Crônicas

A preparação do Natal e a favela de Paraisópolis
Alberto Zucchi
 

Estamos próximos do Natal. É sempre importante nos prepararmos adequadamente mas, nos tempos conturbados em que vivemos, quando a Fé e a Moral da Igreja são tão atacadas, isto não é apenas importante, é indispensável.

Há um grande risco em banalizarmos este evento, transformando-o em um fato meramente humano de congregação e amizade entre os homens, esquecermos da caridade e aderirmos à filantropia. O amor ao presépio com Nosso Senhor, Nossa Senhora e São José deve ser a causa e a finalidade de todas as nossas ações e atenções. O mundo quer que nós acreditemos no contrário - que lembrar e cuidar das misérias humanas deve vir antes de dar atenção para Nosso Senhor, que importa colocar o homem antes de Deus.

A Igreja nos prepara para o Natal em quatro domingos. Creio que poderíamos entender um pouco da preparação que devemos ter para o Natal se detivermos a atenção nos Evangelhos correspondentes a essas Missas. Nenhum deles trata da fome, da pobreza, da doença ou de qualquer outra miséria humana. Em três destes Evangelhos, o 2º, 3º e 4º Domingo comenta-se a ação de São João Batista.

No 2º Domingo do Advento, o Evangelho relata o envio dos discípulos de São João, que estava no cárcere, para conversar com Nosso Senhor.  Perguntam eles:

Tu és aquele que há-de-vir ou deveremos esperar outro? E Jesus respondendo disse-lhes: Ide e contai a João o que estais a ouvir e a ver: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, e a Boa Nova é anunciada aos pobres. E feliz daqueles para quem eu não for ocasião de escândalo”. (Mt 11, 3-5)

Cristo, portanto, pede aos discípulos de São João Batista que examinem a realidade, como sempre a realidade, não o sonho carismático ou a utopia comunista. O que é anunciado aos pobres é a Boa Nova, não o reajuste do bolsa família. E, vendo o que Jesus fazia e a doutrina que anunciava, os discípulos de São João souberam que Jesus era Aquele que era esperado, que Jesus é Deus.  Este primeiro Evangelho nos fala do testemunho que Cristo dá aos discípulos de São João, já que esses estavam em dúvida, não São João.

No Evangelho do 3º Domingo do Advento, quem dará o testemunho é o próprio São João aos sacerdotes e aos levitas.

Os Judeus de Jerusalém enviaram sacerdotes e levitas a João para lhe perguntar: quem és tu? Ele confessou e não negou; - Eu não sou o Cristo...” (Jo 1, 19-20)

E na sequência São João afirmou:

Eu sou uma voz que clama no deserto: aplanai os caminhos do Senhor” 
(Jo 1, 23)

São João proclama Jesus como Deus para os sacerdotes, que sabiam que já era o tempo da vinda do Salvador. Ele os orienta no caminho certo, dando um testemunho de Cristo e dizendo que preparava os caminhos para Ele.

O Evangelho do quarto Domingo também trata da ação de São João Batista, de forma genérica, descrevendo a ação dele para a preparação da vida pública de Nosso Senhor:

Uma voz clama no deserto: preparai os caminhos do Senhor”.

           São João não havia fundado nenhuma “comunidade” para conseguir alimentos, moradia, saúde, educação aos pobres e necessitados. Ele foi ao deserto e lá ensinava. Clamando ele anunciava a vinda de Cristo.

Assim, a Igreja nos prepara para o Natal, ensinando-nos que é necessário preparar os caminhos para Nosso Senhor, proclamando a Cristo. É claro que não faremos isto com a mesma autoridade de São João Batista e muito menos imaginando, de forma sonhadora, que nosso papel possa ter qualquer proporção com a ação dele. Isto seria um orgulho que colocaria tudo a perder além de fazermos o papel de tolos.

A vida de São João Batista deve ser tomada como um grande exemplo para uma adequada preparação para o Natal, em particular na situação atual. Foi ele que, sem receio, disse a Herodes: “Não te é lícito”. Ele não procurou fazer uma ponte entre ele e Herodes. Ele não teve como sua principal preocupação ver como Herodes poderia ser admitido na comunidade. Ele disse: “não te é licito”.

Diante da autoridade, é sempre mais difícil afirmamos a verdade. Creio que aqui também cabe a lembrança do Profeta Natã que advertira um outro Rei sobre um caso de adultério. “Você é este homem” (2 Sa 12,7), disse o profeta, dirigindo-se a Davi como criminoso e adúltero, pois o rei havia mandado matar a Urias, um soldado fiel que, apesar de seus muitos defeitos, por fidelidade havia dormido na porta do palácio, ao invés de ir para casa.

Se o Rei cometeu tal crime contra Urias, o que ele não poderia fazer com Natã? Ainda assim, como São João Batista, Natã não propôs um acordo e simplesmente afirmou que o Rei, o grande Davi, aquele que fora o escolhido de Deus e havia matado Golias, era um adúltero criminoso. Quanto bem não havia feito Davi para Israel? Mas isto não justificava seus crimes.

Dois fatos, duas advertências, duas condenações duas respostas completamente diferentes. Herodes acaba por matar São João e Davi se arrepende diante da acusação de Natã.

A preparação para o Natal é, portanto, proclamar a Cristo e a sua Igreja, sem medo, como São João Batista e como Natã. Isto não significa ir à Praça da Sé e promover uma gritaria. O que devemos fazer é proclamar as verdades que a Igreja sempre ensinou, nas ocasiões em que Deus nos pede.

A Igreja nos ensina no Natal como chegar até Deus, proclamando nos telhados aquilo que Cristo ensinou nos ouvidos aos Apóstolos. É dando testemunho de Cristo. Afirmando a doutrina da Igreja sem temor das consequências.

Proclamar a Cristo para encontrá-lo. Eis uma ótima preparação para o Natal.

Estejamos atentos para o que Deus nos pede. Cristo afirmou sua Divindade pedindo aos discípulos de São João que examinassem a realidade. Nós devemos fazer o mesmo. Não sonhemos com aquilo que Cristo não nos deu. Examinemos a realidade, não o sonho do que imaginamos ser e não somos. Ao contrário do que nos diz a mídia, os nossos sonhos não serão realidade. Nem agora nem nunca.  Sonhos sempre serão apenas sonhos.

Uma semana atrás estivemos na favela de Paraisópolis. Para muitos um lugar de alto risco em São Paulo. Lá tivemos a oportunidade de nos prepararmos para o Natal, auxiliando naquilo que podíamos a celebração da Missa no Rito Tridentino.

Não é por preconceito que se menciona como coisa extraordinária a Missa na Favela de Paraisópolis. Não, de maneira alguma. Também aquele povo aspira pela Missa Antiga, basta que lhes seja explicada para que entendam e muitos passarão a amar a Missa. O que surpreende é que, propriamente na trincheira do inimigo, na trincheira da Teologia da Libertação, é que a Missa chega agora. E próximo do Natal.

Isso não foi tudo. Uma semana antes do Natal, alguns jovens pediram aulas para aprender latim. Deus prepara o coração deles para recebê-Lo. Não à luta de classes. Sim ao latim, a língua da Igreja. A primeira aula de latim já ocorreu e outras virão. Com a graça de Deus, vamos nos preparando para o Natal.

Sejamos gratos a Deus, que nos deu ocasião de fazermos este apostolado e muitos outros, sem termos mérito nenhum para tal. Agradeçamos a proteção que Nossa Senhora sempre nos concedeu, coloquemo-nos novamente sob os cuidados de nosso Santo Protetor, São Luiz Maria Grignon de Montfort, e rezemos pelo nosso estimado Professor que tanto bem nos fez.

Brindemos à aula de latim na favela, que ela seja a primeira de muitas em muitas favelas. E que nós não tenhamos medo de proclamar a Cristo como Deus e a sua Igreja como a única verdadeira, seja em qualquer lugar, seja em qualquer momento, sem temer pelas consequências. 

 

    Para citar este texto:
"A preparação do Natal e a favela de Paraisópolis"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/cronicas/natal_e_paraisopolis/
Online, 16/01/2017 às 08:46:32h