Crônicas

Monsenhor Bom Senso
Orlando Fedeli


Era um velho monsenhor calmo, gordo e alegre, aquele que governava nossa paróquia, há quase cinqüenta anos, lá nos fundões das Gerais. Era um monsenhor de outros tempos. Dos tempos de Pio XII.

0 povo miúdo confiava em seus conselhos, e levava-lhe suas preocupações. A todos recebia com paciência, ouvia as longas e complicadas queixas, e os despedia satisfeitos com uma palavra de orientação segura, serena e simples.

Um dia, passou pelo vilarejo, uma perua barulhenta, com alto-falantes que expulsaram aos brados a calma e o silêncio que dormitavam nas ruelas e praças. Da perua desembarcaram rapazes da cidade que davam berros estridentes em megafones de verdureiros, e conversavam com fala mansa e macia. Tinham um estandarte vermelho, usavam jaquetas apagadas e uma espécie de babador da mesma cor do pendão. Atacavam o comunismo. Insinuavam-se nas casas. Falavam de Deus. Ganhavam confiança. Filavam bóia. E arrancavam contribuições mensais. Com correção monetária. Entre o feijão e o bife, anunciavam um grande castigo, e falavam de um profeta que morava numa grande capital. Num apartamento. Em Higienópolis. Em São Paulo.

Os matutos escutavam embasbacados e desconfiados. Nunca se vira nem ouvira uma coisa igual: um profeta morando num apartamento. Em Higienópolis! Os moços da cidade, eloqüentes, confirmavam: “0 olho jamais viu, o ouvido jamais ouviu um Profeta igual aquele. Fenomenal!!!!”.

Monsenhor, consultado, aconselhou cautela. “Não estava escrito que viriam falsos profetas que seduziriam a muitos? Cuidado...”

Não adiantou.

Fascinados pelos estandartes rubros com um leão de barriga cavada e língua comprida, assustados com as ameaças de castigo iminente - a "Bagarre" - esperançados com a possibilidade de conhecer um profeta em carne e osso - em Higienópolis! - alguns rapazes da vila partiram com a caravana de babador vermelho. Iam a São Paulo ver e ouvir o Profeta e seus eleitos.

Monsenhor balançou a cabeça, desconsolado.

Um mês depois, os matutos retornaram. Transformados! Entusiasmados!! Alumbrados!!!

0 Profeta existia mesmo. E era imortal! E era inerrante! Tinham a boca cheia de palavras arrevesadas. (Algumas em francês! Em francês! Nos grotões de Minas!). Descreviam uma cerimônia fenomenal presidida pelo Profeta em pessoa, com toda a carne e todos os ossos. Em Higienópolis! Com alabardas e espadas, cavaleiros e eremitas! “FENOMENAL”! Nada os segurava mais na vila pacata. Queriam seguir o Profeta. Iam ser cavaleiros e eremitas. No século XX.

Já não se misturavam mais com os colegas, nem com o povinho miúdo, na Missa. "Com a ralé", dizia um deles. "Com a canaille", corrigia o outro.

Mas pediam donativos, em português. Quando não pediam, olhavam os outros do alto de três degraus. Até a Monsenhor - que tratavam com fria cortesia - olhavam de cima, ouvindo com um sorriso superiormente eremítico seus conselhos e avisos de prudência.

Abalaram-se para São Paulo, definitivamente, largando empregos e estudos. Esqueceram da família e... do trabalho. Especialmente do trabalho. Porque, para falar a verdade, da família se lembravam. Por vezes... quando precisavam de uma camisa nova ou de um dinheirinho extra.

Corria que haviam ficado eremitas. Voltavam à vila só a cada dois ou três anos, mais ou menos. Retornaram de cabeça raspada - eram eremitas mesmo - e cada vez mais impertigados. Cada vez mais alumbrados. Cada vez mais querubínicos.

Na igreja ficavam apartados, lendo misteriosas orações em um misterioso caderninho. Até durante a ação de graças, após a comunhão, contemplavam embevecidos um retrato da mãe do Profeta, ou uma fotografia do dito cujo, quando era menininho, vestindo uma saiazinha. ("Estava na moda, na Belle Époque", explicavam com apressada preocupação). Nem compareceram à tradicional novena de São Benedito... Interpelados, sorriam o seu sorriso mais eremiticamente superior, explicando que era heresia branca seguir a novena de São Benedito. Ademais, um santo baixa de nível. Um santo preto. (Como o Profeta, eram cheios de preconceitos, mas, naquele tempo, nem no céu era preciso haver a lei Afonso Arinos...).

Por vezes, voltavam a falar macio e manso. Era quando se dirigiam a algum rico fazendeirão, a "um membro da elite rural brasileira", como diziam, para pedir um grosso e gordo donativo. Era para editar uma obra que ia salvar o Brasil, que ia converter o mundo, que ia desencadear a Bagarre. 0 Profeta havia garantido! Com aquele livro publicado, tivessem certeza, nada mais podia segurar o anjo exterminador. Era a Bagarre vermelha que ia chegar! Era o Reino de Maria que ia ser instaurado pelo Profeta! Ele mesmo havia prometido e garantido. Não duvidassem! Pagassem! Pagassem para ver, se não era verdade! Caso, porém, dessem a gorda e grossa contribuição, que possibilitasse a publicação da última obra - FENOMENAL!!! - do Profeta, veriam.

(Há tempos, o mesmo Profeta havia anunciado uma bagarre azul, outra parda, outra ainda de pus, e outras bagarres de outras cores e de outras substâncias e nada acontecera. Eram bagarres idas, vividas e esquecidas... e era de mau tom lembrá-las...).

Quando não falavam macio ou não filavam um almoço ou um donativo, andavam lentos e metafísicos pela praça, procurando o que eles chamavam de "pulchrum".

"Uai!! Que seria o tar de purcro?", perguntavam-se os matutos intrigados, e onde teria ele se escondido?

Tiveram longas e noturnas conversas com um primo, explicando-lhe o pulchrum da praça. No dia seguinte, levantavam ao meio-dia. Iam de novo a casa do primo falar-lhe do "tau" enquanto tal, no universo nacarado da Trans-esfera.

E que era a Trans-esfera?

Ah!... A Trans-esfera?...

Era complexo explicar, em poucas palavras, o que era a Trans-esfera. Levaram tanto tempo explicando o que era a tal Trans-esfera que...ficaram para o almoço. E, depois, para o farto lanche mineiro das quatro da tarde.

A Trans-esfera tinha relação com os seres ab-aeternos, mas só podia ser compreendida por quem recuperasse a inocência primeva. Esta, por sua vez, só se alcançava por uma fidelidade absoluta ao Profeta que - ELE SIM - recuperara a Inocência. Ele era 0 INOCENTE. Com letras maiúsculas.

E contando fatinhos da vida d’ELE, ultrapassaram a hora do jantar. Nem o tinham ainda digerido, e já o primo estava inocentemente convencido. Convencido a trocar os brutos grotões das Gerais pelas glórias da Trans-esfera. A escambar sua vidinha modorrenta, naquela vilajoca dorminhenta, por uma vida épica no séqüito do Profeta. E lá partiu o primo para a... Trans-esfera, sequioso por conhecer o enviado de Deus para o século XX. Em carne e osso. Lá em Higienópolis!

Lá foi.

Viu e ouviu o Profeta. Com muita carne e velhos ossos. Viu. Vibrou. Gritou “FENOMENAL”!!!, em todas as escalas e tons, desde o berro até o fenomenal quase sussurrado de admiração e de queixo caído. Sentiu-se arrebatado para os altos páramos da Trans-esfera. Foi então lá que lhe rasparam a cabeça mineira, e ficou eremita. Tornou-se escravo do INOCENTE Profeta. Puseram-lhe botas. Ficou escravo de botas. Com ares de querubim esvoaçando pela Trans-esfera. Se não recuperou a inocência, ninguém poderia negar que ele era o próprio inocente. Com letras minúsculas, é claro! Como só um certo tipo de mineiro pode atingir a inocência. Com minúsculas, é claro!

No êremo, logo aprendeu a fazer atiladas "restrições mentais", uma esperteza bem esperta para engabelar os outros, sem violar os princípios da moral. Era o que ficara provado por um célebre livro, aprovado por um célebre canonista, lá das europas. Ficou mestre em "restrição mental". Engabelava a todos.

Engabelou-se.

Depois de ano e meio, ensabugou.

As cerimônias se repetiam todas sempre tão fenomenais, tão fenomenalmente sempre as mesmas, que ele acabou caindo dos excelsos e puríssimos páramos da Trans-esfera para aterrissar, afinal, no duro chão da chã realidade de Itaquera, feio e suarento subúrbio, proletário e poluído, e sem os perfumes granfinos de Higienópolis, nem a beleza rústica das montanhas e campos das Gerais.

As palestras fenomenais do Inocente Profeta foram se tornando de um fenomenal cada vez mais arrastado e tedioso. De um fenomenal rotineiro e quotidiano.

Bocejante.

De um longo, pesado, mudo, - engolido - e entediado mineiro bocejo...

Começou a andar murcho e calado pelos cantos.

Só dormia nas cerimônias.

Na cama, durante as longas e tenebrosas noites de insônia, uma pergunta terrível começou a brotar lá no fundo de sua mente: "Será que o grande engabelado não fui eu?"

Afugentava logo essa idéia diabólica, porque temia, acima de tudo, trair a sua vocação. Dormia pouco e dormia mal (fora das cerimônias).

Deram-lhe remédios para dormir e estimulantes glucoenergânicos na veia, para voltar a gritar fenomenais fenomenalmente. Vibrou quimicamente três ou quatro vezes, mas logo recaiu na murchidão. Nem a química o levantava mais.

Recorreu-se ao "sobrenatural". 0 quidam (chefe do êremo) recomendou-lhe que tomasse chá de flor do túmulo da mãe do Profeta, da "Mãe da Trans-esfera". Era infalível!

Tomou o tal chá trans-esférico. Estava azedo e meio frio. Pareceu-lhe um chá fúnebre.

Encolheu-se ainda mais em sua murcheza sabuguenta. Pelos cantos e pelas costas, ouvia murmurar. "Qual!... Não, não correspondeu! Não compreendeu o profetismo! Não se abriu ao Profeta!".

Pelos cantos e pelas noites remoia e ruminava uma tentação insistente e tenebrosa: "Será que não fui eu o engabelado? Primorosamente engabelado? Profeticamente engazopado?"

Estremecia de pavor contemplando o abismo anti-profético que se abria ovante a seus pés, e, no fundo do qual, já via rebrilhar soturnamente as escuras flamas infernais. Fazia repetidas jaculatórias, implorando piedade e ajuda a "Nossa Senhora da Consolação" - a Mãe da Trans-esfera - até passar o estremeção. Passado o estremeção lá vinha uma idéia ainda mais sacrilegenta: "Será que o velho é Profeta mesmo?"

"Cruz credo!!!" Benzia-se rápido, escrupulosa e mineiramente.

Definhava, num martírio murcho e silencioso, mudo e incompreendido.

Nessa altura - ou melhor dizendo, nessa baixura - foi convocado para uma conversa "realmente sincera", "de coração aberto", com o superquidam, aquele que era a menina dos olhos do Profeta, o seu discípulo perfeito de "olhos redondos e andaluzes"...

Entrou na conversa com o famoso “pé atrás”, e com todos os seus instintos mineiros redespertados. Pois não se dizia, em todo o mundo eremítico, e não repetia, para quem quisesse ouvir, o todo-poderoso mordomo-mor do palácio, que a menina dos olhos do Profeta só ficava vermelha quando dizia a verdade?

Na conversa "realmente sincera" (que foi secretamente gravada) armaram-lhe toda a espécie de trampas e negaças. Mas, no decorrer dela, a menina dos olhos do Profeta não ficou vermelha nem uma só vez.

A super sincera conversa com o superquidam de superlábia deu em nada.

Continuou ele mais murcho que antes. Sinceramente e definitivamente murcho. Resignadamente murcho. Tão murcho que, desde então, passou a ser conhecido como 0 MURCHÃO.

Nas longas e fenomenalmente fastidiosas palestras e cerimônias, entre um cochilo e seu respectivo assustado despertar, por um gigantesco "FENOMENAL!!!" da platéia habilmente manipulada, começou a surpreender outros também a acordar mais discretamente assustados. E, entre eles, Quem diria??!! o próprio !!! 0 próprio Profeta acordava, em discretíssimo sobressalto, de um inocentíssimo cochilo.

Fenomenal!

Realmente fenomenal!

Fenomenal e consolador. Pela primeira vez, tinha a certeza que imitava perfeitamente o Profeta. Inocentemente.

Depois, ao escutá-lo recontar, numa rememoração repetida e sem fim, os fatinhos chochos de sua vida de menininho rico em plena "Belle Époque", tinha a estranha sensação de já ter ouvido coisa parecida ser contada lá no sítio rocento...

Mas, o que poderia ser? Não conseguia estabelecer relação nenhuma entre a "Belle Époque" cheia de cristais e o sítio poeirento do vovô.

Ah!!! Era que nem o vovô Zé Bento. Que nem o vovô, Zé Bento, aos noventa anos, lá no sítio, em Minas, contando sem parar sempre as mesmas historinhas de menino pobre da roça. Menos a Belle Époque, é claro!

Um dia, um antigo eremita - um ex-quidam - rasgou-lhe os véus ao exclamar, sem nenhuma sacralidade e sem nenhum respeito, em brutal sotaque e "mui franca" franqueza portenha: "0 velho caducó” Adiós Reino de Maria. Me voi a cuidar de mi vida".

Y se fué.

Viu então que o rei estava nu. Isto é, que ele, mineiro, mineiro dos grotões, fora mesmo engabelado. Primorosamente engabelado Profeticamente engazopado.

Abriu os olhos e a primeira cena que viu, em certa noite de verão, foi a de um estranho exercício ginástico noturno dos eremitas - só alguns - pulando, sem cerimônia e com uma agilidade só adquirida por longo hábito, pulando, dizia, (sem o hábito de eremita) o alto muro do êremo da Santa Inocência. E, no dia seguinte, após o misterioso e noturno exercício, lá estavam os eremitas atletas querubinicamente cantando os hinos sacros, solenes e heróicos em honra do Profeta.

Êta querubins pula-muro!

Doutra vez, constatou outra falsidade. Moderna. Eletrônica.

Era costume os eremitas ouvirem continuamente as gravações das conferências do “Inocente”. Até lavando os pratos, na cozinha, usavam atualíssimos walkman - adquiridos por contrabando - nos ouvidos. Sorviam então toda a sabedoria profética, de olhos fechados e cara alegre, enquanto enérgica e ritmicamente esfregavam panelas, pratos e engorduradas frigideiras. Porém, um dia, um deles, descuidado, adormeceu em confortável poltrona. Com a boca aberta e escutadores nas orelhas. Por lamentável acidente, caiu-lhe o walkman das orelhas. Aí se ouviu a maior roqueira. Escutava rock do pesado, o piedoso eremita...

Os walkman foram proibidos.

Noutra ocasião, pouco depois, estourou uma bomba: o redator oficial das proclamações ao Profeta - o infeliz poeta de Niterói - saltara o muro da inocência.

Definitivamente.

Apostatara. Isto é, ia casar-se.

E - que vergonha - até já estava na fila para ser pai. Antes do tempo protocolar. Trocara o estandarte da glória profética por prosaicas fraldas de bebê. Que vergonha! E ouviu, por essa ocasião, angustiadas interrogações: "E a Caixa Bagarre? Onde foi parar a Caixa Bagarre?" A caixa estava lá. 0 que não estava mais lá era o recheio da Caixa... Que vergonha!...

Revoltou-se, sem amparo, ao ter que contemplar de joelhos o Profeta - também chamado o Doutor Sofrimento - consumir opíparos banquetes ao som de quatro trompas de caça, enquanto sentia um profundo vazio estomacal.

Que saudades do feijão tropeiro, lá da vila, com torresminho pururuca! .Ah! Que saudades do queijo de Minas! E o doce de leite da vovó? Que delícia!... Tão Cremoso!! ... E ele lá de joelhos, vendo oito arautos - OITO!!! - portarem, em bandejas de prata, oito sobremesas diferentes - Oito!! - para a refinada degustação do paladar inocente do Doutor Sofrimento.

Sentindo crescer a indignação e o vazio do seu estômago, ouvia clamar a seu lado, a plenos pulmões e a vazias barrigas: "FENOMENAL"!!!

Fenomenal uma ova! Fenomenal mesmo era o doce de leite da vovó!

Estremeceu, ao flagrar-se em pensamento tão pouco devoto, imaginando-se a lamber, os beiços lambuzados pelo doce de leite - tão cremoso... Ah! tão cremoso... - da vovó.

Estremeceu, de novo, e tremeu só de pensar que podia ir para o inferno, se trocasse sua vocação religiosa por um queijo de Minas, ou por um pratinho de doce de leite - Ah!... Tão cremoso!... - da vovó.

Estremeceu terceira vez. Não queria ir para o inferno, carregando um queijo de Minas na mão. Como um Esaú mineiro. Eternamente mastigando um embolorado queijo rocento, que, ao ser engolido, virava fogo. Eternamente lambendo os beiços queimados por um doce de leite fervente, borbulhante, (Tão cremoso!...) e servido pela própria vovó. Com quatro diabos, ao lado, tocando trompas de caça.

Submeteram-no a um capítulo de culpas, no qual lhe disseram - em público e na cara - tudo o que haviam murmurado contra ele, em particular, e pelas costas. Acusaram-no de ter mau espírito, de não ser aberto ao Profeta. De ter emutucado. Foi sentenciado ao "Desprezo eremítico". Teve que comer no chão e andar com um cartaz pendurado, como canga, ao pescoço, no qual letras garrafais proclamavam: SOU SABUGO!!! E teve que agüentar os novatos pirralhos, recém-engabelados, rirem dele gritando FENOMENAL, desde o alto da Trans-esfera.

Agüentou três meses de gelo, quatro de castigos, e seis de ensabugamento oficial. Com cartaz pendurado ao pescoço. Depois, se despachou para o fundão das Gerais.

Na pacata vila, onde o tempo bocejava há dois séculos, e onde morava dona tranqüilidade, nem comeu queijo, nem encontrou paz. Nem conseguia dormir no sonolento vilarejo e, ao perambular pelas ruelas de sol e sombra, nunca encontrou a tranqüilidade.

Nem achou o sossego, escalando as íngremes ladeiras de velho lajedo. Suando, sob o paletó e enforcado na gravata, sob o sol generoso de Minas.

Sua consciência escrupulosa o atormentava não lhe permitindo um minuto de sono no dormente lugarejo. No êremo, fora vibratizado a estimulantes farmacopéicos, e dormira sonos químicos. Por exemplo e conselho do Profeta.

Lá, em Minas. Naquele povoado perdido, não havia jeito de arranjar Mandrix nem Glucoenergon, tão úteis para dar sono profético ou entusiasmo eremítico. Sem essas drogas civilizadas - e proibidas pela polícia - era difícil reencontrar a normalidade natural e mineira da vida.

Se, afinal, esfalfado, dormia, não era o sono dos justos. Era um sono atormentado por seus remorsos escrupulentos. Em horrorosos pesadelos, via-se no inferno, por ter traído sua vocação e seus votos.

“APÓSTATA”! “SABUGO”!! “A-PÓS-TA-TA”!!! martelavam-lhe, em coro, nos sonhos, eremitas encastelados nas nuvens nacaradas da Trans-esfera.

MINEIRO MURCHÃO!!! berravam-lhe pirralhos ardorosos e cruéis, encarrapitados no alto muro do êremo da Inocência Primeva Aquele mesmo muro da Inocência, saltado noturna e agilmente por querubins cara-de-pau.

Emagreceu.

Sempre engravatado, com o nó da gravata cada vez mais apertado na goela magrenta.

Tinha tiques nervosos. Quando, na sua cabeça, a "bagarre" estava no auge, ouviu o lento badalar do velho e roufenho sino rachado da matriz. Lembrou-se de Monsenhor, tão paciente, tão experiente, tão mineiramente sensato, que o chamavam até de Monsenhor Bom-senso.

Foi procurar Monsenhor Bom-senso. Para se confessar, para aliviar suas angústias, para sanar seus escrúpulos, para pedir perdão por sua apostasia - se havia perdão para tão grande crime - para ser absolvido - se fosse possível... - por seus traídos votos religiosos ao Profeta.

A Monsenhor contou coisas incríveis. De fazê-lo cair do céu, caso ele não estivesse bem firmado em seu bom senso, e bem assentado em seu sólido banco de confessionário.

Falou-lhe dos chás de flor de túmulo, dos beija-pés do Profeta, das ladainhas e das paródias de Ave Marias para o Profeta e para sua mãe. Contou-lhe das tecas contendo as unhas do pé do Profeta, devotamente osculadas antes de dormir, nas tentações e nos perigos, tudo aprovado por Frei Dolarino, garantiam Profeta e eremitas. 0 desesperado pecador explicou, ao bom senso atônito de Monsenhor, cerimônias pomposas e reservadas doutrinas sublimes. Revelou-lhe a atilada teoria das "restrições mentais", os códigos secretos... Desvelou-lhe - supremo arcano - que no Reino que o Profeta ia fundar, a reprodução humana seria pela palavra e não mais por abjeta via natural. Garantia-se - não sabia ele com que veracidade - que tudo isso fora aprovado pelo tal Frei Dolarino. Haviam-lhe dito. Contou ainda os noturnos exercícios pula-muro e etecétera, etecétera.

Muitos etecéteras. E, entre os etecéteras, passava o Profeta carregado em Sédia Gestatória - que nem o Papa - ou em meio a beijoqueiros “corredores espanhóis”, recebendo os devotos e ardentes beijos de seus escravos ajoelhados, à sua passagem, nas mãos, nos pés (nos sapatos), nos braços, nas costas, onde fosse possível lascar uma reverente beijoca.

Havia ainda, entre os etecéteras, capelas clandestinas onde se faziam incensamentos secretos ao Profeta, em carne e osso, ou em retrato. Mas só quando não estavam presentes os padres amigos do Profeta... Na frente deles, nunca! Porque não compreenderiam.

Havia votos de seriedade e Ordos com nova lista de pecados mortais, retiros tendo, no lugar de honra, um osso da mãe da Trans-esfera e, de lado - de lado - um crucifixo. (Frei Dolarino não acha que seja contra a doutrina ou contra o Direito Canônico, havia-lhe afirmado o próprio Inocente Profeta, procurando acalmar seus escrúpulos canônicos).

Portanto, ele, sabugo que tudo isso traíra por um lambusento pratinho de doce de leite, era um apóstata sem perdão. Um precito sem remissão, condenado ao inferno eterno, eternamente carregando um queijo mineiro na mão.

Monsenhor espiava pela gradinha do confessionário o pobre sabugo agoniado perguntar-lhe: "É possível haver perdão para mim, Monsenhor? Há redenção para um sabugo apóstata? Há perdão para este novo Esaú? Que diz o Direito Canônico sobre o meu caso, Monsenhor? E será que frei Dolarino me perdoa?"

"Qual Frei Dolarino, qual nada!" - exclamou Monsenhor, perdendo sua placidez por um momento. "Deixa de ser besta, homem!"

Controlou-se logo. Falou-lhe de Jesus e de sua misericórdia. Que esquecesse o tal Direito Canônico um momento. Explicou-lhe o catecismo, contou-lhe dos fariseus que iam a Jesus com o código sabático embaixo do braço, e que nem entravam no céu, nem deixavam os outros entrar.

Entre uma lágrima e um soluço, o coitado ainda perguntou:

- "Mas meu pecado tem perdão, Monsenhor? Não sou obrigado a seguir o Profeta? Vindo a Bagarre, não serei levado pro inferno num disco voador? Não é melhor escrever ao Vaticano pedindo dispensa de meus votos?"

Monsenhor contestou-lhe que "Só se fosse para enviar o pedido por disco voador ao Vaticano. Deixa de besteira, rapaz! Inferno existe mesmo. Mas é para quem rouba a honra de Deus para si. Inferno é para falsos profetas de meia tigela! E vosmecê fique sabendo que há só duas espécies de mineiro: a que compra bonde de paulista, e a que só compra lingüiça feita por compadre. Vosmecê comprou bonde, meu filho. Vosmecê não comprou nem comeu lingüiça de compadre. Comeu é lingüiça de preá, pensando que era de lombo de porco. Vosmecê entrou numa seita, pensando que estava entrando numa ordem religiosa".

0 coitado, sacudido em seus brios mineiros, ouviu, mais calmo já, Monsenhor garantir-lhe que seus votos, absurdos e irregulares, não valiam nada, eram nulos; que não havia profeta imortal coisa nenhuma; que inerrante era só o Papa, ainda assim sob certas condições. Sob certas condições... Que tais ordos talmúdicos, cerimônias, relíquias e etc. eram pura loucura.

-"Mas, Frei Dolarino aprovou!.."

-"Pois aprovou paranóias, o tal Dolarino com seu Código em baixo do braço", impacientou-se de novo o paciente confessor.

-"Mas, Monsenhor, ele é um canonista famoso! 0 Profeta até mandou pagar a edição de seus livros em Nova York!"

-"Ah"! Sei... Lingüiça de compadre para compadre", comentou o velho e experiente sacerdote.

-"Lingüiça para compadre. Abre os olhos, meu filho. Abra também o Direito Canônico, e vosmecê verá que lá não há nenhum artigo prevendo punições para quem se declare Napoleão ou imortal. Para quem se diga Nabucodonosor ou Melquisedeque. Abra os olhos e leia um bom livro de História e verá, meu rapaz, quantos falsos profetas distribuíram até a sua suja água de banho como água benta. Vosmecê verá quantos profetas inerrantes já apareceram nesse mundão besta, e foram parar em manicômios ou nas fogueiras da Inquisição. Porque a Inquisição era exatamente para fazer torresmo pururuca com o couro de falsos profetas, que enganavam o povinho de Deus. Embora eles sempre contassem com a aprovação de algum Frei Dolarino de seu tempo, pois todo sabido tem muito compadre, rapaz. Que lhes fornecem muita lingüiça da boa! De lombo de porco. 0 caso de seu profeta não é canônico. É de polícia. E psiquiátrico... sem deixar de ser teológico! 0 que ele faz é condenado pelo bom senso, depois pela Teologia e pela Moral e, portanto, é ilícito e condenado também pelo Direito Canônico. Porém, pelo Código bem examinado. Sem lingüiça de compadre pelo meio dos artigos penais.

"Quanto à tal Bagarre, ela já veio para vosmecê; já veio e já passou. Vá agradecer Nosso Senhor por tê-lo livrado daquele ridículo babador vermelho, daquele ordo talmúdico, e daquele profeta das arábias com seus votos absurdos, e fique em paz. E, quando o tal velho e falso profeta estiver para morrer reze uma Ave Maria pela alma dele - porque ele precisa de muitas - para que Deus lhe dê arrependimento na hora da morte da qual ninguém escapa.

E acompanhe o seu enterro, pelo menos mentalmente, meditando que “só Deus é imortal".

0 pobre Esaú levantou-se absolvido e sossegado. Agradeceu ao velho Monsenhor, e já dera alguns passos, quando retornou em novo sobressalto

-“Monsenhor, posso andar sem paletó? Não é pecado andar sem paletó?”

-“Não, não é pecado, não. Pode andar sem paletó. Nem a lei de Deus, nem o Direito Canônico obrigam vosmecê a andar de paletó. Não há virtude paletosal, nem pecado paletosento. Vá em paz, meu filho. E sem paletó.Em paz, sem paletó"

0 pobre rapaz voltou para casa assobiando e desgravatado pelas ruelas quietas, levando o paletó dos escrúpulos pendurado no braço. Entrou em casa cantarolando, e até beijou a mãe e a irmã (coisa que não fazia há muito tempo) e subiu ao quarto para guardar o paletó.

Do alto da escada, alegre, ainda gritou para a mãe: "Faça-me, por favor, um feijãozinho tropeiro com torresminho pururuca, para o almoço. E doce de leite da vovó, com queijo, de sobremesa".

No guarda-roupa antigo, de portas rangentes, deparou com um velho terno preto e com um esquecido "babador" vermelho que fora abençoado pelo próprio profeta. Jogou no lixo o tal babador. Sem pensar no que diria à respeito o Código Canônico de Frei Dolarino sobre a profanação dessa "relíquia".

Pegou o terno preto, enquanto se lembrava de um hino da Missa Melquita: - “Hagyos ó Theos", "Hagyos Atanathos" - Ó Deus Santo, Ó Deus imortal. Nunca mais usaria paletó nas ladeiras ensolaradas de Minas.

Nunca mais... Lembrou-se então que, para algum enterro, o terno preto poderia servir, pois só Deus é imortal.  “Hagyos ó Theos", "Hagyos Atanathos"

Só Deus é Inefável. Ainda que todos os freis Dolarinos autorizassem dizer o contrário. Em ladainhas.

E, assobiando, deu uma boa escovada no terno preto.


    Para citar este texto:
"Monsenhor Bom Senso"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/cronicas/bomsenso/
Online, 29/03/2017 às 10:10:11h