Arte

Janelas do Paraíso
Lúcia Zucchi
A arte e o espírito medievais já foram tema de nosso antigo jornal "Veritas" (no 8), com o artigo "In lumine tuo". Comentaremos agora alguns aspectos da arte do apogeu da Idade Média - o gótico - detendo-nos sobre um de seus pontos mais característicos: o vitral.
 
O estilo gótico é o desenvolvimento lógico do românico - próprio da Alta Idade Média - e este, por sua vez, baseia-se nos princípios herdados da arte greco-romana.
 
Os romanos construíam arcos redondos, apoiados em duas extremidades e fechados por uma única pedra em forma de cunha, que pressionava os demais. É o chamado arco de meio ponto.
 
Os arquitetos românicos desenvolveram essa técnica, criando a abóbada, formada por arcos contíguos. Um dos inconvenientes da abóbada românica é a exigência de grossas paredes de pedra para apoiá-la, dificultando a abertura de janelas nas construções. O custo era grande e o edifício ficava pouco iluminado e mal ventilado.
 
Abadia de Moissac, românica
 
 
Esse problema foi resolvido, na arquitetura gótica, cruzando-se dois ou três arcos no mesmo ponto do teto. Com isso o peso ficava dividido apenas entre quatro ou seis colunas, e não em toda a extensão da parede.
 
Outra invenção do gótico foi o arco-botante. Esse arco partia de uma pilastra exterior ao edifício e apoiava à coluna de sustentação da abóbada.
 
Arco botante da Catedral de Amiens
 
Com o tempo, os arcos redondos das portas e janelas foram sendo abandonados em favor do arco em ogiva, cada vez mais pontiagudo, que podia ser mais alto e provou ser mais resistente. Todos esses recursos proporcionaram paredes cada vez mais finas e janelas maiores.
 
Para a Idade Média, entretanto, não bastou encher suas igrejas de luz. Ela quis decompor a luz do sol em todas as suas cores, vivificando de modo admirável os interiores, através dos vitrais coloridos.
 
Desconhecidos pela Antigüidade - não há menção de janelas com vidros coloridos antes do século IV - e desprezados pelo Renascimento, que preferiu o vidro incolor, os vitrais tiveram seu desenvolvimento estreitamente ligado ao da arquitetura gótica.
 
À medida em que a técnica de construção foi se aperfeiçoando, a parede foi sendo gradativamente substituída por grandes vitrais. A tal ponto que se pode dizer que, a partir de um dado momento, a arquitetura gótica era elaborada em função do vitral. Houve então entre o construtor e o vitralista uma colaboração em vista do efeito mais rico e da decoração mais completa, procurando ao mesmo tempo o máximo de luz e o máximo de cor no interior das igrejas.
 
As leis que regem a composição dos vitrais têm características distintas das leis da pintura. Em primeiro lugar, as figuras dos vitrais têm apenas duas dimensões porque sendo atravessadas pela luz e não iluminadas pela luz ambiente, é inútil que procurem dar a ilusão de volume e de perspectiva.
 
Além disso, o vitral é um mosaico de vidro, montado para ser visto de longe, na escala da arquitetura. Se os observarmos de perto - em museus, por exemplo - notaremos que o desenho é sumário e só o efeito de conjunto é visado. As formas são destacadas sobre o fundo fazendo contraste: vermelho sobre azul, verde sobre vermelho. As barras de chumbo que circundam os contornos servem não apenas para reunir solidamente os pedaços de vidro mas também para realçar as formas com nitidez. O desenho - que só aparece onde é absolutamente necessário - é traçado em largas pinceladas e num só tom castanho.
 
O atelier do mestre vitralista era próximo à construção para que ele pudesse escolher as cores para cada vitral, conforme a orientação e a localização da janela e em harmonia com as cores dos vitrais mais próximos.
 
A função educativa dos vitrais era considerável. "As imagens dos vitrais são feitas unicamente para mostrar às pessoas simples o que elas devem crer", ensinava Gerson, no início do século XV. Nas janelas altas, os vitrais representavam, mais freqüentemente, personagens isolados ou, outras vezes, grandes cenas: Cristo, Nossa Senhora, anjos, os padroeiros da igreja, os patriarcas e os profetas, os apóstolos, os mártires, a Paixão, a Ressurreição, a Ascenção do Senhor. Nas janelas mais próximas do solo, os vitrais - chamados legendários - eram divididos em medalhões, compondo seqüências de ilustrações de uma história: passagens da Bíblia, vidas de Santos, os meses do ano, os ofícios, as virtudes e os vícios, etc.
 
A importância dada aos símbolos pelo pensamento medieval fez com que estivessem sempre presentes aos contemporâneos os significados transcendentes do vitral.
 
Com seus vitrais multicoloridos, a igreja gótica foi a representação material da Jerusalém celeste, símbolo por excelência da Igreja. Resplandecente de luz, transparente como cristal e ornada de pedras preciosas, a morada dos bem-aventurados, mostrada nas visões de São João, foi o ideal esplêndido para o qual tenderam os arquitetos góticos, desde o abade Suger, construtor da primeira igreja gótica.
 
As igrejas medievais orientavam-se sempre para o nascente. Aquele que nela entra pela manhã vai da região de maior sombra, junto ao átrio, para a de maior luz, onde está o sacrário. Sua caminhada é uma imagem da santificação, isto é, do progresso no conhecimento e no amor de Deus. Por isso, o abade Suger afirmava que, ao entrar na igreja, o homem não se encontra nem no limo da terra, nem na pureza do céu, mas, vivo ainda, Deus já lhe fala através da claridade espiritual.
 
A fabricação do vidro era outro símbolo da santificação. Pois assim como o homem, pó da terra, se purifica ao fogo do amor de Deus, assim também o vidro, feito de terra e cinza, funde-se ao fogo, transformando-se em matéria límpida e transparente.
 
A iluminação espiritual é representada ainda pelo vitral: "As janelas envidraçadas que estão nas igrejas e pelas quais (...) se transmite a claridade do sol, significam as Santas Escrituras, que afastam de nós o mal, enquanto nos iluminam", escrevia Pierre de Roissy, chanceler do capítulo de Chartres e diretor da escola de teologia, na época em que se construía a catedral, por volta de 1200.
 
Sua translucidez lembra o mistério da Encarnação, como, por exemplo, nesse sermão atribuído a São Bernardo:

 
     "Como o esplendor do sol atravessa o vidro sem quebrar e penetra na sua solidez com sua impalpável sutileza, assim o Verbo de      Deus, luz do Pai, penetra na morada da Virgem e sai de seio intacto".
 
 
Assim como a luz, ao passar pelo prisma, se divide, assim também Deus quis que a luz de sua graça passasse através de Maria para ser distribuída a todos os homens. Por isso a Idade Média pôs, tão freqüentemente, no centro de suas rosáceas luminosas, a figura da Virgem, Medianeira de todas as graças, Mãe de Deus, Rainha do Céu e da terra, Fonte da luz da Verdade.
 
Rosácea da Catedral de Notre Dame

    Para citar este texto:
"Janelas do Paraíso"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/arte/janelas/
Online, 23/10/2017 às 05:42:06h