Arte

Conspiração na Arte?
Orlando Fedeli


Quando se fala em conspirações na História, há alguns que, sem analisar a questão, já se arrepiam e se enfurecem, considerando o tema absurdo e a hipótese impossível ou tresloucada.

Entretanto, basta estudar um pouco mais a fundo a História para se constatar que o tema não é absurdo e que a hipótese é, na verdade, tese certa.

Neste artigo analisaremos apenas alguns textos de autores sérios, que ou admitem que existe de fato na História, desde há muito tempo, uma conspiração de artistas - filiados em geral à Gnose - ou que fornecem dados seguros que indicam essa conspiração.

Como se sabe, a Gnose é a heresia que está por trás de todas as religiões falsas, e é a grande opositora da Igreja Católica, na História. Pode-se dizer que ela é a Heresia por excelência.

Poderíamos voltar ao início da Idade Média. Entretanto, neste artigo, nos ateremos aos tempos que vêm desde o Renascimento, prosseguindo através das origens do Romantismo, até a Arte Moderna, no século XX.

Para começar, e para comprovar a influência da Gnose no Renascimento, é conveniente conhecer os trabalhos da Academia Platônica de Florença, que, liderada por Marcílio Ficino, teve imensa influência nos principais artistas desse tempo, tais como Sandro Botticelli, Leonardo da Vinci e Michelangelo .

Dados importantes sobre esse tema podem ser encontrados na obra de D. P. Walker, "Spiritual and Demonic Magic from Ficino to Campanella" (University of Notre Dame Press, Notre Dame – London, 1969). Nessa obra, se demonstra como uma corrente neoplatônica, hermética e mágica, dominou o pensamento dos principais humanistas e artistas do Renascimento, impondo uma cosmovisão gnóstica e de caráter anti católico.

Ao mesmo tempo, Pico de Mirandola lançava as primeiras sementes do cabalismo cristão, na Itália, enquanto Reuchlin fazia o mesmo na Alemanha. (cfr. François Secret, "Les Kabbalistes Chrétiens de la Renaissance", Dunod, Paris, 1964.)

Sobre esse mesmo assunto, confirmando as mesmas informações históricas, foi publicado na coleção Cahiers de L’Hermétisme, dirigido por Antoine Faivre e Frédéric Tristan, um caderno comentários dos maiores especialistas no assunto (Gershom Scholem, Ernst Benz, Serge Hutin et allii, Kabbalistes Chrétiens, Albin Michel, Paris, 1979).

Outra obra que demonstra o caráter gnóstico das principais obras dos artistas do Renascimento é o precioso livro de Edgar Wind, "Los Misterios Paganos del Renacimiento" (Barral, Barcelona 1972, edição original, Pagan Mysteries in the Renaissance, Faber and Faber,Londres 1968). Wind mostra como os grandes artistas do Renascimento, embora usando temas cristãos, utilizavam umverdadeiro código que permitia que suas obras fossem lidas pelos iniciado na Gnose e no hermetismo, numa clave anti católica.

Uma análise dessas obras estenderia por demais este artigo, extravasando o os limites que nos propusemos: demonstrar de modo sucinto que há uma conspiração que dominou a arte do Ocidente, a partir do fim da Idade Média.

Por essa razão, nos ateremos aos tempos mais próximos, citando particularmente autores atuais insuspeitos, que demonstram e confessam a existência dessa conspiração, quer no Romantismo, quer na Arte Moderna, escolas que afetam mais a mentalidade de nossa época.

Vejamos então o que nos diz Ladislao Mittner a respeito das origens pietistas do Romantismo:

"É quase impossível distinguir os pietistas das muitas outras seitas religiosas de [sua] época. Filões singulares do movimento apresentam fenômenos cársicos: aparecem, desaparecem, e, de repente, aparecem noutro lugar, sem que a identidade do filão possa ser propriamente demonstrada". (L. Mittner, Storia della Letteratura Tedesca – Dal Pietismo al Romanticismo (1700-1820), ed. Giulio Einaudi, Torino, 1975, p. 49).

Para bem entender o que significa um fenômeno cársico, convém explicar que, no Carso - região calcária da antiga Yugoslávia - os rios freqüentemente se infiltram no solo e desaparecem. Muitos quilômetros depois, eles novamente afloram à superfície de modo brusco, sem se saber de onde surgiram, para desaparecerem mais uma vez alguns quilômetros adiante.

Pois assim também é a ação da Gnose na História. Ela, como um rio cársico, ora aparece repentinamente, ora desaparece misteriosamente, para tornar a aflorar à superfície da História, como vinda do nada, e desaparecer adiante mais uma vez.

Movimento oculto, que permanece pulsante nos subterrâneos da História, a Gnose está por trás de toda a arte, desde as escolas herméticas que informaram o Renascimento, até a arte moderna, passando pelo Romantismo.

"Pode-se dizer que reina, desde o Romantismo, uma espécie de dualismo pessimista e sentimental, análogo ao dos gnósticos. Ele consiste sobretudo no sentimento que o homem está mal adaptado a sua própria condição, que ele se acha apertado, que ele precisa de outra coisa (como se ele fosse estrangeiro a si mesmo e ao mundo no qual ele se encontra, como se sua verdadeira natureza não estivesse lá, [no mundo]. Nós dissemos que os gnósticos são românticos; nós poderíamos dizer do mesmo modo que o Romantismo é gnóstico" (Simone de Pétrement, Le Dualisme chez Platon, les Gnostiques et Manichéens, PUF, Paris, 1947, p.344).

Essa mesma autora ousa afirmar : "A julgar por nossa literatura, nós entramos em uma idade gnóstica" (S. de Pétrement, p. cit. p.347).

G Gusdorf, em sua obra capital sobre o Romantismo, diz que "o Romantismo é uma renascença gnóstica;(...) Schelling é um gnóstico, cujas convicções se desenvolvem à medida que ele avança em idade, da mesma forma que Baader; a Naturphilosophie impõe à pesquisa científica códigos gnósticos. Na França, em seqüência de Saint Martin e de Fabre d’Olivet, a Gnose triunfa nos escritos de Ballanche; ela sustenta o gênio poético de Victor Hugo; ela está presente no Lamartine das Visões e no Nerval dos Iluminados" (G. Gusdorf, Le Romantisme, Payot, Paris, 1982, 1983, 1993, p.512).

Nos limites deste pequeno artigo, não poderemos examinar à exaustão este tema. Se alguém quiser aprofundá-lo, poderá encontrar excelentes informações relacionando Romantismo e Gnose nas obras de Ernst Benz, Les sources Mystiques de la Philosophie Romantique Allemande (Vrin, Paris, 1968), ou ainda em Auguste Viatte, Les sources occultes du Romantisme (Honoré Champion, Paris, 2 vol. 1979).

Vejamos porém algumas confissões significativas.

Comecemos por uma citação de um escritor insuspeito e consagrado pelo prêmio Nobel de Literatura: Octávio Paz, que em seu livro Los Hijos del Limo nos revela algo extraordinário, no sentido de algo que ninguém diz e muitos procuram ocultar:

"A analogia é o reino da palavra como, essa ponte verbal que, sem suprimi- las, reconcilia as diferenças e as oposições. A analogia aparece da mesma forma entre os primitivos como nas grandes civilizações do começo da História, reaparece entre os platônicos e os estóicos da Antigüidade, se desenvolve no mundo medieval e, ramificada em muitas crenças e seitas subterrâneas, se converte desde o Renascimento na religião secreta, por assim dizer, do Ocidente: cabala, gnosticismo, ocultismo, hermetismo. A história da poesia moderna, desde o romantismo até nossos dias, é inseparável dessa corrente de idéias e crenças inspiradas pela analogia" (Octávio Paz, Los Hijos del Limo, Editorial Seix Banal, Barcelona, 1993, p. 102. O sublinhado e o negrito são nossos).

Arrepiem-se os que crêem na bondade natural do homem: há, segundo confessa um Prêmio Nobel, uma religião secreta que domina o Ocidente ocultamente, há muitos séculos. E essa religião secreta é a velha Gnose, inimiga do catolicismo.

Enfureçam-se e arrepiem-se de horror os que negam e juram que a teoria conspirativa da História é fruto de imaginações delirantes. Se juram que não há conspiração, de duas, uma: ou ignoram a verdadeira História, ou são cúmplices da conspiração, e a negam, para que ela trabalhe com maior possibilidade de êxito.

Prossegue Octávio Paz:

"A influência dos gnósticos, dos cabalistas, dos alquimistas e de outras tendências marginais dos séculos XVII e XVIII foi mais profunda, não só entre os românticos alemães, como também em Goethe mesmo, e em seu círculo. O mesmo deve dizer-se dos românticos ingleses, e, claro, dos franceses. Por sua vez, a tradição ocultista dos séculos XVII e XVIII se entronca com vários movimentos de critica social e libertina.

A crença na analogia universal está tingida de erotismo: os corpos e as almas se unem e separam regidos pelas mesmas leis da atração e da repulsão que governam as conjunções e as disjunções dos astros e das substâncias materiais. Um erotismo astrológico e um erotismo alquímico; assim também um erotismo subversivo: a atração erótica rompe as leis sociais e une os corpos sem distinção de nível social e de hierarquias. A astrologia erótica oferece um modelo de ordem social fundado na harmonia cósmica e oposta à ordem dos privilégios, à força e à autoridade; a alquimia erótica união dos princípios contrários, o masculino e o feminino, e sua transformação em outro corpo – é uma metáfora das mudanças, separações, uniões e conversões das substâncias sociais (as classes), durante uma revolução". (Octávio Paz, op. cit. p. 103).

O que diz Octávio Paz é confirmado por outros estudos sérios. Veja-se, por exemplo, a obra de Ronald D. Gray. Goethe, the Alchemist (Cambridge, at the University Press, 1952), assim como o livro de Antoine Faivre L’Ésotérisme au XVII ème Siècle, (Séghers, Paris, 1973).

Assim, não há dúvida de que existiu uma ação subterrânea, gnóstica e oculta, na arte e na História, nos últimos séculos.

Como exemplo de poeta participante dessa verdadeira conspiração gnóstica contra a Igreja Católica citaremos Fernando Pessoa, o grande poeta português. Em uma pequena obra sobre a Maçonaria, Pessoa descreveu a si mesmo como "cristão gnóstico, e portanto inteiramente oposto a todas as igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma, fiel à tradição secreta do Cristianismo que tem íntimas relações com a tradição secreta em Israel a Santa Kabballah) e com a essência oculta da Maçonaria" (Fernando Pessoa, Das Origens e Essência da Maçonaria e do seu contributo judaico, Ed. Princípio, São Paulo, 1993).

Em outra obra o mesmo Fernando Pessoa revela todo o seu ódio contra a Igreja de Roma, dizendo:

"O verdadeiro patrono de nosso País é esse sapateiro [o cabalista] Bandarra. Abandonemos Fátima por Trancoso. [Terra do Bandarra]. (...) "Que Portugal tome consciência de si mesmo. Que rejeite os elementos estranhos. Ponha de parte Roma e a sua religião. Entregue-se à sua própria alma. Nela encontrará a tradição dos romances de cavalaria, onde passa, próxima ou remota, a Tradição Secreta do Cristianismo, a Sucessão Super Apostólica, a Demanda do Santo Graal" (...) "Quebrar com Roma. Quebrar com a idéia monárquica. Quebrar com a idéia de Pátria como entidade oposta a qualquer outra coisa neste mundo. Quebrar com Roma. Deitemos fora esse fardo de trevas e de desalento que há séculos pesa, mais ou menos, sobre as nossas decisões".

"Não precisamos dos sete montes de Roma: também aqui, em Lisboa, temos sete montes. Edifiquemos sobre estes a nossa Igreja. Deixemos de importar Deus, porque Deus [...] esse nacionalismo inquinado de fé Católica, esse patriotismo viciado de uma religião estranha. "(...) Todas as religiões são, afinal, uma só religião".

"Expulsemos pois o elemento romano. Se há que haver religião em nosso patriotismo, extraiamo-la desse mesmo patriotismo. Felizmente temô-la: o sebastianismo". (Fernando Pessoa, Portugal, Sebastianismo e Império" Publicações Europa e Império, Portugal, 1986, p 110-111).

Haveria muitos outros autores e artistas a citar, porém vejamos o que diz ainda Octávio Paz, bem explicitamente, em outra obra sua:

"Monnerot comparou a história da poesia moderna com a das seitas gnósticas e com a dos adeptos da tradição oculta. Isso é verdade nos dois sentidos. É inegável a influência do gnosticismo e da filosofia hermética em poetas como Nerval, Hugo, Mallarmé, para não falar de poetas deste século: Yeats, George, Rilke, Breton. Por outro lado, cada poeta cria em torno de si pequenos círculos de iniciados, de modo que sem exagero pode-se falar de uma sociedade secreta da poesia. A influência desses grupos tem sido imensa e logrou transformar a sensibilidade de nossa época . Desse ponto de vista não é falso afirmar que a poesia moderna encarnou-se na história, não à plena luz, mas como um mistério noturno e um rito clandestino. Uma atmosfera de conspiração e de cerimônia subterrânea rodeia o culto da poesia " (Octávio Paz, Signos em Rotação, Ed. Perspectiva, São Paulo, 1996, p. 84. O negrito e o sublinhado são nossos).

Ainda que não existisse nenhuma conspiração de caráter gnóstico na História – portanto, uma conspiração anti-Católica, contra Roma – essa posição de Octavio Paz deveria ser largamente comentada, pelo seu caráter sensacional.

Nada. Ninguém a comenta. Ninguém praticamente fala dela. Ela pode até ser impressa. É como se ninguém a tivesse lido, visto ou ouvido. Só há um silêncio. Silêncio suspeito e comprovador de que, de fato, a conspiração existe.

Veja-se que, segundo afirma Octávio Paz, a sensibilidade de nossa época é resultante dessa conspiração. E ninguém comenta, como ninguém contesta o que afirmou Octávio Paz.

Ainda há pouco tivemos uma polêmica troca de cartas com um jovem a respeito do Rock e de seu uso para difundir o satanismo. Ele recusava aceitar o fato confessado pelos líderes internacionais do Rock, de que esse tipo de música faz parte de uma conspiração subversiva e comunista, como é confessado pelos próprios líderes do Rock.

Octávio Paz diz algo muito mais radical : toda a sensibilidade do século XX foi resultado de uma conspiração que impôs ao mundo uma arte absurda e gnóstica, como a chamada Arte Moderna.

A chamada Arte Moderna pulula de fontes e teorias gnósticas. Assim, Kandinsky e Paul Klee eram gnósticos e seguidores da Teosofia de Madame Blavatsky. Mondrian seguia a teosofia do mago Schoenmaker. O Surrealismo é confessadamente um estilo gnóstico.

André Breton, num de seus manifestos do Surrealismo, escreveu:

" Ela [ a intuição poética], enfim, libertada no Surrealismo, apresenta-se não só como assimiladora de todas as formas conhecidas, mas ousadamente criadora de novas formas – ou seja, em posição de abranger todas as estruturas do mundo, manifestado ou não. Só ela nos provê o fio que remete ao caminho da Gnose, enquanto conhecimento da Realidade supra sensível, "invisivelmente visível num eterno mistério" (André Breton, Do Surrealismo em suas Obras Vivas, In Manifestos do Surrealismo, ed. Brasiliense, São Paulo, 1985, p. 231).

Sobre o espírito da Arte Moderna, o mais importante comentário é feito por Anália Jaffé, a discípula de Jung e difusora de seu culto. Afirma essa autora:

"Um grande número de artistas tentou passar das aparências à realidade de um segundo plano, ou ao "espírito da matéria", por um processo de transmutação dos objetos – através da fantasia, do surrealismo, das imagens oníricas, do acaso etc. "(...) "A arte se tornara em misticismo"(262)(...) "O espírito em cujo mistério a arte estava submersa era um espírito terrestre, aquele a que os alquimistas medievais chamavam Mercúrio. Mercúrio é o símbolo do espírito que esses artistas pressentiam ou buscavam por trás da natureza e das coisas, "por trás da aparência da natureza". O seu misticismo não era cristão, pois o espírito de Mercúrio é estranho ao espírito "celeste". Na verdade, era o velho e tenebroso adversário do cristianismo que maquinava seu caminho arte adentro. Começamos a ver aqui o a verdadeira significação histórica e simbólica da "arte moderna"(p. 263) (...)

" No seu aspecto positivo, aparece como um espírito da natureza" cuja força criadora anima o homem, as coisas e o mundo. É o "espírito ctônico" ou terrestre, que tantas vezes mencionamos neste capítulo. No aspecto negativo, o inconsciente (aquele mesmo espírito) manifesta-se como o espírito do mal, como uma propulsão destruidora."

"Como já observamos, os alquimistas personificaram este espírito como "o espírito de Mercúrio", e chamaram-no muito adequadamente de "Mercurius Duplex" (o Mercúrio de duas caras, dual). Na linguagem religiosa do cristianismo, chamam-lhe diabo" (P.267) (Anélia Jaffé, "O Simbolismo nas Artes Plásticas" in Carl G. Jung, O Homem e seus Símbolos,ed. Nova Fronteira,, Rio de Janeiro, ed original 1964, pp. 261 a 271).

Eis então o mistério desvelado.

Há uma conspiração artística em nossa época que mudou a sensibilidade dos homens contemporâneos. Essa conspiração é de fundo Gnóstico, anticatólico e anticristão. O espírito que a domina se chama diabo, conforme confessa Anália Jaffé.

Tudo isso é confessado por escritores atuais, de muita autoridade e insuspeitos.

Entretanto, se alguém repete o que eles dizem, é chamado de paranóico com mania de perseguição, que vislumbra conspirações fantasmagóricas por toda a parte.

Grandes autores podem confessar que existe essa conspiração anticatólica, gnóstica e diabólica.

Mas ai de quem repetir isso!


    Para citar este texto:
"Conspiração na Arte?"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/arte/conspiracaoarte/
Online, 23/02/2017 às 11:51:05h