Crônicas

Em Orvieto... gafes de um catedrático. Sete cartas anti-românticas V
Orlando Fedeli


Jorge, meu pacientíssimo amigo,

Esperava que este fosse o último dos comentários que faria dos artigos do imortal e romântico profeta inerrante, quando, por um telefonema, soube que outros estavam me chegando, mandados por você, desde a Bahia, pedindo meus comentários.

Paciência !...

O artigo que tenho, agora, diante de mim, para comentar, trata da belíssima Catedral de Orvieto, que Deus me permitiu contemplar já tantas vezes, sentado num banco em frente à sua fachada, que tanto lembra uma dourada iluminura dos livros medievais.

A fachada é riquíssima. O artigo, pobre. Pobre e errado. Meu comentário, curto. ...espero..., mas temendo sempre minha prolixidade incorrigível.

Creio - ou espero - que pagarei no purgatório esta minha prolixidade. Portanto, o que você paga, já agora, tendo que ler meus longos e pedestres comentários, eu pagarei, depois, no purgatório. Deus o vingará, prezado Jorge.

O que mais me espantou neste artigo é que ele revela como era parco o conhecimento que seu autor tinha de arte, pois que ele comete erros muito grosseiros de apreciação.

Já notara como ele, muitas vezes, fingia erudição, mas o que transparece, neste artigo, realmente me surpreendeu. Não o imaginava tão desconhecedor de estilos, e nem tão superficial e descuidado. Afinal, ele foi professor catedrático de duas Faculdades de História...

Eu sei, eu sei... Foi professor por nomeação apenas, e não por concurso, eu sei. Nas duas vezes, por nomeação política, é verdade...

Mas ele era uma pessoa bem inteligente, e viajara várias vezes à Europa. Certamente visitou Orvieto. Possuía ricas bibliotecas, com muitos livros à sua disposição. Supunha eu, então, que ele tivesse um conhecimento mais abalizado dos estilos da arquitetura medieval italiana.

Além disso, ele contava com um verdadeiro exército de auxiliares, que pesquisavam para ele toda a documentação e dados necessários, a fim de que seus artigos manifestassem um grande conhecimento. E havia uma equipe competente para corrigir seus textos, para que saíssem sem falhas, nem gafes.

Se de Bayard era dito -- um tanto falsamente -- "le chevalier sans peur et sans reproche",nosso inerrante autor queria ser o comentador sem erros e sem deslizes.

Fracassou. Errou e escorregou.

Assim como a imortalidade dele dava muito trabalho a seus médicos e exigia muitos remédios, sua inerrância impunha a assistência de uma comissão de redação que se esfalfava para fazer seus textos ficarem livres de despautérios. Mormente nos seus últimos anos de imortalidade, o trabalho dessa comissão cresceu muito. Ele dormitava, ao ditar seus artigos... E seus leitores dormitavam, ao lê-los.

Eram cochilos devotos...

No artigo que tenho diante de mim, parece que também sua comissão de redação foi contagiada por esse mal da mosca tsé tsé e..."dormiu no ponto". Devotamente. Pois não só ele cometeu muitos erros, mas os próprios corretores do inerrante autor engoliram erros primários.

Teria sido por inadvertência ? Por cansaço ? Por devoto cochilo? Ou por bajulação ?

Era preciso ter uma certa coragem para se atrever a corrigir um autor que se acreditava inerrante... E lá, na seita, dar apenas um vago sinal de que se ousava desconfiar de um equívoco do "profeta" era já motivo de excomunhão. Era crime de lesa profetismo. Era traição à vocação... Um profeta inerrante não pode cometer nem erros, nem equívocos ! Nem ter falhas, nem deslizes. Nem gafes, nem escorregões.

Hélas !.. ele os teve ...nesse, e em outros trabalhos.

O artigo dele que hoje vou comentar, como de costume, está na página 26 da revista, --"aquela" -- a única no mundo que tem o nome de um homem, como título.

Logo no segundo parágrafo, ele diz que as catedrais góticas eram feitas normalmente de granito.

" (...) o granito cinzento de que em geral são feitos aqueles edifícios (...)".( Revista Dr. Plínio, ano I, No.6, Setembro de 1998, p.26. A foto da Catedral de Orvieto, analisada no artigo está na contra capa interna dessa revista, a que seria a página 27. É sobre esta foto que se baseou o autor do artigo).

Ora, as catedrais góticas européias, normalmente, não foram feitas de granito. Os medievais utilizavam, normalmente, uma pedra de natureza calcária, mais branda e mais fácil de trabalhar do que o granito. Pedra, aliás, que nada tem de cinzento. É um erro de natureza geológica bem perdoável num advogado - que bem pouco advogou - e num professor de História nomeado, que muito se equivocou.

Na realidade, ele cometeu esse erro, porque viu as catedrais ainda escurecidas pela poluição moderna. Se as tivesse visto, hoje, quando elas foram limpas por processos técnicos complexos, que recuperaram a limpeza original da pedra, -- (embora alguns digam que as fachadas das catedrais eram pintadas, mas, aqui, falo só da cor das pedras) -- talvez ele não cometesse esse erro primário de confundir o escuro da poluição com a cor do granito

Bem mais grave para um catedrático universitário de História é o que ele diz um pouco mais abaixo, na mesma coluna:

"Nela -- [na Catedral de Orvieto] - se distingue uma feeria de cores sobre uma fachada estritamente gótica. Nada há ai que não acompanhe esse estilo, com exceção do quadrado em que se insere a rosácea, o qual lembra algo do clássico".

Nessa frase há vários erros clamorosos. Especialmente absurda é a afirmação de que na fachada da Catedral de Orvieto nada há que não seja gótico. Essa seria uma gafe imperdoável na pena de qualquer professorzinho de História em ginásio de subúrbio, mas na pena de um Profeta inerrante e de um erudito sabe-tudo, catedrático em várias Faculdades de São Paulo, é em erro escandaloso.

Pois há vários elementos que não são do estilo gótico na fachada de Orvieto, e o que ele diz que nela não é gótico -- o quadrado onde está inserida a rosácea-- este, sim, é um elemento característico desse estilo.

A fachada da catedral de Orvieto não é "estritamente gótica", porque, por exemplo, o portal central é românico. Como são românicos os arcos interiores, que o autor deveria ter levado em conta, para definir o estilo do edifício. E o portal central de Orvieto é românico, quer por seu arco de meio ponto, quer por sua estrutura de colunetas e arcos plenos encaixados.

Os mosaicos que ornamentam e dão brilho e colorido à fachada da Catedral de Orvieto são de origem bizantina e não góticos. No gótico, nunca se empregaram mosaicos.

Ao contrário do que afirma o inerrante autor, o quadrado em que está inserida a rosácea é elemento normal do estilo gótico. Um quadrado, com a rosácea inscrita nele, pode ser visto, por exemplo, na fachada da Catedral de Amiens, e, ainda mais claramente, na fachada da Catedral de Estrasburgo.

Também as finas colunetas espiraladas dos portais de Orvieto não são propriamente góticas, pois nesse estilo empregavam-se colunas cilíndricas ou fasciculadas, e não colunas salomônicas, torcidas.

Só no final do gótico flamboyant, por influência já do "desmoronamento" provocado pela filosofia nominalista de Ochkam, assim como pelo Humanismo do Renascimento, é que apareceram as primeiras colunas torcidas em igrejas góticas, como no transepto sul de Saint Nicolas du Port, por exemplo.

Portanto, o autor inerrante errou rotundamente em seus comentários sobre a fachada de Orvieto.

E, desta vez, os erros não foram geológicos, e sim estilísticos. Há ainda outros erros secundários. Por exemplo, diz ele a certa altura:

"Já no pavimento térreo da Catedral, tanto dentro quanto fora das ogivas acima das portas laterais, como também no tímpano da porta central, aparecem grupos de figuras humanas, também elas coloridas" (Art. cit., p.. 26, 2 a coluna).

Nesse pequeno parágrafo, há quase tantos erros quanto linhas.

Em primeiro lugar, o autor errou dizendo que "no pavimento térreo da Catedral" há ogivas etc.

Como é que no pavimento pode haver ogivas ? Em vez de "pavimento térreo", ele deveria ter dito: "na parte inferior da fachada". Pavimento térreo, poderia designar, o andar térreo de um edifício de vários andares, e que é assim chamado, para distinguí-lo dos andares superiores.

Ora, na Catedral de Orvieto, não existem vários andares, e, por isso, não cabe falar em "pavimento térreo". E pavimento, propriamente, é o chão, e, no chão, não há, e nem podem existir ogivas.

O que há na parte inferior da fachada da Catedral de Orvieto são dois portais laterais com arcos ogivais, ladeando o portal central românico.

Em segundo lugar, ele afirma que " tanto dentro quanto fora das ogivas, acima das portas laterais" ... "aparecem grupos de figuras ...", etc.

Evidentemente, ele está se referindo às figuras dos mosaicos colocados acima dos portais da fachada. Ora, esses mosaicos só estariam dentro dos portais de arcos ogivais, em seus tímpanos, Mas nos tímpanos dos portais ogivais de Orvieto não há nada pintado, e nem há mosaicos. Os dois portais laterais ogivais de Orvieto possuem altos tímpanos ornamentados por longos e finos arcos ogivais entre cruzados.O mesmo entrecruzamento de arcos ogivais muito finos, na foto publicada pela revista citada e analisada pelo autor, aparece também no tímpano do portal central.

(Nas fotos mais recentes da fachada da Catedral de Orvieto, se vê que foram colocadas algumas esculturas no tímpano do portal central, e que não aparecem na foto-- um tanto mais antiga -- publicada na revista citada ).

Os mosaicos de Orvieto, então, não estão dentro das ogivas, porque em portais ogivais, mosaicos só poderiam ser postos nos tímpanos, e em Orvieto, os tímpanos não tem mosaicos. Nas janelas ogivais das Catedrais góticas, normalmente os arcos são vazios, sem tímpano, e, no vazio, nada pode ser posto.

Na verdade, por ogiva com mosaicos, o inerrante autor quis designar o espaço interior do "glabre", assim como chamou de "fora das ogivas" as superfícies triangulares exteriores a esses "glabres", na parte inferior da fachada.

["Glabre" era o nome que se dava ao desenho formado por duas molduras, postas em ângulo, sobre o arco ogival de um portal. Tais "glabres" podem ser vistos, nos portais da fachada da Catedral de Reims].

Em terceiro lugar, ele errou ao chamar de tímpano o espaço do "glabre" central. Ele parece não saber o que é o tímpano de um arco, pois o confunde com o "glabre".

Errou também ao dizer que "também no tímpano da porta central, aparecem grupos de figuras humanas, também elas coloridas".

Isso também está errado. O que há no tímpano do portal central -- nas fotos mais recentes, não naquela que ele analisou e que foi publicada na revista citada -- é uma escultura de Nossa Senhora sentada num trono, com o menino Jesus no colo, e ambos sob um dossel de estilo já clássico, dossel cujo cortinado é seguro por anjos e essas esculturas não são coloridas .Mas este erro dele pode ter sido causado pelo fato de ele ter que comentar uma fotografia da Catedral, que não deixava muito claras as esculturas existentes no tímpano do portal central. ( Na foto publicada na revista citada, não aparece nenhuma figura esculpida no tímpano do portal central).

Á tout péché miséricorde...

Comentando apenas a fachada dessa Catedral italiana, o autor não fez referência aos elementos interiores dela que certamente o teriam ajudado a não cair em tantos erros de apreciação arquitetônica, assim como a constatar que esse edifício não é estritamente gótico. Por exemplo, a alternância de pedras claras e escuras, que listram as colunas e arcos românicos no interior da Catedral, são um modo de ornamentar, típico dos edifícios românicos italianos, influenciados, aliás, pelos árabes. Só no fundo da nave central aparece uma janela ogival gótica.

A chamada Capela Nuova delle Madona ou de San Brizio, tem abóbadas em arestas e não propriamente em cruzamento de arcos. Das pinturas interiores, algumas apenas foram feitas pelo chamado Fra Angélico, e as demais por Luca Signorelli, e todas elas são já renascentistas. As de Luca Signorelli apresentam figuras humanas dignas de academias de ginástica atuais, exibindo músculos e corpos desnudos, nada medievais.

É o que acontece quando alguém romanticamente se deixa levar pela imaginação e pelo sentimento, ao invés de se guiar pela razão que exige estudo acurado do que se analisa.

E creio que basta.

Se minha carta, desta vez, foi curta - você vê como o temor do purgatório faz bem ! -- o "pecado" dela talvez seja o de ser um tanto didática demais. Como a de um professor que está acostumado a corrigir provas de alunos. Mas a culpa disso foi, de um lado, de quem escreveu um comentário ginasiano. De outro, de meus quarenta anos de magistério, corrigindo provas de alunos.

Foram eles, esses quarenta anos, que me vieram á ponta da caneta, quando ela se encontrou com um artigo que, por ser tão bisonho, a fez recordar-se das provas ginasianas pelas quais ela outrora escorria, rabiscando xis, mais ou menos indignados.

Haveria ainda outros reparos a fazer. Mas... "non raggionam di loro..."

Basta o que dissemos para comprovar a falácia da inerrância do imortal profeta... menor. E para reprovar a sua escolar composição.

"Qui fait l 'ange, fait la bête ", diz o provérbio. Quem quer bancar o anjo, acaba por se mostrar... "bête" ! Isto é , pouco racional.

Quem quer se proclamar inerrante, erra já nessa mesma afirmação absurda.

Quanto mais comentando uma complexa fachada de Catedral, como a de Orvieto, sem examinar o edifício inteiro, e sem conhecer realmente de que elementos se constitui o gótico, esse esplêndido estilo medieval.

E se também eu errei em algo, perdoe-me, que eu, pelo menos, pecador e errante me confesso...

Aceite um abraço de seu amigo que muito está se divertindo, por ver um pretensioso punido por si mesmo.

In Corde Jesu, sempre seu amigo, Orlando Fedeli


    Para citar este texto:
"Em Orvieto... gafes de um catedrático. Sete cartas anti-românticas V"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/cronicas/antiromantica5/
Online, 26/04/2017 às 05:05:28h