Crônicas

Discurso de Alberto Zucchi no Jantar Montfort em 13-12-2014: "Nós já vencemos porque, na Igreja, o sol nunca se põe..."
Alberto Zucchi
[caption id="attachment_32572" align="aligncenter" width="500"] Adoração dos Magos. Gentile da Fabriano[/caption]

  Os Pastores e os Reis acreditaram na palavra de Deus contra a evidência, mas isto não os fez se apartarem da realidade. 

  Revdmos Padres, Revdmas Irmãs aqui presentes, Prezados amigos das mais diversas cidades que têm por nós uma amizade tão grande que se dispõem a viagens longas, para comemorar o Natal em nossa companhia. Meus tão caros amigos de nosso dia a dia na Montfort. Este é o 5º ano sem o nosso estimado Professor e, quanto mais tempo passa, mais a falta dele é sentida e maior é a saudade. O ano que está por se encerrar foi de muito trabalho. É claro que a frase dita por um funcionário público coloca em suspeita se realmente é uma quantidade grande de trabalho. Em todo o caso não se pode negar que houve muitas tarefas, e muito foi feito. Não é necessário repassar tudo o que já foi apresentado no audiovisual. Como me foi imposto, pobre presidente da Montfort, o discurso deve ser curto. Eu quero apenas destacar um fato no ano. Foi o sermão do Padre Aulagnier na missa no Mosteiro de São Bento por ocasião do encerramento do Congresso Montfort deste ano, onde o tema foi Tradição e Nova Evangelização. Neste sermão sobre a Assunção de Nossa Senhora, no final, ele generosamente citou a Montfort. Mas, o que eu quero destacar não são propriamente as palavras, mas a cena que presenciamos durante o sermão. De um lado um padre velho, eu prefiro dizer velho e não idoso porque a palavra velho, neste caso, transmite uma ideia melhor das dificuldades pelas quais ele passou. De outro um jovem diácono, eu prefiro dizer jovem e não moço porque jovem exprime melhor a força que está contida neste diácono que ainda muito deve realizar, e portanto, muito tem a sofrer. Um padre velho com muitas histórias e com as marcas na alma de sua luta. Um diácono jovem que em breve se apresentará no campo de batalha, vindo de uma família numerosa como há muito tempo não deveriam existir mais; família que não acreditou na tolice de que a falta de dinheiro é uma boa desculpa para o controle da natalidade. E tudo isto no mosteiro de uma ordem que foi no passado a grande impulsionadora do movimento litúrgico, e que agora nos acolhe com tanta caridade. O que nós vimos naquela Missa? E especificamente naquele sermão?  De um lado o sol que começa a se pôr e, do outro, o sol que já nasce. Na Igreja, o sol nunca se põe. Na Igreja não há noite. E qual o significado daquela cena? Significa que nós vencemos. E nós não é a Montfort, porque nós não lutamos pela Montfort. Significa que a Igreja venceu, significa que a Igreja continua.  Os inimigos da Igreja, que nestes últimos tempos desfecharam contra ela o ataque mais furioso de toda a História, não conseguiram destruí-la. A promessa de Nosso Senhor Jesus Cristo de que as portas do inferno não prevaleceriam contra a Igreja foi mantida. Nós sempre acreditamos nesta promessa, por mais que aos olhos humanos e naturalistas ela pareceria ter sido falsa, que ela pareça contrariar a evidência, assim como nós acreditamos que em um pequeno pedaço de pão - aparentemente de pão - está o Criador de todo o universo. O paganismo moderno racionalista nega que o Criador dos Céus e da Terra possa estar em um pedacinho de pão. Nossa razão não compreende isso, dizem eles. Deus estar em um pedacinho de pão contraria a evidência. Assim também há um certo tipo de pessoas, de um conservadorismo racionalista, que afirma que não é mais possível ver Cristo na Igreja, pois esta se transformou em uma “estrutura”, que não há mais nada de bom no clero que está ligado à “Igreja oficial”, que agora existe apenas uma Igreja mística, a qual não se sabe ao certo onde ela está. E que estar unido à Igreja oficial seria abandonar a verdadeira Igreja. A cena do sermão é importante, para nós que a presenciamos, porque ela confirma a promessa de Nosso Senhor e - repito - a Igreja venceu. Como dizia o Professor, nós ganhamos! Alguém de fora desta sala ao tomar conhecimento deste discurso talvez dissesse: “Como é possível afirmar a vitória neste momento? Como ganhamos, em um ano em que houve um sínodo no qual um Cardeal propôs teses diretamente contrárias à doutrina da Igreja e estas foram aprovadas pela maioria dos bispos presentes? Isto contraria toda a realidade!” Sim ganhamos, eu reafirmo, eu repito e eu insisto. Nós ganhamos. E o presépio que aqui está nos faz compreender isto melhor. O nascimento de Nosso Senhor naquela noite fria, sem que houvesse quem o acolhesse, foi um ato insignificante para o mundo. Se houvesse Internet certamente o número de curtidas teria sido muito pequeno, se é que teria havido alguma, e certamente não haveria nenhum self do fato. Quando Cristo nasceu, o mundo era pagão e em Jerusalém havia-se perdido a verdadeira religião. Mas o fato, aparentemente sem importância, significou a nossa vitória. A remissão do homem era apenas uma questão de tempo, a derrota do paganismo e da gnose judaica já estava anunciada e determinada. Nossa Senhora, São José, os Pastores, os Reis Magos, acreditaram contra toda a evidência naquela criança aparentemente indefesa, mas que na realidade movia os céus e a terra, que ela mesma havia criado. Já Herodes acreditou na sua própria capacidade e no seu poder. Ele acreditou em si mesmo, ele acreditou no pai da mentira e por isto pensou que poderia matar a Deus. Para quem tem um exército a sua disposição, matar uma criança é um procedimento simples e fácil.  O resultado é que seu nome ficou eternamente associado ao crime, e a criança indefesa, contra toda a evidência, venceu o exército de Herodes e mais, venceu o exército romano, venceu o paganismo. Pela evidência naturalista, se diria que Herodes tinha razão e que ele era o vencedor. Pobre assassino Herodes,  confiou em si mesmo. E os Pastores e os Reis Magos? Eles preferiram acreditar na palavra de Deus, nas Escrituras, no sinal que o Céu lhes havia enviado - para os pastores os anjos, para os reis uma estrela - e não naquilo que os modernos chamam de evidência. Eles encontraram uma criança indefesa - não um grande guerreiro como queriam os judeus, nem um grande administrador como desejaria nossa época - e não se decepcionaram, e a adoraram. Contra toda a evidência, ali estava o Criador dos céus e da terra. Mas o presépio que temos aqui nesta sala, tão bem decorado pelas moças de nosso grupo, nos ensina ainda mais sobre nossa situação. Supreendentemente, após terem adorado Nosso Senhor, os pastores voltam para suas cabras, e os reis para seus súditos. Não seria muito razoável que eles lá permanecessem pelo resto de suas vidas? Se era Deus que lá estava, que tudo podia fazer, porque eles não permaneceram no presépio, deixando de lado todos seus afazeres, pedindo a Deus que cuidasse de tudo? Deus faria isto muito melhor que eles e sem nenhum esforço.  Haveria uma melhor ocasião para pedir a intercessão de Nossa Senhora e também permanecer ao lado Dela? Os Pastores e os Reis acreditaram na palavra de Deus contra a evidência aparente, mas isto não fez com que se apartassem da realidade. Pelo contrário, terminada a adoração, é necessário voltar para o trabalho. Já o nosso século, a nossa era que coloca a evidência acima de tudo, colocando a razão acima de toda a autoridade - especialmente a autoridade divina - afirmando que só se deve obedecer aquilo que pode ser entendido, apesar de acreditar só na evidência, foge da realidade. Nossa era é a era da ficção, onde homens adultos e supostamente letrados frequentam congressos de histórias em quadrinhos e super-heróis. Onde há milhões de jogos de realidades virtuais com toda a espécie de imoralidades e crimes. Onde a indústria da ilusão de Hollywod fatura bilhões de dólares apresentando histórias e seres imaginários que nunca existiram e jamais existirão. Onde em carros de luxo há um adesivo “eu acredito em duendes”. As amizades deixaram de ser reais para ser virtuais. Uma época onde o sentimentalismo romântico, que sonha com as pessoas ao invés de querer conhece-las objetivamente, decide de maneira trágica a vida de tantos jovens. Época da televisão, das novelas, da ilusão dos campeonatos mundiais. Uma ilusão que justifica jogar na lata do lixo bilhões de dólares bem “reais”. Só em uma época como a nossa é possível encontrar pessoas que acreditam que, em uma reunião de trabalho onde cada um afirmar o que está na cabeça, sem qualquer regra, é possível que apareça algo de útil. Época da arte moderna que nada representa de real. Época onde a arquitetura cria prédios iguais no mundo inteiro sem ver a real situação de cada lugar. Época da irrealidade até nas ciências, onde um prêmio Nobel da Física afirma que a realidade é uma palavra desprovida de sentido. Onde se acredita que o nada é que produziu o universo, e se nega a relação de causa e efeito. Onde se acredita que um animal estupido pode produzir um ser inteligente. Época que faz de conta que o pecado original não existe e, por isto, o criminoso é tratado como inocente e a sociedade e até a vítima são responsabilizadas pelo crime. Época de tantas imoralidades, justificadas pela proibição da censura, quando na realidade são os loucos que não tem qualquer censura. Onde se nega que uma família seja constituída por um homem e uma mulher e que um homem é um homem. Uma época que substitui o real Menino Jesus do presépio pelo tolo e idiota gorducho “papai noel”, que vive só na imaginação.   Época que constrói em São Paulo o Templo de Jerusalém e - pior de tudo - época onde se acredita que todas as religiões podem salvar, como se Cristo não tivesse na realidade uma única esposa, a Igreja Católica. Crer na palavra de Nosso Senhor, acreditando na certeza da vitória, acreditando que as portas do inferno não prevalecerão - contra toda a evidência! - não é fugir da realidade, mas sim ir ao encontro dela para fazer bem aos outros. Acreditar em si mesmo achando que isto é uma evidência, isto sim é fugir da realidade, é se fechar em um mundo interior irreal das fofocas virtuais. Sim, mais uma vez eu digo, nós vencemos, não por nossa força, por nossas qualidades nem muito menos por nossas virtudes, nós vencemos por causa da promessa de Nossa Senhor e pela ação Dele e de Sua Mãe Santíssima. Então após constatarmos esta vitória na cena da Missa do São Bento e aqui no presépio, é necessário agir. No ano que se aproxima haverá muito o que fazer. Muito mais do que foi feito no ano que passou. Temos o projeto de dois livros: um sobre a absurda doutrina de Plinio Correa sobre a Revolução e Contra Revolução que atualmente é difundida por De Mattei e o segundo, uma compilação dos escritos do Professor sobre o Vaticano II. Não é uma promessa, é apenas um projeto que depende de muitos fatores. Pretendemos ter dois congressos, um deles o tradicional e outro sobre a família, atendendo assim a uma recomendação de Dom Athanasius. Temos o site, há muito o que escrever. Em todos os locais onde vou, o pedido sempre se repete “escrevam mais no site”. Teremos muitas pessoas para receber, para hospedar, para acompanhar. Muita gente com quem fazer apostolado. Muitas viagens a fazer. Acredito que ainda esta noite vocês se darão conta de quanto trabalho extra teremos este ano. E nós não devemos perder todas essas oportunidades. Quando se abre uma brecha na defesa do inimigo, o importante é avançar por ela o mais longe possível. Recentemente, andando na rua, um clérigo que usa a batina ouviu: “viva Satã”. O grito vinha de um grupo de jovens que acabara de sair de uma escola. Ele não perdeu a oportunidade, atravessou a rua e foi conversar com eles. O resultado é que há uma pessoa se preparando para a primeira comunhão. Mas, de forma alguma este é um discurso com queixas de falta de cooperação. Pelo contrário, apesar de todo o trabalho que cada um tem no seu dia-a-dia, o apoio e a dedicação de todos tem sido admirável. E, se alguma tarefa não foi cumprida, a responsabilidade deve ser atribuída exclusivamente àquele que tem a obrigação de organizar este esforço. É exatamente confiando na generosidade e na dedicação das pessoas do nosso grupo que tenho a ousadia de pedir um pouco mais para este ano que vai começar. Pois como escreveu o Professor no primeiro número do Veritas, nosso antigo jornal: “Nossa galera de ouro, que tem soltas as amarras, está pronta para vogar os vinte remos de prata” E eu ouso acrescentar: E também nossos vinte pequenos canhões estão prontos para atirar, tanto para a esquerda racionalista e panteísta como para a direita mística e gnóstica, mesmo sabendo que nossos inimigos também nos terão como alvo. Não haverá com os inimigos da Igreja qualquer espécie de acordo, sejam eles quem forem. E prosseguiu o Professor no mesmo artigo: “Sorriem de nossa pretensão? Com razão se consideram nossas forças. Julgam insensata nossa causa? Certamente, se aquilatam com olhos humanos. Mas é a cruz de sangue em nossas velas, é a cruz do batismo em nossas almas, que nos dá razão e força para lutar”. E para concluir, sim, finalmente para concluir, o que posso lhes prometer nesta batalha? Posso lhes dizer que certamente teremos sangue, suor e lágrimas, mas como Deus está conosco e Nossa Senhora sempre nos protege, as lágrimas, o suor e sobretudo o sangue, serão de nossos inimigos derrotados. Desejo a todos, inclusive a nossos muitos amigos e leitores do site que estão ausentes, um Santo Natal e um ano com a bênçãos do Menino Jesus e a proteção de Sua Mãe Maria Santíssima. Muito obrigado a todos. Salve Maria!

    Para citar este texto:
"Discurso de Alberto Zucchi no Jantar Montfort em 13-12-2014: "Nós já vencemos porque, na Igreja, o sol nunca se põe..." "
MONTFORT Associação Cultural
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Online, 20/07/2017 às 19:53:19h