Crônicas

O "Bohn" pastor
Marcelo Fedeli
 

O comandante do avião anunciara a aproximação do aeroporto de Fiumiccino, Roma, escala para a longínqua Índia onde, a convite de Mons. V. D. Bene, eu iria "testemunhar os maravilhosos avanços da escalada ecumênica pós-conciliar, no "ashran" (mosteiro) beneditino, em Tannirpalli", ao sul daquele país.

[Quase esqueço de lhes dizer que este foi mais um daqueles meus curiosos sonhos que, coincidentemente, vêm acompanhando o noticiário atual!...].

Enquanto sobrevoávamos a eterna Roma, sede do representante de Cristo, lembrei-me da parábola do Bom Pastor, tantas vezes lida e ouvida desde meus tempos de criança quando, antes do Concílio Vaticano II, nas escolas católicas, aprendia-se o "Catecismo da Doutrina Cristã" e estudava-se Evangelho de cada domingo!

Embora saibamos hoje que já naquela época – fins dos anos 40 e início dos 50 – os Modernistas de então preparavam as linhas mestras do futuro Concílio, os salesianos da escola em que eu estudava, explicando a parábola do Bom Pastor, salientavam que o Bom Pastor protege as ovelhas contra o lobo! Sim, naquele tempo, e desde os tempos de Nosso Senhor até o Vaticano II, ainda havia — pasmem!— o lobo!

E continuava a explicação dos salesianos de então: o Bom Pastor (Nosso Senhor Jesus Cristo) dá a vida pela suas ovelhas...o mercenário (mau pastor) vê o lobo (o erro) e foge, abandonando as ovelhas...E ele é mau pastor justamente porque, embora vendo o erro, não previne as ovelhas e foge, deixando-as à mercê do lobo!...

Lembrei-me também do artigo do Bispo de Sta. Cruz do Sul, D. Sinésio Bohn, sobre o documento "Dominus Iesus", que Monsenhor V. D. Bene me enviara dias antes, para me "orientar na linha do ecumenismo!".

Tão absorto me encontrava nesses pensamentos, que nem percebera que o avião pousara, e que Monsenhor V. D. Bene, já se acomodara ao meu lado para a viagem à Índia. Desta vez ele estava risonho e falador.

— "Como tem passado?... E a família?... Acaso, o senhor leu os oportunos comentários do bispo D. Sinésio Bohn, seu patrício, sobre o documento" Dominus Iesus ", que lhe enviei?".

— "Sim,... Monsenhor!... Eu o li!".

Apesar disso, Monsenhor retirou o artigo do bolso e fez questão de lê-lo em alta voz:

"Num encontro de Conselhos de Igrejas Cristãs do mundo inteiro, em Hong Kong, coube-me representar o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC). Entre outros eventos, fomos convidados por um monge budista a visitar um célebre templo e, depois, para o almoço. Foi difícil almoçar sem nossos tradicionais garfo e faca, mas com pauzinhos, lá usuais!

Fiquei longamente em meditação no templo. As pessoas ficavam em silêncio diante da imagem de Buda e queimavam incenso. Tive certeza que se comunicavam com o Absoluto.

Monges e líderes cristãos tivemos cordiais diálogos sobre o papel das grandes religiões no mundo atual: cultivar a dimensão espiritual do ser humano, promover a convivência no respeito ao diferente, defender a paz, os direitos humanos e a ecologia.

A Congregação da Doutrina da Fé, em recente documento cujas primeiras palavras são "Dominus Iesus" (o Senhor Jesus), deu orientação aos católicos sobre as relações com as grandes religiões do mundo. De relance trata também das relações entre católicos e cristãos de Igrejas e Comunidades sem plena comunhão com o sucessor de Pedro.

O mundo cristão acolheu bem a preocupação com o perigo de diluir a verdade da fé com certo relativismo e indiferentismo religioso. Defende também a salvação universal em Cristo Jesus. Reconhece que o diálogo inter-religioso, feito de igual para igual, não implica que os conteúdos da fé sejam iguais. A igual dignidade é dos dialogantes, não da revelação em Cristo Jesus. Só ele é o caminho, a verdade e a vida, "no qual os homens encontram a plenitude da vida religiosa e no qual Deus reconciliou todas as coisas consigo" (Vat. II, Nostra Aetate, n. º 2).

A Comissão Nacional de Diálogo Católico-Luterano tomou posição pública, onde reconhece as justas preocupações no diálogo entre as grandes religiões. Mas lamenta que no documento "falta o espírito de abertura ecumênica tão em evidência nos documentos do Concílio Vaticano II, na Encíclica Papal Ut unum sint, na Declaração Conjunta sobre a Justificação por Graça e Fé e outros".

A Comissão reafirma a disposição das duas Igrejas a continuar o diálogo ecumênico: "A causa ecumênica, ou seja, a busca da unidade dos cristãos, é mandato inalienável da Igreja de Jesus Cristo. O próprio Papa enfatizou ser este compromisso irreversível". E acrescenta: "Mesmo diante do impacto da Declaração da Congregação para a Doutrina da Fé, não há como renunciar à causa ecumênica".

Convido os católicos a sermos firmes na fé, leais e fraternos com nossos irmãos evangélicos e humildes no diálogo e no serviço mútuo.

Dom Sinésio Bohn
Bispo de Santa Cruz do Sul
16/09/2000 »

Finda a solene leitura, ele me indagou:

— "O senhor notou com que habilidade D. Bohn, já no primeiro parágrafo, aludindo ao CONIC e mencionando a visita a um célebre templo budista, seguido de relaxante almoço, com os suaves gracejos sobre pauzinhos, garfo e faca, esvazia o teor do documento, demonstrando às suas ovelhas a pouca ou nada importância que ele dá ao documento Dominus Iesus, em especial por este lembrar e confirmar que a Igreja Católica é a única depositária do Evangelho de Cristo?... O senhor não notou?...".

Não!...Realmente, eu não notara! ...e, seguindo as ovelhas de D. Bohn, com o almoço ecumênico, sem perceber, eu também engolira o tempero de que o documento do Cardeal Ratzinger não passava de mera opinião pessoal, ultrapassada, e que o ecumenismo devia ser levado adiante, conforme o exemplo do próprio D. Bohn, ao entrar num templo budista!...

Monsenhor V. D. Bene prosseguiu:

— "Pois é!... E logo após o almoço, como sobremesa, talvez o ápice da mensagem de D. Bohn: ele serve às suas ovelhas o templo budista, mostrando o aparente verdor desse pasto gnóstico!... Veja como, em duas linhas, ele resume e exalta para o dócil rebanho católico as maravilhas do silencioso e contemplativo ambiente budista!".

E, solene e lentamente, ele repetiu as três orações da entrada de D. Bohn no templo budista, como se estivesse pronunciando o demodé "Introibo ad altare Dei!...":

"Fiquei longamente em meditação no templo. As pessoas ficavam em silêncio diante da imagem de Buda e queimavam incenso. Tive certeza que se comunicavam com o Absoluto".

Após a meditativa pausa que sempre se segue a qualquer leitura solene, Monsenhor, como que saboreando o cardápio da sobremesa, prosseguiu:

— "Sob o aspecto pastoral, note que insinuações profundas em tão brilhante resumo do ambiente do templo budista!...Veja o senhor: com o odor do incenso, as ovelhas logo sentem o atrativo e apetitoso cheiro da pastagem budista, e tão deleitoso, que o próprio pastor, diante dela, com água... na alma, fica em longa meditação!.. Que piedade e ascetismo do nosso D. Bohn diante de Buda!... As ovelhas, seguindo o exemplo do seu pastor, piedosamente fecham os olhinhos, juntam as patinhas dianteiras...e pastam..."

Até Monsenhor, seguindo as ovelhas, também fechou languidamente seus olhos, talvez tentando saborear o que D. Bohn meditara tão longamente naquele templo, cujos adeptos não crêem em Deus, Uno e Trino, Eterno e Imutável, Todo Poderoso, Criador do céu e da Terra, nem em Jesus Cristo, Um só Seu Filho, Nosso Senhor...etc... e etc.,...fundamento do Antigo e do Novo Testamento,... de cuja Igreja ele, D. Bohn, é príncipe e pastor!...

Após o meditativo silêncio, Monsenhor V. D. Bene releu:

— "As pessoas ficavam em silêncio diante da imagem de Buda e queimavam incenso."!...".

Quebrei o silêncio, perguntando:

— "Monsenhor, as ovelhas de D. Bohn, acaso, sabem quem foi Buda?... Conhecem a doutrina gnóstica que ele difundiu?... Têm noção da sua oposição total aos ensinamentos de Cristo, transmitidos pelos Evangelhos e pela Sua Santa Romana Igreja? (Notei que Monsenhor franzia um pouco a testa sempre que eu, me referindo à Igreja Católica, usava aquela ordem de palavras: Santa Romana Igreja!... não sei por que!)

— "Lembre-se, meu filho", prosseguiu Monsenhor, "em matéria pastoral pós conciliar, não é preciso nos ocuparmos com doutrina, lógica ou qualquer coisa ligada à razão!.. O único fator realmente importante, ou melhor, o mais importante, que nos conduz à unidade ecumênica, é o Amor!... Só Amor nos une!... Pouco importa o que pensam ou em que acreditam os budistas, hinduístas, marxistas, luteranos, espíritas, curandeiros, macumbeiros, adivinhos, etc. ... todos, seremos um no Amor!...Aliás, o princípio budista é idêntico ao nosso princípio ecumênico: em todos seres há uma partícula divina, aprisionada na matéria, que fatalmente dela irá se livrar, integrando-se com todas as outras partículas, formando, assim, o Absoluto!..."

Realmente não conseguia entender nem, muito menos, aceitar a explicação do Monsenhor, por diversos motivos.Vinham-me à lembrança inúmeras passagens dos Evangelhos, e me perguntava:

Por que, na parábola do Bom Pastor, Nosso Senhor pastoralmente menciona o mercenário e o lobo?...Devemos crer ou não, neles?... Existem ou não?...

Por que, em outras passagens do Evangelho, N. Senhor diz: "Ninguém pode servir a dois senhores..." ou "Quem não está comigo, está contra mim..." ou, ainda, como Ele se referia aos falsos pastores de então: "Escribas e fariseus hipócritas!...".

Ele não disse que o bom pastor e suas ovelhas deveriam, por Amor, se aliarem ao mercenário e ao lobo,... seja filantrópica ou "filanlúpicamente", digamos assim!...Onde está o ecumenismo nas palavras de Cristo?

Nosso Senhor Jesus Cristo sempre e claramente condenou doutrinas erradas, visto que há só uma e única verdadeira, alertando os seguidores das falsas para o que lhes espera, caso não as abandonem!... O pecador, Ele o chama de pecador, mesmo quando nos ordena a amá-los, ou seja, a querer para eles o bem; e o maior bem que existe é Deus, Uno e Trino, e um só Seu Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, e não Buda, ou qualquer outra coisa similar. Portanto, amar os budistas e similares, imitando Nosso Senhor, é mostrar a eles que sua doutrina está errada, e que para salvarem suas almas preciosíssimas - pois foram criadas por Deus e remidas pelo Sangue de Cristo - é necessário que eles passem a crer e professar a doutrina de Cristo! Nisto deve constituir-se o tão badalado diálogo, a tão badalada abertura, e não em salientar às ovelhas católicas, implicitamente ou não, as "maravilhas" do pasto das falsas religiões, escondendo o lobo!

Enquanto eu pensava, Monsenhor comentava a última oração do segundo parágrafo: "Tive certeza que se comunicavam com o Absoluto".

Dizia Monsenhor:

—" Conclusão esplêndida!...Através do meditativo silêncio e do incensar uma estátua de Buda, D. Bohn teve a certeza que eles "se comunicavam com o Absoluto"! ...

Antes que ele prosseguisse, perguntei:

—"Monsenhor, ...teria D. Bohn, naquele momento de tão sublime recolhimento, também se comunicado com o tal Absoluto?...A quem, ou a que, D. Bohn se refere?

— "O senhor não entende!... – respondeu Monsenhor. D. Bohn está se referindo ao ... Amor!...à experiência do Amor que ele testemunhou e quer compartilhá-la com sua comunidade!... É como se ele dissesse às suas ovelhas: com AMOR, podeis vir pastar neste pasto budista, incensar esta estátua de Buda, diante dela meditar que eu, D. Bohn, seu pastor, vos certifico, se comerdes deste fruto, vós vos comunicareis com o Absoluto!"...

— "Mas... Monsenhor!... não haveria o perigo para as ovelhas de D. Bohn, despertadas e atraídas pelo "verdor" dessa grama, nela pastarem, e com ela engolirem também o veneno da visão gnóstica budista, que afirma que nada é estável, que tudo evolui, que a criatura é má... totalmente contrária aos ensinamentos de Cristo e da Igreja"?

— "O senhor conclui erradamente!... As ovelhas de D. Bohn sabem que não se deve radicalizar... que é preciso colher de cada religião, filosofia, seita, árvore ou capim, o que cada um tem de salutar e positivo que leva à fraternal CEIA universal, e quanto ao "Absoluto", veja com que perspicácia ele induz suas ovelhas a concluir que se trata do mesmo Deus que elas adoram, o mesmo Deus a que todas as religiões conduzem!...Por isso o documento "Dominus Iesus" tem uma falha conceitual, ao afirmar que só a Igreja Católica possui a verdade de Cristo! ... Isto o senhor entende"?

— "Entendo perfeitamente, Monsenhor!.. E é justamente por isso que não concordo com ele!... Diga-me, Monsenhor: o texto de D. Bohn atrai as ovelhas budistas ao aprisco de Cristo ou leva as ovelhas de Cristo ao aprisco de Buda?...".

Monsenhor franziu a testa, deixando revelar uma certa zanga...ecumênica!... Prossegui:

— "Fico ainda perplexo, Monsenhor, diante dos elogios, sempre implícitos, de D. Bohn à tradição budista, pois, em se tratando da Igreja Católica ele, e seus pares, só querem renovação, modernização, atualização e novidades!...".

"Exaltam a TRADIÇÃO dos ritos de tudo quanto é religião ou seita!... Preconizam seu RESGATE, caso ela tenha sido alterada, ou desculturada como, por exemplo, a dos índios do Brasil pelos primeiros missionários jesuítas, como afirmam"!...

"Quanto ao piedoso e contemplativo recolhimento da Igreja pré conciliar, que em nuvens de incenso e ao som do gregoriano elevava-se aos céus, Monsenhor sabe muito bem o que os "bohns" pastores pós conciliares dele fizeram!...

"Da antiga Santa Missa, por exemplo: de renovação do Sacrifício do Calvário, celebrada pelo sacerdote, sobre o ALTAR, com todo o recolhimento que a morte de Cristo envolve, transformaram-na em barulhenta comemoração da CEIA do Senhor, elaborada com a cooperação de ministros protestantes, presidida pelo ministro, verdadeiro festim diante da MESA, em que batuques, guitarras, pandeiros, gritaria de auditório de televisão, danças olímpicas etc e etc., substituíram o recolhimento e a meditação exigidos diante do milagre eucarístico da TRANSUBSTANCIAÇÃO! Agora é uma festiva e desrespeitosa assembléia do povo ao redor de uma MESA, semelhante a ritos luteranos! Tudo isso em nome do Concílio Vaticano II que, na realidade, se opôs à primeira proposta apresentada pelos liturgicistas em suas seções, sendo posteriormente imposta por Paulo VI!... O senhor sabe muito bem disto, não é Monsenhor"?...

"E que fizeram, ainda, com as congregações religiosas católicas voltadas à vida contemplativa? Só críticas, pois o momento exige AÇÃO e não COMTEMPLAÇÃO!...

"O mágico verbo RESGATAR só vale para reavivar, recuperar, retornar, ritos e cultos dos pagãos e idólatras! Pergunte a eles, Monsenhor: que tal RESGATAR a Missa que a Igreja sempre rezou, e que o Papa S. Pio V consolidou, em 1570?...Tenho certeza que o senhor sabe muito bem qual será a resposta!... Mesmo assim, o senhor, Monsenhor, não estranha tal atitude?"

Monsenhor guardou para si a resposta...!... Revolvendo seus papéis, balbuciando um "não é bem isso", ... prosseguiu a releitura:

"Monges e líderes cristãos tivemos cordiais diálogos sobre o papel das grandes religiões no mundo atual: cultivar a dimensão espiritual do ser humano, promover a convivência no respeito ao diferente, defender a paz, os direitos humanos e a ecologia".

Resolvi eu mesmo continuar:

— "Veja, agora, Monsenhor!... Nosso Senhor Jesus Cristo nos recomendou a todos e, em especial, aos que devem ensinar: ..."seja o vosso falar sim, sim; não, não!" ... Pois D. Bohn faz justamente o contrário: coloca num só balaio vagos monges e líderes cristãos, refere-se a vagos cordiais diálogos sobre o vago papel das grandes religiões (vago) no mundo atual..."

— "Mas ele cita os temas sobre o que dialogaram!" ... cortou-me Monsenhor...

— "Sim, Monsenhor... mas sempre vagamente! ... O que quer ele exatamente dizer com "cultivar a dimensão espiritual do ser humano" ... O senhor sabe?.. Suas ovelhas sabem?... Realmente, Monsenhor, é a primeira vez que me deparo, com tão engenhosa frase"! ...

"O que significa, Monsenhor, "promover a convivência no respeito ao diferente"?...será que ele vai aplicar essa frase aos meus comentários, e me incluir na sua igreja universal ecumênica, embora dela eu não queira fazer parte?

"Quanto ao último tema dos diálogos a que D. Bohn, se refere, "defender a paz, os direitos humanos e a ecologia"! ...qualquer candidato à presidência de sociedade de bairro usa da mesma profunda frase para, logo após, ouvir os esperados efusivos aplausos!...

"Que pensarão as ovelhas de D. Bohn, diante de diálogos tão claros e "profundos", tão "diretamente" voltados à salvação das almas?... Que pensará Deus – não Buda – dessa preocupação de D. Bohn?... Que teriam dito d. Bohn e seus pares sobre defender a paz, os direitos humanos e a ecologia?

"Quanto à paz, Monsenhor, dizia S. Gregório Nazianzeno: "Voluntas Dei, pax nostra," e não a vontade dos homens, naturalista, voltada somente para a vida material, como expressada na falácia atéia, liberal e revolucionária, conhecida como "O Direito dos Homens" que, colocando Deus totalmente fora da nossa vida, só trouxe guerras e destruição nos tempos que lhe seguiram!... Como é possível paz sem ordenar as almas e as ações dos homens para cumprir o direito de Deus, expresso na sua Lei?.. Como é possível estabelecer-se a paz no aprisco, dizendo às ovelhas que não há lobos e mercenários?

"Agora, nesta fase pós conciliar, d. Bohn e todos os atuais Modernistas querem nos impor a religião do homem, para o homem, pelo homem, em que o Amor, totalmente natural e filantrópico, desprovido da caridade, é apresentado como o "novo deus", que nos conduzirá à Nova Era, em que reinará a eterna paz na terra, ... sem o Glória a Deus nas alturas !"

Monsenhor estava cada vez mais ecumenicamente carrancudo!

—" Quanto à preocupação ecológica de d. Bohn e dos seus pares..."

Monsenhor não me deixou concluir, avisando-me que o aeroporto de Nova Delhi se aproximava. Contudo, ainda sobre o artigo de d. Bohn, comentou:

—"Porém, comparado à publicação de Leonardo Boff, o senhor há de convir que a de D. Bohn é mais equilibrada! O senhor não acha?... Leonardo Boff foi muito violento!"...

—"Monsenhor! Ambos, Boff e Bohn, dentro da estratégia dos Modernistas atuais, cumpriram com o que suas posições lhes impõem: Boff, fora do aprisco de Cristo, ataca clara e violentamente a hierarquia vaticana; D. Bohn, dentro do aprisco, escamoteia, camufla e aproveita-se insidiosamente do próprio documento, para "esvaziá-lo" e promover o Ecumenismo! ... Ou seja, Boff , fora da Igreja, "puxa" o rebanho para o lobo... D. Bohn, dentro da Igreja, o "empurra!...

"No fundo, ambos, Boff e Bohn, como todos os antigos e atuais Modernistas, "everi bode" - como se diz na minha terra - todos, aparentemente em campos diferentes, charqueiam no mesmo pântano, querendo o mesmo destino para a Igreja de Cristo!... Por isso, eles nunca se atacam! ...Os d. Bohns de hoje serão os Boffs de amanhã!...

"E mais, Monsenhor: D. Bohn nem teve a pastoral ombridade de ser claro com suas ovelhas: ele não emitiu sua própria opinião sobre o documento; porém, escondendo-se corajosamente atrás do ecumênico tapume do CONFIC, ele se limitou a reproduzir o parecer emitido por aquela esdrúxula entidade "cristã-luterana"...contrária, claro, ao documento do Vaticano"!

Monsenhor me olhava pensativo e com ecumênica raiva! ... Prossegui:

—"E mais, Monsenhor! No Evangelho de S. João, capítulo 10, -----, Nosso Senhor diz que o mercenário ao ver o lobo, foge... !... D. Sinésio, o Bohn, não foge!... Pelo contrário, ele tem a ousadia de apresentar o lobo às ovelhas! ...incensando seus aspectos positivos! Que dirá Nosso Senhor Jesus Cristo no juízo particular, a todos os bohns pastores de hoje que assim procedem?... A propósito, Monsenhor: eles acreditam no juízo particular?..."

—"O senhor está exagerando! Afinal de contas ele não recomendou ao seu rebanho de se tornar budista... ele elogiou aspectos positivos do budismo que levam ao diálogo".

—"Pois é essa a questão do badalado diálogo! ... Palavra que, magicamente hoje, significa não só não temer doutrinas opostas à doutrina da Igreja, mas, pior, aceitá-las como verdadeiras!...

"Diga-me, Monsenhor, com toda a lealdade de bom pastor: as afirmações de D. Sinésio, o Bohn, mostram aos budistas que a religião deles é falsa? ... Elas trazem os budistas para o seio da Igreja Católica, ou podem arrastar os católicos ao budismo"? ...

Pousamos no aeroporto de Nova Delhi, etapa da nossa visita ao ashran (mosteiro) beneditino, em que, sobre o altar da igreja, Nosso Senhor Jesus Cristo é representado como Buda e a Santíssima Trindade com os rostos de Brahma, Shiva e.Visnu... ..! Os senhores não acreditam que isso existe?...Vejam onde chega o Ecumenismo Modernista, promovido, infelizmente, por muitos bohns pastores! ...E não ficará só nisso...irá bem mais longe!... bem mais longe!...

Monsenhor V. D. Bene, caminhando ao meu lado em direção ao ônibus que nos aguardava, ainda comentou:

—" Mas, no final, D. Bohn conclama seus fiéis a serem firmes na nossa fé..."

— "Em que ,... Monsenhor?...".

Acordei!

MF
Nov. 2000


    Para citar este texto:
"O "Bohn" pastor"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/cronicas/bohn/
Online, 24/03/2017 às 12:51:28h