Crônicas

No princípio não era o berro
Fábio Vanini
“Triste é o homem que não tem um senhor”, diziam os medievais, “pois é como um planeta sem órbita”. O mesmo se aplica aos princípios. Um homem sem princípios é um homem perdido, abandonado às próprias ideias ou à ideologia descartável que passar em sua frente no momento. A vitória do Evolucionismo foi conseguir colocar alguns falsos princípios na sociedade, ainda que os eventos supostamente evolutivos na natureza – a mudança de um ser vivo para outro - não tenham sido verificadas. E ainda que nem sejam verificáveis. Importa, sim, que a sociedade moderna adotou esses princípios por pensamento e passou a valer-se deles para reger seu comportamento, suas decisões e sua maneira de ver o mundo. Em 1866, Ernst Haeckel lançou um desses princípios. Em apoio total e para a difusão mais ampla das teses darwinistas, o naturalista alemão, especialista em anatomia embrionária comparada, propôs uma regra, que mais tarde foi canonizada como Lei fundamental da biogenética. A ontogenia recapitula a filogenia, defendia o positivista e monista Haeckel, o que significa dizer que o desenvolvimento embrionário dos seres vivos é um resumo de sua história evolutiva, pois pode-se observar eventos, ainda que passageiros, desde a fecundação até o ser formado, que mostrariam características próprias de sua alegada ancestralidade. Assim, por exemplo clássico, todo homem possui fendas branquiais durante uma fase fetal - as quais desaparecem logo, mas não sem antes denunciar sua longínqua ancestralidade aquática.

Ilustrações fraudulentas de Ernst Haeckel

            Em 1874, seus trabalhos de embriologia comparada foram condenados como fraude científica por um tribunal universitário e o cientista confessou as adulterações em seus famosos desenhos – que apareciam até pouco tempo atrás nos livros de ciência do mundo todo como autênticos, enquanto a condenação e a confissão da fraude pouco se mencionam. Atualmente, foram discretamente retirados. Certamente, para não comprometer a difusão de outro princípio, já não somente o de que “A ontogenia recapitula a filogenia”, mas o princípio de que o desenvolvimento natural de qualquer ser vivo é equivalente à evolução de todos os seres vivos. Ou seja, assim como um embrião – para alguns, apenas um amontoado de células – chega à idade adulta, seguindo apenas as leis da natureza, do mesmo modo os seres vivos, dos mais simples aos mais complexos, originaram-se a partir da ação das forças – ou mecanismos – evolutivas.   Não é à toa que, atualmente, a palavra “evolução” seja usada correntemente para designar um desenvolvimento de qualquer coisa. Um patinho que começa a nadar, “evoluiu”, e uma pessoa que melhorou a pontaria de seus chutes, também “evoluiu” em seu futebol. Desse princípio falso de evolução, associado à ideologia materialista – princípios nunca andam sozinhos – decorre que Deus passa a ser um Ser absolutamente desnecessário ao mundo, se é que Ele existe. O mundo, a Mãe Terra, o cosmos, bastam-se a si mesmos. Se Deus existe, é apenas um grande autor virtual de autoajuda, que serve de reforço positivo ou de motivação de promoção pessoal, ou ainda de justificativa para atos impensados. Para alguns, Deus é apenas um ente de imaginação, muito útil para uma felicidade pessoal e positiva para o sucesso corporativo. Por outro lado, o pensamento humano, logicamente aquilo que há de mais “derivado” - para usar um termo evolucionista – na escala evolutiva, nada mais seria do que uma sequência de reações químicas infinitamente complexas, mas velocíssimas, que ocorrem no cérebro humano e que dão ao homem um poder sobre a natureza que supera a força bruta. Ou seja, a inteligência humana é uma aptidão física evolutiva que, por sorte, colocou o homem acima do mamute. Por efeito de eventos estocásticos, como um lançar de dados, o homem é o que ficou em cima do cavalo. Não seria, portanto, inverossímil imaginar uma sociedade de homens puxando carroças para cachorros. Nossa superioridade deveu-se, apenas, ao ponteiro de uma roleta. Um dos argumentos que se levantam para difusão destes princípios remete aos bebês humanos, os quais passam de frágeis seres que choram e mamam a letrados oradores. Aplicando Haeckel, o choro dos bebês recapitula o guinchar dos símios, o coaxar dos sapos ou o cricrilar dos gafanhotos. Um discurso de um deputado, portanto, que se defende na tribuna, é, para os materialistas evolucionistas, pouco mais do que um relincho, ainda que para essa comparação muita imaginação não seja necessária. Essa falsa compreensão da natureza leva às aberrações que ouvimos hoje em dia. De que a oração, por exemplo, em qualquer religião que seja, melhora o bem-estar do ser humano, ou de que rir é o melhor remédio. Rir, chorar, se coçar, ler um livro, orar, dar uma aula ou ter uma compreensão profunda sobre a verdade, seriam a mesma coisa e levariam ao mesmo lugar, ou seja, a lugar nenhum a partir de atos sem valor. Um experimento realizado com chimpanzés testou a capacidade de abstração desses interessantes animais. Um chimpanzé colocado em um barco, diante de uma ilha com alimentos atraentes, porém cercados com fogo, tinha apenas um vaso quadrado cheio de água para resolver sua fome. Foi-lhe mostrado como fazer: um instrutor lançava a água do recipiente com uma cumbuca contra o fogo e apagava as tochas, permitindo ao chimpanzé o acesso aos alimentos. Isso condicionava o chimpanzé a resolver o quebra-cabeças. Em seguida, foi-lhe proposto o mesmo problema, porém com um recipiente vazio, sem água. O chimpanzé repete os movimentos, mas sem sucesso, muito embora estivesse em um barco sobre água suficiente para encher seu vaso. Ora, esse resultado mostra, inequivocamente, que o chimpanzé não identifica a capacidade da água enquanto substância, de apagar o fogo, mas apenas incorpora uma sequência de movimentos físicos estimativos, num reflexo condicionado, capazes de matar sua fome. Não houve abstração alguma sobre a ideia de água. (Arellano, 2011). Apesar deste ser somente um experimento, é evidente a justeza de suas conclusões. É indiscutível a capacidade do intelecto humano em se abstrair ideias e, mais ainda, de amá-las com sua vontade. Inteligência para conhecer e vontade para amar. Tais potências humanas não ocorrem em nenhum outro ser, mas permitem ao homem conhecer e amar todos os outros seres. Não nos cabe, neste artigo, provar a imaterialidade da intelecção e capacidade volitiva humana, mas tratam-se de potências da alma que nos põem em uma categoria própria e exclusiva na pirâmide dos seres. Nossa capacidade de conhecer somente nos é realmente útil porque os seres exteriores ao homem são, de si, cognoscíveis. Ou seja, porque a forma dos seres existentes é perfeitamente proporcional à inteligência humana.  Obviamente, um gorila não cabe num homem.  No entanto, a ideia imaterial de um gorila cabe na inteligência humana e, quanto mais seres conhecemos, mais espaço para ideias parece haver em nós. Podemos, inclusive, contar o que conhecemos a outros, por meio de palavras, transmitindo ideias sobre gorilas, sem ter nem mesmo que carregar um deles. Ora, o que é a ideia transmitida por nossas palavras, senão a verbalização da forma dos seres? O que são os seres, senão ideias materializadas, adequadas ao intelecto humano? O que é o cosmos senão as ideias materializadas em uma ordem perfeita? Ao que remete a ordem conhecida e compreendida senão ao ordenador inteligente e intencionado? O Universo teve por princípio a palavra, e não a palavra tem início no berro. Portanto, contrariando Haeckel, contrariando o materialismo ateu evolucionista, é o discurso que recapitula a Criação. No princípio, não há o berro. Há a inteligência. No princípio, era o Verbo. ------------------------- Aurellano, Joaquím Ferrer, 2011. Evolución y creación. EUNSA, Ediciones Universidad de Navarra S. A.  

    Para citar este texto:
"No princípio não era o berro"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/cronicas/no-principio-nao-era-o-berro/
Online, 30/05/2017 às 02:30:13h