Crônicas

Contatos culturais do 3º grau
M. Garden


Como bom paulistano, eu estava atrasado. Era dia do exame final de meu curso de inglês. No táxi, o motorista, um senhor de cabelos brancos, logo puxou conversa.

- O país não vai bem...

- Pois é...- respondi atento ao relógio.

- Eu não tive condições de estudar - continuou - mas o nosso problema, eu acho, são aqueles que estudaram demais. Tem muita gente dando palpite. Outro dia uma passageira, doutora, endinheirada, disse-me que o problema do Brasil é estrutural. Olha, moço, eu não sei o que é isso. Mas, pelo jeito, ela também não. Falou o tempo todo. Falou muito, não disse nada. Pode parece doidice, amigo, mas eu acho que talvez a solução para o Brasil fosse criar uma faculdade de analfabetização. Obrigatória, é claro.

Nessa altura chegamos ao destino. Infelizmente, meu simpático motorista não pôde explicar o seu programa cultural para o Brasil, mas de qualquer forma eu me diverti com sua faculdade de analfabetização.

Findo o exame, alguém sugeriu uma despedida num desses locais famosos que servem lanches sem gosto a preços salgados.

A conversa começou animada, cada qual procurando levá-la para seu assunto preferido: o próprio curriculum. Compúnhamos sem dúvida uma mesa de alta cultura: dentista da USP, engenheiro da Poli, químico do Mackenzie, psicóloga da PUC e alguns técnicos da Getúlio Vargas. A certa altura alguém comentou:

- Mas então o curso de psicologia é muito caro!

- Realmente - concordou a psicóloga, aduzindo que os alunos, além do curso, devem fazer análise.

"Caramba", pensei. Em minha tosca ingenuidade, eu nunca imaginara que para formar-se médico fosse preciso antes ficar doente.

- Além disso, continuou ela animada, o curso exige muitas despesas correlatas... Você sabe, o problema da educação no Brasil é estrutural.

Lembrei-me imediatamente do velhinho do táxi e de sua passageira doutora. Talvez a nossa mesa fosse outro bom exemplo para ele fazer propaganda da sua faculdade de analfabetização.

O engenheiro aproveitou para dar a sua inteligente contribuição ao tema:

- Quanto a mim, tenho medo de fazer análise, isso mexe muito com os conceitos.

Por um instante imaginei que ainda estivesse na aula de inglês, ou talvez de grego. "Mexer com conceitos" para mim não tinha sentido. Pensei em perguntar o que aquela fórmula significava, mas para minha surpresa todos, até a psicóloga, assentiam com a cabeça.

A dentista contou então que já havia feito a tal análise.

- Para mim foi muito bom, eu falava bastante e a minha psicóloga me ouvia. Parei porque era muito caro, mas quando eu puder torno a fazer.

Pensei que talvez fosse uma boa idéia eu lhe oferecer meus serviços por um terço do preço. Afinal de contas, não deve ser tåo difícil ouvir alguém por algum tempo. Ou será que eu estava enganado?

- E que tipo de análise você fazia? (quem perguntava era o Politécnico.).

Um tipo novo, respondou ela. Era análise familiar.

Análise familiar! Realmente era a noite das expressões estranhas. Que seria análise familiar? Será que ela ia com o pai e a måe ao psicólogo?

- Não conheço esse método, interferiu a psicóloga (pelo menos desta vez eu não estava sozinho), ele deve ser muito bom (acho que ela devia ter recebido uma iluminação do céu para saber o que é bom sem conhecer), mas é preciso tomar cuidado: antes de fazer análise a pessoa precisa analisar bem que tipo de análise deve fazer (será que ela pensava em criar a função de analista de análise?).

E da análise familiar a conversa passou ligeira para as famílias dos analisados. Falou-se em casamento e depois discutiu-se se a mulher deveria trabalhar fora de casa.

- A mulher que não trabalha fora de casa não se realiza profissionalmente- sentenciou alguém, expressando orgulhosamente um dos dogmas de nosso tempo. Aqueles que os "intelectuais" de TV vivem repetindo.

Resolvi afinal arriscar uma intervenção.

- Mas o que é realizar-se profissionalmente? Meu pai trabalhou trinta anos. Hoje é aposentado e recebe dois salários mínimos. Minha mãe permaneceu em casa, educou os filhos, acompanhou cada passo de suas vidas, discutiu e resolveu seus problemas e os preparou para enfrentar o mundo. Por enquanto ela tem cinco netos. Quem se realizou mais?

Creio que não tive muito sucesso, pois um pesado silêncio invadiu a mesa. Talvez não fosse aquela a intervenção esperada por todos. Não tardou para que uma estudante lançasse mais uma frase de efeito:

- Mas a realização profissional possibilita a libertação feminina!

Animado por encontrar uma interlocutora, perguntei:

- Libertação de que, ou de quem? Você, por exemplo, é solteira, só estuda e vive às custas de seu pai. Que libertação deseja?

- Libertação do modelo patriarcal imposto pelas multinacionais americanas, que tem por finalidade a manutenção, de fato, do sistema colonial do século passado, proclamou ela.

Que admirável capacidade de síntese histórica, ou então...

Meio irritada, ela completou:

- Esse é na verdade um problema estrutural, o qual demanda uma reforma de base.

Outro problema estrutural! Pelo visto, o prédio da faculdade de analfabetização precisaria ser bastante espaçoso.

Minha intervenção havia quebrado o unanimismo que até então reinava na mesa; por alguns instantes, o ambiente tornou-se algo tenso. Nesse momento um dos técnicos, para distender os presentes perguntou:

- Vocês viram o programa de sábado à noite na T.V.?

Foi o que bastou para reaquecer a conversa. Falou-se muito de T.V. Permaneci calado, contando os minutos. Alguém resolveu me dar uma nova chance.

- Você gosta do "Mundo Animal"?

Eu não conhecia o tal programa. Pensei comigo que poderia dizer respeito à faculdade de analfabetização.

- Na verdade, respondi, praticamente nada na televisão tem qualquer valor hoje em dia. Ademais...

Não consegui completar a minha frase, pois logo recebi entusiástico apoio dos presentes. Todos, sem exceção, passaram a criticar a T.V.. Imoralidade, desunião da família, violência, linguagem grotesca, baixo nível cultural, inibição da criatividade, foram alguns dos motivos das muitas condenações proferidas contra a televisão.

Animado pela glória repentina e inesperada, resolvi continuar:

- É por isso que não tenho televisão em casa.

- O que?

- Não acredito!

- Não é possível!

- Não é verdade!

Foi só o que ouvi. Decididamente, não era a minha noite. Meu prestígio não perdurou sequer dois minutos.

- Mas se a televisão é tão ruim, como vocês mesmos disseram, para que tê-la?

- Veja bem, explicou-me um dos universitários. Se você não se adapta ao mundo em que vive, acaba gerando em si mesmo um conflito estrutural. Dentro do nosso nível cultural podemos discernir o que queremos ou não da televisão. Assim a TV pode fazer mal às camadas menos favorecidas, mas para nós é apenas um instrumento de cultura e lazer. Dessa forma, de dentro da própria estrutura podemos discernir os problemas estruturais. Você entendeu?

Não, eu realmente não tinha entendido. Meu culto universitário sorria, transpirando televisão por todos os poros. Que ótimo aluno para a faculdade de analfabetização!

Finalmente, alguém pediu a conta, encerrando uma noite difícil e salvando-me de dar a resposta.

Para minha sorte, a conta veio célere. Paguei, apertei a mão de todos e saí sozinho, lembrando-me da sabedoria do meu iletrado taxista.


    Para citar este texto:
"Contatos culturais do 3º grau"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/cronicas/contatos/
Online, 21/10/2017 às 10:14:43h