Arte

A beleza no mundo, no homem e em Deus: a Filosofia da Arte, a Sabedoria de Deus na Criação e a vida espiritual (Parte 9)
Não basta que um ser seja íntegro, proporcionado e uno para ser belo, mas é preciso que ele tenha claridade.  

Pierre de Craon Lejeune

Este artigo é uma continuação de A beleza no mundo, no homem e em Deus: a Filosofia da Arte, a Sabedoria de Deus na Criação e a vida espiritual,  Parte 1,  Parte 2 , Parte 3 , Parte 4Parte 5,  Parte 6,  Parte 7 e Parte 8.   A CLARIDADE COMO ELEMENTO DO BELO   a) Introdução

Chegamos até a consideração do último elemento necessário à beleza de algo: a claridade.

Ao longo de todos os nossos artigos tentamos mostrar que a beleza é essencialmente objeto da inteligência.

Como nos daremos por satisfeitos se nossos leitores, depois de lerem esses artigos - às vezes tão monótonos porque tão repetitivos no modo de apresentar os princípios filosóficos - terminarem compreendendo e absorvendo esta verdade: a beleza não cai na esfera da sensibilidade, mas é percebida pela inteligência. Na bela expressão de Maritain, “o lugar natural da beleza é o mundo inteligível, é de lá que ela desce” (Art et Scholastique, in Oeuvres completes de Jacques Maritain, Éditions Universitaires, Fribourg-Suisse et Éditions Saint-Paul, Paris, volume I, p. 640).

Não basta que um ser seja uno, proporcionado, íntegro, que nos atraia pela variedade de seus elementos. É necessário ainda que ele se mostre de modo manifesto à inteligência.

Por isso Santo Tomás diz que “a beleza requer três condições. Primeiramente integridade ou perfeição; as coisas mutiladas são feias por este fato mesmo. Depois, a proporção devida ou consonância. E, finalmente, a claridade; por isso as coisas que têm cores nítidas são ditas belas” (Suma Teológica I, q. 39, a. 8).

Como bem comenta Maritain (Art et Scholastique, p. 642), “integridade porque a inteligência ama o ser, proporção porque a inteligência ama a ordem e ama a unidade, enfim e sobretudo brilho ou clareza, porque a inteligência ama a luz e a inteligibilidade”.

Não é normal que alguém se conforme àquilo que é obscuro e confuso, que alguém aceite o contraditório, o que é impreciso. A inteligência quer ver e, onde se vê, há luz, há claridade.

É essa claridade essencial à beleza que veremos hoje, esperando completar assim o estudo das características necessárias à beleza. Uma vez conquistado este terreno atacaremos um próximo assunto, esperando obter ainda mais claridade num assunto tão fascinante como esse.

b) Resplendor da forma

Como dissemos acima, não basta que um ser seja íntegro, proporcionado e uno para ser belo, mas é preciso que ele tenha claridade.

Os antigos sempre viram no resplendor um elemento necessário à beleza.

O motivo disso é evidente: se belo é aquilo que agrada a visão (Suma Teológica I, q. 5, a.4, ad 1), consequentemente é necessário haver alguma luz, alguma claridade da parte do objeto. Algo só é visível e capaz de ser conhecido na medida em que é claro. Inversamente, quanto mais obscuro é o objeto, menos ele será conhecido, visível e agradável aos olhos.

Logo, para que algo agrade a faculdade de conhecer do homem, ela deve ser dotada de alguma claridade, deve resplandecer com uma elegância especial.

Por isso as iluminuras medievais eram feitas quase sempre com cores bem vivas:

E é uma das causas que faz com que a roupa da Guarda Suíça seja tão bela.

Mas em que consiste esta claridade?

Bastam a claridade material e as cores vivas?

Defender que o único resplendor possível de existir na beleza é o resplendor material das cores e da luz visível não permite explicar porque atribuímos beleza às ações e às verdades que são ditas, por exemplo. Não permite compreender também como alguém pode ver beleza num teorema de geometria.

Para compreendermos que resplendor é esse, necessário à beleza, precisamos voltar nossos olhos novamente, de modo rápido ao menos, para aqueles dois princípios que compõem todos os seres materiais, dos quais tratamos nos primeiros artigos que publicamos deste nosso trabalho: matéria e forma.

Este ensinamento aparece sem cessar em todas as obras de Santo Tomás. A VIII tese tomista resume este ensinamento de maneira magistral: “A criatura corpórea é, quanto à essência ela mesma, composta de potência e de ato; esta potência e este ato na ordem da essência são designados pelos nomes de matéria e forma”.

Havíamos explicado que a forma substancial é o princípio específico de um corpo, sua causa formal. Sua função é de constituir com a matéria-prima tal ou tal corpo. Isto quer dizer que, sendo a matéria-prima indiferente a constituir qualquer ser composto, é a forma que, por sua união com ela, a diferencia, a especifica, determinando que seja pedra, cachorro, madeira, etc.

A forma será, daqueles dois princípios (matéria e forma) que constituem os seres materiais, aquilo que constitui algo em uma espécie determinada. Os escolásticos souberam exprimir muito bem esta verdade, resumindo-a no seguinte princípio: “Forma dat esse - A forma dá o ser”.

Algo é definido e conhecido, então, por sua forma.

Mas assim como a luz material manifesta as características visíveis das coisas e permite aos meus olhos conhecê-las, assim também a forma substancial exprime o que a coisa é para a inteligência, permite definir cada coisa e que, portanto, a manifesta para a inteligência.

Por isso posso dizer que tudo o que manifesta algo é luz.

Será legítimo, então, dizer que as formas das coisas são luz, porque manifestam para minha inteligência o que as coisas são.

A forma de cada ser é um princípio de conhecimento, de inteligibilidade, é como um raio de luz que o Criador colocou em cada ser.

Por isso podemos dizer que cada ser é um raio de luz inteligível, que permite à inteligência subir de ser em ser até Aquele que criou cada um e todos, que os fez cada qual com suas propriedades, com uma ordem, com qualidades próprias e diversificadas.

A Causa suprema de todas as coisas imprimiu sua marca em cada uma de suas criaturas. Cada uma encontra em si por onde dar testemunho de Deus. De cada ser partem raios que convergem até Deus.

Nós conhecemos cada ser por suas propriedades particulares, que podem ser vistas, tocadas, sentidas. Mas, como todas as características particulares que  cada ser possui provêm de sua forma, uma vez que a forma dá o ser com tudo o que ele tem, então também podemos dizer que estas características próprias de cada ser são o resplendor da forma deste ser.

Quanto mais um ser for elevado na hierarquia dos seres, mais ele será belo. Sua forma lhe dará mais ser, suas características poderão ser mais manifestas e nós poderemos ter mais conhecimentos dele.

Haverá tantas formas de beleza quantos modos de resplendor possíveis, para um determinado ser.

Assim, o resplendor da forma sobre as diversas partes proporcionadas da matéria constituirá a beleza sensível.

O resplendor da forma sobre as capacidades espirituais produzirá o belo intelectual.

Finalmente, o resplendor da forma sobre as ações produzirá a beleza moral.

A forma substancial do homem é a alma. Consequentemente, o resplendor da alma sobre as partes proporcionadas do corpo produz a beleza física do homem; o esplendor da alma sobre as capacidades espirituais gera no homem a beleza intelectual; finalmente, o esplendor da alma sobre os atos humanos causa a beleza moral.

Uma vez constituído perfeitamente pela forma unida à matéria bem proporcionada, cada ser terá uma perfeição intrínseca e será fundamentalmente belo. Ele se tornará belo, no sentido próprio e pleno do termo, quando essa perfeição, dada pela forma substancial, resplandecer e se revelar com clareza.

Como vemos, este resplendor consiste na nítida compreensão, pela inteligência, do ser conhecido. Ela consiste no conhecimento manifesto da perfeição e da ordem que possui aquele objeto apresentado à inteligência, e esta perfeição pode ser física, intelectual e moral.

E quanto mais um ser for facilmente compreensível pela inteligência, quanto mais facilmente ele permitir essa visão de toda a ordem que foi posta na realidade e a ascensão da alma até a Causa primeira de tudo, então haverá nela o resplendor de seu ser.

Quanto mais perfeito for o ser de algo, quanto mais a disposição exterior e a ordem interior de um objeto facilitar seu conhecimento, tão mais claro ele aparecerá à inteligência e a iluminará mais facilmente.

Fica mais fácil compreender o que Santo Tomás quer dizer quando afirma que “o belo pertence propriamente à noção da causa formal” e que “se refere ao entendimento” (Suma Teológica I, q. 5, a.4, ad 1).

Este conhecimento é agradável e dá prazer ao indivíduo que o tem. Todo homem deseja naturalmente conhecer e fica feliz, chegando até a sorrir, quando compreende algo com clareza.

c) Conclusão

Chegamos assim ao final da nossa análise sobre os cinco elementos característicos da beleza.

Os numerosos artigos que escrevemos nos ajudaram a compreender que a beleza é algo estreitamente relacionado com a ordem, com a proporção, a integridade e, consequentemente, com a inteligência.

Quanto mais uma inteligência estiver formada para ver estes elementos num ser (escultura, pintura, música, poesia, na natureza, etc.), mais claramente ela os conhecerá, com mais agrado, e poderá se satisfazer com eles de modo muito mais frutuoso. É possível, e necessário, educar a inteligência para discernir o belo do feio. A inteligência saberá também passar do inferior ao superior, partir das criaturas para chegar até Deus.

É com esta intenção que passaremos agora a considerar outros tópicos relacionados à arte e à beleza.

Nos próximos artigos, veremos se a beleza é ou não um transcendental e se depende de algum modo do gosto de cada pessoa.

Veremos o que é arte, se a arte deve ser regida pelos princípios da moral ou se o artista pode e deve estar livre de toda e qualquer restrição neste sentido.

Veremos se é possível que a arte transmita ideias.

Buscaremos estudar cada escola artística - ou ao menos as principais dentre elas - não só considerando as particularidades técnicas, mas sobretudo os princípios filosóficos sobre os quais elas estão construídas, com que características eles se manifestam nas obras de arte e de que modo influenciam as pessoas que as admiram.

Com a ajuda de Deus esperamos tratar destas questões, sem pretensões de erudição, ao mesmo tempo em que buscaremos dar fundamentos sólidos para trazer as almas até Ele, que criou os céus e a terra.


    Para citar este texto:
"A beleza no mundo, no homem e em Deus: a Filosofia da Arte, a Sabedoria de Deus na Criação e a vida espiritual (Parte 9)"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/arte/a-beleza-no-mundo-no-homem-e-em-deus-a-filosofia-da-arte-a-sabedoria-de-deus-na-criacao-e-a-vida-espiritual-parte-9/
Online, 23/11/2017 às 18:07:43h