Ciência e Fé

Eugenia: o pesadelo genético do século XX. Parte II: a cultura da morte
Paulo Sérgio Rodrigues Pedrosa
“Deve fazer refletir, sobretudo, a preocupante difusão de uma “cultura da morte” que leva amplos setores da opinião pública a justificar alguns delitos contra a vida em nome dos direitos da liberdade individual e, com este suposto, pretende sua legitimação por parte do Estado”

João Paulo II, carta enviada ao superior geral da Congregação do Santíssimo Redentor, em setembro 2004 (Zenit, http://www.zenit.org/portuguese/visualizza.phtml?sid=58494)

Introdução

Esta é uma continuação do artigo Eugenia – O Pesadelo Genético do Século XX, Parte 1 – O Início, que versava sobre o início desta pseudo-ciência na Inglaterra do final do século XIX e seu desenvolvimento inicial nos Estados Unidos, onde se misturou ao ideal racista americano.

Hoje vemos a cultura da morte ressurgir com muita força, contando com grupos políticos importantes no cenário mundial manobrando para implantar o aborto e a eutanásia à discrição dos indivíduos e por fim do estado.

Neste novo artigo, investigaremos o início da difusão e da implantação desta “cultura da morte”, combatida pelo papa João Paulo II e que tem hoje um impacto terrível neste mundo paganizado em que vivemos.

Veremos que, de fato, a “cultura da morte” já existe há muito tempo e que teve defensores entusiasmados dentro da comunidade científica e política da primeira metade do século vinte, tendo como desfecho violento a ciência racial Nazista (esta a ser tratada no próximo artigo).

A principal fonte de consulta para este trabalho, e da maior parte das citações, é o livro A Guerra Contra os Fracos (2003, A Girafa Editora Ltda.), do famoso jornalista americano Edwin Black, que nos revela a surpreendente história da Eugenia.


Controle de Natalidade e Eugenia

Com o crescimento da popularidade da Eugenia entre a elite americana do início do século XX, sua influência se fez estender por vários movimentos de ação social, como a assistência infantil, reforma de prisões, educação, saúde pública, psicologia clínica, tratamento médicos, direitos dos imigrantes e todo o tipo de empreendimentos públicos (Edwin Black, obra citada, p. 219).

As ações tidas como “progressistas”, em especial o Controle de Natalidade, contudo, encontraram na Eugenia o respaldo “científico” para a difusão do aborto e da contracepção.

O controle de natalidade tem suas origens associadas à emancipação feminina e ao feminismo, sendo que sua principal expoente, e uma espécie de símbolo, foi Margaret Sanger, a fundadora do famigerado Planned Parenthood, ainda nas décadas de 20 e 30, a poderosa ONG internacional que promove o aborto em todo o mundo.

“Sanger era uma mulher rebelde, formada junto a socialistas revolucionários como Eugène Debs, Emma Goldman (agitadora feminista), Francisco Ferrer etc., cuja "teologia" se fundava nos escritos de Ellen Key, feminista sueca, sobre Nietzsche, com sua moralidade subjetiva (ética situacionista, diríamos hoje), e sobre a eugenia. Para ela, "o leito matrimonial é a influência mais deletérea da ordem social", a maternidade é uma escravidão, e a sexualidade fora do matrimônio, algo imprescindível. Destruiu seu primeiro matrimônio em seu primeiro adultério com o sexólogo Havelock Ellis. Teve como amigos, amantes ou camaradas, toda classe de socialistas, todos eles eugenistas: Havelock Ellis, discípulo de Galton, os leninistas H.G. Wells, George Bernard Shaw, Julius Hammer, os nacional-socialistas (nazistas) Ernst Rüdin, Léon Whitney, Harry Laughlin, etc. “(Thierry Lefèvre, A Herança Racista e Eugenista do Planejamento Familiar, http://www.trdd.org/EUGBR_2P.HTM#A02_1)

Edwin Black, em A Guerra Contra os Fracos, diz ter recebido apoio da Planned Parenthood para a pesquisa de seu livro, e tenta pintar um retrato simpático de Margaret Sanger: “Suas várias organizações em defesa da causa (do controle de natalidade) evoluíram numa federação internacional, conhecida como Planned Parenthood. Sanger assumiu o papel legendário de campeã da defesa das liberdades individuais e dos direitos das mulheres”. (Edwin Black, obra citada, p. 222).

Claro que dentre as “liberdades individuais” e os “direitos” que Sanger defendia estava o aborto, ou seja, o direito da mãe assassinar seu filho.

Mas como é impossível negar o inegável, Edwin Black reconhece: “Como desafiava a ordem moral, e também a ordem legal, e também antagonizou muitos grupos religiosos que, compreensivelmente, defendiam o direito à vida como princípio inviolável ( Edwin Black, obra citada, p. 222. O negrito é meu).

Em outras palavras, Sanger era uma rebelde agitadora contra o direito inalienável à vida!

E como não poderia deixar de ser, este “ícone” progressista que é Margaret Sanger, era uma ferrenha adepta da Eugenia, e a aplicava diretamente em suas instituições de controle de natalidade: “Sanger era uma ardente e declarada eugenista, e transformaria suas nobres (sic) organizações de controle de natalidade em uma ferramenta para a Eugenia” (Edwin Black, obra citada, p. 222).

Essa mulher “progressista”, “avançada”, liberal, à frente do seu tempo (em sua decadência moral), devido a sua extrema “bondade”, defendia que os doentes, pobres e incapacitados fossem exterminados: “Sanger se opunha vigorosamente aos esforços caridosos para sustentar os oprimidos e os excluídos, e argumentava amplamente que era melhor que os famintos e os que sentiam frio fossem deixados, sem qualquer ajuda, para que as linhagens eugenicamente superiores pudessem se multiplicar sem a competição dos “incapazes”. (Sanger, Pivot of Civilization, p. 104, 108-109, 113-117, 120-121 e 123, apud Edwin Black, obra citada, p. 223).

E Sanger sempre chamava à classe mais baixa e aos incapazes de “despojos humanos” e defendia que estes não mereciam assistência alguma, chamava-os de “ervas daninhas” humanas que deveriam ser exterminadas” (Sanger, Pivot of Civilization, p. 109, 112, 116, apud Edwin Black, obra citada, p. 233). Segundo Black, tal interesse de Sanger pela Eugenia se explica pelo fato do movimento feminista sempre ter se identificado com a tal pseudo-ciência.

Além disso, Sanger era uma racista, que expôs seu orgulho genético numa autobiografia: “Sua família era irlandesa tão para trás quanto podia traçar; a estirpe dos conquistadores nórdicos corria verdadeiramente por muitas gerações, e deve ter contribuído para sua coragem inquebrantável”. (Sanger, An Autobiography, p. 11, apud Edwin Black, obra citada, p. 224). Some-se a isto a defesa que ela fazia de que a maioria das crianças deficientes mentais descendia de imigrantes (Edwin Black, obra citada, p. 230). Seus principais conselheiros e amigos eram racistas e anti-semitas (Edwin Black, obra citada, p. 233).

E ela defendeu a eugenia até sua morte, mesmo depois do genocídio perpetrado pela Eugenia Nazista, com toda a perda de crédito e popularidade da eugenia nos Estados Unidos.

Como exemplo final do pensamento monstruoso de Sanger, citamos uma frase sua a favor do infanticídio:
“Muitos pensarão, talvez, que é inútil demonstrar a imoralidade (sic) das famílias grandes (...). A coisa mais misericordiosa que uma família grande faz por um de seus membros infantis é matá-lo” (Sanger, Woman and New Race, cap. 5, apud Edwin Black, obra citada, p. 231. O negrito é meu).

Fica então registrada aqui a gênese vergonhosa do controle de natalidade e das organizações que a promovem e o seu embasamento pseudo-científico calcado na Eugenia. A defesa do aborto e da contracepção pela Planned Parenthood atualmente e sua ação política no mundo de hoje ficará para um próximo artigo.


O Ímpeto Homicida da Eugenia

Desde o princípio da eugenia seus proponentes defendiam o assassinato como um meio de se conseguir os objetivos eugenistas. Considerava-se a “eutanásia” um método valido para se eliminar os indivíduos geneticamente indesejáveis da sociedade. Por “eutanásia” não se entenda aqui o falso conceito difundido de morte misericordiosa para doentes terminais que sofrem, mas o entendimento eugenista de “morte indolor”, que não causasse consternação. O método mais comentado entre os eugenistas era o da câmara letal, ou câmara de gás. (Edwin Black, obra citada, pagina 401).

Alguns defensores da eugenia propunham abertamente, no início do século XX, o uso de câmara de gás para extermínio dos incapazes: “O escritor socialista Eden Paul... declarou que a sociedade devia se proteger dos “procriadores de cepas anti-sociais que vão prejudicar as gerações que virão. Se a sociedade rejeitar a câmara letal, que outra alternativa o estado socialista pode arquitetar?” (Edwin Black, obra citada, p. 402). Tais idéias , desde cedo, demonstram como o estado socialista pretendia agir com o poder plenipotenciário sobre a vida dos seus cidadãos, o que resultou na morte de milhões de pessoas durante seu longo reinado de terror.

Além disso, figuras de peso, como o famoso dramaturgo irlandês George Bernard Shaw, se mostravam claramente favoráveis à ingerência do estado sobre a vida dos cidadãos considerados geneticamente inferiores. Numa inacreditável constatação visionária do que se concretizaria no regime nazista, o dramaturgo disse, em 1910, numa palestra na Sociedade de Educação Eugenista, em Londres: “Uma parte da política eugenista nos levará ao uso extensivo da câmara letal. Um grande número de pessoas deixaria de existir simplesmente porque perde-se tempo com seu cuidado” (Edwin Black, obra citada, p. 403).

Um especialista inglês em deficiência mental e um dos primeiros membros da Sociedade de Educação Eugenista, Arthur F. Tredgold, em seu livro Textbook on Mental Deficiency, publicado em 1908, defendia o uso da câmara de gás: “para 80 mil imbecis e idiotas na Grã Bretanha, seria um procedimento humano (sic) e econômico, se sua existência fosse simplesmente terminada sem dor... Chegou a hora em que a eutanásia deveria ser permitida...” (Edwin Black, obra citada, p.405).

Note-se que por eutanásia sempre se entende “morte sem dor”, independente da anuência da vítima ou não.

Em 1900, o médico W. Duncan McKim, em seu livro Heredity and Human Progress afirmou: “A hereditariedade é a causa fundamental da desgraça humana... A maneira mais segura, mais simples, mais bondosa e mais humana para prevenir a reprodução entre os que consideramos indignos desse elevado privilégio [a reprodução] é a morte suave e indolor. No gás ácido carbônico temos um agente que preencherá imediatamente essa necessidade” (O negrito é meu).

Tal frase não causaria estranheza na boca de um carrasco nazista, por exemplo, mas choca a muitos ao ser dita por um médico de renome, e de um país democrático como os EUA.

O infanticídio também era proposto por adeptos da eugenia. William Robson, um urologista de Nova Iorque advogou asfixiar os filhos dos incapazes com gás (Edwin Black, obra citada, p. 406).

Na Primeira Conferência para a Melhoria da Raça, o eugenista da Universidade de Wisconsin, Leon J. Cole defendeu a idéia de “seleção” e eliminação do incapaz: “(...) é que em vez de ser uma seleção natural, agora é a seleção consciente, por parte do procriador... A morte é um processo normal de eliminação do organismo social, e devemos levar os números um passo adiante, e dizer que, prolongando a vida dos defeituosos, estamos pervertendo o funcionamento dos rins sociais”. (Edwin Black, obra citada, p. 408).

Tal concepção utilitarista contrapunha conscientemente o conceito cristão de santidade e inviolabilidade da vida humana. Madison Grant, famoso teórico racista americano e presidente da Associação de Pesquisa Eugenista e da Sociedade Americana de Eugenia falou abertamente sobre isso em seu livro The Passing of the Great Race (O Fim da Grande Raça): “Uma consideração errônea do que acreditamos serem leis divinas e uma crença sentimental na santidade da vida humana tendem a prevenir tanto a eliminação de crianças defeituosas quanto a esterilização de tais adultos, que não possuem qualquer valor para a comunidade. As leis da natureza requerem a obliteração do incapaz, e a vida humana somente é útil para a comunidade ou para a raça”. (apud Edwin Black, obra citada, p. 408).

E é exatamente esta visão utilitarista, que dispõe da vida humana desconsiderando seu valor espiritual, enfocando-a somente através de um ponto de vista naturalista e cientifista que é condenado por João Paulo II como a “cultura da morte”, tão tristemente difundida e defendida nesses nossos dias.

Em 1912 os Estados Unidos foram sacudidos com a questão da Eutanásia com o caso de um médico Harry Haiselden, que negou cuidados médicos a um bebê que nasceu com problemas. À suplica feita a ele para que cuidasse do bebê, retorquiu Haiselden: “Tenho medo que ele possa melhorar”. Haiselden era um conhecido cirurgião, tido como competente e treinado pelos melhores médicos de Chicago. Ele era então o chefe da equipe médica do Hospital Alemão-Americano de Chicago e um ardoroso eugenista. (Edwin Black, obra citada, p. p. 408 – 409).

Segundo Haiselden, que foi processado por seu ato hediondo, muitos médicos praticavam a chamada Eutanásia passiva em Chicago, e possivelmente em outras cidade americanas. A eutanásia passiva consiste em deixar o recém nascido sem cuidados médicos, deixando-o ao relento para morrer.

Por fim Haiselden foi liberado sem punição, e se tornou uma celebridade nos EUA, tendo participado de um horrendo filme eugenista chamado “A Cegonha Negra”, onde interpretava a si mesmo negando assistência médica a um bebê defeituoso. O filme mostrava a “alma” do bebê morto indo para os braços de um personagem que representava Jesus Cristo. Tal filme foi produzido em 1917, em Hollywood e serviu como propaganda eugenista, sendo exibido nos EUA unidos por uma década.

Haiselden, o médico monstro, em um caso pelo menos, deixou de amarrar o cordão umbilical de um bebê, que sangrou até morrer. (Edwin Black, obra citada, p. p. 412-413).

O fato é que, na virada do século, milhares de pacientes considerados incapazes morriam em hospitais e em asilos americanos. Num centro de tratamento de epilépticos de Lincoln, cerca de 10 por cento dos internos (geralmente crianças) morriam no prazo de um ano. Até 30% dos internos com 18 meses de internação morriam. Desleixo proposital? Eutanásia passiva? O fato é que a medicina americana teve forte influência eugenista na primeira metade do século XX, e isto pode ter influenciado o tratamento que os pacientes considerados como inferiores recebiam em várias instituições médicas.


Conclusão

A cultura da morte, denunciada pelo Papa João Paulo II já ronda a humanidade como um espectro desde o começo do século XX, tendo sido proposta por eugenistas e defensores do controle de natalidade europeus e americanos e efetivamente implantada em larga escala pela Alemanha Nazista. Agora, a cultura da morte se fortalece e se opõe abertamente contra o evangelho da vida, pairando soturnamente sobre as mentes anestesiadas de um século pagão que está só começando...

    Para citar este texto:
"Eugenia: o pesadelo genético do século XX. Parte II: a cultura da morte"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/ciencia/eugenia2/
Online, 26/03/2017 às 06:16:02h