Crônicas

Não dêem pérolas a porcos... Nem à gripe suína: crônica de um protestante imaginário
Ivan Luiz Chudzik Santos

 
A ficção de uma vida bem real num mundo irreal
 
     Acordo cedo ao domingo para ir ao culto. A cidade de Uraí já tem poucos habitantes - em torno de 11 mil - e ficou mais vazia ainda depois que duas pessoas foram flageladas com uma gripe tenebrosa. Ninguém tem coragem de sair de casa. A peste negra deve ter sido bem pior, e mesmo assim as igrejas continuaram abertas com as suas Missas. Mas como os padres de hoje tem prudência até demais com o Sobrenatural, eles confiam com um certo ar racional de desconfiança, pois Deus não merece tanto crédito assim quanto as minhas dúvidas.
     
     Avaliando bem a questão, é mais correto retirar a água benta das igrejas, pois a gripe suína parece ser mais ameaçadora do que os demônios que exorcizo quando entro numa igreja. Estes daí são fulminados do meu imaginário viciado pela cultura cristã quando leio o sempre bem informado do submundo, Padre Quevedo. Demônios não existem, e Urs von Balthasar me ensinou que nem o inferno deve existir. Mas o melhor são os Padres que me ensinaram, desde as aulas de Catecismo, que a própria Igreja não deve existir. Para quem acredita em tão pouca coisa, a água benta que não faz efeito é o de menos. Melhor, então, é retirá-la das igrejas: pelo menos sabemos que ninguém sairá contaminado com uma doença que temos certeza de existir--ao contrário da Fé católica. Por estas e outras, depois de uma certa idade, tornei-me batista. Ali, pelo menos, a Fé é mais viva, sem especulações desesperadoras destes teólogos alemães medonhos. Vivemos a Bíblia Sagrada sem precisar que algum teólogo de nome impronunciável--quase igual aos nomes cabalísticos da Divindade--tenha que me dizer que estas escrituras são fábulas, e que a arqueologia desmente tudo. Mas que surpresa tomo quando chego na igreja. Está fechada. O decreto do Prefeito proibiu Missas--os padres agradecem--e, quem diria, até os cultos. Não posso acreditar que o pastor cedeu e aceitou uma afronta destas.
 
     Estou decepcionado. Foi por causa desta frouxidão que abandonei a Igreja católica há anos, buscando gente sincera na Fé. Acabo de encontrar a mesma Fé humana e humanista estampada na porta da igreja batista de Uraí, onde um papel contendo o decreto municipal explica o porquê do fechamento da igreja.
 
     Resolvi voltar para casa e procurar me informar a respeito, ver qual foi a desculpa do pastor, que havia até nos prometido fazer uma Sessão especial de proteção espiritual contra a gripe. Pediu até que levassem os dois infectados para ele curar. Se tiver morrido, ele ressuscitava. O que houve com a sua Fé? Foi vencida pelo decreto?
 
     A essas horas eu não sabia se este era um problema da Fé incrédula do pastor ou uma submissão do poder espiritual ao poder temporal. Nos dois casos, o Modernismo que a Igreja católica abraçou nestes últimos anos explica o fenômeno. Relativismo e secularismo são filhos do Modernismo. Mas que tivessem chegado na igreja batista, isto me assusta. Mudei de Igreja fugindo do modernismo e materialismo de certos padres, e acabo de os encontrar em pastores.
 
     Em casa, liguei a televisão. Dizia-se que a igreja Batista tinha dado uma solução. É estranho, é exótico, mas é verdade. Agora, os cultos são on line. Risível. Mas não tinha alternativa. Aprendi na minha mal dada aula de Catecismo que deveríamos assistir Missa sempre aos domingos e dias de guarda, e conservei este costume mesmo tendo mudado de Religião.
Como não tenho computador em casa, resolvi ir a uma lan house, tão fáceis de se encontrar, até mesmo aonde elas são imprevisíveis..
 
     Estava lotada quando cheguei. A sorte que havia um computador vago para eu fazer o meu "culto virtual". Surpreendentemente, encontrei ali outros irmãos da igreja Batista, fazendo o seu "culto" também.
 
     De repente, me veio um pensamento. Mal eu havia aberto o site da igreja quando percebo a situação paradoxal na qual estou. A igreja estava fechada para evitar aglomeração de pessoas--e possíveis contágios. Mas a lan house estava cheia, e com as mesmas pessoas que eu iria ver na igreja. E isto a Prefeitura chama de "medida preventiva" contra a gripe. Uma tolice destas só pode ser explicada caso o Prefeito seja um ex-padre ou um leitor incondicional de teólogos alemães de profundo e prolixo linguajar metafísico.
 
     Alguém espirra. Todos olham assustados. A pessoa se justifica, dizendo que é alergia. Alguns vão embora rapidamente, sem mesmo fechar a sessão, pagando sem esperar o troco. Eu fico. Se eu ficar contaminado e morrer, serei o primeiro mártir do "culto on line", que resistiu às repressões do Poder Público contra a Religião.
 
     Dá-me um mal estar, e resolvo concluir o meu culto. Talvez o meu martírio esteja começando. Fecho a sessão e pego o próximo ônibus para o Posto de Saúde, a fim de me consultar e saber qual a causa desta sensação. O veículo coletivo estava lotado. Muitas pessoas voltando pra casa após ter dado com a cara na porta das igrejas, todas Elas fechadas.
 
     Desci do ônibus e caminhei mais um pouco. Na frente do Posto, vários homens de branco--pareciam ser funcionários públicos da Secretaria de Saúde--discutiam. Falavam da incoveniência de um Posto estar aberto. Tanta aglomeração de gente poderia ser um foco bastante eficaz para o contágio. Então era melhor fechar o Posto. Nem bem eu entro e me mandam embora. Ali era perigoso demais para eu ficar, aglomerado com tanta gente. Respondi que me sentia mal, e queria fazer uma consulta. O agente de Saúde olhou para e mim e respondeu que eu tinha razão. Se eu estava mal, então eles estavam certos em fechar o Posto e me mandar embora. Vai que eu contamino alguém.
 
     Tive que voltar andando para casa. Não arrisquei pegar outro ônibus, sob o risco de ser enxotado dele também. Parece que é o próximo passo da Prefeitura: acabar com o transporte público. 
 
     Sem o sistema escolar, a rede de postos de Saúde e o transporte público, a Prefeitura economizará bastante este mês. Isto explica a reforma relâmpago que o Prefeito resolveu fazer em sua casa.
 
     Cheguei em casa, hesitei. Não quis entrar. Lembrei-me de Karl Marx. O Comunismo pretendia dissolver tudo, inclusive a família. Todos são propriedade do Estado. Se eu entrar em casa agora, corro o risco de que um novo decreto me obrigue a sair, pois a aglomeração com pai, mãe e irmãos me será ocasião propícia para ficar contaminado ou poder contaminar. Então, preventivamente, é melhor seguir a cartilha comunista e dissolver as relações familiares também, a fim de salvaguardar a saúde de todos... menos a minha.

    Para citar este texto:
"Não dêem pérolas a porcos... Nem à gripe suína: crônica de um protestante imaginário"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/cronicas/nao-deem-perolas/
Online, 27/02/2017 às 05:58:23h