Crônicas

Muletas eletrônicas
  Muleta pode ser definida como um bordão comprido, na maioria das vezes de madeira, terminado na parte superior por um encosto côncavo, em que o ser humano, com alguma disfunção ou incapacidade, apoia as axilas para se mover. As muletas eletrônicas, por sua vez, são bem mais complexas porque são instrumentos que não foram projetados para serem muletas, mas podem, e de fato, são usados como tal. As muletas modernas consubstanciam-se em vários artefatos  eletrônicos e portáteis providos das mais variadas funções, tais como: telefones (celulares), executores de músicas (mp3 etc.), computadores de pequeno porte (tablets etc.) e similares. Assim como as muletas tradicionais servem a um corpo doente, as muletas eletrônicas atendem a uma alma doente. Porém, no primeiro caso, o uso da muleta é natural e satisfatório, ao passo que no segundo caso é irracional e traz insatisfação. Porém, é cada vez mais comum o uso desenfreado dessas muletas digitais. Na espera de atendimento em bancos, fórum, repartições públicas, lojas comerciais etc., veem-se pessoas verificando compulsivamente chamadas, “checando e-mails” recebidos em seus telefones móveis ou conversando por meio de whatsapp. Há um desconforto visível se assim não procedem: elas não podem simplesmente aguardar. Aproveitar o momento para rezar, meditar ou ler um bom livro, seria inimaginável. Em almoços ou jantares em restaurantes, não raras vezes, as famílias ou amigos estão unidos apenas fisicamente, na medida em que cada membro tem em seu poder algum instrumento eletrônico que o faz concentrar-se nele em detrimento do convívio familiar ou amigável. Ou seja, cada um visa  estar “ligado” ou “plugado” com o “mundo”, porém, quedam-se separados uns dos outros. Também nos aeroportos, aviões, metrôs, laboratórios, repartições públicas, cafés e bares, enfim, em qualquer lugar, é visível o ímpeto indomado das pessoas em acionar seus equipamentos eletrônicos, como se cada segundo fosse vital, como se fosse ar para os pulmões. O pior pesadelo é “acabar a bateria”, “não encontrar tomada”, “não existir rede” (para a internet), pois, nesse caso, as pessoas, despidas de suas “muletas”, não vão conseguir “andar” e haverá uma impressão de perda de hora vivida. E não basta a posse de uma única “muleta eletrônica”, há procura por várias: telefones, computadores, tablets, mp3 etc, muitas vezes, usados ao mesmo tempo. E mais, existe uma busca frenética pelo novo, pela última novidade. Sucedem-se modelos e mais modelos de vários matizes e preços, todos passíveis de aquisição. Nesta triste época decadente, o anseio por novidades é de rigor. O aparelho digital torna-se finalidade em si mesmo, pouco importando sua real utilidade. Em vez de se mirar o fim, volta-se para o meio de execução, confundindo-se os dois. Todas as classes sociais enfrentam o problema. O orçamento é que vai definir o instrumento e não a vontade. Todas as idades são afetadas, em especial, os adolescentes. Há felicidade nisso tudo? Não. Em todos esses exemplos há uma necessidade alimentada artificialmente. (Que fique claro que estamos analisando o abuso destes instrumentos modernos e não o uso, já que hodiernamente é difícil prescindir de boa parte deles). Por que isso ocorre? Porque o homem trocou os bens espirituais pelos materiais. Porque o mundo moderno já é pagão, deixou de ser católico. Em melhores palavras, temos a lição de Pe Afonso Rodrigues, citando S. Gregório, ensinando sobre os bens materiais: “(...) os bens e deleites temporais, quando os alcançamos e possuímos, então conhecemos melhor sua insuficiência e imperfeição; e como vemos que não nos não satisfazem, nem nos dão o contentamento que imaginávamos, estimamos pouco o que alcançamos e ficamos com sede e desejo de outra coisa maior, imaginado achar nela aquele contentamento que desejávamos; mas nos enganamos que o mesmo sucederá depois de alcançada ela e qualquer outra, pois nenhuma coisa deste mundo nos poderá saciar.(...)”[1] O mesmo autor, agora, ensinando sobre os bens espirituais: “(...) Esta é a maravilha, dignidade e grandeza destes bens [os espirituais]; satisfazem e fartam o coração, porém de tal sorte que sempre ficamos com fome e sede deles; e quando mais vamos gostando, comendo e bebendo deles, mais cresce a fome e a sede. Porém, essa fome não dá pena, senão contentamento; e essa sede não aflige nem agonia, mas recreia e causa uma satisfação e um gozo grande no coração. (...)”[2]. Destarte, como se trocou os bens espirituais pelos materiais, a alma restou capenga, daí a necessidade das muletas eletrônicas. Porém, se nem sempre é possível abandonar as muletas de madeira, pois muitas vezes não há cura física, sempre será possível curar a alma, basta buscar os bens espirituais. Neste caso as muletas eletrônicas deixarão de existir. Restarão as de madeira para quem precisar. Melhor ter saúde de alma que de corpo.   São Paulo, 8 de junho de 2014 Marcelo Andrade            


[1] Pe Afonso Rodrigues, Exercício de perfeição e virtudes cristãos, tomo I, Ed. Pinus, Brasília, 2009, pág 31-32.
[2] Ob. citada, pág. 33

    Para citar este texto:
"Muletas eletrônicas"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/cronicas/muletas-eletronicas/
Online, 29/03/2017 às 10:06:48h