Crônicas

Livros à mão cheia
Victor Peregrino

“Oh! Bendito quem semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!”
 
 
 
            Numa tira humorística dos anos setenta, Mafalda, a garotinha questionadora e sutil, criada pelo cartunista argentino Quino, encontra certa vez o coleguinha Manolito, que encarna ao revés o materialista chapado e bronco. Este lhe pergunta: “Que vais dar a tua mãe no Dia das Mães?” – “Um livro”, responde a menina. “Ora”, torna o outro rindo, “deixa de lorotas. Pensas que eu não sei que ela já tem um?”
 
            No Brasil, ao que parece, ninguém entendeu a piada. O Presidente Lula, num de seus arroubos de palanque, percebendo, quem sabe, a insuficiência dos programas de esmola oficial do governo, resolveu ressuscitar uma idéia natimorta do ex-Ministro da Educação Christovam Buarque (aquele que foi demitido por telefone, provavelmente por causa dessa mesma idéia) para incluir na cesta básica mais um artigo essencial: ”o livro”.
 
            Como, ao que parece, é um destino brasileiro repetir os erros do passado, mesmo aqueles que não chegaram a ser cometidos, a nova (?) iniciativa foi entusiasticamente aplaudida pelo ex-Presidente da República e atual Senador pelo Amapá, José Sarney, misto de político e literato, talvez consternado por não lhe ter ocorrido, durante os longos anos em que se dividiu entre a mais alta cadeira do Estado e aquela que ocupa na Academia Brasileira de Letras, tão luminosa idéia, capaz, por si só, de remir o Brasil de seu secular atraso.
 
            No entender daquele prócer da República e luminar das letras pátrias, não basta alimentar o corpo com feijão e farinha, sendo necessário também nutrir o espírito com as belas letras, nisto ecoando o sentir de seu confrade Castro Alves, cujos versos ornam a epígrafe deste texto.
 
            Longe de mim pretender questionar tão clarividente iniciativa. Se Getúlio Vargas, por exemplo, tivesse tido a mesma idéia nos anos quarenta, quem sabe de quantos políticos semi-analfabetos o Brasil estaria livre hoje em dia. Permito-me, contudo, vislumbrar alguns problemas.
 
            Relatou-me uma conhecida, dedicada a obras filantrópicas, que muitas mulheres da periferia atiravam ao lixo as latas de ervilhas e pacotes de farinha de trigo, que recebiam gratuitamente em suas cestas básicas. Simplesmente não sabiam o que fazer com aqueles produtos, estranhos aos seus hábitos alimentares.
 
            Pergunto-me o que farão, com os livros governamentais, os beneficiários do programa “Fome Zero” em Guaribas, município piauiense dos mais miseráveis do país, com índices de analfabetismo da ordem de 80 %, e por isso mesmo escolhido como vitrine do carro-chefe propagandístico da administração petista.
 
            Outra questão importante é saber que livro daria Manolito à sua mãe, caso descobrisse que existe mais de um.
 
            Sendo um materialista chapado, que equipara as necessidades do espírito às do tubo digestivo, certamente Manolito procuraria, no mercado editorial, aqueles produtos que deixassem maior margem de lucro, ou seja, os de menor qualidade e menor preço. Quem sabe até sugerisse módica comissão, na qualidade de intermediário (1% já foi uma alíquota mencionada numa das salas mais prestigiosas do Planalto; mas tamanha modéstia é quase uma anomalia). O mesmo proceder teria, sem dúvida, se encarregado de adquirir os gêneros alimentícios da cesta básica. Felizmente, Manolito é apenas uma personagem de ficção.
 
            Mas é claro que no Brasil, país governado por um partido ético qual o PT, que prima pela transparência dos procedimentos relativos às contas públicas, tal não sucederá. Ninguém dispensará concorrências públicas a pretexto de urgência; ninguém comprará encalhes editoriais a preços superfaturados; ninguém encomendará a “companheiros” selecionados a produção em massa de “literatura de cesta básica”.
 
            Acima de tudo, é claro, ninguém aproveitará o ensejo para entupir mentes desguarnecidas com propaganda ideológico-partidária travestida de cultura. Ninguém verá o governo entulhar o país com milhões de exemplares das obras de sub-literatos como Fernando Moraes e José Saramago, subsidiadas com dinheiro dos contribuintes, a pretexto de que são “atuais e engajados”.  Ao contrário, o ensejo será aproveitado para reeditar clássicos do idioma e do espírito, como Vieira e Bernardes, mesmo que tachados de “ultrapassados e reacionários” pela mídia esquerdista, pois é assim que se “manda o povo pensar”.
 
            E já que tudo neste texto gira em torno de ficção, encerremos, para consolar, como começamos, com um verso grandiloqüente, este de Olavo Bilac: “Criança! Não verás nenhum país como este!

    Para citar este texto:
"Livros à mão cheia"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/cronicas/livros_mao_cheia/
Online, 24/03/2017 às 12:56:09h