Crônicas

Meu pai e o martelo do relojoeiro
Orlando Fedeli

     Meu pai foi um entalhador pobre e simples, sem maior instrução. Era uma pessoa valente. Fora soldado durante dez anos, tendo participado da guerra Ítalo-Turca de 1912, e da Primeira Guerra Mundial (1914- 1918).
     Teve que vir para o Brasil, porque entrara em conflito com os fascistas de Mussolini. 
     Em 1923, Mussolini se apossara do poder. Num comício fascista, meu pai foi até lá...
     Sozinho...
     ...Chiii...
     Foi numa praça, em Genova...
     Os fascistas cultivavam a violência...
     Num raro momento de silêncio, meu pai gritou, a plenos pulmões:

ABASSO IL DUCE!”.
 
     O brado fora atrevido.
     No silêncio, agora surpreso e assustado da praça, a resposta veio incontinente do palanque:

CHI GRIDA? (Quem foi que gritou?) berrou o fascista de plantão.
 
     E a resposta valente — e não muito prudente — veio também incontinenti:

IO! FEDELI, GUGLIELMO!” (Eu. Guilherme Fedeli!)
 
     “Quebrou o pau”, como se dizia na gíria moleque de minha rua, quando eu era pequeno.
     Na verdade, o que quebraram foi a cabeça de meu pai, que, espancado brutalmente, e ameaçado de morte, teve que vir rápido para o Brasil.
     Assim era meu pai. Direto. Franco. Audaciosamente atrevido. Sem medo.
 
...“N'est-ce pas, Soleil, le seul devoir d'un coq est d'être un cri vermeil
(Não é verdade, ó Sol, que o único dever de um galo é ser um grito vermelho?)
                                                           
 
     Meu pai tinha um relógio — daqueles de corrente — que se metiam no bolsinho do colete. Naqueles tempos, até operários pobres usavam colete. Com relógio de corrente, metido no bolsinho do colete. Era quase obrigatório ter colete e relógio de corrente.
     Lembro-me desse relógio, que ele passou a usar, depois que se expulsaram os coletes, no bolsinho da calça. Inventaram um bolsinho na frente da calça como lugar de exílio para relógio de colete. O relógio passou a ser um exilado no bolsinho da calça, mesmo sem ter feito nada contra o ridículo Duce fascista. Lembro-me que via, muitas vezes, o relógio de meu pai, sobre o criado-mudo dele, em seu quarto.
     Como tudo cansa, como tudo se quebra, como tudo passa — Tout lasse, tout casse, tout passe — um dia, o relógio de meu pai se quebrou.
     Isso significava um gasto imprevisto e mal visto, numas contas apertadas — nada calheiras — de um orçamento curtinho de operário de bairro pobre.
     Que fazer?
     Levar o relógio meio gasto, de vidro já embaçado, até o relojoeiro da esquina.
     Não havia outro jeito.
     Mal humorado pelo aperto das contas lá foi o “Babbo” — (paizinho, em italiano) — que era bem brabo, (brabo e bondoso), até o relojoeiro, em sua lojinha varrida, limpinha e sempre vazia, com o rumor ritmado dos tic-tacs dos relógios dependurados nas paredes cor de rosa.
     Lá entrou meu pai, entre a esperança do conserto e a angústia do preço...
     O relojoeiro — um esquecido seu Antônio de um bairro não esquecido —, em silêncio pegou o relógio, abriu a caixa do mecanismo...
     Exame silencioso no tic-tac que servia de fundo “musical” obrigatório de toda loja de relojoeiro. Meu pai olhando... Aguardando a sentença daquele cardiologista relogial.
     O relojoeiro nada dizia.
     Ele também em silêncio, entre a esperança do alívio de seu orçamento de suas contas de dono de loja pouco freqüentada e a angústia de não saber resolver a parada cardíaca do relógio de meu pai.
     Naqueles tempos, relojoeiros eram amadores, sem diploma em tic-tacs.
     Sempre em silêncio, seu Antônio pegou um martelinho e... De repente, deu uma firme martelada no estimado relógio — de corrente e de colete -  de meu pai.
     Meu pai levou um susto!
     “Ai me mi” (Ai! pobre de mim!) deve ter ele exclamado por dentro de si mesmo, lamentando o possível fim trágico do velho relógio, morto por uma martelada.
     O relojoeiro, em silêncio, aliviado, fechou com um "click" a caixa do mecanismo do  relógio, devolvendo o relógio martelado a meu pai. 

está funcionando".
 
     Alívio!...
     E lá sentenciou seu Antônio o preço da martelada: 

Cinqüenta mil réis!”.
 
     Susto!
     Meu pai assustado pelo preço da martelada rápida — mas eficiente, o coração do relógio voltara tictactear — protestou imediatamente:
     
Como? Por uma simples martelada, “cinqüanta mila réi?".

     Ao que, o relojoeiro respondeu com sabedoria simples e definitiva:

Por que o senhor mesmo não deu a martelada?".
 
     Meu pai pagou os doídos “cinqüanta mila réi”.
     Pois compreendera que o importante é saber dar a martelada.
     O relojoeiro tinha toda a razão ao cobrar cinqüenta réis por sua martelada. 
     O relógio contente voltara a fazer tic-tic-tic-tic, apressado, correndo os segundos com seu ponteiro longo, esguio e contente, pela circunferência do vidro amarelado pelo tempo corrido.
     E os ponteiros lentos iam devagarinho atrás do ponteiro fino, longo e rápido dos segundos, marcando lentamente os minutos e as horas. Marcando o tempo. 
     Marcando a vida que se escoa, no tic tac de um relógio.
     Até a eternidade.
     Sem tempo e sem relógios.
     Pequenos e grandes, ponteiros e homens, se apóiam mutuamente, cada um cumprindo o seu trabalho, quer no tic, tic, tic, apressado, do ponteiro dos segundos, quer no silencioso e lento deslocar dos ponteiros dos minutos, das horas. Da vida.
     Tudo passa.
     Todos mutuamente nos apoiamos uns aos outros. Todo trabalho é necessário. É necessário e bom o trabalho duro de cortar a madeira, esculpindo, ou a golpes violentos de maceta, ou a leves e delicados cortes das goivas bem afiadas de meu pai, no banco de entalhar. Como é útil e necessário o trabalho do relojoeiro, ajustando pacientemente as peças, trocando pinos, brilhantes e sorridentes discos denteados. Ou dando surpreendentes e precisas marteladas. É preciso quem saiba entalhar à goivas e quem saiba martelar.
     É bom que existam entalhadores que esculpam rosas delicadas em madeira, assim como relojoeiros, como seu Antônio, que com martelada precisa, forte e sábia, em sua lojinha, ressuscitem relógios que tiveram “parada cardíaca” em seu mecanismo relogial.
     Tem que haver a oficina do escultor, cheia de cavacos de madeira, em um velho bairro de casinhas enfileiradas à beira da calçada, e a lojinha limpinha, mas quase sempre vazia, de seu Antônio, onde os relógios dependurados, nas paredes, marcavam, fiel e pacientemente, as horas, escoando-se no silêncio das tardes de um bairro pobre.
     Cada um é sábio em sua arte, diz Deus no livro do Eclesiástico.
     Cada um sabe dar a martelada certa, em seu ofício.
     A experiência é boa mestra.
     E não se atreva, quem não sabe, a dar a martelada bem exata, no relógio que parou de funcionar. Pois o resultado pode ser um desastre.
                                               

     E, às vezes, é preciso dar a martelada de graça.
     E muitas vezes, mesmo sendo de graça, incompreendidamente.
     É tão difícil compreender a martelada!...
     Tais pensamentos me vieram à mente, depois de ter repreendido asperamente, ontem, por carta, um moço — do qual mantive o incógnito — que se mostrara covarde. A repreensão foi dura. Era, porém, necessária!
     Para chamá-lo aos brios. 
     Foi uma martelada.
     Mas, graças a Deus, deu resultado imediato.
     Bendito seja Deus que abençoa a martelada dada por amor, visando só corrigir. Visando apenas o bem.
     O “relógio” era bom. Precisava apenas de uma martelada precisa. Como diziam os arqueiros medievais “À temps et lieu”. Na hora certa. No lugar exato. Com a força bem medida. Com amor pelo “relógio”, cuja felicidade consiste em marcar bem clara e exatamente as horas e os minutos. Martelada, no fundo, caridosa, pois visava o bem do “relógio”. Para despertar-lhe os brios. Desejando do fundo da alma a sua correção. Porque “o espírito de sabedoria é cheio de bondade, todavia não deixará sem castigo os lábios do maldizente” (Sab., I, 6).
     O moço repreendido escreveu-me imediatamente, agradecendo o “puxão de orelhas” que lhe dera, pedindo-me conselho e prometendo emenda e coragem.
     E já me escreveu de novo, pela segunda vez!
     Ficamos amigos.
     Graças a Deus! A repreensão então foi bem lida, bem compreendida e bem ouvida. Porque Deus abençoa a repreensão, mesmo dada com dureza, mas visando fazer o bem. Deus guia a ”martelada” que visa a salvação de outrem, como abençoa o corte de bisturi doloroso e curador.
     Ganhei duas coisas, ontem, neste mundo, com minha “martelada”: ganhei um novo amigo e ganhei a incompreensão de outros.
     
Ganhei a amizade de um moço arrependido, que, tomado de brios, decidiu se tornar valente, com a ajuda de Deus. E ganhei as incompreensões de alguns que não entendem que, por vezes, é preciso dar marteladas. Mas marteladas de relojoeiro: sabendo onde bater e como bater. Visando e desejando, do fundo da alma, a conversão do martelado.
     Porém que nenhum entalhador se atreva a martelar os relógios que não conhece.
     Cada um na sua arte.
     Não queira imitar o entalhador o golpe do relojoeiro, e não use o relojoeiro a maceta do entalhador. Cada um na sua arte. Cada um com seu estilo.
     
Não renuncio ao meu estilo. Mas não o recomendo a quem não for “relojoeiro”.
     E espero ter ganhado também a aprovação de Deus, por ter procurado levar de volta para o Sagrado Coração de Jesus, um coração chamado à vida sacerdotal.
     Permita Deus que um dia esse moço suba ao altar dizendo:

Introibo al altare Dei. Ad Deum qui laetificat juventutem meam
 
     Até o Deus que fortifica e, por isso mesmo, alegra a juventude.
     No heroísmo.
     Até o martírio se preciso for.
     E que Deus me ajude a “martelar”, sem medo, mas com amor verdadeiro e ardente, as almas que Ele colocar em minha “oficina” da Internet, oficina  tão freqüentada, afim de fazer muitos amigos para Ele.
     
Não para mim.

Non nobis, domine, non nobis...

     Só a Deus, toda honra e toda glória.
     Só a Ele toda glória. Porque só Ele é quem guia o martelo dos relojoeiro, e a goiva fina dos entalhadores.
     Como espero ter ganhado também a aprovação de meu pai que, estando talvez no céu, aprove minha “martelada“, dizendo-me, como, por vezes, dizia ao aprovar algo que fazia:

Bravo, Landin!”.
 
     Grazie, babbo.
 
São Paulo, 26 de Setembro de 2007.

    Para citar este texto:
"Meu pai e o martelo do relojoeiro"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/cronicas/martelo_relojoeiro/
Online, 28/04/2017 às 18:57:20h