Arte

Janelas
Marcelo Andrade
     Propomos aqui, neste curto artigo, analisar dois estilos de janelas bem diferentes: as barrocas e as ditas “modernas”.
     Escolhemos janelas de duas cidades bem diferentes: Ouro Preto e Nova York.
     Cuidemos inicialmente da primeira, a antiga Vila Rica, barroquíssima. Provavelmente é a cidade fundada no século XVIII mais bonita do mundo.
     Na foto abaixo, vemos uma ladeira desta cidade com várias janelas coloridas:
 
Ouro Preto
 
     Podemos elencar as seguintes características das janelas:
 
     1) Desigualdade: As janelas de uma casa são diferentes das da casa vizinha.
 
     2) Unidade: as janelas pertencem ao mesmo estilo, o barroco. Toda a desigualdade presente não descredencia a unidade. Isso se explica porque as janelas têm, artisticamente os mesmos princípios, por assim dizer, a mesma substância – o barroco – e diferentes acidentes – cor, formato, distribuição dos vidros –, todos coerentes com os princípios, como toda arte elevada.
          
     3) Alternância entre linhas retas e curvas. Simbolicamente, retas porque o caminho do justo é reto; curvas porque o barroco é prudente como a serpente. Isso se harmoniza com o ambiente natural e urbano, com as ruas, ora retas, ora curvas; com as nuvens e com as montanhas que ornam a cidade.
 
Rua de Ouro Preto
 
 
     4) Nítido contraste entre a parede e a janela, assim como a filosofia e todo bom pensamento distinguem perfeitamente os conceitos para entender o mundo, a arte tem de retratar isto.
 
     5) Janelas dinâmicas, nas quais os mecanismos de abertura e de fechamento são evidentes. Tais janelas são como os homens, estão, às vezes fechadas ou às vezes abertas para o mundo. Porque também o homem deve estar ora rezando, recolhido, ocupado em sua vida interior, ora interagindo com a sociedade, ocupando-se dos outros e de seus deveres sociais.
 
     6) As janelas possuem elementos constitutivos bem distintos: batentes, base e capitel coloridos, assim como acontece com os seres naturais, cujas partes distintas e harmonicamente ordenadas demonstram a desigualdade e hierarquia entre as partes, que fazem a riqueza da Criação.
 
     7) Janelas de formato vertical, extremamente proporcionais ao homem, de tamanhos adequados para permitir a comunicação com o exterior, sem devassamento da intimidade da casa.
 
     8) Ornamentação equilibrada, perceptível na decoração dos capiteis e na ornamentação dos vidros. Se o ornamento é exagerado dá a ideia de um acidente que sufoca a substância. O acidente deve servir à substância e não o contrário. Quando falta ornamento, manifesta-se a ideia de uma substância sem acidentes, absoluta.
 
     9) As janelas parecem cheias de alegria. A felicidade é causada pela contemplação da verdade. Como as janelas de Ouro Preto são focadas na realidade das coisas, atendendo às necessidades práticas e espirituais de modo harmônico, obtém-se esse efeito. O barroco colonial é um estilo católico e somente a verdadeira religião laetificat juventutem meam.
 
     10) Imperfeições. As janelas não são absolutamente geométricas, refletindo nessa relativa imperfeição a ordem orgânica do mundo, porque nem o mundo nem o homem são geometricamente determinados e perfeitos, e não haverá nunca sociedade ou governo absolutamente perfeitos.
 
     11) Exploração do jogo de luz e sombras. Usado para causar impressão ótica, também pode simbolizar a vida, na qual ora estamos em plena luz, ora circundados de sombras e ameaçados de trevas.
 

 
     Nova York, a megacidade mais poderosa do mundo, transborda de riqueza e, apesar da herança protestante anglo-holandesa, a cidade tem muitos encantos e é deveras interessante. Nesta foto da “Quinta Avenida”, talvez a mais emblemática da cidade, vemos algumas janelas.
 

 

Janelas de Nova York, transbordando riqueza, mas só isso
 
 
     Podemos elencar as seguintes características destas janelas:
 
     1) Ricas e limpas.
 
     2) Desiguais, porém, não de mesma substância, podendo simbolizar certo individualismo.
 
     3) Ausência de unidade, pois não demonstram um mesmo estilo claramente, sintoma de uma sociedade “que pensa o que quer”. Um dos prédios não tem a ver com o outro; eles não formam um conjunto. Só estão justapostos.
 
     4) Sisudez, hão há alegria.
 
     5) Adornos limitados ou inexistentes. As janelas são meramente funcionais
     
     6) Molduras inexistentes ou muito simples. Base sem distinção de capitel. Materialismo visível pela mera funcionalidade das janelas, sem hierarquização. Servem apenas ao corpo, não à alma.
 
     7) Desproporção, as janelas não têm as proporções humanas, embora as do exemplo acima ainda conservem majoritariamente a forma vertical, própria do homem.
 
     8) As janelas não parecem abrir e fechar e são espelhadas, dando uma certa ideia de arrogância de não querer se misturar ou entender o mundo
 
     9) Geometrismo. As janelas são absolutamente regulares, sem imperfeições visíveis. O geometrismo é característica da utopia, o ideal de uma sociedade perfeita e materialista, que nunca existirá.
 
 
     É verdade que Nova York tem janelas mais bonitas do que essas de nosso exemplo. Mas, também têm outras bem mais feias, então ficamos no meio do caminho.
 
     Exemplo abaixo de janelas horrorosas:
 

     

As janelas deste prédio novaiorquino acima, aliás, bem comuns em todo o mundo, possuem estas características, além dos itens abordados anteriormente:

     a) Externamente só se vê janelas, não se vê parede, capitel nem base. Isto simboliza uma sociedade de massas igualitária e também é figura de uma confusão mental, na qual não se distinguem mais os conceitos nem a realidade das coisas.

     b) Normalmente estas janelas estão presentes em prédios altíssimos, desproporcionais ao homem, revelando também uma mentalidade totalitária.

     c) Monocromatismo reforçando a pobreza simbólica e o igualitarismo

     É o pensamento moderno em forma de janelas.


     Vimos, pelo exposto, a superioridade das janelas barrocas.

     Os símbolos falam de elementos transcendentais à matéria, logo é o material servindo ao espiritual. O Barroco transborda de figuração e nisto encontra rua riqueza e sua lógica.

     As janelas de Nova York tem a riqueza apenas material, revelando uma mentalidade idealista e, por não focar na realidade das coisas, simboliza a confusão mental reinante hoje em dia.

     Pio XII disse, certa vez, que a arte é uma janela aberta para o infinito. Ora, isto é próprio de Ouro Preto e não de Nova York.

 

 

30 de abril de 2016

 

    Para citar este texto:
"Janelas"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/arte/janelas_marcelo_andr/
Online, 24/04/2017 às 19:53:33h