Crônicas

Adeus ao Espírito de Cruzada?
Correspondance Européenne

 
Comentário da Montfort:
 
O artigo defende a  IGREJA MILITANTE contra o ecumenismo e pacifismo que nega o espírito de combate às doutrinas erradas, contrárias à da Santa Igreja, contra as quais é preciso lutar. Para isso usa de um paralelo entre a civilização e arte medievais e o espírito das Cruzadas.
 
Dentre os excelentes comentários pela Igreja MILITANTE, o texto alude também a Erwin Panofsky [ judeu alemão -1862-1968 citado pelo nosso caro Ronaldo no artigo: O Iluminismo - Trevas na época das luzes]
 
Trata-se de historiador que em sua obra  "Arquitetura Gótica e a Escolástica"  - 1957 -  faz uma relação entre os vitrais góticos e a filosofia escolástica, salientando que a luminosidade das catedrais medievais correspondem à transparência do pensamento de obras como a da Summa Teológica de S. Tomás.
 
Resumo, comentário e destaques de Marcelo Fedeli.
 
Tradução Montfort
 
“O adeus da Igreja ao espírito de Cruzada” é um refrão que corre há ao menos quarenta anos e que resume a concepção do mundo de um cristianismo que fez do diálogo “ecumenista” seu Evangelho. Esta visão repousa sobre uma distorção histórica e sobre uma deformação igualmente grave da doutrina da Igreja. No caso de um artigo de Giancarlo Zizola, publicado com este título no diário italiano La Repubblica de 7 de junho, acrescenta-se um impossível tentativa de atribuir ao próprio Papa reinante essa recusa histórica e doutrinária.
 
Bento XVI, como disse ele mesmo por ocasião de sua primeira audiência em 27 de abril de 2005, tomou esse nome não somente em honra de Bento XV, mas também e sobretudo para evocar a figura extraordinária do grande “Patriarca do monaquismo ocidental”, São Bento de Núrsia, que “constitui um ponto de referência fundamental para a unidade da Europa e uma lembrança poderosa das incontornáveis raízes cristãs de sua cultura e de sua civilização”. Mas quais são essas raízes cristãs que, para Bento XVI, assim como para seu predecessor João Paulo II, não somente os católicos mas os laicos também, tem o direito e o dever de defender? Estas raízes, ou se se prefere, os frutos dessas raízes, estão sob nossos olhos: são catedrais, monumentos, palácios, praças, ruas, mas também música, literatura, poesia, ciência, arte. Este mapa visível da memória está impresso no código genético de nossa civilização. Ora, as Cruzadas fazem parte, como as catedrais, da paisagem espiritual européia e exprimem a mesma concepção do mundo.
 
O historiador da arte Erwin Panofsky estudou a relação entre os vitrais góticos e a filosofia escolástica, notando que a luminosidade das catedrais medievais corresponde à transparência do pensamento de obras como a Suma Teológica de São Tomás de Aquino. Poder-se-ia mesmo acrescentar que da epopéia das Cruzadas transparecem a mesma luminosidade, a mesma beleza diáfana, o mesmo impulso em direção ao alto, a mesma força criadora das obras de São Tomás de Aquino e de Dante. As Cruzadas também fazem parte desse patrimônio de valores que, como escrevia João Paulo II, vem do Evangelho e se desenvolveram em coerência com ele (Memória e identidade) [e são totalmente opostas ao “espírito ecumênico” de Assis].
 
“Não se pode compreender as obras primas da arte nascidas na Europa nos séculos passados, se não se leva em conta a alma religiosa que as inspirou” afirmou Bento XVI em 18 de novembro de 2009. Poder-se-ia dizer a mesma coisa para as Cruzadas, que gravaram nos campos de batalha da Palestina essa mesma escala de valores que os arquitetos davam nessa época à pedra das catedrais. Nem as Cruzadas nem as catedrais podem ser compreendidas por aqueles que ignoram a maneira de pensar e, sobretudo, a fé vivida que animavam seus autores. Na catedral, o povo cristão se reunia em torno de um padre que, celebrando a Missa sobre um altar voltado para o Oriente, renovava sem efusão de sangue o mistério do Cristianismo: a Encarnação, a Paixão e a Morte de Jesus Cristo. Nas Cruzadas, esse mesmo povo tomava as armas para libertar a Cidade Sagrada de Jerusalém, sob o poder dos maometanos. O túmulo vazio do Santo Sepulcro era, assim como o Sudário, o testemunho vivo da Ressurreição e a relíquia mais preciosa da Cristandade.
 
A Primeira Cruzada foi pregada como meditação do apelo de Cristo que diz: “Se alguém quiser vir após mim, que negue a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt. 16, 24). Essa mesma Cruz, em torno da qual o povo das catedrais se reunia, era impressa sobre o uniforme dos cruzados e exprimia o ato pelo qual o cristão de dizia disposto a oferecer sua própria vida, pelo bem sobrenatural de seu próximo, empunhando as armas. O espírito das Cruzadas era, e permanece, o espírito do Cristianismo: o amor pelo mistério incompreensível da Cruz. Esse espírito e esse estado de alma, largamente documentados pelas fontes, não surgiam como um rio ameaçador do inconsciente coletivo do Ocidente, mas do ato livre dos simples indivíduos que, no decorrer dos séculos luminosos da Idade Média, respondem a um apelo que se dirige a seu conhecimento. A resposta a esse apelo pode ser considerada como uma “categoria do espírito” que não declina.
 
A história das Cruzadas não é um apêndice insignificante da história da Igreja, mas é estritamente ligada à história do Papado. As Cruzadas não são ligadas a um só Papa, mas a uma história ininterrupta de Pontífices, a maior parte deles santos, do Beato Urbano II, que promulgou a Primeira Cruzada, a São Pio V e o Beato Inocêncio XI, que promoveram “Ligas Santas” contra os turcos em Lepanto, Budapeste e Viena, entre os séculos XVI e XVII.
 
A Igreja nunca professou o pacifismo. O combate cristão, que é antes de mais nada, uma atitude espiritual, mas que inclui a possibilidade da legítima defesa, da guerra justa, até mesmo da “guerra santa”, pertence a tradição católica mais pura. Os que professam o ecumenismo e o pacifismo extremados esquecem que existem males mais profundos que os físicos e materiais e confundem as consequências ruinosas da guerra, no plano físico, com suas causas. Essas últimas são morais e remontam à violação da ordem, em uma palavra, ao pecado, que não pode ser vencido a não ser pela Cruz.
 
A Igreja tem inimigos, o que nós tendemos a esquecer pois nós perdemos essa concepção militante da vida cristã, fundada sobre a Cruz, que sempre caracterizou o Cristianismo. A perda desse espírito militante é a consequência do hedonismo e do relativismo em que numerosos homens da Igreja estão infelizmente mergulhados.
 
Bento XVI falou frequentemente de minorias “criativas”, poderíamos acrescentar “militantes”, pois a guerra atual é cultural e moral, e a confrontação se produz em termos de princípios de concepção do mundo. Pode-se militar pelo bem ou pelo mal, em um campo ou em outro, mas são apenas aqueles que militam que deixam seu traço nos acontecimentos históricos.
 
Zizola não deve se iludir: pode-se e deve-se escapar, na medida do possível, ao enfrentamento das armas, mas não se pode escapar ao enfrentamento das idéias. Aliás, as idéias que não se enfrentam, não se “encontram”, se fundem, formando, por sua vez, novas idéias sob o signo do indiferentismo e do sincretismo.
 
A Igreja é uma sociedade sobrenatural que tem a missão de anunciar uma Verdade que salva e liberta. Sendo uma instituição mergulhada no mundo, ela se serva, como é preciso, também de instrumentos políticos e diplomáticos, as a política é para ela um meio, jamais um fim. Na homilia de Nicósia, em 5 de junho, Bento XVI sublinhou também que o madeiro da Cruz é um sinal de esperança, de amos, de vitória. “Um mundo sem Cruz”– disse ele – seria um mundo sem esperança”. Da mesma forma, um mundo sem espírito de cruzada seria um mundo sem esperança, pois isso significaria a renúncia à luta para fazer da Cruz a salvação de um mundo em ruínas. (R.d.M.)

    Para citar este texto:
"Adeus ao Espírito de Cruzada?"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/cronicas/espirito-cruzada/
Online, 24/04/2017 às 23:49:54h