Crônicas

Cardeal Walter Kasper, a “revisão” do decreto Unitatis Redintegratio e a FSSPX
Marcelo Fedeli

Não!.. meus caros!... não se trata de mais uma notícia, mas sim de um sonho, de um curioso sonho que, nesta madrugada, me levou diretamente ao Vaticano, ao silencioso “bureau” do Presidente do Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos, cardeal Walter Kasper que, pensativo, digitava um texto.

Tão compenetrado estava ele na sua tarefa que não notou minha repentina e inesperada chegada: continuou a digitar, ora olhando o teclado, ora o vídeo, sem esconder um preocupante franzir de testa.

Na realidade, eu parecia estar mais surpreso do que ele, pois nunca imaginara um dia — muito menos uma noite, madrugada — estar na sala de trabalho daquele príncipe da Santa Igreja, que um dia escrevera um livro intitulado “JÉSUS LE CHRIST” .

E, enquanto ele continuava mergulhado na redação séria, algumas passagens daquele seu famoso livro me vieram à lembrança. 

Passagens ousadas, para não dizer outra coisa, seguindo as mesmas e velhas pegadas heréticas do Cardeal Loisy, condenado por S. Pio X no longínquo 1908. Assim lembrei-me que, com a típica ousadia dos progressistas pós-conciliares, para quem a verdadeira Igreja começou no Concílio Vaticano II, e pisando no Decreto Lamentabili, o Eminente cardeal Kasper, após afirmar que “os evangelhos não são testemunhos históricos no sentido moderno dessa palavra, nega a veracidade histórica de alguns milagres de Nosso Senhor Jesus Cristo, atribuindo-osà tendência ao desenvolvimento, à multiplicação e ao reforço que se constata existir nos Evangelhos” , exemplificando-os: o milagre da tempestade acalmada, a cena da transfiguração, o andar sobre as águas, a distribuição dos 4.000 ou 5.000 pães e pesca milagrosa de Pedro... a ressurreição da filha de Jairo, a do jovem de Naim e a de Lázaro....”.

Felizmente, depois de uma meia hora, concluindo aquela séria redação que lhe absorvera todos os sentidos, ao me ver, exclamou:

“Ué!... o senhor por aqui?... Que surpresa!”.. Aceita um chá?”...

E enquanto sorvíamos aquela doce água quente, ele, passando-me algumas folhas do texto que acabara de redigir, me explicou:

“O sr. não faz a menor idéia do que acabo de revisar!... Não só o senhor!.. Diria o mundo!...Sim!... o mundo cristão ficaria surpreso se lhe fosse comunicado a revisão que, como ‘teste’, acabo de fazer no Decreto UNITATIS REDINTEGRATIO, do Concílio Vaticano II... Embora, diga-se de passagem, já era hora de revisá-lo!...Imagine!... nestes tempos em que a Igreja precisa estar em “constante reforma”, como estabelece o item 6 daquele mesmo Decreto, ele continuava lá, fixo, imutável, petrificado por mais de 40 anos!.. Imagine!... “uma reforma perene e perpétua” que não é feita há 40 anos!”... Contradições!... meu filho!.. Contradições !”.

E, antes de me dizer qual era a surpresa, passou a explicar que a possibilidade de revisar aquele importantíssimo Decreto lhe surgira na reunião do Consistório do dia 23 de março, quando discutiam o eventual retorno dos seguidores de Mons. Lefebvre”
à plena união com Roma.

“O senhor deve ter lido o que declarei diante do Papa, logo divulgado pela imprensa. Aliás, Mons.
Ricard, o novo cardeal de Bordeaux, repetiu minhas palavras, dando-me todo apoio, sem contar com a opinião de Mons. Marini, declarada dias antes, como um ‘sinal’ para todos os progressistas.     O sr. conhece Mons. Marini, não é?”...

E parando de ordenar as páginas já revisadas daquele Decreto, correu os olhos por toda a sala, em silêncio, como para se certificar de que ninguém ouviria o que, em voz baixa, me sussurrou:

—“Reservadamente, lhe adianto: nós, da corrente progressista, havíamos combinado apresentar a mesma condição para tentar obstruir o retorno dos seguidores de Lefebvre à Igreja: “a FSSPX deve aceitar o Concílio Vaticano II”!.. Afinal, é preciso preservar o grande Concílio!...Era preciso impor aquela condição!...Claro, jornalistas mais moços, desconhecedores da nossa pertinaz intransigência a tudo que até minimamente reflete a era pré-conciliar, se surpreenderam diante da nossa intransigência... nós, os ‘transigentes”!...O senhor deve ter lido o que declaramos, eu e o cardeal Ricard...”

— “Pois é!... Li, mas não entendi!... Justamente V. Eminência, sempre tão amável na acolhida aos ‘nossos irmãos separados’, aos quais nunca foi exigida ou imposta condição alguma para partilhar o que nos une... V. Eminência que quer unir a tudo e a todos, sem mesmo exigir a conversão dos ‘nossos irmãos separados’ à Santa Igreja... Agora V. Eminência se mostra intransigente, autoritário, novo Torquemada do Século XXI contra a FSSPX que, dentre todos os ‘nossos irmãos separados’, me parece se encontrar mais próxima da Igreja, só porque ela não aceita o Concílio Vaticano II?...Parece-me contraditório, pois se é próprio do ‘texto’ e do ‘espírito’ do Concílio Vaticano II permitir a liberdade religiosa livre de qualquer coação, por que V. Eminência e o Cardeal Ricard e Mons. Marini, e outros, querem impor tal condição à FSSPX?... A Declaração Dignitatis Humanae inteirinha defende a liberdade religiosa. Por exemplo, o item 2 afirma:

“Este Concílio Vaticano declara que a pessoa humana tem direito à liberdade religiosa. Esta liberdade consiste no seguinte: todos os homens devem estar livres de coação, quer por parte dos indivíduos, quer dos grupos sociais ou qualquer autoridade humana; e de tal modo que, em matéria religiosa, ninguém seja forçado a agir contra a própria consciência, nem impedido de proceder segundo a mesma, em privado e em público, só ou associado com outros, dentro dos devidos limites”.

E prossegui:

— “Acaso, para V. Eminência, esse texto só não é aplicável aos seguidores de Mons. Lefebvre?...   Não parece contraditório a V.Eminência, em nome de um Concílio liberal, ‘transigente’, impor uma condição autoritária, absolutista, ‘intransigente’?...

—“Pois é!...Aíéque está!... E eu alertei Mons Ricard, Mons. Marini, todos! ... Mas... acabamos ‘escorregando’! ... E ainda bem que ninguém nos perguntou em que “DOGMAS” do Concílio Vaticano II os seguidores de Lefebvre deveriam prestar solene e pública aceitação àquele Concílio! ...Como o sr. sabe, o Vaticano II não proferiu nenhum DOGMA... Não há DOGMAS!...Sempre fomos contrários aos Dogmas!.... As publicações do Concílio se resumem em longas explicações e divagações sobre diversos temas e de tal forma intencionalmente nebulosas que permitem até hermenêuticas contrárias, como disse o Santo Padre”.

—“E em que ‘hermenêutica’ a FSSPX deve publicamente manifestar sua aceitação?... A da “LETRA” ou a do “ESPÍRITO” do Vaticano II?” ... perguntei-lhe.

— “Pois é!.. Essa seria ainda outra dificuldade!...Complicado!.. Complicado mesmo!”,
respondeu, oferecendo-me mais uma xícara de chá e concluindo: “além disso, eles foram excomungados por outro motivo”.

—“ Como assim?.. O que V. Eminência quer dizer?”

— “ Trata-se de mais uma impropriedade da nossa exigência, pois estamos impondo uma condição que não foi a CAUSA fundamental da excomunhão. Isto é, Mons. Lefebvre foi excomungado, juntamente com seus novos 4 bispos, por sagrá-los sem a licença Papal, embora continuando a reconhecer no Papa o Supremo Pontífice da Igreja, e não por não aceitarem o Concílio Vaticano II. Agora, como poderemos apresentar tal condição como exigência fundamental para a reintegração da FSSPX na Igreja se ela não foi a CAUSA da excomunhão?... O senhor entende, não é?... Além disso, o cardeal Hoyos declarou que a FSSPX nunca foi cismática...”.
Diante do meu silêncio, concluiu:

— “E agora, tudo indica que estão preparando um ‘contra-ataque’ ao que acabamos de lhes impor!”...

“Contra-ataque?”... repeti.

Após sorver outro gole de chá
, pensativo, prosseguiu:

“Sendo bem claro, com o senhor, a questão é a seguinte: os peritos do grande Vaticano II jamais imaginaram que um dia uma comunidade católica, como a FSSPX, pudesse ser excomungada exatamente na esplêndida primavera de liberalidade pós-conciliar, e ainda muito menos, por não aceitá-lo. Assim, a expressão “nossos irmãos separados” foi introduzida por aqueles peritos nos documentos do Concílio para mostrar o grau de proximidade que há entre os Protestantes, oriundos da Reforma de Lutero, e outrora sempre condenados, com a nova Igreja pós-conciliar, para facilitar UT UNUM SINT, sem implicar necessariamente em conversão à Igreja católica. E assim, vimos usando tal expressão durante os 40 anos deste período pós-conciliar. Os Protestantes ficaram muito satisfeitos e agradecidos por esse fraterno tratamento Ecumênico, substituindo as antigas e ultrapassadas advertências e condenações doutrinárias. O senhor não imagina como são agradáveis e festivos os nossos encontros e diálogos com aqueles “irmãos separados”... Vejo-me tão unido a eles que às vezes me pergunto: mas estamos realmente separados dos nossos irmãos luteranos?... Ou já somos ‘um’...”!.

Fez uma pausa nervosa!...

Outro gole de chá, e continuou:

— “E agora, ao saber da nossa imposição, Mons. Fellay veio com a contra-carga: ele nos pergunta se concordamos em incluir os seguidores de Mons. Lefebvre na expressão “nossos irmãos separados”!... Veja que ousadia! ... E, diz ele, que só voltará a se manifestar ao Papa depois da nossa resposta. Adiantou-nos ainda que não bastaria uma simples concordância verbal nossa, mas quer que a
FSSPX seja oficial e formalmente incluída na categoria dos “irmãos unidos e membros da Igreja”, ou seja, que a sigla “FSSPX passe a constar em todosos documentos do Concílio Vaticano II, sempre e imediatamente antes da expressão “irmãos separados” e como irmãos de verdade, e membros da Igreja verdadeira!... Por isso estou aqui a redigir esta revisão da UNITATIS REDINTEGRATIO e apresentá-la ao cardeal Ricard, como ‘teste’, para ver concretamente como ficaria aquele documento assim revisado, previamente direcionado pelos peritos do Vaticano II, única e exclusivamente aos nossos irmãos seguidores de Lutero”. 
Eentão o Cardealme passou algumas folhas daquele Decreto, já devidamente revisadas, em que ele, o Presidente do Conselho Pontifício para a União dos Cristãos, Cardeal Walter Kasper, acrescentava o termo “FSSPX” não ao grupo dos “irmãos separados”,mas como irmãos autentica e verdadeiramente unidos.

Eis como ficariam alguns itens, conforme
revisados pelo eminentíssimo senhor Cardeal :

 - PROEMIO – item 1 – 2º parágrafo:

 “[...] Também  entre os nossos irmãos da FSSPX, que até há pouco tempo erroneamente julgávamos separados, surgiu, por moção da graça do Espirito Santo, um movimento cada vez mais intenso em ordem à restauração da unidade de todos os cristãos”.

 - Capítulo I

 - Item 2 – 2º parágrafo:

 [... ] O Espírito Santo habita nos crentes da FSSPX , enche e rege toda a Igreja, realiza aquela maravilhosa comunhão dos fiéis ...”
 - Item 3 – 1º parágrafo:
 
“[...] Comunidades não pequenas, como da FSSPX, que equivocadamente julgávamos que se haviam separado da plena comunhão da Igreja católica, algumas vezes não sem culpa dos homens de um e do outro lado, mas especialmente nossa. Aqueles, porém, que agora nascem em tais comunidades da FSSPX e são instruídos na fé de Cristo, não podem ser acusados do pecado da separação, e a Igreja católica os abraça com fraterna reverência e amor”.
 
- Item 3 – 3º parágrafo:
 
“Também não poucas ações sagradas da religião cristã são celebradas entre os nossos irmãos da FSSPX, que injustamente pensávamos se tivessem separado da Igreja. Por vários modos, conforme a condição de cada Igreja ou Comunidade, estas ações podem realmente produzir a vida da graça. Devem mesmo ser tidas como aptas para abrir a porta à comunhão da salvação”.
- Item 4 – 5º parágrafo:

 “ [...] É, sem dúvida, necessário que os fiéis católicos na empresa ecumênica se preocupem com os irmãos jamaisseparados da FSSPX, rezando por eles, comunicando com eles sobre assuntos da Igreja, dando os primeiros passos em direção a eles”.

 - Item 4 – 9º parágrafo:

 [...] Nem se passe por alto o fato de que tudo o que a graça do Espírito Santo realiza nos irmãos inseparados da FSSPX pode também contribuir para a nossa edificação”.

 - Capítulo II

 – Item 7 – 2º parágrafo

 [...]Também das culpas contra a unidade, vale o testemunho de S. João: «Se dissermos que não temos pecado, fazemo-lo mentiroso e a sua palavra não está em nós» (1 Jo. 1,10). Por isso, pedimos humildemente perdão a Deus e aos irmãos não-separados da FSSPX, assim como também nós perdoamos àqueles que nos ofenderam”.

- Item 8 – 3º parágrafo:

“[...] Em algumas circunstâncias peculiares, como por ocasião das orações prescritas «pro unitate» em reuniões ecumênicas, é lícito e até desejável que os católicos se associem aos irmãos jamais separados da FSSPX na oração. Tais preces comuns são certamente um meio muito eficaz para impetrar a unidade. São uma genuína manifestação dos vínculos pelos quais ainda estão unidos os católicos com os irmãos jamais separados da FSSPX: «Onde dois ou três estão congregados em meu nome, ali estou eu no meio deles» (Mt. 18,20)”.

 - Item 9 – 1º parágrafo:

“ [...] Católicos devidamente preparados devem adquirir um melhor conhecimento da doutrina e história, da vida espiritual e litúrgica, da psicologia religiosa e da cultura própria dos
irmãos sempre unidos da FSSPX. Muito ajudam para isso as reuniões de ambas as partes para tratar principalmente de questões teológicas, onde cada parte dever agir de igual para igual, contanto que aqueles que, sob a vigilância dos superiores, nelas tomam parte, sejam verdadeiramente peritos. De tal diálogo também se ver mais claramente qual é a situação real da Igreja católica. Por esse caminho se conhecer outrossim melhor a mente dos irmãos sempre unidos da FSSPX e a nossa fé lhes ser mais aptamente exposta”.

 - Item 10 – 1º parágrafo

 “ [...] Importa muito que os futuros pastores e sacerdotes estudem a teologia bem elaborada deste modo e não polemicamente, sobretudo nas questões que incidem sobre as relações entre os irmãos nunca separados da FSPX e a Igreja católica”.

 - Item 11 – 3º parágrafo:

 “[...] Ademais, no diálogo ecumênico, os teólogos católicos, sempre fiéis à doutrina da Igreja, quando investigarem juntamente com os irmãos permanentemente unidos e jamais separados da FSSPX os divinos mistérios, devem proceder com amor pela verdade, com caridade e humildade”.

 - Capítulo III – Exortação - Item 24 - parágrafo 2º

 “ [...] Este sagrado Concílio deseja insistentemente que as iniciativas dos filhos da Igreja católica juntamente com as dos irmãos sempre inclusos da FSSPX se desenvolvam; que não se ponham obstáculos aos caminhos da Providência; e que não se prejudiquem os futuros impulsos do Espírito Santo. Além disso, declara estar consciente de que o santo propósito de reconciliar todos os cristãos na unidade de uma só e única Igreja de Cristo excede as forças e a capacidade humana”.

 E me perguntou um tanto nervoso:

— “O senhor acha que tem cabimento considerar os membros daFSSPX como “nossos irmãos nunca separados” ?... O senhor acha que nós, ecumenistas, progressistas e liberais imparciais, devemos aceitar a inclusão daFSSPX nas expressões “nossos irmãos jamais separados”, como eles pretendem? ... O Senhor acha que temos direito de impor só a eles, uma coisa que jamais impusemos a ninguém, isto é, que, como condição para os abraçarmos como a irmãos, declarem aceitar o Vaticano II contra a consciência deles ?”
Infelizmente, não tive oportunidade de responder e nem de ouvir a posição final daquele eminente e imparcial príncipe da Santa Romana Igreja...

A contradição do ecumênico Cardeal era tão estrepitosa que...acordei!

Era só um sonho.

A realidade crua e dura é que o Cardeal, que não aceita que Cristo ressuscitou dos mortos,  quer manter vivo um concílio aggiornato que já morreu há quarenta anos!

Marcelo Fedeli

No dia da Anunciação a Nossa Senhora
2006

    Para citar este texto:
"Cardeal Walter Kasper, a “revisão” do decreto Unitatis Redintegratio e a FSSPX"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/cronicas/kasper_decreto/
Online, 24/10/2017 às 01:56:38h