Arte

Pobre Arte Moderna!
Duclerc Fernandes


Estamos em tempo de Bienal de São Paulo. A arte moderna volta a ser exaltada pela propaganda. Muito se fala, mas raramente se encontram textos realmente elucidativos sobre o assunto.

Hanz Sedlmayr (La rivoluzione del'Arte Moderna) faz observações muito interessantes sobre esse movimento.

Segundo ele, a Arte Moderna busca antes de tudo a pureza, porém a pureza no sentido negativista que consiste na eliminação de toda a influência de uma arte sobre outra. Para o artista moderno, cada ramo da arte deve ser autônomo e despojado de elementos estranhos a ele. A arquitetura pura não deveria conter elementos de outras artes, isto é, elementos da pintura, da escultura etc. O mesmo se daria com a pintura, que não deveria conter nada de arquitetônico, e assim para todas as artes. O ideal seria a pura pintura, a pura escultura, a pura arquitetura, a pura poesia, a pura música.

A arquitetura pura

Mas em que consistiria a arquitetura pura? Basicamente, na eliminação:

  1. dos elementos cênicos, pictóricos, plásticos e ornamentais;
  2. dos elementos antropomórficos;
  3. dos elementos simbólicos;
  4. do elemento objetivo (relativo à finalidade do edifício).

Chama-se elemento pictórico ao conjunto de meios empregados para se obter os efeitos de impressão ótica, os jogos de luz e sombra utilizados na arquitetura para ampliar espaços ou modificar ambientes. São as cores empregadas para contrastar formas ou aumentar proporções. A arquitetura moderna elimina a variedade de ambientes e a cor do edifício, que deve ser branco ou escuro, fosco, sem cor.

A ausência do elemento plástico significa a expulsão da linha estética e a morte do ornamento. A silhueta do prédio moderno foi despojada da ousadia das pontas, da graça da linha formada pelas esculturas, enfim de toda variação de formas e volumes que dá movimentação, individualidade e riqueza ao perfil do edifício. Desse modo, a silhueta de um edifício moderno é simples e pobre. É um risco apenas, sempre igual. Com o desaparecimento do perfil, desapareceu também o adorno, tanto o pintado quanto o puramente plástico ou escultórico.

Sedlmayr descreve a coluna como sendo uma construção tanto arquitetônica quanto plástica. Nela podem-se distinguir respectivamente a finalidade material de sustentação e uma finalidade simbólica: representar o homem ereto. Por isso ela é composta de cabeça - capitel - corpo e base e é feita segundo as proporções humanas: "é uma elevada forma de dignidade e um autêntico símbolo de um comportamento espiritual universal, daquela mesma posição ereta que eleva o homem sobre o animal" (W.Mrazek apud Sedlmayr, op.cit.).

A Arte Moderna suprimiu a coluna autêntica. Sem base e sem capitel, a nova coluna guarda sua função material de sustentação. Perdeu, pois, a hierarquia de elementos que possuía e o símbolo humano.

Outro elemento arquitetônico interessante por sua relação com o homem, também modificado pela arquitetura moderna, é a janela. H. Sedlmayr mostra que a janela é feita para o homem. Ela é moldura para a figura humana.

A janela possui batente para fazer o enquadramento, base para apoio e capitel cuja forma e ornamentação definem o estilo. É muito comum a existência de elementos escultóricos no topo, como se vê, por exemplo, nas janelas coloniais. Assim a janela é personalizante e individualizante.

Nos diversos estilos - gótico, barroco, colonial - observa-se que ela é feita nas proporções do homem. Por isso possui uma arquitetura e uma hierarquia de elementos.

Na janela moderna tudo isso desaparece. Primeiramente ela foi despojada do elemento hierarquicamente diferenciado, permanecendo apenas como uma moldura. Se no começo ela manteve ainda o caráter personalizante, perdeu mais tarde também a individualidade. Com a descoberta do cimento armado, tornou-se possível construir grandes coberturas planas horizontais, sustentadas apenas por vigas. Consequentemente abertas, permitindo janelas em série, janelas contínuas e mesmo paredes de janelas. A janela foi despojada de sua individualidade, tornando-se coletiva e massificante.

Outra característica da arquitetura moderna é a eliminação do elemento simbólico.

Os estilos anteriores à Arte Moderna possuíam elementos simbólicos e alegóricos. O símbolo fala de valores transcendentes à matéria. Portanto, a eliminação de todo símbolo nega implicitamente a existência de qualquer transcendência e, por isso, é materialista. Todas as coisas podem ser tomadas como transmissoras de um significado. A coisa em si mesma, veículo do significado, é pura matéria. Para a arquitetura moderna não é necessário nem desejável que a construção indique a própria destinação mediante a forma e a utilização de símbolos. A arquitetura pura basta a si mesma.

Para exemplificar, comparemos a Catedral de Notre Dame de Paris à catedral de Brasília. Para destruir a religiosidade da primeira seria preciso derrubá-la. Mesmo que Notre Dame fosse utilizada para o fim mais oposto aquele para o qual foi construída, ainda assim ela continuaria a mostrar, por suas formas, que é uma catedral. Não se pode dizer o mesmo da catedral de Brasília. Despojada de elementos simbólicos, ela tem uma arquitetura tão profana que exige a colocação de cartazes proibindo fumar.

A tendência limite desses despojamentos são as formas arquitetônicas, consideradas ideais pela Arte Moderna, do cubo e do prisma. Essas figuras indicam as três dimensões ortogonais do espaço com absoluta "pureza" e sobre elas se apoia toda arquitetura "pura". Interessante notar que essa linha de pensamento conduz a um edifício tão despojado e pobre quanto algumas das mais antigas edificações do homem, como as pirâmides, fruto apenas da geometria.

A pintura pura

Na pintura moderna, a busca da "pureza" se manifesta através da eliminação de três elementos:

  1. elemento plástico arquitetônico;
  2. elemento simbólico ou de significado;
  3. elemento objetivo.

A supressão do elemento plástico consiste segundo Sedlmayr, na ausência de relevo no desenho, normalmente obtido através dos jogos de luz e sombra. Com isso, numa primeira etapa da revolução modernista, a pintura passou a utilizar uma sobreposição de planos semelhante à usada na pintura primitiva, quando não se conhecia a perspectiva. Abandonou-se a noção de profundidade. Em Volpi, por exemplo, distinguem-se o plano das bandeirolas, o plano das casinhas, o plano das montanhas, mas perdeu-se na tela a terceira dimensão, a qual dá noção de realidade.

Numa segunda etapa, foi supressa também a estrutura arquitetônica, eliminando-se a distinção entre a parte superior e a inferior do quadro, entre a frente e o fundo. A expressão mais exata da abolição do elemento arquitetônico se encontra nos quadros em que alto e baixo são indistintos.

Eliminação do significado

A aversão ao elemento arquitetônico leva o pintor a repudiar a lógica, porque toda lógica é arquitetônica. Nesta, premissas, conclusões e silogismos se sobrepõe como as várias partes de um edifício. O repúdio à lógica leva-o ao sonho, isto é, o conduz a representar mais os frutos de sua imaginação do que a realidade. Por isso a obra necessita de título, de tradução, para que o espectador possa tentar compreendê-la.

O surrealismo afirmou com Freud que a lógica é uma mentira e o mundo concreto uma ilusão. Só através do subconsciente se alcançaria o mundo real, que seria o dos sonhos e dos loucos. Daí a busca do irracional. É pois a recusa da lógica que leva o artista moderno a enaltecer a "arte" dos loucos e os desenhos primários das crianças.

Esta mesma razão leva-o, em seguida, designar muitas obras apenas com números (obra 1, obra no 2), em lugar de títulos, tornando propositalmente ainda mais vaga a idéia daquilo que quis expressar.

Outra técnica consiste na utilização de títulos adjetivos em lugar de substantivos. Isto demonstra um desprezo por aquilo que é definido, que tem existência própria, pelo ser.

O desprezo ao ser gerou composições de pura aplicação de cores sobre tela. As cores, na realidade, não possuem existência própria mas existem associadas a elementos materiais. A cor é um acidente, isto é, um ser que existe em outro. É o ódio ao real, ao ser, que leva o artista moderno a representar aquilo que tem menos densidade de ser e, portanto, a preferir o acidente à substância.

Eliminação do elemento objetivo

Com a ausência de símbolos e significados a obra de pintura moderna torna-se subjetiva e hermética. Quem poderá compreendê-la senão o próprio pintor? E por que desejará que sua obra seja compreendida? Não diria ele também "Eu odeio a objetividade gordurosa e a harmonia, essa ciência que encontra tudo em ordem" (Manifesto Dadá, 1918)? Ou ainda: "Toda obra de pintura e plástica é inútil; que ela seja um monstro que faça medo aos espíritos servis e não adocicada para ornar os refeitórios dos animais com roupas humanas, ilustrações dessa triste fábula da humanidade" (mesmo manifesto).

O belo é o bem claramente conhecido. Mas o pintor moderno despojou sua tela do belo. Para a pintura moderna beleza é uma palavra desprovida de sentido. Em próximos artigos trataremos de outros aspectos dessa arte que se proclama inimiga da beleza.


    Para citar este texto:
"Pobre Arte Moderna!"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/arte/pobrearte/
Online, 26/03/2017 às 06:15:42h