Arte

Os símbolos no Canto Gregoriano: parte 1
Edwin Lima

Continuando uma sequência de artigos sobre a música litúrgica (aqui e aqui), trataremos hoje do simbolismo presente nas peças do repertório gregoriano, explorando a imensa beleza contida nesse estilo musical - e aqui não podemos limitá-lo a somente mais um estilo musical, como fazem muitos autores - principalmente por sua profunda relação com a vida sobrenatural e a elevação da alma a Deus.

Este artigo baseia-se principalmente nos excelentes trabalhos de Idalete Giga e do padre Bertrand Labouche. (Quanto a esse último, há graves ressalvas quanto ao seu posicionamento em relação a outras questões, o que será oportunamente tratado em outros artigos.)
 
Sendo o homem dotado de corpo e alma, e os sentidos sendo responsáveis pela apreensão da realidade, a beleza das expressões artísticas cumpre papel fundamental na elevação da alma a Deus. Por isso a necessidade de serem construídas belas igrejas e imagens sacras, pintados belos quadros e compostas belas músicas.
 
Toda arte necessariamente corresponde aos ideais filosóficos e religiosos do autor que a concebeu. Em vista disso, podemos concluir que foi um espírito de fé que animou a composição das peças do repertório gregoriano, uma vez que o resultado de tais obras é a expressão das perfeições e ensinamentos divinos revelados nas Sagradas Escrituras e nas orações compostas pela própria Igreja.
 
Um dos aspectos de perfeição de uma peça gregoriana é a plena concordância entre o texto sagrado e a melodia. A autora do trabalho referência para este artigo se expressa quanto a este ponto nos seguintes termos: “Sendo o texto sagrado a principal fonte de inspiração do compositor (…), texto e melodia adquirem uma unidade, uma aliança quase perfeita. Esta é uma constante na composição gregoriana. ” (Giga, 1998, Hvmanitas - Vol. L, pág. 349). Assim, concluímos que a melodia serve o texto, ornando-o e carregando-o de símbolos através das fórmulas melódicas mais adequadas. Ainda segundo Giga, convém notar que foi fundamental o papel da língua latina na composição do repertório gregoriano, principalmente no que toca à estrutura da melodia gregoriana. Pelo fato de não haver palavra oxítonas no latim, a sílaba final é fraca e corresponde a um repouso, denominada tésis. Por outro lado, o acento da palavra funciona como um elemento vivo, que naturalmente dá vida à melodia, ou mesmo na simples vocalização da palavra. Outro aspecto que merece destaque é quanto à métrica presente nas peças gregorianas. Ao contrário das composições modernas, onde a unidade de tempo é fracionada, no canto gregoriano parte-se da unidade fundamental, denominada punctum, para, com a junção de outras unidades fundamentais, serem obtidos os neumas. Esse processo de multiplicação a partir de uma unidade fundamental possibilidade uma maior fluidez da melodia unida ao texto. A seguir apresentaremos alguns comentários e observações de determinados trechos de peças do repertório gregoriano, mostrando como a melodia e a rítmica foram fatores fundamentais para que o autor da peça pudesse expressar adequadamente a mensagem contida no texto sagrado.
 
Ascéndit Deus (Ofertório da Festa da Ascensão)
“Ascéndit Deus in jubilatióne, et Dóminus in voce tubæ, allelúia.”
“Subiu Deus entre aclamações e o Senhor ao toque da trombeta, aleluia.”
 
 
Pode-se escutar uma interpretação em https://www.youtube.com/watch?v=98WwB7PU_3w
 
A peça inicia com uma melodia ascendente, partindo da tônica do Modo I (Ré) e chegando até sua oitava, trazendo expressando claramente o sentido literal do texto. No entanto, a progressão melódica não é abrupta, mas desenvolve-se por graus conjuntos (tórculus e podatus) e com prolongamentos expressivos (quilisma), suavizando a melodia sem lhe tirar a força. A permanência da melodia na dominante Lá também reforça o sentido de que Deus ascendeu aos céus e lá permanece.
 
Psállite Dómino (Comunio da Festa da Ascensão)
“Psállite Dómino, qui ascéndit super cælos cælórum ad Oriéntem, allelúia.”
“Cantai ao Senhor que sobe ao alto dos céus, no Oriente, aleluia. ”
 
 
 
Semelhantemente ao ofertório, também expressando o ato da ascensão de Nosso Senhor aos céus, a melodia do trecho "qui ascéndit super" também chega à oitava do Modo I.
 
Exsúrge, Dómine (Gradual do III Domingo da Quaresma)
“Exsúrge, Dómine, non præváleat homo: judicéntur gentes in conspéctu tuo. V. In converténdo inimícum meum retrórsum, infirmabúntur, et períbunt a facie tua.”
“Levantai-Vos, Senhor, para que o homem não triunfe; sejam as nações julgadas em vossa presença. V. Os meus inimigos recuaram; eles fraquejaram e pereceram diante de Vossa face.”
 
A peça inteira é cantada no link: https://www.youtube.com/watch?v=kz6Yar5qNLs
 
 
 
A melodia inicial na região Dó-Fá, com distropha e tristophas (notas fundamentais em uníssono), dá um tom estável e ao mesmo tempo austero à peça: é a aclamação confiante daquele que roga ao Senhor que se levante sobre todos para julgá-los, mas de modo sereno.
 
 
O grande desenvolvimento melódico para a última frase - a fácie túa - justifica-se pois é a visão beatífica - da face de Deus - a meta daqueles que O amam e a ocasião de julgamento e derrota dos maus.
 
Exsúrge (Intróito da Sexagésima)
“Exsúrge, quare obdórmis, Dómine? Exsúrge, et ne repéllas in finem: quare fáciem tuam avértis, oblivísceris tribulatiónem nostram? Adhǽsit in terra venter noster: exsúrge, Dómine, ádjuva nos, et líbera nos.”
“Levantai; por que dormis, Senhor? Levantai, e não nos repelis para sempre; por que afastais o vosso rosto, Vos esqueceis da nossa tribulação? Aderido com a terra está o nosso ventre; levantai, Senhor, socorrei-nos e libertai-nos.”
 
Escute-se uma interpretação em https://www.youtube.com/watch?v=mAIWIMVAwjY
 
 
O caráter de súplica - Exsúrge - permeia toda a peça. A primeira exclamação é pesada e despretensiosa, como que pronunciada por aquele que está oprimido e não tem forças para lutar. A segunda, atrelada à invocação do próprio Senhor, apresenta maior brilho pela ascensão da melodia até a nota Lá e a leve descida até a nota Fá; é suave e demonstra uma maior confiança. Finalmente, a última exclamação é ardente, impetuosa (resultado da melodia silábica), constituindo o ápice da súplica.
 
Finalizando, trazemos um comentário sobre o intróito Ressuréxi, da Missa de Páscoa, feito por Dom Gajard, mestre de coro de Solesmes e grande estudioso do Canto Gregoriano. Para exemplificar a profundidade do conhecimento e da percepção que Dom Gajard tinha sobre o Canto Gregoriano, narraremos um fato ocorrido na abadia de Saint Pierre de Solesmes.
 
Enquanto celebrava a Missa, seu acólito percebeu que demorava mais do que o costume na leitura do Gradual, por isso interrompeu-o perguntando se estava se sentindo bem. Dom Gajard respondeu: "Não. Eu não estava compreendendo bem o sentido do texto, então cantei comigo a melodia, e ela tudo me explicou”.
 
Transcrevemos a seguir o comentário de Dom Gajard sobre o intróito Ressuréxi - Essa peça pode ser ouvida aqui: https://www.youtube.com/watch?v=_DPUh7LRl50
 
“... Uma peça incomparável, certamente única entre todo o repertório: o intróito “Ressurexi”, onde o Senhor mesmo, tendo terminado a grande obra para a qual Ele havia vindo à Terra, apresenta-se diante de seu Pai para adorá-lo e dizer-lhe seu amor. Aqui tudo é divino: é um êxtase de Deus em Deus. Esse intróito é completamente imaterial, espiritual. Sem “movimento”; não sai dos limites da 5ª Ré-Lá exceto em Mirábilis, onde alcança o Dó grave, dando à oração uma maior profundidade; raramente alcança as notas extremas Ré e Lá e se mantém ordinariamente dentro da terça Mi-Sol. É pouco para um canto triunfal, mas trata-se do triunfo de um Deus, de alguém que supera as condições de nossa natureza. Parece o eco, traduzindo em linguagem criada, da conversação que se desenrola na Trindade. Depois da 1ª frase, que é como uma tomada de consciência muito doce pelo Senhor do que acaba de acontecer, e da alegria de encontrar-se com Deus, de estar aí para sempre (observem toda a paz que evoca a frase adhuc tecum sum) – ainda estou contigo – cantem um pouco mais forte a segunda frase, posuísti etc., com seus períodos longos em Fá, onde imaginamos uma mão estendida e onipotente, e cantem docemente o aleluia que encerra, enquanto se mantém cada um dos Ré do “ia” (marcado com um t = tenete, em um dos nossos manuscritos) e prolongando indefinidamente o Fá final, totalmente estático. Depois de um longo silêncio, o Senhor como que se despertando e tomando novamente consciência de si mesmo, murmura em um movimento de admiração e amor: “Ah, sim, sem dúvida suas obras são maravilhosas”, (Mirabilis facta est sciencia tua), dado em um crescendo bem marcado. Finalmente os dois Alleluias, o primeiro com seu balanço muito doce de Mi a Sol (leniter, dizem aqui os manuscritos), e o último que termina em Mi, nos deixam nesta atmosfera de paz, de calma, de contemplação estática onde estamos desde o início. Cantem esse intróito largamente, mas sem peso, sem grandes nuances, de preferência numa tonalidade baixa. Percebe-se o contrassenso que seria cantá-lo forte e ir aumentado pouco a pouco a intensidade para conferir-lhe brilho, sob o pretexto da Páscoa. Seria tirar seu caráter próprio e torná-lo totalmente inexpressivo. Cantem-no, finalmente, pensando somente n’Aquele que fala e no que Ele fala, e então verão. ” É notório que um certo conhecimento musical favorece a apreciação do Canto Gregoriano, uma vez que, como já dito, a melodia, o ritmo e a interpretação da peça expressam o sentido do texto ali posto. Porém, o fator fundamental que serve de chave para o aprofundamento e a compreensão da beleza presente nas peças do repertório gregoriano é o conhecimento dos aspectos mais profundos da Religião Católica, da vida cristã sobrenatural. Dom Gajard faz tal afirmação nos seguintes termos: “Para compreendê-lo - o intróito - é necessário saber um pouco o que é o cristianismo e a vida sobrenatural, saber qual é a verdadeira definição de religião cristã: ela é, antes de tudo uma religião interior, algo da alma, uma adesão de todo o ser a Deus, e não uma grande demonstração exterior ou uma questão de sentimentos. Saber que se trata de Alguém que tem uma grandeza absoluta, que nos supera infinitamente. Saber, enfim, que nós não temos razão de ser senão n’Ele, para Ele e por Ele. Então o Ressurexi resplandece como uma peça única, como o verdadeiro canto de Páscoa. ” A apreciação do Canto Gregoriano não com uma simples expressão artística entre outras tantas, mas como um meio de elevação da alma a Deus, é tarefa de todo católico. É deplorável o atual desprezo da maior parte dos católicos por aquilo que é a música sacra por excelência, e que tem a primazia sobre quaisquer expressões musicais que possam ser utilizadas para o culto divino. Rogamos a São Gregório Magno que interceda por todos aqueles batalham pela difusão do Canto Gregoriano por toda a Igreja, recolocando-o em seu devido lugar em todas as celebrações litúrgicas e no cotidiano de todos os fiéis.  
 
Referências
GIGA, Idalete. O simbolismo no canto gregoriano. Humanitas, v. 50, 1998.
LABOUCHE, Bertrand. Bach e Pink Floyd. Música clássica e música rock. Disponível em: <https://docs.google.com/file/d/0B_IovIdYfo49cnpkNFhsTlRZM2s/edit> Acesso em: 07 março 2016.
LIBER USUALIS Missae et Officii, Desclée et Cie, Tournai, 1961.

    Para citar este texto:
"Os símbolos no Canto Gregoriano: parte 1"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/arte/os-simbolos-no-canto-gregoriano-parte-1/
Online, 22/09/2017 às 17:45:02h