Mundo

O nosso próprio Holocausto


A próxima terça-feira marca o sexagésimo aniversário da entrada do exército russo em Auschwitz. O descobrimento das ruínas daquele campo de execuções revelou ao mundo o grau do programa nazista de extermínio. Mais de um milhão de pessoas foram assassinadas em Auschwitz, a maior parte delas judeus. Este triste aniversário será inevitavelmente uma ocasião de auto-elogio por parte dos políticos: parte do objetivo da lembrança de quão terríveis eram os nazistas consiste em afirmar quão bons nós somos comparados a eles.

E, no entanto, a depravação moral dos nazistas não está tão distante de nós como aquelas fotos assustadoras de câmaras de gás e montes de corpos sugerem. O holocausto de Hitler começou na década de 1930 com uma política que não era apenas popular em outros países, mas era mesmo praticada por alguns deles: a esterilização forçada daqueles considerados "impróprios para reproduzir", porque poderiam transmitir uma predisposição genética à deficiência física e mental. Intelectuais socialistas na Grã-Bretanha, como George Bernard Shaw, eram proponentes entusiásticos dessa política. A Suprema Corte dos Estados Unidos julgou a esterilização forçada compatível com a Constituição em 1927, quando o [Ministro] Oliver Wendell Holmes afirmou confiantemente que seria "melhor para o mundo se a sociedade pudesse prevenir a perpetuação das pessoas manifestamente incapazes".  Durante a década seguinte, os Estados Unidos esterilizaram 20.000 mulheres à força - número minúsculo comparado ao dos suecos, que apenas suspenderam a esterilização forçada de mulheres com "genes defeituosos" na década de 1970.

Naturalmente, a esterilização forçada não constitui homicídio. Mas a transição dos nazistas da esterilização forçosa dos deficientes mentais à sua execução em massa sugere como pode ser rápido o declínio de uma ação para a outra. Como a série da BBC sobre Auschwitz demonstra, os nazistas decidiram que não valia a pena alimentar e cuidar dos "idiotas" e que as "gerações futuras não poderiam ser incomodadas com o seu cuidado". Eles alegavam que a alternativa mais "humana" era exterminar o povo que eles denominavam "comedores inúteis". O gás como método discreto de execução foi primeiro usado, experimentalmente, com os deficientes mentais antes da transferência da inovação para o extermínio de judeus.  Até o verão de 1941, 70.000 pessoas deficientes haviam sido executadas após serem convidadas a tomar banho - em chuveiros que não liberavam água, mas monóxido de carbono.  Uma comissão de três médicos examinava o prontuário do "paciente". Eles marcavam o prontuário com uma cruz vermelha se considerassem o indivíduo um candidato adequado para a "evacuação". O voto majoritário decidia o destino da pessoa. A vantagem do gás era o fato de esconder a execução: a execução em massa de pessoas com tiros transformava até os homens da SS em alcoólatras deprimidos.

Há paralelos perturbadores com as nossas atuais leis dobre o aborto. O aborto de uma criança além de 24 semanas de gestação é considerado um infanticídio na lei britânica - mas apenas se a criança for considerada "normal". Se médicos diagnosticarem uma deficiência física ou mental, inclusive, segundo consta, lábio leporino, a execução da criança é lícita até o momento do seu nascimento. Isto é um programa para a eliminação dos deficientes. A sua justificativa é "não incomodar" a geração presente ou as futuras com o cuidado dessas pessoas. Ele difere, na prática, da execução em massa na Alemanha nazista - mas não é fácil apresentar argumentos para a sua diferença no nível dos princípios morais. O Estado está matando crianças nascituras porque nós não queremos viver com elas ou suportar os custos de seu cuidado. É uma justificativa que os nazistas teriam apreciado.

Aproximadamente 200.000 crianças são abortadas todos os anos na Inglaterra e no País de Gales, muitas delas porque consideradas deficientes por médicos. O ritmo de execuções é de quase 550 por dia: menor que o número de pessoas executadas diariamente em Auschwitz, mas ainda assim um número horrivelmente elevado - e maior que a quantidade de deficientes indefesos assassinados pelos nazistas.

Conseguimos encobrir com êxito a enormidade do que estamos fazendo, assim como os nazistas encobriam. A próxima terça-feira não deve ser uma ocasião para que nos congratulemos sobre quão longe estamos do abismo moral do Nacional-Socialismo. Pelo contrário, ela nos deve fazer refletir sobre quão próximo dele as nossas leis de aborto nos levaram.


    Para citar este texto:
"O nosso próprio Holocausto"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/imprensa/mundo/mundo20050123_1/
Online, 23/06/2017 às 19:14:20h