Arte

A beleza no mundo, no homem e em Deus: a Filosofia da Arte, a Sabedoria de Deus na Criação e a vida espiritual (Parte 6)

Este artigo é uma continuação de A beleza no mundo, no homem e em Deus: a Filosofia da Arte, a Sabedoria de Deus na Criação e a vida espiritual,  Parte 1,  Parte 2 , Parte 3 , Parte 4 e Parte 5

Pierre de Craon Lejeune

  A INTEGRIDADE COMO ELEMENTO DO BELO   a) Introdução

Iremos tratar, neste artigo, da integridade. Como vimos antes, ela é um dos elementos que Santo Tomás aponta como necessários à beleza de um ser: “Para a beleza, três coisas são necessárias: primeiramente, integridade ou perfeição (...); devida proporção ou consonância; e clareza” (Suma Teológica I, q. 39, a. 8).

Nos dois artigos anteriores concluímos que a variedade, considerada sozinha, tem um valor acessório, extrínseco em estética. Sem variedade algo pode ser belo, mas não tardará a causar tédio: “(...) pois a uniformidade, que em breve gerou o tédio, faz com que as tragédias não sejam agraváveis” (Aristóteles, Poética, 1459b 20-30).

Mas agora trataremos de um elemento realmente necessário à beleza de algo: a integridade.

Um belo objeto deve, antes de tudo, ser íntegro, estar inteiro, apresentar todas as partes que constituem sua multiplicidade e que são agrupadas na sua unidade. Esta integridade significa que nada do que constitui um ser está faltando:

A perfeição primeira consiste em que algo seja perfeito na sua substância; e esta perfeição é a forma do todo, a qual resulta da integridade das partes” (Suma Teológica I, q. 73, a. 1).

É belo aquilo que corresponde completamente ao que ele deve ser, aquilo ao qual nada falta.

Consequentemente, algo só poderá ser tido como belo quando é perfeito, no sentido de acabado, concluído, terminado, quando se apresenta totalmente realizado. O que é incompleto é feio, e a obra que não chegou ao seu termo ou que possui falhas não poderá ser dita bela:

O que é danificado, pelo fato mesmo de ser danificado, é feio” (Suma Teológica I, q. 39, a. 8).

Nós dizemos que os mutilados são feios, pois lhes falta a devida proporção ao todo” (Santo Tomás de Aquino, Comentário ao I livro das Sentenças, dist. 44, q. 3, a. 1, c.).

Evidentemente, a falta de beleza em algo incompleto, danificado ou inacabado será maior ou menor conforme cada caso.

b) Integridade substancial e acidental

A integridade de um ser pode ser substancial ou acidental. Se, por um motivo qualquer, um ser fica privado de seus atributos secundários, então neste caso sua integridade será somente substancial.

Pode-se dar um caso no qual um ser se veja privado de uma parte sua que não seja tão importante. Apesar desta privação não ser algo dramático para o ser que a sofre, ela não deixaria de ter consequências estéticas importantes:

Assim, raspando-se uma sobrancelha de um homem tirar-se-ia bem pouco de seu corpo, mas tirar-se-ia muito da sua beleza, pois a beleza do corpo não consiste na grandeza de seus membros, mas na proporção deles” (Santo Agostinho, A Cidade de Deus, l. XI, c. XXII).

E a proporção das partes supõe a integridade delas.

A integridade designa o que é pleno, o que é completamente preenchido pelo ser, opondo-se ao vazio, àquilo que é falho.

c) Beleza e integridade do ser

A beleza entre os antigos é uma característica do ser. Isto implica imediatamente que a beleza designa a plenitude do ser. Quanto mais ser algo tem, mais beleza ele tem.

Este princípio platônico regerá toda a Antiguidade, como testemunha a Escolástica medieval que faz do belo (pulchrum) um transcendental, isto é, um dos gêneros universais do ser, juntamente com a verdade (verum) e com o bem (bonum).

Esta fórmula significava, antes de tudo, que o belo não tem nenhuma realidade própria, de qualquer modo que seja, fora da realidade do ser. Ser belo é ser, e ser é ser belo. Tudo o que é, é belo pelo fato mesmo de que ele é, e o feio nada mais é do que a falta de ser, a respeito do qual não há nada a pensar nem a dizer, a não ser que seja para indicar o lugar deixado vazio por uma ausência de realidade” (Étienne Gilson, Peinture et réalité, Paris, Vrin, 1972, p. 226) [negrito nosso].

Em resumo: a beleza é o resplendor e a perfeição do ser.

Consequentemente, qualquer falta de integridade num ser implicará imediatamente numa falta de beleza.

Para ilustrar nossa explicação daremos ao leitor alguns exemplos visíveis pois, como nos ensina Santo Tomás, “nós aprendemos com mais certeza aquilo que nós temos diante dos olhos” (Suma Teológica, III, q. 30, a. 3).

A basílica de São João de Latrão, em Roma, possui em seu interior, ao longo da nave central, estátuas representando os doze apóstolos.

 

Uma delas se caracteriza por uma beleza particular: a estátua do apóstolo São Mateus.

Tudo nela faz resplandecer o que São Mateus é, sua alma, seu ser. Sem dúvida o seu autor soube manifestar nela, com uma habilidade de mestre, o que São Mateus era, um homem cuja conduta estava em consonância com a reta inteligência.

Quando um ser se mostra tal como ele é, tal como Deus o fez, então a sua forma própria resplandece nele. Então temos o resplendor do ser, então temos beleza.

Cícero, o orador romano, insiste sobre a beleza que pode e deve existir nas ações humanas: “Nós dizemos belo aquilo que corresponde à excelência do homem na medida em que se distingue dos outros animais” (Cícero, De Officiis, I, c. 27), ou seja, uma conduta em consonância com a inteligência.

Nela vemos bem realizada este princípio de ouro ensinado pelos clássicos e levado à sua perfeição pela Escolástica: ser belo é ser, ser aquilo que Deus nos fez, fazer brilhar as perfeições que Deus pôs em nós.

Ora, esta estátua não manifestaria tudo isso se não fosse íntegra nas suas partes.

Nesta estátua não há parte alguma que falte. Ela é perfeita, acabada, concluída, terminada, totalmente realizada. Tudo nela colabora para manifestar o cobrador de impostos que desprezou o dinheiro para seguir Nosso Senhor, e que o fez com toda sua alma, o evangelista que não se importa mais com o lucro, mas que tem em sua mão e no seu coração a doutrina do Evangelho que recebeu de Nosso Senhor e que lhe foi concedido escrever.

 

Ela é bem constituída no seu ser, pois é íntegra nas suas partes.

Bem diferente é o caso das estátuas feitas pelo artista Bruno Catalano, chamadas  “estátuas incompletas”:

 

Para alguém tomado pelos princípios modernos estas estátuas são obras de arte.

Mas como justificar uma “obra de arte” como esta, e outras realizadas do mesmo modo por ele, partindo dos princípios fornecidos pela filosofia aristotélico-tomista?

Se a beleza é o resplendor do ser, como poderemos afirmar que uma estátua incompleta, sem integridade, propositalmente inacabada, lesada no seu ser, possa ser bela?

Após compreendermos a necessidade da integridade para a beleza de um ser, não podemos deixar de nos espantar com um artista que faça uma obra propositalmente mutilada.

Objetivamente esta estátua não pode ser julgada bela. Ao contrário, ela é feia, pois “ser belo é ser, e ser é ser belo. Tudo o que é, é belo pelo fato mesmo de que ele é, e o feio nada mais é do que a falta de ser, a respeito do qual não há nada a pensar nem a dizer, a não ser que seja para indicar o lugar deixado vazio por uma ausência de realidade” (Étienne Gilson, Peinture et réalité, Paris, Vrin, 1972, p. 226) [negrito e grifado nossos].

“Vazio” e “ausência de realidade” são termos que exprimem bem o que são estas estátuas.

Sem dúvida alguma, a arte moderna não pode dar as mãos à filosofia tomista, a esta filosofia que ensina que a beleza é uma manifestação da plenitude do ser.

A arte moderna, antes, coloca-se como a concretização de uma filosofia que se lhe opõe. A arte moderna, objetivamente, erige-se contra o ser.

Uma vez vista a importância da integridade na beleza de um ser, no nosso próximo artigo estudaremos o papel que exerce nela a proporção.


    Para citar este texto:
"A beleza no mundo, no homem e em Deus: a Filosofia da Arte, a Sabedoria de Deus na Criação e a vida espiritual (Parte 6)"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/arte/a-beleza-no-mundo-no-homem-e-em-deus-a-filosofia-da-arte-a-sabedoria-de-deus-na-criacao-e-a-vida-espiritual-parte-6/
Online, 25/03/2017 às 18:45:24h