de 15 manchetes de um noticiário que ele projetou numa TV a partir de uma gravação, nenhuma pessoa conseguiu lembrar de 3, e apenas algumas lembraram de 2 – por sinal, as 2 notícias mais violentas (comunicação pessoal).”  

2.1.2 - TELEVISÃO E OBESIDADE

  Há vários estudos realizados demonstrando correlação entre obesidade e televisão: World Health Organization (2003), MH Proctor et al (2003) “Framingham Children’s Study”, Sónia Livingstone (2006) “Does TV advertising make children fat?”, Hancox, Milne e Poulton (2004),Magalhães (2007). No Brasil, por exemplo, temos Borges et. al. (2007) e Nascimento (2006, p. 113) que, em seu trabalho, chegou à seguinte conclusão:   "A partir dos estudos realizados, foi possível constatar que a televisão, enquanto meio de comunicação de massa, pode ser considerado um fator ambiental associado à ocorrência de sobrepeso e obesidade. Através dela, a população, sobretudo de crianças e adolescentes, é exposta a maciça veiculação de propaganda de alimentos que, do ponto de vista nutricional, não contribuem para uma dieta saudável e equilibrada. Estas propagandas possuem elementos de caráter persuasivo que vão desde a intensa estimulação sensorial dos indivíduos, através de técnicas gráficas de alta tecnologia, até a manipulação de sentimentos e ideias em determinadas situações, favorecendo a identificação do consumidor com o produto promovido". Setzer(2009) sustenta: "devido à inatividade física e mental, consome menos energia do que uma pessoa deitada sem dormir. Só isso já contribuiria para o aumento de peso, pois em média cada pessoa vê mais de 4 horas de TV por dia. Some-se a essa inatividade o fato de o telespectador estar comendo salgadinhos, docinhos e refrigerantes, induzido pela propaganda transmitida, sem qualquer valor nutritivo mas que contribuem decisivamente para o ganho de peso, e tem-se uma fórmula para esse ganho. Cria-se ainda um círculo vicioso: pessoas com excesso de peso tendem a fazer menos exercício físico, pois este exige mais esforço devido à carga adicional de peso, e com isso engordam mais, fazendo ainda menos exercício". A televisão impõe uma triste contradição: “vende” o ideal do corpo perfeito em sua programação e “entrega” ao telespectador a obesidade em decorrência de seu uso prolongado.  

2.1.3 -  OUTROS PROBLEMAS DE SAÚDE FÍSICA E MENTAL

  Muitíssimos estudos apontam liame entre distúrbios físicos e/ou mentais e a televisão, além da obesidade. Em especial, em crianças e jovens. Hacocx et. al. (2004) apontam que muito tempo na televisão causa efeitos duradouros na saúde, como colesterol alto, tabagismo e baixa capacidade cardio-respiratória.[1] BMC – Public Health associa o uso da televisão com problemas relativos ao sono e diabetes.[2] Thompson e Christakis (2005) apresentaram estudos relacionando problemas com sono e televisão para crianças.[3] Piazzi (2008, p.43), sem mais explicações ou referências, diz que: “ há fortes suspeitas de que uma criança exposta à TV antes dos 4 anos de idade desenvolva uma forma branda de deficiência mental” Waldman et. al. (2006) em seu estudo relacionaram a televisão com autismo[4] Landhuis et. al. (2007) [5] mostraram haver relação entre assistir muita televisão na infância e déficit de atenção(DDA) na adolescência. No mesmo sentido, Johnson (2007) mostrando que assistir muita televisão até os 14 anos gera déficit de atenção (DDA) e dificuldades no aprendizado.[6] Há vários outros estudos demonstrando relação da televisão com distúrbios psicológicos ligados ao desenvolvimento cognitivo das crianças, incluindo a compreensão da leitura, habilidade matemática, memorização de números, resolução de problemas e vocabulário.[7]  

2.2 - TELEVISÃO HIPNÓTICA

    Se nós entendermos a hipnose como um conjunto de técnicas psicológicas e fisiológicas usadas para a modificação gradual da atenção, então a televisão é hipnótica. Muitos autores entendem da mesma maneira, exemplos: Arbex (2001), Barbosa, (2007), Mander (1978), Setzer (2009). Mander (1978, p.158), para exemplificar, colheu gravações informais de cerca de 2.000 entrevistas e descrições escritas a respeito da televisão. As 15 frases usadas com maior frequência foram: 1)”Eu me sinto hipnotizado quando assisto à televisão”. 2) "A televisão suga minha energia". 3) "Sinto como se passasse por uma lavagem cerebral". 4) "Sinto-me como um vegetal quando estou diante do tubo da TV". 5) "A televisão me deixa fora de órbita". 6) "A televisão é um vício e eu estou viciado". 7) "Meus filhos se parecem com zumbis quando assistem à TV". 8) "A TV está destruindo minha mente". 9) "Meus filhos parecem sonâmbulos por causa dela". 10) "A televisão está tornando as pessoas estúpidas". 11)  "A televisão transforma minha mente em uma bagunça". 12) " Se a TV está ligada, não posso desviar meus olhos dela". 13) "Sinto-me hipnotizado por ela". 14) "A TV está colonizando meu cérebro". 15) "Como posso manter meus filhos distantes da TV e voltar a viver?". Todas estas frases que, aliás, são bens comuns, retratam que a televisão atrai a atenção de modo hipnótico.  

2.3 - OS SENTIDOS INTERNOS E A SUA RELAÇÃO COM A TELEVISÃO

 

2.3.1 - OS SENTIDOS INTERNOS

  Os cinco sentidos externos[8] do homem captam as informações do mundo exterior e registram nos sentidos internos, que serão a base para o trabalho intelectual. São quatro os sentidos internos, segundo S. Tomás[9]: sentido comum, imaginação, memória e cogitativa. a) Sentido comum. Por meio do sentido comum, o homem percebe a realidade de modo unificado. Ele recebe as imagens obtidas pelos sentidos exteriores compara-as e julga-as. S. Tomás ensina que o olho não distingue o branco do doce, quem faz esta distinção é o sentido comum. b) Imaginação Não basta receber as informações, é necessário retê-las. O ser sensitivo precisa percebê-las enquanto estiverem ausentes também. Esta é a função da imaginação, que abstrai as impressões para que sejam usadas no futuro. De acordo com S. Tomas é o “tesouro das formas recebidas pelo sentido”. c) Memória A fim de que as imagens não se percam é necessário existir um “arquivo” onde possam ser armazenadas, este “arquivo” é a memória. d) Cogitativa A cogitativa compara as informações armazenadas e pode criar novas situações. Ela prepara as imagens particulares fazendo-as mais perfeitas de conteúdo em potência para que sejam transformadas em ato (universal) pelo intelecto. O intelecto vai até os sentidos internos e abstrai ou extrai a sua essência (quididade). O intelecto humano, unido ao corpo, tem como objeto próprio a quididade ou a natureza existente na coisa corpórea, que ele abstrai do imaginário.  

2.3.2 - A TELEVISÃO E OS SENTIDOS INTERNOS

  A televisão turva os sentidos internos, bombardeando com muitas imagens desconexas a visão e com muitos sons desarmônicos a audição. Quando estas informações chegam ao sentido comum, este terá dificuldade para unificar e julgar. Quando vemos uma árvore e um som de um pássaro não temos problema em defini-los. Porém, se víssemos uma árvore borrada, sem contornos, teríamos dificuldade em julgar o que é. A finalidade da visão é a percepção da realidade, quando esta é corrompida pela televisão, o que a vista percebe pode ser algo confuso. A televisão, por assim dizer, borra os sentidos. Em relação à imaginação, como a sucessão de eventos na televisão é rápida, não há tempo de retenção de todas as imagens, não se conhece em ato muitas coisas simultâneas[10] . E mais, o que pode ser retido, são imagens aleatórias ou sem importância e não as que se quereria escolher. Disse Santa Teresa que “a imaginação é a louca da casa”, ora, a televisão vai ajudar a enlouquecer mais ainda. Segundo ensinamento de S. Antonio Maria Claret[11]: "Procura sempre tê-la ocupada (a imaginação) em pensamentos úteis e proveitosos, cuidando com toda a diligência evitar os maus pensamentos; porque se os deixares entrar uma vez, não poderás depois lançá-los fora tão facilmente". A televisão fará o contrário: povoará a mente com maus pensamentos. Sabe-se que a memória é mais eficaz quando se estuda relacionando temas conexos. A televisão, por sua natureza, não produz imagens conexas, contribuindo assim para a desmemória. E mais, a sucessão rápida das imagens também provoca a amnésia, neste sentido ver Arbex (2001). Com os três sentidos internos prejudicados, a cogitativa restará naturalmente comprometida. Não haverá perfeição de conteúdo, por causa da “mistura” deles obtida ao assistir à televisão. Os sentidos internos precisam subordinar sua atividade ao império da razão e da vontade[12], a mortificação dos pensamentos inúteis é a mortificação dos pensamentos maus[13]. Isto é uma exigência para o progresso espiritual, é mister dar mais lugar ao trabalho da inteligência e da reflexão, e menos às faculdades sensíveis. Como fazer isto com a televisão, que é uma fonte de imagens perigosas ou inúteis? Um exemplo disso é o intervalo comercial. Nele, várias publicidades se seguem sem nexo e podem instigar o telespectador a comprar determinado produto de que não necessita. Estas imagens de bens de consumo, somados aos “jingles” podem povoar o imaginário por muito tempo, fazendo o telespectador perder tempo em pensamentos do tipo “compro ou não compro”.  

2.4 -  AS POTÊNCIAS DA ALMA E A TELEVISÃO

  O estudo das potências da alma em S. Tomás está na parte I, Q77 até Q83. Trata-se de algo profundo. Dependendo do ângulo que se estude ou se “olha”, o número das potências pode variar (ver Q78, a1). Porém, tendo em vista o nosso estudo, interessam-nos as seguintes potências: o intelecto, inteligência ou “potências intelectivas” (I, Q 79), a vontade (I, Q. 82) e a sensibilidade (I, Q.81). Esta é a tríade principal. A potência da inteligência será abordada no tópico: “o trabalho intelectual e a televisão”, a sensibilidade, que se subdivide em concupiscível e irascível, será abordada no tópico “televisão e concupiscência” e a vontade no tópico de mesmo nome. Interessante observar que a função da linguagem é tripla, visando comunicar pensamento, volição e emoção.[14] A linguagem, ao comunicar pensamento, visa atingir a inteligência, ao comunicar a volição, visa atingir à vontade e ao comunicar emoção visa à sensibilidade. As peças se encaixam harmoniosamente. Quando a linguagem é de alto nível e respeita o trivium, a alma se rejubila. Todas as potências dela foram instigadas para o bem. Por exemplo, um sermão de São João Crisóstomo. Ele arrebata, o voo é alto. Um pensamento elevado do sermão faz a inteligência compreender uma verdade, com a volição, exorta o ouvinte a seguir a verdade, e com a correta emoção (que envolve a retórica) leva o ouvinte a amar a verdade. A televisão briga com a inteligência, amolece a vontade e enxerta paixões na sensibilidade, como veremos nos tópicos seguintes. Conduz para a baixeza. A linguagem na televisão é o oposto dos sermões dos santos. Crisóstomo significa “boca de ouro”, a televisão é a “boca da inópia”. Ela vai despertar as paixões e as emoções sem razão. Pio XI, na encíclica Vigilante Cura, já alertava que as produções inadequadas excitam as paixões inferiores[15] As paixões são movimentos impetuosos do apetite sensitivo para o bem sensível com repercussão mais ou menos forte sobre o organismo.[16] Um exemplo disso são transmissões ao vivo de futebol. Aliás, o amor a este desporto no Brasil se aproxima de algo patológico. As narrações dos jogos na televisão são dramáticas, principalmente nas finais. Se o time perde o jogo, para o torcedor parece ser o “fim do mundo”. A paixão estimulada neste caso é o desespero que é causado pela impossibilidade da aquisição do bem amado - no caso do futebol, a vitória em algum campeonato. Isto leva a alma a um estado desnecessário e ruim. Pode causar choro, revolta, etc. Ver tópico 3.1.3.  

2.5 - O TRABALHO INTELECTUAL E A TELEVISÃO

  De acordo com Hugo de São Vítor: "Duas coisas principalmente concorrem para a aquisição da ciência, a leitura e a meditação"[17] Por leitura, entende-se tanto a leitura de um livro quanto a assistir a aulas[18]. A televisão não compreende nem a leitura nem a meditação. A meditação exclui a velocidade. Requer vagar, pensar e repensar. E a meditação ajuda a memória[19]. Mais uma razão pela qual a televisão destrói a memória. O que os medievais pensavam a respeito de estudo é confirmado por pesquisadores atuais. É uma sequência de aula e/ou leitura, seguido de meditação e/ou estudo repetido que produzirá a ciência e o saber. E segundo S. Tomás[20], quando a potência intelectiva apreende alguma coisa este ato é a inteligência. Quando ordena o que ela aprendeu para conhecer ou operar alguma coisa, é a intenção, quando persiste na investigação, é a reflexão. Quando se examina o que se refletiu em razão de princípios certos, é a sabedoria. O modo de ser da televisão combate tudo isto. A apreensão quase simultânea de várias imagens e/ou falas é mortal para o intelecto. "O "saber" supõe o uso da reflexão e do julgamento, a televisão, devido à sucessão rápida e ininterrupta de imagens luminosas não concede tempo para a reflexão nem para o julgamento; ela só pode engendrar crenças sem fundamento razoável, ou pior, julgamentos temerários para o bem ou para o mal". (TURGEON, J.P. - La télévision, p.20, citado por MIRANDA[21]) Segundo Peixoto (1996, p. 180): "A televisão contrapõe-se radicalmente à contemplação. Em primeiro lugar porque na TV a imagem passa por frações de segundo, sem exigir do observador a distância que convencionalmente requer um quadro ou uma paisagem. Assistimos à TV com uma atenção dispersa, sem concentração, apenas deixando que aquele fluxo ininterrupto nos atravesse". Existe uma hierarquia no saber. Há coisas que tem mais importância que outras. Assim, o saber teológico e o catecismo estão em primeiro lugar; a filosofia, que estuda as causas primeiras, em segundo posto, assim por diante. É próprio do sábio ordenar, segundo Aristóteles.   As futilidades da vida não estão em lugar nenhum, pois nem deveriam ser conhecidas. A televisão dá mais importância às frivolidades e às inutilidades que os temas mais elevados (se é que são abordados). Nela, há uma inversão tanto qualitativa, do que se deve saber, quanto quantitativa, do quanto se deve saber de determinado assunto. Enquanto a hierarquia do saber é como um arco ogival que aponta para o alto, a televisão é um arco invertido que aponta para baixo. Segundo Bertrand (1999, p.115), os meios de comunicação “sofrem de uma falta de hierarquia. Eles deveriam diferenciar melhor as notícias recreativas e importantes, e privilegiar aquelas que podem afetar a vida de um grupo social, da sociedade de um país a humanidade”. De acordo com S. Tomás[22], raciocinar é ir de um objeto conhecido a outro, em vista de conhecer a verdade inteligível. A televisão leva nada a lugar nenhum. De acordo com Barbosa (2007, p. 4-5): "É a lógica de fluxo que faz também com que todos os sentidos humanos sejam como que aprisionados pela televisão. Como mostrou Derrick de Kerckhov (1997) - a partir de um experimento realizado diante de emissões, no qual procurava exprimir o que gostava ou não em imagens sucessivas que mudavam a cada 15 segundos, experiência gravada e que indicou que todas as alterações foram percebidas no corpo do pesquisador submetido ao experimento -, a televisão fala, em primeiro lugar, ao corpo e não à mente. Na sua avaliação, a tela do vídeo impacta diretamente o sistema nervoso e as emoções dos telespectadores. Portanto, para Kerckhov o regime de processamento da informação da televisão se realiza na tela.  A segunda conclusão do autor, a partir de seu experimento, é que a televisão é hipnoticamente envolvente. Qualquer alteração na tela atrai a atenção. Essa fixação não permite a volta do pensamento, a reflexão. A imagem fica numa espécie de zona de sombra encoberta do consciente. Portanto, cognitivamente a televisão foi construindo uma linguagem que desobriga, no momento da emissão, a reflexão" (grifo nosso) Depreende-se do texto, então, que a televisão não atende à mente e tenta introduzir ideias sem passar pela reflexão. Isto é extremamente perigoso, pois treina as pessoas, como um cachorro. Ao abrir uma torneira deixando passar com muita força a água, pouco dela ficará retida na palma da mão. Segundo Alain Ehrenberg, citado por Tacussel (2001, p.84), a televisão é uma: “torneira de imagens” Assim é o cérebro, muita informação fará com que pouca coisa seja retida. Muitos já perceberam e já é quase um chavão que vivemos numa época de muita informação e pouco conhecimento.  

2.6. TELEVISÃO E CONCUPISCÊNCIA

 

2.6.1 SENSIBILIDADE E CONCUPISCÊNCIA EM GERAL

  A sensibilidade se subdivide em concupiscível e irascível. A paixão pode afetar a potência do concupiscível gerando a concupiscência da carne e dos olhos. “Porque tudo o que há no mundo é concupiscência da carne, e concupiscência dos olhos, e soberba da vida”. (1 Jo 2, 16). As duas concupiscências serão comentadas, em parte, nos tópicos abaixo. E a soberba da vida é o amor desordenado da nossa própria excelência, de tudo o que possa enfatizá-la, não importa quão difícil ou duro isso possa vir a ser. É muito comum este vício nas “celebridades” (ver item 3.1.1). A paixão não afeta o irascível? Sim. Mas, no caso da televisão não será importante, porque as paixões da faculdade do irascível têm como objeto o bem ou o mal tomados como árduos. E a televisão “amolece”, leva à preguiça e não instiga à ação.  

2.6.2 CONCUPISCÊNCIA DA CARNE

  A concupiscência da carne é o amor desordenado dos prazeres dos sentidos.[23] A vista é por ele infeccionada, visto ser pelos olhos que começa a sorver o veneno do amor sensual.[24]  A “vista excita os desejos dos insensatos” (Sb 15, 5) “Não lances os olhos daqui e dali pelas ruas da cidade, não vagueies pelos caminhos” (Eclo 9, 7). Ora, o que faz ao assistir a televisão é oposto do que é dito, deixa-se os olhos vaguear. A audição é por ele infectada, quando por meio de conversas perigosas e cantos eivados de moleza acendem as chamas no amor impuro.[25] A televisão aguça esta concupiscência, pois com muita frequência municiará os olhos e os ouvidos com imagens e sons perigosos. Neste sentido, o que Pio XI fala sobre o cinema,  serve bem para a televisão: (...) Se nos entreatos (dos filmes) se acrescentam danças e variedades, as paixões recebem excitações das mais perigosas, que avultam vertiginosamente.”[26] Pio XII[27], na carta encíclica MIRANDA PRORSUS (sobre o cinema, televisão e rádio): "Quem poderá dizer quantas ruínas de almas, especialmente juvenis, provocam tais imagens, que pensamentos impuros e que sentimentos podem despertar, e quanto contribuem para a corrupção do povo, com grave prejuízo até da prosperidade da nação?"  "Não useis, porém, a liberdade para dar ocasião à carne." (Gl 6,13)  

2.6.3  TELEVISÃO E PORNOGRAFIA

  A televisão é infestada de pornografia em todas as suas formas[28], formando um quadro trágico para a moral, a decência e a modéstia. O Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais (1989) [29] definiu a pornografia (item 9): (...) Entende-se por pornografia, neste contexto, a violação, por meio do uso de técnicas audio-visuais, do direito à privacidade do corpo humano em sua natureza masculina e feminina, violação que reduz a pessoa humana e o corpo humano a um objeto anônimo destinado a uma má utilização com a intenção de obter gratificação concupiscente. E no item 11 adverte: É evidente que um dos efeitos da pornografia é o pecado. A participação voluntária na produção e na difusão destes produtos nocivos deve ser considerada como um sério mal moral. Além disso, esta produção e difusão não poderiam ter lugar, se não existisse uma demanda. Assim pois, os que fazem uso destes produtos não só se prejudicam a si mesmos, mas também contribuem para a promoção de um comércio nefasto. O que pensar das atrizes de televisão que se mostram indevidamente? E não há a desculpa de ser uma simulação de um ato. Pois, a mera exposição do corpo já é em si mesma uma indecência. Diferente da simulação de um assassinato, por exemplo, no qual não houve o crime. Só por esta razão, a televisão deveria ser apartada dos olhos, como cumprimento do 6º e do 9º mandamentos.  

2.6.4 CONCUSPICÊNCIA DOS OLHOS - CURIOSIDADE

  Uma das concupiscências dos olhos é a curiosidade doentia. A curiosidade é desejo imoderado de ver, ouvir, conhecer o que se passa no mundo.[30]. Este ver está distante da finalidade da visão, que é a realidade, volta-se apenas para ver e ver em si mesmo, sem objetivo último nenhum. O meio se torna o fim. Ora, a televisão atende a esta imoderação. Por meio dela, acaba-se sabendo das notícias mais inúteis, das fofocas mais abjetas e das informações mais irrelevantes possíveis. A televisão tanto instiga como busca saciar esta vã curiosidade que só prejudica a alma. Sobre esta curiosidade, Bossuet escreveu: Porquanto, tudo isso não mais é mais que uma intemperança, uma doença, um desregramento do espírito, um entibiamento do coração, um miserável cativeiro, que não nos deixa tempo de pensar em nós, enfim uma fonte de erros[31] S. Pedro Alcântara ensina que a curiosidade impede a devoção: Impede o vício da curiosidade, assim dos sentidos como do entendimento, o que é querer ouvir e ver e saber muitas coisas e desejar coisas polidas, curiosas e bem lavradas, porque tudo isto ocupa o tempo, embaraça os sentidos, inquieta a alma e a derrama em muitas partes e assim impede a devoção.[32] E o papa Francisco: O espírito de curiosidade nos afasta do espírito de sabedoria, porque ele só está interessado nos detalhes, notícias, pequenas notícias todos os dias. E o espírito de curiosidade não é um bom espírito: é o espírito de dispersão, de afastamento de Deus, o espírito de falar muito. E Jesus também vai nos dizer algo interessante: esse espírito de curiosidade, que é mundano, nos leva à confusão.[33] A televisão leva o homem a evagatio mentis. Isto acontece quando o homem perde interesse na finalidade das coisas, dos atos e quer apenas vagar em divertimentos, em futilidades etc. que não o levam a lugar nenhum. E isto é facílimo na televisão, já que esta não tem propriamente um norte. Sodré (2001) fala em “espraiamento sensorial”, que é justamente isto, além de o corpo se esparramar no sofá, a mente se esparrama nas imagens da televisão. Um exemplo mais agressivo desta evagatio, é a busca frenética de programação por meio das mudanças de canais (“zapping”). Segundo S. Tomás, a evagatio inclui a curiosidade e é uma das filhas da acídia. É uma verdadeira “dissipação do espírito”, e a acídia é uma tristeza da alma[34]. . A televisão, leva portanto, à tristeza. Um exemplo desta curiosidade doentia na televisão é o “reality show”, que parece ser o apogeu da abjeção em matéria de programa televisivo. Nele, os participantes devem fazer algumas provas ou simplesmente conviver numa mesma casa. Há muitos impropérios no linguajar, relações indevidas, acusações etc. Quanto mais grotesco o quadro maior a audiência. Evidentemente, o interesse do telespectador por este tipo de programa é a vã curiosidade, na qual ele quer saber o que o participante “a”  disse para o participante “b”, o que fizeram, o que deixarem de fazer etc. Ora, tais conhecimentos são absolutamente dispensáveis para a vida. Ver o anexo 4.3: “Reality shows”.  

2.7 - VONTADE

  A vontade é, no homem, a faculdade mestra, que governa as demais faculdades.[35]. Porém, ela depende do que a inteligência compreendeu, pois será impossível querer algo que não se conhece. A televisão, como vimos, ataca a intelecção, deste modo ataca a vontade indiretamente, já que se quererá algo já viciado provocado por um mau entendimento. Outra razão para o enfraquecimento da vontade é a concupiscência. Já dizia S. Agostinho : "A concupiscência tomou seus membros, excitou  e deleitou sua vontade no mal”. Além disto, Tanquerey enumera alguns obstáculos[36], de ordem interior e de ordem exterior, que impedem o homem de tornar a vontade dócil para servir a Deus. Dentre os primeiros, destacamos dois: Irreflexão. Não pensar antes de uma ação, seguir o impulso do momento, a paixão, a rotina. Ora, a televisão como já foi explicado é uma atividade per si irreflexiva, que instiga a paixão, logo será meio ótimo para obstar a vontade de fazer o bem. Negligência. A preguiça, a falta de energia que atrofia as forças da vontade. Isso é justamente o que a televisão causa nas pessoas, a preguiça, a má vontade. Além do que já foi dito, a televisão produz passividade massiva (Mander 1978, p.349) e suga a vontade das pessoas (Mander 1978, p.158). Dois obstáculos de ordem exterior: Respeito Humano[37]. Torna-nos escravos dos outros, temerosos de críticas e zombarias. Em muitos casos, a televisão obriga as pessoas ao seu próprio juízo. Quem não assiste à televisão é visto como alguém “extraterrestre” e quem não se harmoniza com as opiniões e as análises da televisão está “por fora”. Maus exemplos. Como o homem tem necessidade de modelos sociais, os maus exemplos arrastam as pessoas para o erro. A televisão é mestra nos maus exemplos, quer em função de sua própria natureza que é anti-intelectual e cultora de falsas ideologias quer pelos “modelos” que promove, (ver tópico 3.1.1 , o seguinte). Segundo S. Tomás, o objeto da vontade é bem universal[38], a televisão leva a vontade a desejar coisas fúteis, quando não imorais. Ou ainda a adesão um “mal universal”, dado o alcance da televisão que generaliza as coisas erradas.  

[2] Disponível em <http://www.biomedcentral.com/bmcpublichealth> Acesso em 28 set. 2013.
[3] Disponível em <http://pediatrics.aappublications.org/content/116/4/851.full> Acesso em 28 set. 2013.
[6]Disponível em:< http://www.columbia.edu/cu/news/07/05/teenTV.html> Acesso em 28 set. 2013
[7] Anderson, Huston, Schmitt, Linebarger, & Wright, 2001; Christakis, Zimmerman, DiGiuseppe, & McCarty, 2004; Foster & Watkins, 2010; Greenfield, Camaioni, Ercolani, Weiss, Lauber, & Perucchini , 1984; Linebarger & Piotrowski, 2009; Linebarger & Walker, 2005; Rice, 1984; Rice, Huston, Truglio, & Wright, 1990; Rice & Woodsmall, 1988; Subrahmanyam & Greenfield, 1994; Wright et al., 2001; Zimmermann & Christakis, 2005; Zimmermann & Christakis, 2007
[8] Visão, audição, olfato, tato e paladar.
[9] I, Q78, a4. Um bom estudo baseado no Aquinate: O processo do conhecimento humano em Tomás de Aquino, Marcos Roberto Nunes Costa.
[10] I, q86, a.2. res. 3
[11] Caminho Reto, p. 279, tópico: mortificação da imaginação.
[12]Tanquerey Compendio de Teologia Ascética e Mística. Item 780
[13] Ibidem, item 780.
[14] Livro do Trivium, p. 31
[15] Vigilante Cura, tópico 14.
[16] Tanquerey, Item 785.
[17] Didascalicon, Hugo de São Vitor, L1, C1
[18] Interessante observar que a palavra inglesa “lecture” significa “palestra”, mas a sua raiz tem origem na palavra “ler”.
[19] Conforme Aristóteles, repetido por S. Tomás.
[20] I, Q. 79, a.10, sol.3.
[22] I, Q.79,a.8,rep.
[23] Tanquerey, item 193
[24] Ibidem item 195
[25] Ibidem item 195
[26] Vigilante Cura tópico 19
[27] Disponível em: http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_08091957_miranda-prorsus_po.html
[28]  Segundo a revista Veja (26/07/1995), no Brasil: “A cada 131 minutos, um termo chulo; a cada 113 minutos, uma cena de nudez; a cada 145 minutos, uma cena que simula o ato sexual. Durante uma semana a criança poderá assistir 95 cenas de nudez, 8 palavras chulas, 90 diálogos maliciosos e 74 atos sexuais”. E a mesma revista em outra reportagem: uma criança de 5 anos que fique na frente do aparelho duas horas por dia, ao fim de uma no terá sido exposta aa 1.168 piadas sobre sexo, 7.446 cenas de nudez e mais 12.600 estampidos de tiros” (04/07/1990). O artigo citado é de 1995. Calcule-se o quanto terá crescido a frequência de exposição da pornografia na televisão nos últimos anos!
[30] Tanquerey, Item 199
[31] Ibidem. Item 199
[32] P. 119, Tratado da Oração e da Meditação. Petrópolis: Vozes, 2008
[33] Discurso de 14 de novembro de 2013. Disponível em: http://pt.radiovaticana.va/news/2013/11/14/o_esp%C3%ADrito_de_curiosidade_afasta-nos_da_sabedoria_e_da_paz_de_deus_%E2%80%93/por-746533  Acesso em 18 nov. 2013.
[34] II-II, q.35, a.4
[35] Tamquerey item 811.
[36] Ibidem, item 812.
[37] Este termo aqui é empregado em sentido estrito, como usado nos manuais de teologia e não em um sentido “moderno”.
[38] l, lI, q. 2, a. 8:

    Para citar este texto:
"Um fast food envenenado para a alma - Parte 2: A televisão e o homem - corpo e alma"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/cronicas/um-fast-food-envenenado-para-a-alma-parte-2-a-televisao-e-o-homem-corpo-e-alma/
Online, 14/12/2017 às 02:02:29h