Crônicas

Magia e Ciência Moderna se abraçam
André Roncolato
   

Como  vimos em artigo anterior, a ideia de uma Ciência restauradora, que levará o Homem à redenção e à superação de todos os males, é lugar comum em nossa época.  Essa ciência moderna, nascida em grande parte do ocultismo de Newton e dos neoplatônicos de Cambrige – herança maldita dos magos renascentistas – seria, para os adeptos dessa visão da ciência, o caminho para a restauração do homem ao primevo estado adâmico, desiderato dos cabalistas e alquimistas de sempre e de muitos direitistas de hoje. Nascida na mesma época, a igreja protestante seria a nova igreja, espiritual e igualitária, para a nova era, e seu símile, a nova ciência, a Ciência Moderna, seria o novo método científico. A comparação entre a Ciência moderna e a Igreja reformada da Inglaterra foi feita explicitamente  pela defesa dos modernos, publicada pela The history of the Royal Society em 1667[1]. Tais ideias, de caráter místico, colocam-se, de certa maneira, em conflito com uma ideia mítica, e muito difundida, de uma ciência pura, com finalidade meramente utilitarista, que se ocuparia apenas do bem-estar social e da melhor compreensão do mundo. O que há de comum, porém, entre os bruxos de outrora e os ocultistas da ciência moderna -  além, é claro, tentarem negar a Fé e fazer a vontade do pai da mentira -- é que ambos entendem a Ciência como um meio de operar o controle da natureza, em grande parte com intenções religiosas, sendo essas gnósticas e esotéricas. Não é à toa que o renomado biólogo Edward Osborne Wilson, um iluminista contemporâneo cujas ideias são péssimas, afirma que: “Nós somos obrigados, pelas motivações mais profundas do espírito humano, a fazer de nós mesmos mais que poeira animada, e temos de encontrar uma história que nos conte de onde viemos e porque estamos aqui. Seriam as Escrituras Sagradas apenas a primeira tentativa literária para explicar o universo e tornar-nos significativos dentro dele? Talvez a ciência seja uma continuação ou uma base mais nova e melhor testada para atingir o mesmo fim. Se esse for o caso, então, nesse sentido, a ciência é a religião libertada e aplicada em larga escala. [2] Mesmo que para Wilson, por detalhes de doutrina ainda não solucionados pela artificial religião científica, os cientistas ainda não possam servir como sacerdotes. Evidentemente não temos a pretensão de condenar a Ciência enquanto tal, pois, sem dúvida há relações verdadeiras de causa-efeito nas descobertas modernas. Mais: para o católico a Verdadeira Ciência, aquela submetida à Religião e à Teologia, é fundamental para a vida intelectual e para melhor amar e servir a Deus Nosso Senhor. Quem não reza, ou não estuda, ou não põe em prática o bom ensinamento, coloca em risco a Fé e a Caridade. Nossa intenção é outra: é apontar para certos elementos escondidos, sorrateiramente se esgueiram nos modelos propostos pelas teorias modernas e acabam tendo consequências filosóficas imprevisíveis,  e, muitas das vezes, anticatólicas. O “elemento escondido” de que trataremos neste artigo é o das as raízes mágicas da ciência moderna, pondo em relevo certas aproximações da magia e da ciência moderna, principalmente no nascimento dessa última. Uma falsa doutrina nunca vem sozinha. - Normalmente, é um pacote, um combo surpresa, como aqueles que adquirimos ao contratar um serviço de telefonia, ou seja, vem com um monte de anexos que não desejamos e nem sequer conhecemos. - Assim, toda doutrina falsa, tem também todo um sistema de crenças e práticas, ainda que ocultas e dissimuladas. E na gnose científica, essa prática normalmente é uma doutrina enraizada na magia. A magia é uma prática abominável, repugnante e maligna que corrompe a alma e a submete ao demônio, lançando o homem na impiedade, fazendo-o blasfemar contra Deus seu criador. Ela é sempre condenável. Conforme a definição do Pe. Boulenger, em seu famoso Manual de Apologética:    “A magia é a arte de comunicar com os espíritos que se supõem nos corpos, de captar a sua influência e associá-los a si, por meio de um pacto, para obras ocultas”[3]   Diversos autores importantes – e insuspeitos – nessa área de estudo indicam a íntima relação da magia com o nascimento da Ciência Moderna, como Charles Webster, professor de História da Medicina em Oxford, em sua importante obra De Paracelso a Newton: a magia na criação da ciência moderna, opúsculo que é o resultado literário do ciclo de palestra dado por Webster em Cambrige, na pouco convencional Cátedra de Eddington (do astrônomo Arthur Stanley Eddington, um dos grandes responsáveis pela aceitação da Teoria Relatividade), que é dedicada a “relacionar os métodos científico, filosófico e religioso em busca da verdade(...)”.  Curiosíssimo! Webster desenvolve ainda, nessa obra, uma análise profunda da aproximação do Milenarismo protestantóide e da restauração do Éden e do Homem Adâmico, como motor de impulso para o novo método científico moderno e a nova maneira de fazer ciência. Poderíamos mesmo dizer, para a nova maneira de entender o que é a Ciência. Essa mudança do entendimento conceitual de uma palavra ou termo – no caso, da palavra ciência -  sempre foi artifício ardiloso dos filósofos modernos para fazer vencer a mentira. Segundo esse novo conceito de ciência, o homem poderia operar a natureza pela técnica e pela ciência de modo a influenciar de maneira mágica os desígnios divinos, apressando os acontecimentos escatológicos. Em suma, obrigar a Jerusalém Celeste a fazer um pouso forçado na Babel terrena. Essa noção milenarista coaduna-se bastante com a ideia cabalístico-judaica, segundo a qual a operação mágica influi na divindade. O conceito mágico por trás disso pode-se entender dentro da lógica gnóstica, onde o bruxo, ao associar sua arte espiritual a certa entidade astrológica ou demoníaca, obteria dela sua ação. Assim ao associar-se a esses demônios e seres astrais,  o homem poderia, em última instância, ser o agente que completaria o que falta à determinada etapa escatológica da história humana, apressando-a por meio do domínio científico - visto que para esses magi do nascimento da ciência moderna, a própria ciência era uma arte mágica.   “A ciência” não era meramente um modelo explicativo elaborado pelo observador com base em suas observações; também era, na opinião de Paracelso[4], um domínio do sistema que se investigava. ”[5]   “A humanidade teria a oportunidade única de explorar essas forças [as do lado operativo da ciência], por estar situada na ‘fronteira’ ou no ‘centro’ entre os céus e o resto da criação; o homem era o ‘meio’, e a ciência operativa podia considerar-se como uma forma de magia. ”[6]   Ainda mais, segundo a análise de Henry:   “Ao fazer isso esses reformadores estavam seguindo Francis Bacon (1561-1626), que estivera convencido que chegara o momento em que o domínio do homem sobre a criação, perdido com a Queda, poderia ser restaurado através do labor cuidadosamente organizado e bem dirigido. ”[7]   Muito dessa doutrina, arraigada na ciência moderna, vem destes bruxos renascentistas, como o feiticeiro Pico Della Mirandola, que declarou:   “ A magia é suma sabedoria natural e a arte prática da ciência natural, baseada na compreensão exata e absoluta de todas as coisas naturais. ”[8]   Esse conhecimento e essa prática - é preciso esclarecer - pretendem-se um conhecimento do oculto, a fim de perpetrar domínio mágico do espírito da matéria ou na matéria. O ocultismo é reprovável e por isso foi reiteradamente condenado, com clareza e precisão, em diversos Santos Concílios desde tempos imemoriais, como, por exemplo, no Sínodo de Braga contra os priscilianos e no Concílio  de Trento, na Constituição Dominici gregis custodiae. Essa identificação da ciência moderna como a magia operativa fez nascer diversas “irmandades” e academias, uma oposição ao ensinamento universal e aberto das Universidades, invenção de nossa Santa Igreja Católica. Ornstein explica que possivelmente a primeira academia científica a aparecer foi a Accademia dei Segreti, — cujo nome nada democrático deveria causar calafrios nos professores de cursinho – em Nápoles por volta de 1560. Essa academia de ciências foi fundada na casa do ‘ilustre’ feiticeiro renascentista Giambattista della Porta. Deste modelo, formaram-se outras academias dedicadas às ciências como a Royal Society (1660) e a Académie des Sciences (1666). Não se pode esquecer que havia uma vinculação entre os fundadores das sociedades secretas, como por exemplo a Rosacruz, com os fundadores das sociedades científicas. A magia hermética, escrava dos demônios, fez nascer nas sombras do ocultismo as academias de ciência, enquanto a Igreja fez brilhar a Luz da verdadeira Ciência para todos nas Universidades. Que contraste! Enquanto o ensinamento das trevas é só para alguns, a verdade de Cristo é para todos os que a quiserem. Que vergonha para os professores moderninhos que tanto criticam a Igreja ao falar de Ciência! Os bruxos bem sabiam que a vantagem de se criarem estas sociedades científicas, que de fato eram lugares de prática de artes satânicas, era a de poder  influenciar, o mais amplamente possível, a sociedade. De modo muito parecido, aliás, temos hoje fundações como a Fundação Rockefeller, Fundação MacArthur e outros grandes conglomerados econômicos, importantes financiadores da ciência e de programas de pesquisa atuais. Como afirma Webster, “A história inteira da magia natural está intimamente ligada com uma profusão de esquemas acadêmicos e sociedades especializadas assim como com os mais amplos propósitos sociais e utópicos. ”[9]   Fizemos questão de destacar totalmente essa afirmação. Veja-se que não é um padre da inquisição quem faz uma afirmação de tal gravidade! É um historiador da Ciência, bem moderno, nada suspeito e de Oxford! Anteriormente ele asseverava em relação à essa mesma mentalidade:   “...seus praticantes [da magia natural] deveriam reconhecer as vantagens dos esforços coordenados no campo científico e também aplicar suas capacidades para delinear as mais amplas esferas sociais e políticas.[10] Dessa maneira, além de poder difundir suas ideias com mais eficiência, aqueles que se integravam a essas sociedades ditas científicas, deveriam se enquadrar em seus esquemas acadêmicos e às opções práticas por elas definidas. Claro que isso só acontecia naquela época... hoje nossas academias são democráticas e tolerantes, nossos professores são imparciais e todas as ideias, desde que sirvam a finalidades do conhecimento, são acolhidas com o devido esmero. Para verificar isso, basta, por exemplo, opor-se ao evolucionismo em algum grupo de pesquisa de alguma importante universidade. É bem possível que o imprudente que ousar fazê-lo seja convidado a se retirar o quanto antes e seja elegantemente escorraçado, em nome da tolerância e da ciência. Também se pode observar como diversos pecados – a notar aqueles contra o sexto e nono mandamentos – hoje são, em nome da Ciência, tidos como características inerentes à natureza humana e não como problemas morais. E se a “Ciência” falou, está falado. Quem ousar contestá-la merece um par de algemas. Nesse ponto é curioso observar uma similitude curiosa: a magia demoníaca e operativa também emprega em seus rituais atos contrários à castidade e, particularmente, contrários à natureza. Mas não nos enganemos, Deus tudo vê. E a cada um dará o que lhe for devido. Nenhum pecado, mesmo aqueles cometidos em nome da Ciência ficarão sem Seu justo Julgamento. Pela tua obstinação [...] vais acumulando ira contra ti, para o dia da cólera e [...] do justo juízo de Deus (Rom. 2:5-8), diz o Apóstolo.               Hoje se fala muito em uma sociedade altamente secularizada, devido ao crescente domínio científico e tecnológico. Uma grande parte dos estudiosos da modernidade e da religião repetem isso. Muitos padres também, a fim de se desvincularem de suas responsabilidades de apostolado para ter mais tempo para a TV e entretenimentos fúteis, como também para justificar os cada vez mais escassos fiéis nas missas e nas paróquias. Análises mais profundas, porém, mostram que eles estão errados. Na verdade, ao que parece, o que há é uma satanização da modernidade com altas doses de magia e gnose, como indicava, de outra maneira, Francis Yates[11].  Poderíamos até dizer que há um abandono da crença na Verdadeira Religião para um misticismo ocultista e gnóstico e algum crescimento, não muito expressivo, de crenças irracionais - porque é isso que são - como o ateísmo e o ceticismo. Esse “retrocesso ao misticismo” já era verificado por organizações secularistas, como o Center of Inquiry, em 2006, numa pesquisa na qual incluía as seitas fundamentalistas. É uma época de paganização acelerada, e, sem dúvida, “...muitos cientistas sociais tiveram que reconsiderar a fórmula que estabelecia a ciência como a causa primária de uma secularização irreversível. ”[12] E, ainda, como é muito claramente afirmado por Berger: “o mundo hoje é massivamente religioso; é tudo menos o mundo secularizado que foi previsto (alegre ou desapontadamente) por tantos analistas da modernidade”[13] Numa entrevista em 1999, o então Cardeal Ratzinger, futuro Papa Bento XVI, ao ser solicitado a ponderar sobre o número realmente alto de feiticeiros e serviços de astrologia na atual Itália foi incisivo: “É sinal de que estamos sob ameaça de paganização profunda. Este paganismo é uma perversão do fim religioso do homem. Nesta religião artificial, que como eu disse, o homem tenta tirar vantagem das forças sobrenaturais. ”[14] Dessa maneira, é perigoso não se considerarem as reais intenções ocultas do método e dos esquemas da ciência moderna e as intenções de quem a faz e de quem determina o que é científico. Portanto, demos estar prevenidos e prontos a defender a Fé, a filtrar o bom do mau, também para se fazer uma ciência realmente verdadeira e católica. As palavras, mesmo que acidentais, de dois proeminentes sociólogos contemporâneos a respeito da ciência moderna confirmam nossa argumentação: “Então, o que é a ciência? Ela é um golem. (...) Um golem, mesmo poderoso, é fruto de nossa arte e engenho”.[15]   Não é preciso dizer mais. Salve Maria! André Roncolato   Bibliografia BOULENGER, A. Manual de apologética. 2ª.ed. Porto, 1950. 568p. Card. RATZINGER, J. Entrevista a Ignazio Artizzu. Una voce etc. n°9, 1999. s.n.t. COLLINS, H., PINCH, T. O golem: o que você deveria saber sobre ciência. Belo Horizonte. Ed. Fabrefactum, 2010. 257p. HARRISON, P. (org.) Ciência e Religião, Ideias e Letras, 2014, São Paulo, 395p. Webster, C., De Paracelso a Newton: la magia en la creación de la ciencia moderna. Fondo de cultura económica, 1988, Mexico, 193p.


[1] Cf. WEBSTER, C. De Paracelso a Newton: la magia en la creación de la ciencia moderna, p.18
[2] WILSON, E.O. Consilience, 1999, p.6 apud STENMARK, M. Meios de relacionar a ciência e a religião. in HARRISON, P. (org.) Ciência e Religião, Ideias e Letras, 2014, p.352.
[3] Pe. BOULENGER, A. Manual de apologética. 2ª.ed. Porto, 1950. p. 152.
[4] Paracelso ou Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim era um alquimista suíço, astrólogo que se opôs ao sistema médico de Galeno. Ele é um ocultista tão famoso como lamentável, que instaurou uma ciência natural coincidente com a magia operativa.
[5]   WEBSTER, C. De Paracelso a Newton: la magia en la creación de la ciencia moderna, p.105
[6]   Ibdem. P. 106.
[7] BACON, F. Novum Organum. Londres, 1620, livro 2, aforismo 52. apud HENRY, J. A religião e a revolução científica. in HARRISON, P. (org.) Ciência e Religião, Ideias e Letras, 2014, p.60.
[8] FICCINO, M. Opera. 2 vol. (Basiléia, 1576) 1, 573, in comunicação de Tritemio a Joaquim de Brandenbrugo. apud  WEBSTER, C. De Paracelso a Newton: la magia en la creación de la ciencia moderna, p.109.  
[9]   WEBSTER, C. De Paracelso a Newton: la magia en la creación de la ciencia moderna, p.111
[10]   Ibidem.
[11] Cfr. YATES, F. Giordano Bruno e a Tradição Hermética. São Paulo: Cultrix, p. 180, apud FEDELI, O. No país das maravilhas: a Gnose burlesca da TFP e dos Arautos do Evangelho: “Para Francis Yates a Modernidade significa Magia mais Gnose”, in: http://www.montfort.org.br/no-pais-das-maravilhas-a-gnose-burlesca-da-tfp-e-dos-arautos-do-evangelho-parte-58-2/ (acessado em 26/04/2016 16:04)
[12] BROOKE, J.H. Ciência e secularização. in HARRISON, P. (org.) Ciência e Religião, Ideias e Letras, 2014, p.140.
[13] BERGER, P.L. The desecularization of the world: a global overview. In: BERGER, P.L. The desecularization of the world: resurgent religion and the world politics. Rapids, MI. Ed. Eerdmans, 1999, pp.1-18. apud BROOKE, J.H. Ciência e secularização. in HARRISON, P. (org.) Ciência e Religião, Ideias e Letras, 2014, p.140.
[14] Card. RATZINGER, J. entrevista ao Padre Ignazio Artizzu . Una voce etc. n°9, 1999. s.n.t.
[15] COLLINS, H., PINCH, T. O golem: o que você deveria saber sobre ciência. Belo Horizonte. Ed. Fabrefactum, 2010. pp. 1-2.

    Para citar este texto:
"Magia e Ciência Moderna se abraçam"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/cronicas/magia-e-ciencia-moderna-se-abracam/
Online, 23/08/2017 às 07:01:51h