Crônicas

Paraty versus Las Vegas

À primeira vista, parece não haver sentido nenhum em comparar as cidades de Paraty e de Las Vegas, afinal há pouquíssima compatibilidade entre elas. Mas, este foi o objetivo. Ao pensarmos em uma cidade oposta a Paraty, escolhemos Las Vegas. Paraty, cidade portuária, foi fundada no século XVII, voltada para o transporte do ouro que descia a serra e ia para o mar. Depois do ciclo aurífero, a cidade foi usada para as exportações de café. Nasceu por causa de uma necessidade. Na região de Paraty, a Serra do Mar e o oceano travam batalha para provar quem tem mais majestade. O resultado deste combate entre os gigantes são as muitas ilhas que povoam o litoral extremamente recortado. A geografia do local esbanja vida quer nos morros quer nas águas. Humilde, prudente e sem poder desafiar naturalmente o mar e a montanha, no meio do embate, está Paraty. Porém, sob outro ângulo, o espiritual, apesar de sua pequenez, a cidade parece assentar-se no trono de magistrada sobre um e outro, o mar parece mais belo porque há Paraty ali, idem para a montanha. Paraty é uma cidade colonial e imperial que, por uma felicidade histórica restou congelada como era séculos atrás.[1] Um barroco colonial encantador forma completamente a cidade. O casario ora é térreo, ora é sobrado, mas sempre no mesmo estilo. As torres mais altas são as das igrejas, para lembrar que o valor mais alto é Deus. Há uma relação de proporção entre as casas, a rua e o homem; o colorido formado por amarelos, verdes azuis e brancos etc. soa agradável e melódico. As aparências externas das construções perdem para as decorações internas, para ensinar que a riqueza boa é a interior. Há os passos, que são pequenos altares cravados em várias paredes espalhados pela cidade, cujas portas são abertas somente na Semana Santa. Para mostrar que a Páscoa é a principal efeméride católica. A cidade é plana, mas suas ruas ora são retas, ora são curvas. A arquitetura colonial também tem janelas curvas e retas. O reto e o curvo harmonizam esplendidamente com o mar e a montanha. A curvatura rima com os morros, as ondas e as ilhas. E os traços retilíneos com o horizonte e com linhas que muitas vezes são desenhadas pelas nuvens nas montanhas. O piso é irregular, há um sobe e desce ao caminhar. Assim como ao navegar ou ao subir a montanha. Anda-se a pé na cidade, os veículos automotores são impedidos de circular no centro histórico e com isto os seus barulhos desagradáveis inexistem nas suas vias. A comida é boa e há a tradição dos pratos e da bebida: a cachaça é destilada em antigos alambiques. Às vezes, a maré alta invade o calçamento da cidade sem invadir as casas, em razão das ruas serem projetadas como canais naturais e, assim, o mar faz a limpeza das ruas. Tudo milimetricamente calculado há séculos. Nestas ocasiões, pode-se até passear de canoa pelas ruas. Há um rio que beira a cidade e que faz o elo e a paz entre a montanha e o mar. O curso d’água combina a humildade das nascentes com a grandeza do mar, depois de heroicamente vencer as cachoeiras. Nele, próximos da foz, estão barcos de madeira coloridos estacionados. A cidade não nega a natureza que a cerca, mas harmoniza com ela, atende à realidade. Assim como o realismo moderado da boa filosofia tomista, que não nega o ser das coisas. Paraty é sensível às intempéries. Cada clima dá um charme especial à cidade. Assim, por exemplo, às vezes a chuva esconde a montanha e o mar, o sol os mostra claramente e a noite de lua cheia mostra um e outro misteriosamente. Como tudo que é belo, há unidade na diversidade em Paraty. A cidade inteira é regida por um mesmo estilo, com particulares nas suas construções. Como os homens, que são iguais na natureza e diferentes nos acidentes. Como a vida católica, imutável nos princípios e dogmas, mas transigente nas escolhas profissionais. A igreja de Santa Rita denuncia a cidade antes de qualquer outra construção, para quem vem do mar. No topo da torre desta igreja há uma imagem de um galo que, por sinal, é o primeiro bicho a anunciar o dia antes de o sol nascer. Como apreensão final, a arte de Paraty esbanja religiosidade e boa filosofia. ---------------------- Las Vegas, por sua vez, foi fundada no começo do século XX. Cresceu e ganhou fama por causa dos cassinos, dos quais o primeiro foi fundado por um mafioso. Não foi erguida pela necessidade, mas para o infausto prazer do jogo e de seus acessórios. Situa-se num local desértico e as montanhas ao redor são secas, a geografia lá ensina mais a morte que a vida. É uma cidade bilionária. O mote da cidade se resume a sua avenida principal onde se erguem gigantescos hotéis-cassinos. Muito destes hotéis simulam monumentos ou cidades. Assim há um que imita Veneza, um que imita Nova York, outro que imita as Pirâmides do Egito etc. Como alguém que não tem criatividade e passa a imitar o que o outro fez ou ainda como um aluno que não estudou e copia a prova do colega. Tanto num caso quanto no outro, as cópias foram mal feitas e as únicas coisas elevadas nas construções são o tamanho físico e o dinheiro envolvido. São como sofismas, porque enganam. Afinal Paris, por exemplo, é uma única cidade e não pode ser repetida por uma imitação monstruosa. Tudo em Las Vegas é cacofônico, não há harmonia nas construções, não há proporção, não há combinação de cores agradáveis, elas chocam a vista. De noite, brilha o artificialismo dos “neons”, com suas cores cafonas e alternâncias ilógicas de liga-desliga. As construções mais altas são aquelas que o dinheiro quis mais altas. Las Vegas é voluntarista, trata-se da mentalidade do “eu acho”, do relativismo moderno combinado com o poder material do dinheiro. Como as heresias, sempre erradas, que são construídas sobre falsas bases que pervertem a realidade, que fazem cópia mentirosa e grosseira da verdade. Nas ruas de Las Vegas desfilam veículos caríssimos. Há boa comida na cidade, talvez para mostrar que o dinheiro pode comprá-las, mas sem tradição, pois as receitas vêm de fora. Há uma verdadeira soberba no ar. A cidade quer negar a natureza, pois os ambientes internos são feitos de modo a não se saber se faz frio ou calor, se está de noite ou de dia; ou se está chovendo ou fazendo sol. A riquíssima Las Vegas e o deserto que a circundam formam uma triste contradição, como uma pessoa que é rica externamente e deserta na alma. Las Vegas investe no prazer meramente sensorial, jogo, comida sem tradição, dinheiro etc. Quer dar apenas conforto e facilidades materiais para seus visitantes, como demonstram os condicionadores de ar, os elevadores, as escadas rolantes, os carros etc. A apreensão final de Las Vegas é de uma cidade com tristeza proporcional à sua grandeza meramente material, distante da boa arte e da elevada metafísica. Goza de uma gigantesca fama, turismo intenso e vence porque o mundo está corrompido. Paraty evoca algo mais espiritual, o prazer dos passeios é intelectual e há verdadeira felicidade ao ver a cidade porque houve contemplação da verdade. Paraty parece perder porque o mundo católico está encolhendo. Mas... Ainda existe como tal. Ninguém pode servir a dois senhores: Cristo e ao dinheiro. Paraty harmoniza com a primeira opção e Las Vegas com a segunda. São Paulo, 20 de julho de 2014 Marcelo Andrade

[1] É verdade que uma outra Paraty modernosa foi construída para além do centro antigo. Neste artigo, porém, trataremos apenas da cidade histórica.

    Para citar este texto:
"Paraty versus Las Vegas"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/cronicas/paraty-versus-las-vegas/
Online, 24/06/2017 às 12:36:21h