Ciência e Fé

O que defendia Galileu?
Rogério Sassonia


Parte da resposta a esta questão, e a mais divulgada, é o sistema copernicano. Defender o sistema copernicano significava defender que a Terra não está imóvel, nem no centro do mundo, mas que se move em torno de si mesma e que o Sol é o centro do mundo, e totalmente imóvel de movimento local. Galileu defendia, entretanto, outras idéias, que, analisadas cuidadosamente, não somente revelam marcadamente seu pensamento, como mostram-se determinantes na sua condenação pelo Tribunal do Santo Ofício em 1633.

Pietro Redondi, em seu livro Galileu Herético, mostra que o verdadeiro motivo de sua condenação foram as implicações teológicas de suas idéias a respeito da constituição da matéria.1 Redondi destaca que os trechos da Escritura concernentes ao problema do movimento do Sol não eram nem tão numerosos nem tão importantes, e de resto, nenhum concílio havia jamais estipulado o geocentrismo como verdade de fé. No mais, o Cardeal São Roberto Bellarmino, o mesmo que advertiria Galileu oficialmente no palácio do Vaticano em 1616, numa carta ao padre Foscarini, que publicara uma teoria sobre a concordância entre o heliocentrismo e a Escritura, não rejeita o heliocentrismo, mas, diz que não acreditaria numa demonstração do heliocentrismo, até que esta lhe fosse mostrada:

Em terceiro lugar, eu digo que se houvesse uma demonstração verdadeira de que o Sol está no centro do Mundo e a Terra no terceiro Céu, e que o Sol não circula a Terra mas a Terra circula o Sol, então, teria-se de proceder com grande cuidado em explicar as Escrituras, na qual aparece o contrário. E diria antes que nós não as entendemos do que, o que é demonstrado é falso. Mas, eu não acreditarei que exista tal demonstração até que esta me seja mostrada”.2Uma coisa é provar que se salvam as aparências supondo que o Sol está no centro do Mundo e que a Terra está no Céu; outra coisa é demonstrar que na verdade o Sol está no centro do Mundo e a Terra no Céu. Creio que a primeira demonstração pode ser dada; mas duvido muito da segunda; e, em caso de simples dúvida, vós não deveis abandonar a Escritura tal como ela foi exposta pelos Santos Padres. . .”.3

Como salienta Paolo Rossi, “o sistema copernicano foi muitas vezes apresentado por Galileu como a única alternativa possível ao sistema ptolomaico, não faltam passagens em que os dois sistemas são apresentados como contraditórios: as ‘razões’ que mostram a insustentabilidade do segundo parecem suficientes para confirmar a validade do primeiro”.4 Continuando, Rossi afirma que “a não poucos contemporâneas de Galileu pareceu que as provas e as experiências aduzidas em favor de Copérnico comportassem o necessário abandono da astronomia ptolomaica, mas não eram suficientes para fundamentar a verdade do sistema copernicano. Nesta convicção - além da real ausência de provas 5 - eles eram auxiliados pela existência de um terceiro sistema do mundo (o de Tycho Brahe), que gozou de notável fortuna até a metade do século XVII. O seu sistema geostático (a Lua, o Sol e as estrelas fixas giram em torno da Terra; os cinco planetas giram em torno do Sol) não parecia refutável por observações empíricas; destruía na raiz a crença milenar nas esferas cristalinas e a teoria aristotélica dos cometas; confirmava as vantagens teóricas do copernicanismo ao qual era matematicamente equivalente: parecia excluir todas as ‘dificuldades’ ligadas à tese do movimento da Terra”.6

Destas dificuldades que se opunham a toda hipótese não-geocêntrica comenta também Koyré: “ora, para a física antiga, o movimento circular (de rotação) da Terra, no espaço, se afigura - e devia afigurar-se - como oposto a fatos incontestáveis e em contradição com a experiência cotidiana; em suma, como uma impossibilidade física”.7

Por sua vez, a prudente vigilância das especulações do sistema copernicano pela Igreja fazia-se necessária, dado o significado religioso e mágico que lhe era atribuído pelos filósofos herméticos, como comenta Eliade: “um resultado extremamente surpreendente da pesquisa contemporânea [...] foi a descoberta da função importante que a magia e o esoterismo hermético exercera, não só durante a Renascença italiana, mas também como fator de influência no triunfo da nova astronomia de Copérnico, ou seja, da teoria heliocêntrica do sistema solar. [...] O fato de Giordano Bruno ter recebido entusiasticamente as descobertas de Copérnico não se deveu em primeiro lugar à sua importância científica e filosófica, mas ao fato de ter ele compreendido o profundo significado religioso e mágico do heliocentrismo. Enquanto estava na Inglaterra, Bruno profetizou a volta iminente da religião oculta dos antigos egípcios, conforme expressa em Asclepios, um texto hermético famoso. Bruno se sentia superior a Copérnico, porque, enquanto o último via sua teoria exclusivamente do ponto de vista matemático, o primeiro podia interpretar o diagrama celestial de Copérnico como um hieróglifo dos mistérios divinos”.8

Galileu, por sua vez, desde suas primeiras obras, interessava-se pelas perspectivas renovadoras do atomismo em física. Sua obra Il saggiatore (O ensaiador), publicada no final de 1623, oferecia uma teoria corpuscular de todos os fenômenos perceptíveis, exceto os do som, aos quais estava reservada uma interpretação de caráter ondulatório. Mas, de resto, o mundo dos sentidos era visto como um intenso movimento de partículas de matéria. Galileu formulava a hipótese de uma teoria corpuscular da luz, como ele já havia feito e fazia ainda para a natureza do calor e a estrutura dos sólidos e dos fluidos. O termo filosófico átomos era reservado somente para a luz. O calor e as partículas dos outros elementos, ou dos corpos, eram designados de várias formas: “partículas ígneas”, “minima ígneos”, “minima sutilíssimos”, “minima quant”.

Galileu alinhava-se ao atomismo grego, defendendo uma posição que concorda com o fragmento de Demócrito “por convenção é o doce, por convenção é o frio, por convenção a cor; na realidade, só existem átomos e vazio”. Galileu distinguia entre as “qualidades secundárias”, a saber, cores, odores, sabores, sons etc., que só possuiriam uma existência assegurada pela subjetividade perceptiva, não sendo mais do que “nomes”, e as “qualidades primárias”, a saber, forma, figura, número, contato e movimento...”.9 Segundo, Galileu, a percepção da cor, do odor, do sabor, chamados acidentes da matéria, se daria mediante a aplicação de partículas mínimas “substancias” a nossos sentidos, que, segundo a diversidade dos contatos e das diferentes conformações dessas partículas mínimas, lisas ou rugosas, duras ou macias, e segundo sejam poucas, ou numerosas, nos estimulam e penetram de diversas maneiras.

No século XVII, devido à histórica contestação pela Igreja Católica da heresia nominalista, “cor, odor, e sabor” eram palavras da linguagem teológica e designavam antes de qualquer coisa o milagre eucarístico. Um exemplo da preocupação com relação a explicação dos acidentes eucarísticos pode ser visto numa carta de 1630 de Descartes ao padre Mersenne:

Creio que vos enviarei esse discurso sobre a luz, assim que estiver pronto, e antes de enviar-vos o resto da Dioptrique: porque querendo aí explicar as cores a minha moda, e em conseqüência estando obrigado a explicar como a brancura do pão permanece no Santo Sacramento, ficarei mais à vontade se ele for examinado por meus amigos, antes que seja visto por todo mundo”.10

Traduzir na gramática da física do Saggiatore o dogma eucarístico significava contradizer o Concílio de Trento que estabeleceu a permanência milagrosa da cor, sabor, odor e dos outros acidentes sensíveis do pão e do vinho após a consagração, que transforma toda a sua substância em Corpo e Sangue de Cristo. Interpretar esses acidentes como quer o Saggiatore, isto é, com as “partículas mínimas” de substância, significava que mesmo após a consagração, seriam partículas da substância do pão eucarístico que produziriam essas sensações. Restariam assim, partículas de substância do pão na Hóstia consagrada, o que é um erro condenado pelo Concílio de Trento.

Por este motivo Galileu foi denunciado. O papa Urbano VIII, para livrar o mais importante cientista católico e seu amigo pessoal de uma condenação por uma heresia grave contra a fé, e evitar, assim, um escândalo maior, criou pessoalmente uma comissão especial para cuidar do caso, medida que até então era tomada somente em casos de excepcional gravidade, mas sobretudo de natureza teológica difícil.

Galileu fora, então, condenado pelo Santo Ofício por heresia inquisitorial, ou seja, disciplinar, não teológica, por haver sustentado e acreditado numa doutrina, após repetidas negações formais perante a autoridade eclesiástica, em outras palavras, Galileu era condenado por alta traição. Por isso, foi condenado à penitência e a prisão perpétua. Por ordem do papa, pode instalar-se na residência do embaixador florentino e, em seguida, cumprir a pena sob a forma de prisão domiciliar em sua casa de Arcetri.

A descoberta de Redondi pode surpreender a mentalidade moderna, afastada de questões teológicas, mas, o que surpreendia, naquela época, era a condenação de Galileu pela teoria do movimento da Terra, como surpreendera Descartes, que expressa sua surpresa numa carta enviada ao padre Mersenne poucos meses depois da condenação:

foi, em outros tempos [a teoria do movimento da Terra], censurada por algum cardeal, mas me parecia ter ouvido dizer que, posteriormente, não se impedia que ela fosse ensinada publicamente, inclusive em Roma”.11

Na recente tradução para o português do Dialogo sopra i due massimi sistemi del mondo tolemaico e copernicano (GALILEU, 1632) Mariconda apresenta, na nota cinqüenta e sete da Primeira Jornada, argumentos visando refutar Redondi. A saber, que Galileu, na sua obra posterior Discorsi e dimostrazioni matematiche intorno a due nuove scienze (1638), continua sustentando, em particular na Primeira Jornada, uma concepção atomista da constituição da matéria, mas não contém qualquer referência ao copernicanismo ou ao movimento da Terra.12

Primeiramente, é preciso ressaltar que foi exatamente a descontinuidade da teoria atômica apresentada nos Discorsi em relação as obras galileanas anteriores que motivaram Redondi a desenvolver seu trabalho. O que pode ser verificado logo no primeiro capítulo do seu livro, que por isso foi intitulado “substituição de teoria”:

Também a propósito da mais sutil resolução atômica da matéria luminosa, o Saggiatore mantinha a noção de atomicidade bem próxima de uma idéia materialista. Agora [nos Discorsi] não mais. Mas, como dissemos, no Saggiatore Galileu jogara com cartas abertas e as cartas nem sempre eram boas. Nos Discorsi, ao contrário, ele trocava as cartas na mesa e cortava subitamente as pontes com o que havia de materialismo e de atomismo clássico em sua obra anterior.”13

Redondi apresenta como prova da mudança da teoria apresentada nos Discorsi, a substituição conceptual do termo “’átomo”. “Galileu apresenta uma teoria matemática da matéria. Seus constituintes são “partes sem quantidade”, ou seja, desprovidas de extensão, portanto “indivisíveis”, desprovidas de dimensão e de forma. Ele os chama “átomos sem quantidade”, mas na verdade são pontos matemáticos. Estamos na abstração matemática, não estamos mais no mundo material da física.”14

Outra prova é a correspondência privada de Galileu, na qual ele “dava provas de não querer mais ouvir falar de suas antigas opções filosóficas corpusculares, pronunciando-se em profissões de declarado fenomenismo científico que pareciam não admitir réplicas, mas que deixavam boquiabertos seus interlocutores.”15 Num debate epistolar com Fortunio Liceti, professor de filosofia e medicina na Universidade de Bolonha, Galileu dissocia-se de qualquer interpretação materialista da luz que lhe pudesse outrora ter sido atribuída:

Admira-me que o senhor afirme, por uma alusão feita pelo filósofo Lagalla, que eu haja considerado a luz como sendo uma coisa material corpórea.”16

Quanto à defesa do copernicanismo nos Discursos o atesta Timpanaro “...os Discursos [Discorsi] não são menos copernicanos do que o Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo [...] E isso porque aprofundam e consolidam aquelas leis da mecânica que Galileu havia usado para rebater e refutar as objeções de tipo precisamente mecânico (como, por exemplo, a queda vertical dos graves) apresentadas contra o copernicanismo.”17

Por tudo isto, longe de ser uma perseguição a uma teoria científica, o caso Galileu mostrou-se uma questão de ortodoxia católica. A Igreja, pelo contrário, muito bem representada pela astronomia jesuítica, dava exemplos de sua despreconceituosa atitude científica, como quando, diferentemente do que pensava Aristóteles, o padre jesuíta Orazio Grassi situou corretamente a posição dos cometas ou, quando reconhecera oficialmente as descobertas do Siderius Nuncius (1610) e das manchas solares.

Agora, esclarecida sua acusação, entende-se porque Galileu teria resmungado a lendária frase que lhe é atribuída no final do seu julgamento “E pur, si muove!”, (E todavia, move-se!).

 

Referências:

1. REDONDI, P. Galileu Herético. São Paulo, Companhia das Letras, 1991.

2. Carta do Cardeal São Roberto Bellarmino ao padre Foscarini, 12 de abril de 1615. Na Internet: http://galileoandeinstein.physics.virginia.edu/lectures/gal_life.htm

3. Carta do Cardeal São Roberto Bellarmino ao padre Foscarini, 12 de abril de 1615; apud DUHEM, P. Salvar os fenômenos: ensaio sobre a noção de teoria física de Platão a Galileo. Trad. Martins, R. A. Cadernos de História e Filosofia da Ciência. Campinas, Supl. 3, p. 98, 1984. Do original: Essai sur la notion de theorie physique de Platon a Galilée.

4. ROSSI, P. A ciência e a filosofia dos modernos: aspectos da Revolução Científica. São Paulo, Universidade Estadual Paulista, 1992, p. 191.

5. KOYRÉ, A. La révolution astronomique: Copernic, Kepler, Borelli. Paris, Hermann, 1961.

6. ROSSI, P. A ciência e a filosofia dos modernos: aspectos da Revolução Científica. São Paulo, Editora da Universidade Estadual Paulista, 1992, p. 191-192.

7. KOYRÉ, A. Études d’histoire de la pensée scientifique. Paris, Gallimard, 1973, p. 91; apud ÉVORA, F. R. R. A revolução copernicano-galileana: astronomia e cosmologia pré-galileana. Campinas, Unicamp, p. 54-55.

8. ELIADE, M. Ocultismo, bruxaria e correntes culturais: ensaios em religiões comparadas. Belo Horizonte, Interlivros, 1979, p. 63; apud YATES, Frances A. Giordano Bruno and the hermetic tradition. Chicago, 1964.

9. GALILEI, G. Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo ptolomaico e copernicano. Tradução, introdução e notas de Pablo Rubén Mariconda, São Paulo, Discurso Editorial, 2001.

10. Carta de Descartes ao padre Mersenne, 25 nov. 1630, A-T, I, p. 177-82, em particular p. 79; apud REDONDI, P. Galileu Herético. São Paulo, Companhia das Letras, 1991, p. 314.

11. ADAM, C.; TANNERY, P. Oeuvres de Descartes. Paris, Librairie Philosophique J. Vrin, 1969, V. 1, p. 271; apud REALE, G.; ANTISERI, D. História da filosofia: do humanismo a Kant, São Paulo, 1990, V. 2, p. 274.

12. Nota de Pablo Rubén Mariconda na introdução da obra Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo ptolomaico e copernicano. Trad. Mariconda, P. R. São Paulo, Discurso Editorial, 2001, p. 589. Do original: Dialogo sopra i due massimi sistemi del mondo tolemaico e copernicano.

13. REDONDI, P. Galileu Herético. São Paulo, Companhia das Letras, 1991, p. 27.

14. Ibidem, p. 26.

15. Ibidem, p. 27.

16. Carta de Galileu a F. Liceti, 25 de agosto de 1640; apud REDONDI, P. Galileu Herético. São Paulo, Companhia das Letras, 1991, p. 373.

17. Apud REALE, G.; ANTISERI, D. História da filosofia: do humanismo a Kant, São Paulo, 1990, V. 2, p. 275.


    Para citar este texto:
"O que defendia Galileu?"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/ciencia/galileu/
Online, 24/06/2017 às 12:29:19h