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Roma no Olho do Furacão
Harry Stevens
 

 

Roma no Olho do Furacão

 
Que está passando no Vaticano? Na intenção de obter alguma clareza em meio a muitas histórias, REGINA pediu a Edward Pentin que informasse sobre o que está vendo, desde seu ponto de vista em Roma

Tradução portuguesa por Sensus Fidei

Por Harry Stevens • 8 de dezembro de 2016

É um veterano observador do Vaticano, repórter de Roma para o National Catholic Register dos Estados Unidos. Também é uma raridade entre os jornalistas – um católico praticante.

Ele é um verdadeiro profissional. Em 2014 a integridade jornalística de Edward Pentin foi atacada por um dos favoritos do Papa Francisco, o Cardeal Emérito Walter Kasper. Os comentários desdenhosos do Cardeal liberal sobre os prelados africanos que assistiam ao Sínodo tinham sido capturados no gravador do I-phone de Pentin. Kasper negou publicamente ter feito tais comentários – e logo teve que retratar-se de sua negação quando Pentin publicou tranquilamente o áudio. O furor resultante rapidamente desbaratou as intenções de Kasper e seus correligionários de sequestrar o Sínodo.

Agora parece que, uma vez mais, todos os olhos estão em Roma. Um grupo de altos prelados tornaram públicas as “dubia” que haviam enviado ao Papa Francisco com perguntas sobre Amoris Laetitia. Isto, porque o Papa ignorou as mesmas "dubia", enviada em privado dois meses antes.

Tudo muito apropriado sob o ponto de vista do Direito Canônico. Mas a medida desencadeou uma grande tormenta de controvérsias, inclusive com a participação do próprio Papa, que esta semana fez a comparação surpreendente dos jornalistas que cobrem os escândalos vaticanos com pessoas com um interesse sexual nas fezes. Agora, comenta-se que o Papa não está bem e um jornalista britânico inclusive tem pedido sua saída. Mais recentemente, 23 estudiosos assinaram uma carta pública de apoio aos cardeais, advertindo sobre uma “crise de metástase” na Igreja.

Que está se passando no Vaticano? Na intenção de obter alguma clareza em meio a muitas histórias, REGINA pediu a Edward Pentin que informasse sobre o que está vendo, desde seu ponto de vista em Roma.

 

REGINA: Que reação vê às dubia, em Roma, de seus contatos com o Vaticano?

Edward Pentin: A reação tem sido interessante até agora: quase todo o Colégio de Cardeais e a Cúria Romana têm permanecido em silêncio, nem apoiando aos Cardeais, nem, mais importante, saindo em apoio ao Papa e à sua decisão de não responder. Se se toma o silêncio como consentimento para as dubia, então se poderia argumentar que a grande maioria está a favor dos quatro cardeais. Isso seria apenas uma especulação, evidentemente, mas poderia estar certo, já que durante meses se tem escutado de uma parte significativa da Cúria que sentem grande mal estar sobre o que está sucedendo. As expressões “reino do terror” e “lei marcial vaticana” são frequentemente escutadas.

REGINA: “Reino do terror”. Uau.

Edward Pentin: Não é um número insignificante de funcionários que se opõem ao que o Papa está fazendo, mas estão calados, convencidos de que não há nada que possam fazer e em lugar de reagir preferem “guardar suas munições” para o próximo conclave. Deve-se dizer que isso foi antes de que se publicasse as dubia, atualmente as coisas poderão ter mudado, mas creio que, se o Papa continua não respondendo e persiste a demanda por uma resposta, um número crescente de membros do Colégio se moverá em favor dos quatro Cardeais e, provavelmente, de maneira pública. Então é provável que vejamos um desenlace relativamente rápido deste pontificado rumo a uma conclusão desconhecida.

Há que dizer que existe outra parte da Cúria e do Colégio que está plenamente de acordo com a agenda do Papa e que até agora tem estado em ascensão. Há, portanto, duas Cúrias paralelas: uma completamente alinhada ao Papa ou ambivalente em relação a ele, e a outra que consideram seu pontificado profundamente lamentável e que esperam que termine logo. Não é uma situação que pressagie algo de bom, de qualquer ângulo em que seja vista.

REGINA: E suas declarações públicas?

Edward Pentin: Sim, outro fator interessante a considerar é que quase todos os críticos dos Cardeais ainda não abordaram o conteúdo das dubia ou, se o fizeram, tiveram dificuldade em explicar sua posição sem enredar-se ou sem fazer afirmações que, no dizer de muitos,  são simplesmente errôneas. Ninguém emitiu nenhum tipo de declaração que trate dos problemas em questão. Pelo contrário, geralmente têm recorrido a insultos, ofensas ou afirmações de que a totalidade do Colégio de Cardeais está alinhada com o Papa, o que é claramente falso. Mons. Athanasius Schneider comparou seu procedimento com sua experiência de viver sob os soviéticos.

REGINA: E a reação do Papa?

Edward Pentin: A reação do Papa, ao ir tão longe quanto questionar o estado mental dos Cardeais, foi lida como uma manifestação de raiva de que sua agenda tenha saído de seu rumo. E em lugar de considerar os quatro Cardeais de acordo com o que eles mesmos têm dito (que estão atuando principalmente por caridade para com o Santo Padre, por justiça e por profunda preocupação pastoral), são vistos como adversários. Creio que também esteja trabalhando por trás dos bastidores para assegurar que sua agenda não se veja frustrada. Desde os artigos colocados estrategicamente no L’Osservatore Romano até os equívocos daqueles que publicamente criticaram as dubia, quando lhes perguntaram se o Papa lhes havia pedido que o fizessem; Francisco tem estado atuando, como disse um observador, como um “lobbista”. Nas três semanas posteriores à publicação das dubia, o Papa deu três entrevistas aos meios de comunicação mundiais, cada uma delas com o objetivo de legitimar sua posição e denegrir a seus críticos.

Por último, é importante assinalar que simplesmente comparando fatos com palavras procedentes do Papa e de seus aliados, fica claro que existem mentiras e enganos significativos, assim como calúnias e manchas na reputação daqueles etiquetados como “de direita”, só porque são publicamente críticos de Amoris Laetitia, ou simplesmente informem sobre tais críticas. Realmente me dói dizer tudo isto, porque como jornalista católico não quero diminuir de nenhuma maneira o Múnus Petrino, mas sinto que tenho a obrigação de informar os fatos tais como estão sucedendo.

REGINA: E o recente expurgo da Congregação para o Culto Divino e a nomeação de um grande grupo de outros prelados? Que significará isto para a liturgia?

Edward Pentin: A substituição de quase todos os membros da Congregação tem sido vista em grande medida como outro exemplo do desejo do Papa Francisco de moldar a Cúria para que se adapte à sua própria visão – o que todo Papa fará – mas, em seu caso, alguns dizem que nota-se uma revolução em pleno apogeu. Considero que, desde que Francisco foi eleito, um grande número de eclesiásticos ortodoxos tidos por “sãos” têm abandonado voluntariamente suas funções na Cúria ou têm sido removidos à força. Isto foi particularmente nítido na Congregação para o Culto Divino, que tinha muitos membros nomeados por Bento. Quanto ao que significam para a liturgia as mudanças da Congregação, dado que a maioria dos novos membros, ainda que não todos, estejam a favor de enfoques inovadores para o Novus Ordo, é provável que essa ênfase litúrgica seja expressa pelo Vaticano nos meses e anos vindouros. Mas estas mudanças são só uma pequena parte de uma aceleração nas mudanças que estão sendo promulgadas por Francisco que expressou em privado seu desejo de que seu legado de mudança radical continue quando ele já não seja Papa.

REGINA: Comentários do Papa sobre jovens católicos “rígidos”. Aonde vai tudo isso?

Edward Pentin: A opinião comum em Roma é de que seus comentários “rígidos” estão simplesmente dirigidos a desgastar aos chamados “conservadores” ou católicos tradicionais para que a ortodoxia desapareça gradualmente, e ele possa impulsionar suas reformas. Isso não é necessariamente o caso, evidentemente, mas é assim que é visto em alguns setores. Particularmente preocupante para alguns foram os comentários do Papa a este respeito em referência aos seminários, já que veem isso como uma trama para debilitar os sacerdotes ortodoxos pela raiz, especialmente na área da consciência e da moral sexual. Esse é só um dos muitos atos realizados durante este pontificado que tem desgostado um grande número de praticantes católicos. Mas parece que os seminaristas, especialmente no Reino Unido e os Estados Unidos, tendem a entender o que está sucedendo no Vaticano de hoje e estão tratando de manter os ensinamentos e a tradição da Igreja. E na tentativa chegar a ver um sentido em tudo isso, acabam entendendo em um sentido positivo: trazer à luz e desvendar o que já se considera há muito tempo como um cisma velado, que existe ao menos desde o final do Concílio Vaticano II. 

Artigo original, publicado por Regina Mag.

Publicado em espanhol por Adelante la Fe

Traduzido em português por Sensus Fidei


    Para citar este texto:
"Roma no Olho do Furacão"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/imprensa/ultimas/roma_no_olho_do_furacao/
Online, 27/05/2017 às 03:04:48h