Crônicas

O martírio de Santo Agostinho
Victor Peregrino


Tempos atrás, motivado pelo desejo de melhor compreender a doutrina católica, quis travar conhecimento com os escritos de Santo Agostinho. Para tanto - pensei - nada melhor do que buscar uma livraria católica.

Dirigi-me, portanto, a uma das maiores, no centro da cidade, e pus-me a vagar frente às estantes, passeando os olhos pelas milhares de lombadas expostas na prateleiras. Não demorei a perceber que não poderia ter escolhido melhor, caso tencionasse realizar uma pesquisa bibliográfica sobre sociologia, política, marxismo, psicanálise, religiões comparadas, ou mesmo sobre os \'best-sellers\' do momento. Nada encontrei, porém, referente aos outrora chamados "Doutores da Igreja".

Busquei o auxílio de um balconista, jovem magricela, de brinquinho na orelha, que a contragosto resolveu atender-me.

- Qual é mesmo o nome? - perguntou ele, folheando catálogos de editoras.

- Santo Agostinho. Escreveu as "Confissões", "De Civitate Dei" etc...

- Ele é francês?

- Não. Nasceu na Numídia, na África...

- Ah, bom - suspirou ele. Então está na listagem de autores e temas africanos. Deixa ver. Agostinho, Santo. A... Ac... Agatha Christie: "A Morte sobre o Nilo", Ago... Agostinho... Agostinho... Está aqui. Um momento.

Partiu como passarinho apressado para os fundos da loja, subiu uma escada, procurou por alguns momentos, agarrou uns volumes e retornou, no mesmo andarzinho empertigado e duro.

- Pronto! exclamou, colocando os livros sobre o balcão. Li: "Escritos Políticos e Poéticos", "Obra Política" e "Obras Completas de Agostinho Neto". Todos de uma conhecida editora católica.

- Não, protestei. Este é o Agostinho Neto, líder da revolução angolana. Refiro-me a Santo Agostinho, Bispo e doutor da Igreja...

O rapazinho bufou, contrafeito, e saiu pisando duro. Parou diante de outra estante, com os punhos na cintura:

- Como é o nome mesmo?

- Santo Agostinho.

Começou a derrubar livros das prateleiras, jogando-os no chão.

- Santo... Santo...

Agarrou triunfalmente um volume e me entregou. Li: "Santo Dias da Silva, Mártir Operário", da autoria de famoso líder sindical. Devolvi-lhe o livro.

- Ouça. É Santo Agostinho...

- Mas, afinal, Santo é o nome ou o sobrenome? - inquiriu irritado.

- Santo não é nome nem sobrenome. Santo é o mais alto estado acessível ao homem. Santo é...

- Olha, me desculpe - interrompeu ele. Eu só trabalho aqui há um ano e nunca ouvi falar. É melhor o senhor falar com a gerente. Ela é filósofa e deve conhecer.

Estranhei o qualificativo. Veio a gerente, uma gorducha de óculos, trajada à cigana, com uma enorme figa no pescoço. Esclareceu-me que se tratava de uma estudante de filosofia da PUC. Expliquei-lhe a situação e ela pareceu compreender.

-Temos sim, disse com orgulho. É um texto atualizado, em linguagem popular. Espere...

Sumiu por alguns minutos e voltou trazendo a tão procurada obra:

"AS AUTOCRÍTICAS DO COMPANHEIRO AGOSTINHO. O LIVRO. A BIOGRAFIA SEM CENSURA DO CONTROVERTIDO INTELECTUAL. TEXTO REVISTO E CONDENSADO EM LINGUAGEM MODERNA, POR UMA COMISSÃO DE TEÓLOGOS COORDENADA POR L. DORF, ex- OFM".

Olhei-a atônito.

- Como? O senhor queria o texto original? O senhor deve estar brincando. Quem é que vai ler esses caras antigos? Eles escreviam em latim, imagine... Não quer em latim, não? Ha, ha, ha...

Agradeci e saí, pensando que talvez o bispo Macedo, aquele que já quis comprar uma catedral católica, quem sabe um dia se interesse por editar os autores católicos...


    Para citar este texto:
"O martírio de Santo Agostinho"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/cronicas/martirio/
Online, 21/08/2017 às 20:55:15h