Crônicas

Impressões de verão de 2009 em algumas paróquias rurais
Jean Madiran

 
     O que mais cruelmente falta em nosso interior, em nossos campos, eles próprios dizimados, são padres. Um só, frequentemente, deve atender quatro paróquias, por vezes, mais ainda, a missa do domingo celebrada cada vez em uma igreja diferente. As igrejas, elas, estão sempre lá, pequenas ou grandes, imutáveis, por vezes, admiravelmente românicas, testemunhando por sua existência o que houve lá, durante muitas gerações, e mesmo por vários séculos, uma comunidade viva, com uma história que vai se esquecendo, como a gente se esquece de se perguntar como e por que, por toda parte, foram construídas todas essas igrejas.
 
     O padre aí celebra, mais ou menos inexatamente, uma missa que foi «nova» há quarenta anos, versão gaulesa, agora incrustada em suas próprias rotinas. A assistência canta com fervor os cantos amontoados à entrada da igreja sobre uma mesinha. Um ou dois leigos distribuem a santa comunhão na mão dos fiéis. Ninguém se ajoelha, nem mesmo na hora da consagração, aliás, a disposição dos bancos torna impossível ajoelhar-se. É a promoção do laicato, um laicato orgulhoso e de pé em sua democrática dignidade de homens livres.
 
     Entretanto, nenhum desses leigos promovidos parece saber ajudar a missa quando faltam coroínhas. E não há coroinhas. Também na assistência quase não há crianças. Os assistentes estão ali por uma visível e resoluta fidelidade à Igreja de seu Batismo, tal qual se apresenta a eles há tantos anos já: sem ter pensado especialmente nisso, eles sabem que a Igreja está certamente ali, em torno do padre católico enviado pelo Bispo, garantia de autenticidade.
 
     Parece que um pouco por toda a parte a palavra de ordem foi dada de não mais se abraçarem e de darem a mão a qualquer um para se «dar a paz» antes da comunhão, cruel sacrifício imaginado sem dúvida em altas esferas para salvar o essencial da «nova » liturgia, ou pelo menos para ganhar tempo esperando a próxima vinda de um outro Papa: mas os fiéis das paróquias rurais ignoram tudo sobre o esforço pedagógico desse papa, pelo exemplo e pelo ensinamento explícito, para deter essa insuportável comunhão de pé e na mão distribuída por leigos, e também para restabelecer o ajoelhar-se diante de Jesus presente na hóstia consagarda. Eles também não sabem que o Papa de modo algum fez isso escondido (isso foi tratado numa página inteira cheia de uma esperança implícita no jornal La Croix), na hora da maior tempestade erguida contra ele, neste ano, no clero e na sua hierarquia, o Papa foi em peregrinação meditar no túmulo de Celestino V, o soberano pontífice que abdicou… Os fiéis dessas paróquias rurais abandonadas estão, na missa, tranqüilamente ferventes e recolhidos, os mais jovens dentre eles têm ao menos quarenta ou cinquenta anos. Toda uma geração fiel e enganada em sua fidelidade a ponto de administrar a Eucaristia em lugar do padre, mas que não têm mais coroinhas nem catecismo para crianças batizadas, e de não ser capaz de fazer algo para compensar essa falta, toda uma geração aparentemente esterelizada, toda uma geração que vai desaparecer sem sucessão. A Igreja não desaparecerá, mas noutros lugares. E de outro modo.
 
 
[Tradução: Montfort. Texto original em francês em Present.fr, sábado, 18 de julho de 2009]

    Para citar este texto:
"Impressões de verão de 2009 em algumas paróquias rurais"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/cronicas/impressoes-rurais/
Online, 26/04/2017 às 07:05:13h