Crônicas

O boi e o burro
Paulo Miranda


“O boi conhece o seu dono, e o jumento o presépio do seu senhor,
mas Israel não me conheceu”
(Is. I, 3)

Foi longa a procura na noite fria. Uma porta, um pedido, uma recusa. Outra porta, outra rejeição. E de recusa em recusa, eles muito caminharam noite adentro, batendo em todas as portas, até, finalmente, obterem acolhida, em lugar onde não havia portas. Um lugar que lhes deu guarida e pousada. Hospedeiros que não recusaram dividir com eles sua morada.

Um boi e um burro, num estábulo.

Era a noite de Natal.

Boi e burro foram, assim, testemunhas do maior mistério da história, naquela noite que dividiria para sempre os tempos.

Boi e burro acolheram o Criador nascendo da criatura.

Boi e burro viram Maria Santíssima dar à luz a Luz, no presépio escuro.

Boi e burro tomaram o lugar destinado aos homens, na recepção do Deus feito homem.

Boi e burro, que sempre serão lembrados em nossos presépios. Símbolos do povo eleito e dos pagãos. Mas símbolos, igualmente, da frieza do coração humano, que recusou, em sua chegada ao mundo, acolher o Menino Deus.

Em vão, Daniel previra a época exata; em vão, Miquéias apontara o lugar preciso do nascimento do Messias. Vindo ao mundo em Belém, exatamente quando cumpridas as setenta semanas de anos da profecia, o Esperado das gentes ali não encontrou nenhum dos sacerdotes ou doutores da lei, representantes do povo que elegera e a quem tanto cumulara de graças. Doutores da lei que, pouco depois, no silêncio da estrela, souberam dizer precisamente aos Magos onde e quando o grande evento se daria.

Mas ali não se fizeram presentes.

No pequeno estábulo de Belém, além da Virgem Santíssima e do fiel São José, estava apenas o boi. E o burro.

E foi somente quando um Anjo anunciou a boa-nova aos pastores e a estrela guiou os reis, que judeus e gentios, pastores e reis magos, acorreram à gruta onde um Menino os esperava.

O Evangelho nos mostra que o futuro não seria diferente do que ocorreu em Belém.

Durante toda a sua pregação, o Senhor não fez senão repetir o gesto do bom São José. Bater insistentemente à porta das almas, pedindo acolhida: “Eis que estou às portas e bato; se alguém ouvir minha voz e me abrir a porta, eu entrarei e cearei com ele e ele comigo” (Ap: III, 20).

E sucederam-se as recusas: dos escribas, dos fariseus, do povo judeu, dos gentios e até mesmo, no momento culminante de Sua vida, a atroz negação de seus discípulos e apóstolos.

De recusa em recusa, o Menino Jesus encontrara leito apenas entre as palhas do estábulo de Belém. De negação em negação, Cristo encontrou repouso no lenho da Cruz do Calvário: "Et inclinato capite tradidit spiritum" (Jo: XIX, 30).

Ressuscitado, Jesus atravessou paredes. Mas, para penetrar nas duras muralhas do coração humano, não deixa de bater à nossa porta, esperando que a abramos, para que nasça e viva em nossas almas.

Como se o Rei dos Céus necessitasse do precário abrigo que Lhe podemos oferecer. Como se não fosse nosso o bem de Sua augusta presença.

E hoje, como no Natal do Senhor, há muitos que sabem onde Ele está, mas não vão ao Seu encontro. Há mesmo sacerdotes que indicam caminho oposto ao de Jesus. Há alguns outros que até ensinam o correto caminho para chegar a Ele. Mas que preferem, como os doutores da lei, permanecer comodamente em Jerusalém, cuidando de seus interesses menores. E relegando Jesus ao abandono.

***

Neste tempo de Natal e Advento, a Associação Cultural Montfort formula votos de que todos os seus leitores e amigos saibam escancarar suas portas e acolher Jesus Menino.
Como O acolheram o boi e o burro naquela distante noite fria.
No presépio de Belém.


    Para citar este texto:
"O boi e o burro"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/cronicas/oboieoburro/
Online, 28/04/2017 às 18:58:38h