Ciência e Fé

Como Albert Einstein vê o Mundo?
Ronaldo Mota

 
            Desculpe-me, leitor, o texto tão despreocupado e pouco metódico. Ele é fruto de uma leitura de lazer numa tranqüila manhã de domingo. Além disso, é pouco abrangente para responder à pergunta expressa no título. Porém, são questões por demais interessantes e instigantes para serem deixadas para trás, como vagas lembranças de leituras divertidas.
            Os pensamentos de Einstein, colhidos rapidamente do primeiro capítulo de sua obra Como Vejo o Mundo, trouxeram-me à memória diversas lembranças e discussões sobre problemas pungentes em nosso tempo. Ao tentar explicar sua visão de mundo, Einstein fazia afirmações impressionantes sobre a relação entre religião e ciência. E, ao contrário do que se vê normalmente, Einstein estabelecia essa relação de modo surpreendente.
            Enquanto lia lembrava-me de um professor de cursinho... vaidoso, superficial e apalhaçado como o comum da espécie. Era um professor de física. Dizia-nos que a ciência moderna separou totalmente religião e ciência, pois essas seriam incompatíveis. Certamente, ele não tinha lido nenhuma história da ciência, e muito menos o livro de Einstein, onde o toten da ciência contemporânea diz:
           "O espírito científico, fortemente armado com seu método, não existe sem a religiosidade cósmica.".[1]
            Pobre cursinho...
            Segundo Einstein, essa religião aparece em diversos momentos na história, porém: “Em grau infinitamente mais elevado, o budismo organiza os dados do cosmo, que os maravilhosos textos de Schopenhauer nos ensinam a decifrar. Ora, os gênios religiosos de todos os tempos se distinguiram por esta religiosidade ante o cosmo.”.[2]
            Portanto, Albert Einstein não só tem uma religião como considera essa religião o fundamento do espírito científico.
            Evidentemente, não concordamos com a religião gnóstico-panteísta de Einstein, para a qual “a existência individual é vivida então como uma espécie de prisão”.[3] Todavia, isso não nos impede de lamentarmos a formação tosca e embrutecedora que certos professores moderninhos dão aos seus alunos.
            Meus pêsames para aqueles que acreditam que os grandes cientistas são contra a religião.
            Einstein vai mais longe e afirma que o grande dilema da nossa civilização – liberal e antinomista – é não ter oferecido aos homens uma moral. Para Einstein não há dúvida:
            “O terrível dilema da situação política explica-se por este pecado de omissão de nossa civilização. Sem cultura moral, nenhuma saída para os homens.”.[4]
            Nesse caso, nosso toten acertou. O grande dilema da Modernidade é a fundação da sociedade sobre uma liberdade absoluta que nega toda e qualquer moral. Aliás, ao contrário de nossos medíocres ‘educadores’, Einstein sabia que não eram a física, a química, a biologia ou qualquer outra ciência desse tipo que iria resolver esse grande problema. De acordo com ele: “Aqui a ciência não pode nos libertar. Creio mesmo que o exagero da atitude ferozmente intelectual, severamente orientada para o concreto e o real, fruto de nossa educação, representa um perigo para os valores morais. Não penso nos riscos inerentes aos progressos da tecnologia humana, mas na proliferação de intercâmbios intelectuais mediocremente materialistas, como um gelo a paralisar as relações humanas.”.[5]
           O que podemos concluir dessas afirmações de Einstein?
            1º A Modernidade nos negou uma moral que é essencial para a vida em sociedade.
            2º As ciências da natureza não podem resolver todos nossos problemas, como alguns, “mediocremente materialistas”, acreditam.
            3º O materialismo é um perigo para os valores morais.
            Isso eu nunca ouvi em cursinhos...
            Talvez neles predominem os “mediocremente materialistas”, que nem sequer sabem o que pensam os cientistas defendidos por eles.
            Mas, Einstein defendia uma religião gnóstica. Por isso, é preciso que abramos bem os olhos. Certamente, Einstein combate o materialismo grosseiro, antinomista e anti-religioso. Porém, ele – e muitos de seus amigos – acreditavam que os “melhores” lutam contra os preconceitos e as superstições dos demais (talvez os inferiores...).[6]
E quem seriam esses inferiores que Einstein combatia? Os adoradores do Criador do céu e da terra.[7]       
            Segundo ele, nessa luta é necessária uma dupla ação de extrema importância que “constituirá a vida social da humanidade”. Essa dupla ação consiste em “arrancar as más raízes e implantar nova moral”.[8]
            Mas como seria feito o que adianta Einstein?
            De acordo com ele: “muito se adquiriu nestes setenta e cinco anos, e muito se propagou graças à literatura e ao teatro.”.[9] Portanto, o grande meio de proselitismo e difusão dessa nova moral é arte. Para Einstein, inclusive, a “arte, mais do que a ciência, pode desejar esforçar-se por atingir o aperfeiçoamento moral e estético.”.[10]
            Portanto, caro leitor, eis aí mais um motivo para que medite sobre a importância e a influência da arte. Veja que ninguém de maior conhecimento nega essa força que a arte tem de transmitir idéias e mudar os costumes. Nem Platão na Antiguidade, nem Sto. Tomás na Idade Média, nem mesmo os principais pensadores dos tempos modernos ignoraram essa capacidade da arte. Tome cuidado, e não seja displicente, pois a arte atinge profundamente nossas almas, malgrado nossa falta de compreensão.          
            Fiquemos por aqui, caro leitor, pois já não quero cansá-lo mais. É deste modo abrupto, que termino de jogar minhas leituras de lazer, e as razões de Einstein, sobre o papel. Espero que minha precipitação em terminar não o contagie, de modo que pare de pensar no que foi dito. Mas, pelo contrário, lhe deixe mais tempo para tal. Não esqueça que a postura de Einstein desfaz a falsa idéia que se criou sobre o cientista, segundo a qual todo cientista é materialista e anti-religioso; ao mesmo tempo, ela nos desvenda um projeto revolucionário que está em curso em nossa sociedade. Basta que prestemos atenção para notarmos como a “nova moral”, galopando a arte, a cada instante destrói nossos verdadeiros valores morais e religiosos.


[1] Segundo Einstein, essa religiosidade é distinta daquela “das multidões ingênuas”, consistindo em extasiar-se “diante da harmonia das leis da natureza, revelando uma inteligência tão superior que todos os pensamentos humanos e todo seu engenho não podem desvendar, diante dela, a não ser seu nada irrisório. (...) Indubitavelmente, este sentimento se compara àquele que animou os espíritos criadores religiosos em todos os tempos.”. Portanto, essa religiosidade cultua uma inteligência superior, e é comparável ao sentimento que animou os grandes espíritos religiosos em todos os tempos (Albert Einstein. Como Vejo o Mundo. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira. 1981, p. 23 – 24 (o negrito é nosso).
[2] Albert Einstein. op. cit. p. 21
[3] Idem.
[4] Albert Einstein. op. cit. p. 25 (o negrito nosso).
[5] Idem, (o negrito é nosso).
[6] Idem.
[7] Pois afirma: “A condição dos homens seria lastimável se tivessem de ser domados pelo medo do castigo ou pela esperança de uma recompensa depois da morte.”. Ou ainda: “Temos também a impressão que os hereges de todos os tempos da história humana se nutriam com esta forma superior de religião [a religião cósmica de Einstein].” (Albert Einstein. op. cit. pp. 21-22).  
[8] Albert Einstein. op. cit. p. 25
[9] Idem.
[10] Idem.

    Para citar este texto:
"Como Albert Einstein vê o Mundo?"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/ciencia/einstein-mundo/
Online, 26/03/2017 às 06:13:19h